U2, resistência musical

U2, resistência musical

Coletânea revela que banda irlandesa manteve essência

Silvio Essinger

Repórter do JB

Heróico, messiânico, imaculado e afiado feito navalha – assim era o U2 em seus primeiros 10 anos de atividades, resumidos quatro anos atrás na coletânea Best of 1980-1990. Já então, naquele mesmo ano de 1998 (que os veria pisar em solo brasileiro para uma série de aguardados shows), os irlandeses eram uma outra banda, que por sinal havia passado por sucessivas e muito interessantes metamorfoses ao longo da década. O histórico dessas transformações é o que faz o recém-lançado The best of 1990-2000 valer a pena, até mais do que a série de lados B de singles atulhados no disco 2 do álbum. Vista em perspectiva, a (para alguns) maior banda de rock dos últimos 20 anos surpreende ainda mais: como pôde ter mudado tanto sem alterar sua essência ou se perder na busca pelas ondas do pop?

Nascido das cinzas ainda fumegantes do punk rock, o U2 estabeleceu uma quebra do paradigma das superbandas da geração anterior: sem músicos exatamente virtuosos ou um aparato bombástico, eles conquistaram suas multidões. Isso graças a um magnético e bem articulado vocalista (Bono Vox) e um guitarrista (The Edge) que fez de seu instrumento uma espécie de metralhadora melódica. A base (o baixista Adam Clayton e o baterista Larry Mullen) tão somente garantia segurança. Assim, ao longo dos anos 80, o U2 se sagrou como uma espécie de reserva moral do rock, onde os seus princípios básicos – inconformismo, eletricidade, simplicidade – estariam imunes a todo o comercialismo danoso da música pop.

Nos 90, nenhum dos músicos era mais tão garoto ou inocente. E nem o rock era mais o mesmo. Daí que, com as suas excelentes canções e o mesmo carisma de sempre, a banda resolveu experimentar como nunca antes. Saída com uma aura de quase santidade com o disco ao vivo/filme Rattle and rum (1988), o U2 começou a década de 90 com o inacreditável Achtung baby (1991), em que a eletrônica dançante se infiltrou num rock ainda puro e as certezas deram lugar às dúvidas nas letras. O choque de faixas de apelo imediato, como Mysterious ways e Even better than the real thing (faltava The fly na coletânea), era amenizada por One, onde reaparecia o velho U2 dos hinos para evangelizar roqueiros.

As ainda mais experimentais Numb e Lemon representam o ótimo álbum Zooropa (1993), enquanto a debochada Discoteque traz de volta o polêmico Pop, de 1987 (que, não obstante, trouxe também uma das melhores baladas da banda, Staring at the sun). A oitentista Beautiful day e a soul Stuck in a moment you can’t get of anunciam mais uma revolução, a do enxugamento da tecnologia, do álbum All that you can’t leave behind (2000). Ciclo fechado, o U2 apresenta uma inédita na coletânea, Eletrical storm. É apenas a garantia de que a essência está inalterada.

The best of 1990-2000 & B-sides. U2. Universal Music. R$ 48, em média.

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