Ver Versão Completa : Projeto U2 By U2 (em português)
Bonolocks
22/04/2007, 15h43
Bem pessoal, essa semana finalmente eu recebi meu U2 By U2. Não preciso nem dizer que passei horas babando em cima dele. É realmente um item que todo fã do U2 deve ter, mesmo que demore um pouco para obtê-lo. Foi muito prazeroso observar o registro fotográfico de toda uma história que de certa forma atinge cada um de nós, que somos fãs. Cada um tem sua música preferida, sua fase preferida, seu integrante favorito, mas não podemos deixar de lado cada aspecto dessa história maravilhosa que fez o U2 chegar onde está hoje.
Ao mesmo tempo me veio a frustração acompanhada desse prazer de ter esse livro em mãos. Sou um amante da leitura, mas meu inglês é muito básico. E observar diante de mim um livro como o U2 By U2, tendo nele milhares de linhas a ser degustadas e não poder fazer isso é desanimador. Recorri ao tópico "U2 By U2 - alguns excertos" e me dei conta de que o que está ali não é nem a ponta do iceberg que contém o livro. É grandemente elogiável o trabalho que as meninas estão fazendo de traduzir essa magnífica obra da literatura, tão importante para a história do rock, do próprio U2 e para nós, fãs. Mas o trabalho de tradução não é nada fácil, já que todos têm suas ocupações, suas prioridades.
Então pensei no que poderia ser feito, já que não temos indícios de que teremos uma edição desse livro aqui no Brasil. Existe a versão em português de Portugal. Mas, como muitos tem atestado, importar o livro de Portugal tem sido um processo duro cheio de burocracias e bem custoso, o frete saindo mais caro que o próprio livro.
E agora? Bem, nem tudo está perdido. Trocando altas idéias com a Joanne, nós decidimos nos empenhar num mega projeto. Colocar a disposição nesse tópico todo o conteúdo do livro U2 By U2. Como isso será feito?
A Joanne tem a versão em Português. A idéia inicial seria escanear partes do livro ou fotografá-lo. Eu ficaria com o trabalho de adaptar as expressões para o português do Brasil e digitar então o texto. Fizemos vários testes e acabou não dando certo, infelizmente. Mas a Joanne, como boa fã do U2 que é e empolgada com a idéia de ajudar todos os fãs que não falam inglês, tomou a iniciativa de digitar o texto do U2 By U2 e disponibilizar para nós.
Isso significa que poderemos fazer um trabalho mais rápido do que se fôssemos traduzir tudo. O meu serviço será apenas o de adaptar as expressões para o português/Brasil. Sendo assim os méritos deixo todos para ela, que terá esse enorme trabalho.
É claro que alguns poderão argumentar que não é a mesma coisa que traduzir diretamente do original e que se poderia perder a força de algumas expressões. Estamos conscientes disso. Mas achamos que será melhor do que nada. Entra aí o papel daqueles que falam inglês e quiserem nos ajudar em ajustar o que for necessário. Toda ajuda é bem vinda. Faremos a devida edição dos trechos, se isso for necessário.
Também quem quiser contribuir com traduções de trechos do livro sinta-se a vontade. Mas a idéia é não colocar partes do livro a esmo no tópico. Isso será feito para que possamos ter um tópico bem organizado. Vamos disponibilizar os textos em ordem de páginas, exatamente como está no U2 By U2. Então se alguém também estiver disposto a contribuir, o que seria ótimo, é só me mandar uma MP perguntando que página poderia traduzir, já que eu estarei a par do que será postado nos tópicos. E só quando chegar no número da página correspondente é que o texto traduzido será postado. Contamos com a colaboração de todos. (Naturalmente, comentários sobre os textos postados poderão ser feitos sem nenhum problema).
Já temos algumas páginas prontas e é claro vou aproveitar alguns textos já traduzidos pela Line que foi disponibilizado no "U2 By U2 - Alguns Excertos".
Vamos ficar ansiosos para poder ler toda essa história tão cativante. Mas teremos o bom senso de aguardar calmamente as informações que dependerão exclusivamente das circunstâncias da Joanne. Ela já assegurou que fará o máximo cada dia para digitar pelo menos um pouco de cada vez e a idéia nossa é postar os textos por página, com exceção do início que já temos pronto.
Então o próximo post já será o início de tudo.
Esperamos que apreciem!
Bonolocks
22/04/2007, 15h44
Página 5:
Índice
Prólogo 6
1960-75// Stories For Boys 10
1976-78// Another Time Another Place 28
1978-80// Staring At The Sun 50
1980-81// Into The Heart 90
1982-83// Sing a New Song 124
1984-85// In The Name Of Love 146
1986-87// Luminous Times 166
1987-89// Outside It’s América 188
1990-93// Sliding Down The Surface Of Things 214
1994-98// Some Days Are Better Than Others 258
1998-01// The Last Of The Rock Stars 284
2002-06// Until The End Of The World 312
Bonolocks
22/04/2007, 15h45
Página 6:
Bono
Há quem diga que entrei para o U2 para salvar o Mundo. Eu entrei para o U2 para salvar a mim. Por vezes, encontro gente na rua que me aborda como se eu fosse o Mahatma Gandhi.
E quando alguém diz: ‘Salve, homem de paz!’, consigo ouvir o Larry rindo baixinho: ‘Está com muita sorte por não ter levado uma cabeçada’. Os elementos da banda ficam surpreendidos com a minha atração pela não-violência, pois sabem que o cantor é quem mais pode tirar partido das músicas. Compreendem a razão pela qual me sinto tão atraído por estas personagens, pelas personagens das músicas – pois no meu dia-a-dia e na minha maneira de ser sou muito diferente delas. Existe uma fúria dentro de mim e não tem tudo a ver com injustiça. Desenvolvi bons modos de disfarçá-la.
Agora me controlo melhor, mas costumava ser difícil falar comigo depois de um espetáculo, pois durante uma hora eu ia estar muito agitado e, se a atuação não tivesse corrido bem, sentia-me traiçoeiro e melindroso.
Os bastidores de um concerto do U2 são mais como um camarim após um combate de boxe ou um jogo de futebol do que um concerto de rock. Temos de nos lembrar que, para o U2, todas as noites têm de ser as melhores. E se não o são, tem de haver uma razão. Temos padrões bastante elevados e nunca esquecemos quem é que paga os nossos salários. A nossa audiência merece a melhor seleção de músicas possível, não basta ‘despejar’ umas quantas para mantê-los entretidos. Eu consigo perceber quando o público está perdendo o interesse e sou menino para mandar um explosivo para o meio deles, sendo que o explosivo provavelmente seja eu. Acendam o rastilho e vejam o que acontece. Para cantar aquelas músicas e atingir as notas elevadas é necessária uma grande dose de concentração e empenho. Temos de entrar nas músicas e vivê-las. Seja no centro de Derry tocando ‘Sunday Bloody Sunday’ ou em Memphis num comício sobre os direitos civis com o Dr. King, cantando ‘Pride in the Name of Love’. Eu estou lá. Um colega está destruindo a vida dele com uma dose de droga. É “bad”. Temos de viver essas emoções. Creio que os membros da banda conseguiram perceber que eu chego a esses lugares. Em alguns momentos, deve ter sido bastante complicado para eles, pois o cantor ausentava-se mesmo.
É difícil alterar a nossa maneira de ser; leva o seu tempo. Uma das mudanças mais extraordinárias que ocorre na nossa vida espiritual não é o fato das nossas falhas de caráter desaparecer, mas sim o começarmos a tirar partido delas. O negativo torna-se positivo: tem-se uma boca grande, acaba-se cantor. É-se inseguro, acaba-se como um artista que precisa de aplausos. Já ouvi falar de pessoas que são alvo de mudanças milagrosas, pessoas que se libertaram de um vício com uma única oração, relações salvas onde ambas as partes dão um passo atrás e deixam o amor de Deus entrar. Mas comigo não foi assim. “I was lost, I am found” (Estava perdido, agora me encontrei), talvez seja mais exato dizer “Eu estava mesmo perdido, agora estou um pouco menos”. E depois mais um pouco, e mais um pouco novamente. Isso para mim é a vida espiritual. O lento reiniciar de um computador em intervalos regulares, acompanhando as pequenas letras do manual. Isso me reconstruiu lentamente numa imagem melhor. Embora tenha levado alguns anos e ainda não tenha terminado o seu processo.
Bonolocks
22/04/2007, 15h46
Página 7:
Edge
O Rock’n’Roll é característico deste período. Não havia precedentes na história musical, pois está totalmente relacionado com a eletricidade.
Quando se toca uma guitarra elétrica com um amplificador Marshall num estúdio com o volume tão alto que se atinge o ponto em que se deixou de ser capaz de reproduzir o som de uma forma límpida, cria-se o efeito de compressão. É como se o som fosse demasiado explosivo para ser controlado pelas colunas. Dá a sensação de que o espaço à nossa volta vai ceder, o que, de fato, acontece ao tímpano quando é sujeito a um som incrivelmente elevado – tem tendência a se fechar. É dessa agitação sônica que as pessoas gostam no Rock’n’Roll. Com uma guitarra acústica não se consegue isso.
Há uma estranha magia no som de uma guitarra elétrica. Stratocasters, Les Pauls, Explorers: são apenas pedaços de madeira com um cabo e cordas, mas ainda assim há uma extraordinária variação e todas soam de formas diferentes aos efeitos e amplificadores. Eu não tenho uma relação com uma guitarra em particular, eu não sou tão sentimental. Eu só vejo as diferentes possibilidades que todas elas apresentam. Sou absolutamente fascinado pelo som e como ele pode ser esculpido usando a tecnologia atual.
Parece impossível contemplar uma existência fora da música, mas honestamente eu não sei se me tornaria um músico profissional se o U2 não tivesse me feito acreditar que isso seria possível. Nós estivemos juntos durante toda nossa vida adulta, o que demonstra um incrível nível de comprometimento e solidariedade entre 4 pessoas que decidiram formar uma banda em 1975. Todas as razões que justificavam a idéia, naquela época, ainda permanecem verdadeiras. Nós ainda podemos fazer ótima música juntos, fazer surgir idéias originais e fazer shows emocionantes, empolgantes, espirituais, lidando com a possibilidade que tudo pode acontecer.
Num certo nível, o U2 é uma banda muito disfuncional. Nós nos tornamos a banda que somos porque nós não éramos músicos capacitados. Não éramos capazes de tocar músicas de outros artistas, então tínhamos que criar as nossas. Essa deficiência musical ainda nos ronda. Às vezes quando nós estamos nos preparando para viajar para tocar eu ouço nossos discos antigos e coço a cabeça, imaginando "o que eu toquei aqui? Está meio estranho, como eu fiz aquilo?" De qualquer maneira, fomos guiados a transformar o nosso ponto fraco em um ponto forte. Nós podemos não ser a banda mais talentosa da história do rock & roll, mas acho que estamos entre as mais originais.
A química das personalidades é um grande fator. Bono tem um impulso irreprimível de ser grande, de cobiçar a vida. Ele quer experimentar de tudo, o que faz dele muito vulnerável. Às vezes eu me preocupo que a mídia tenha criado um mito sobre quem ele é e no que ele se apóia. Espero que esse "hype" não impeça as pessoas de perceberem que ele é apenas um homem que está tentando se encontrar. É parte da luta de todos descobrir o que eles estão fazendo e para onde eles querem ir. O U2 escreve músicas sobre a luta, mas nós mesmos somos tão confusos quanto qualquer outra pessoa.
Eu sou guiado por caminhos diferentes dos de Bono. Eu tenho uma curiosidade que me convence a querer encontrar caminhos de fazer música nova e eu tenho o foco para manter seguindo até realizar nossas metas. Eu e Bono juntos anulamos a determinação, concentração e energia um do outro.
Adam e Larry são os contrapontos de Bono e eu. Adam tem uma alma incrível, a consciência improvável da banda. No começo, quando nós 3 estávamos no fervor de nosso Cristianismo, Adam era, de fato, o mais cristão em sua tolerância e humanidade. De algum modo, por ele não precisar se preocupar muito com a música ou as letras, ele tem uma liberdade para contribuir com elementos que você nunca pensaria, liberdade para inserir alguma coisa que estava fora de discussão. Ele é, naturalmente, nosso "avant-garde". Larry é uma pessoa prática, séria e profundamente cautelosa que sempre puxa a rédea quando nós nos empolgamos demais. Ele está sempre lá para manter o barco firme quando ele está indo em direção às pedras, enquanto eu tenho meu telescópio apontado para outra direção ou quando Bono está fora da torre e Adam está perdendo tempo na cabine do comandante.
Nós crescemos juntos. Nós aprendemos a tocar músicas juntos. Em muitos aspectos a maneira como nós pensamos é quase telepática. Quando Bono está cantando, eu sinto aonde ele quer chegar através dos acordes. Mesmo quando estou compondo sozinho, ouço a voz dele conforme as idéias vão surgindo. Mas a coisa mais interessante é quando aquelas músicas passam para o próximo estágio e Adam e Larry aparecem e tocam conosco - toda uma nova evolução surge. Eu acho que, no final, é isso que fortalece a banda, quando você é capaz de tirar proveito de 4 diferentes perspectivas. É algo tão magnífico que nenhum de nós poderia alcançar sozinhos.
Bonolocks
22/04/2007, 15h47
Página 8:
Adam
Sempre quis ser uma estrela de Rock. Quando tive o primeiro Baixo, aos quinze anos, senti que tinha tudo. Nada mais se passava na minha vida.
Se o U2 não tivesse dado resultado, só Deus sabe onde eu teria ido parar. Não que alguma vez me tivesse preocupado com isso, pois tinha uma enorme quantidade de ambição e energia e empenhava-me para me tornar no tipo de pessoa que achava que devia ser. Abri os braços a tudo o que a vida tinha para me oferecer e, quando surgiu a oportunidade, vivi-a plenamente. E depois segui em frente, desfiz-me dos carros, libertei-me de determinados aspectos que caracterizavam o meu modo de vida. Juntei-me com a Susie. Descobri que sou uma pessoa muito mais simples e discreta do que alguma vez podia imaginar. Cheguei à conclusão que não era o aparato do rock and roll que me sustentava nesta jornada. Era a música e a camaradagem.
Não diria que é divertido gravar com o U2; é trabalho. As sessões não são propriamente preenchidas com gargalhadas e jovialidade. Geralmente, temos o Bono dizendo que fomos um fracasso – e ele inclui-se nesse grupo. A atmosfera no estúdio é tensa. Temos de avaliar as coisas de forma bastante rápida e, a menos que seja algo brilhante, nunca está suficientemente bom. Por vezes pode ser um mau ambiente para se trabalhar. Temos de estar preparados para defender as nossas idéias ou para recuar quando estas estão a ser criticadas de forma fundamentada. O processo de criação é exaustivo. É como se tivéssemos de experimentar todas as possibilidades e explorar todos os percursos até estabelecermos uma versão final. As músicas vão de A à Z e, muitas vezes, no sentido inverso novamente. “TENTAMOS CRIAR ALGO ALUSIVO, ALGO QUE REPRESENTE O PONTO ONDE NOS ENCONTRAMOS EMOCIONAL, FÍSICA E ESPIRITUALMENTE. E ISSO FOI, AO MESMO TEMPO, ALGO AGRADÁVEL E EMOCIONANTE. “Se não é o melhor possível de se atingir, para que nos preocupar?”
O Bono é, sem dúvida, a força motriz. Não importa a forma como tentamos descrevê-lo, as palavras são sempre insuficientes, pois ele é muito mais do que se possa dizer. Afirmar que é apenas um aglomerado de contradições não seria fazer-lhe justiça. Ele é bastante inteligente e competente como estrategista, com uma lógica inflexível, mas não sabe como cozinhar um ovo. Não faz mal, acho que nem sequer está interessado em aprender. Ele tem como poderia ser descrito como a clássica programação Macho Alfa. Não tem qualquer dificuldade em decidir o que quer e esforça-se por consegui-lo. Não vê limitações, apenas possibilidades. De certa forma, ele é o espírito do U2, representa coisas que fazem parte de todos nós.
O Edge também é muito ambicioso e empenhado, mas pode não dar para perceber isso a menos que o conheçam bem, pois é uma faceta ligeiramente turvada para a sua humanidade e bondade. Põe sempre as outras pessoas à frente. É bem capaz de estar concentrado com o seu trabalho, a meio da noite, mas se lhe pedirmos ajuda em alguma coisa, ele dedica-nos toda a sua atenção para resolver qualquer que seja o nosso problema. É um amigo e colega fantástico, com uma mente bastante perspicaz. O Bono é mais virado para os resultados enquanto o Edge dá mais importância aos pormenores. Isso origina uma excelente combinação de forças criativas.
O Larry é uma pessoa muito sensível e um amigo fiel. Para ele é tudo preto no branco. Ele pensa no mundo da mesma forma que pensa na bateria: as coisas ou estão no tempo ou estão fora dele, não podem estar ligeiramente no tempo ou ligeiramente fora. A propósito, geralmente, sou eu que estou fora do tempo. O Larry é um amigo muito fiel e um baterista bastante dotado. É difícil perceber como é que ele consegue, pois limita-se a aparecer e a tocar. Pode até estar chegando do ginásio, senta-se e lá começa ele. Faz com que pareça terrivelmente simples.
Não sei dizer qual é a minha contribuição para o U2. Não é necessariamente a minha forma de tocar Baixo. Às vezes, o Edge toca baixo, outras vezes é o Bono. Não é um território exclusivamente meu. Vence sempre a melhor idéia, seja ela de quem for. Mas há algo de especial quando tocamos juntos. É algo inexplicável, mas sempre foi o que mais me entusiasmou. É a base sobre a qual construímos o U2, a faísca de emoção e energia entre nós, e é preciso estar lá para isso acontecer.
Bonolocks
22/04/2007, 15h48
Página 9:
Larry
Não sou de todo uma pessoa extrovertida. Nunca me senti muito à vontade com esta história da fama. Não gosto de chamar a atenção.
Eu sei que pode parecer ridículo – devem estar pensando “Então, está na área errada, não, colega?” E provavelmente até é verdade. Mas a minha paixão é tocar bateria no U2. Dar concertos e fomentar o meu espírito criativo num estúdio são as minhas drogas que escolhi. Quando comecei com isto, a idéia de me tornar uma estrela de rock era ridícula. Não sei até que ponto ser uma grande estrela de rock e tocar bateria se encaixa, e as pessoas que tentam combinar as duas coisas geralmente acabam mortas ou em centros de reabilitação. Eu prefiro ficar batendo em coisas.
Já li muita porcaria sobre o U2. Sempre que nos vejo descritos de uma forma mítica como mestres do nosso destino, me dá vontade de rir. Estar no U2 é mais como andar num comboio descontrolado, ao qual nos seguramos com força para não cair.
A minha função no U2 é manter as coisas estáveis. Ao longo dos anos, a banda enfrentou com dificuldade imperfeições musicais, por isso, só o fato de tocarmos juntos pode ser um desafio. Os concertos podem ser uma espécie de obstáculo e, por vezes, nós tropeçamos. Portanto, como baterista, tento ser o elo firme. Se há alguma dúvida sobre o tempo de alguém na música, eles olham para mim e sabem que eu resolvo a situação. Falar é fácil...
Eu e o Adam contamos muito um com o outro. O Edge podia estar pressionando botões, experimentando sons diferentes e o Bono trepando em andaimes e saltando para o meio do público – às vezes nem sequer sabíamos onde ele estava. Durante a grande parte do tempo, era só eu e o Adam em palco, por isso tínhamos de interagir e comunicar um com o outro.
Pode se dizer que o U2 é uma democracia... mas apenas no sentido grego clássico, quando a democracia estava nas mãos de quem detinha o poder. O processo de tomada de decisão é o mesmo de quando começamos. Quem melhor conseguir fundamentar os seus argumentos e articular as suas idéias ganha o dia. Quando se pertence a uma banda com um membro tão ruidoso, falador, argumentativo e persuasivo como o Bono, as coisas podem tornar-se bastante complicadas para os outros membros.
Todos temos diferentes necessidades e somos pessoas bastante distintas, com personalidades diversas. Somos um só, mas não somos, definitivamente, os mesmos. Se há algo de especial no U2, não tem nada a ver com cada um de nós individualmente. É algo que acontece quando nos juntamos como um todo, num palco ou num estúdio. É uma experiência estranha e difícil de descrever. Mas é a única razão pela qual ainda fazemos isto. Quando tocamos juntos, algo de extraordinário acontece.
Bonolocks
22/04/2007, 16h02
Paginas 10 a 13:
1960 -1975
STORIES FOR BOYS
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Adam Clayton
Eu nasci em uma casa cheia de mulheres e repleta de música: duas forças que praticamente ditaram a forma subseqüente da minha vida. Foi na casa dos meus avós, em uma vila de Oxfordshire chamada Chinnor em 13 de março de 1960.
Meu pai trabalhava com aviação e sempre parecia que ele não estava muito presente. Até mesmo agora que ele se aposentou ele passa muito tempo pescando, o que é uma atividade muito solitária, longe da família.
Meu avô era um instrutor de educação física na Força Aérea Real Britânica, então ele não estava muito por perto também. Mas minha avó, a mãe dela, minha mãe e suas duas irmãs moravam todas nessa casa. Eu fui a primeira criança, um menino super mimado por esse grupo de mulheres.
Minha avó tocava piano em uma banda. Ela estava sempre fazendo shows nos fins de semana então sobrava eu com minha mãe e as duas irmãs. Eu me lembro de escutar o radio da Força Aérea e também saber que minhas tias tinham música que elas ouviam em tocadores de fita. Mais tarde apareceu uma vitrola e um monte de singles.
Minha tia mais nova gostava de Elvis e depois dos Beatles, quando todo aquele movimento começou. Eu me lembro de assistir Top of the pops em preto e branco e ficar muito intrigado pelas roupas e pelos instrumentos. Eu acho que até naquela época eu sabia dos tipos diferentes de guitarras, apesar de estranhamente o Ringo ser meu Beatle preferido.
Meu pai era piloto da Força Aérea Real Britânica e quando ele foi liberado começou a trabalhar como instrutor de vôo em Biggin Hill, e depois gradualmente ele passou para aviação civil. Minha mãe fazia um bico trabalhando de comissária de bordo e meu pai pilotava pequenos aviões do que eventualmente se tornaria a British Airways.
Quando eu tinha 4 anos de idade, meu pai encontrou um emprego no Quênia para pilotar para a East African Airways. Nós morávamos em Nairobi: esse definitivamente foi o período mais feliz que eu consigo me lembrar da minha infância; o calor e a liberdade.
Meus pais estavam vivendo relativamente com mais conforto comparando-se com antes, com um trabalho regular, uma casa de tamanho decente, alguém para limpar e ajudar, esse tipo de coisa. Eu me lembro principalmente do brilho do Sol e dos cheiros. Eu mantive muitas coisas africanas comigo e, quando eu vou para lá sempre me parece muito familiar.
O Quênia se tornou um país independente em 1963, expulsando o domínio Inglês, e a situação era inconstante. Em 1965 estava ficando bem perigoso ser uma pessoa branca por lá. Meu pai teve propostas de emprego na Irlanda e em Hong Kong, mas a Irlanda parecia mais próxima a família então fomos para lá e ficamos em Malahide, uma cidade do subúrbio na costa, umas 8 milhas (aproximadamente 12 Km) de Dublin. Eu fui para a escola nacional local e foi basicamente quando tudo parou de fazer sentido para mim. Eu cheguei em uma Irlanda que era sutilmente repressiva. O céu era cinzento e triste e na escola tinha muita coisa ensinada em irlandês, uma língua que eu não entendia. Eu achei difícil me encaixar naquele sistema.
Foi lá que eu conheci o David Evans, The Edge, pela primeira vez, apesar de eu não ter nenhuma lembrança disso. Os pais dele eram da mesma comunidade que, extraordinariamente para a Irlanda tinha muitos protestantes e ex-colegas Britânicos. Os Evanses estavam entre um grupo de pais que ocasionalmente ia a nossa casa, ou nós íamos visitar a casa deles, e foi assim que eu conheci o David, seu irmão e sua irmã. Nós não mantivemos contato até voltarmos a nos encontrar na banda.
Eu tenho uma irmã, Sindy, que é 4 anos mais nova que eu, e um irmão Sebastian, que é 10 anos mais novo. Mas é difícil para eu me lembrar, na maior parte do tempo, de nós como uma família. Nosso pai parecia estar sempre trabalhando. Como ele fazia muitas viagens cruzando o Atlântico pela Air Lingus, invariavelmente ele ficava fora de casa por 3 ou 4 dias.
Quando eu fiz 8 anos me colocaram num internato, o que só atrapalhou tudo ainda mais. A Sindy tinha 4 anos nessa época e então eu só a via nos fins de semana e feriados e por isso nunca desenvolvemos uma relação intensa ate estarmos mais velhos, simplesmente não tínhamos idades semelhantes para dividir experiências em comum. É até engraçado, mas apesar de haver uma diferença de idade maior entre eu e meu irmão, por alguma razão nos entendíamos, talvez porque quando eu sai do internato ele tinha 6 ou 7 anos então eu tive a oportunidade de conhecê-lo melhor.
O nome do internato era Castle Park, em Dalkey, ficava do outro lado da baía de Dublin. Pensando bem, eu posso entender que meus pais estavam num país estrangeiro –acho que é assim que eles deveriam ver- e eles não tinham idéia de qual seria a maneira apropriada de educar uma criança. Castle Park era uma escola preparatória na mesma linha do sistema britânico e alguns dos filhos de amigos dos meus pais estudavam lá e provavelmente eles viram que isso me levaria depois para uma boa escola pública Inglesa, como Eton ou Harrow, e depois um diploma de Oxford ou Cambridge. Esse era o plano, mas de qualquer forma não deu certo.
Eu não reagia ao internato de uma forma muito positiva. Eu não tinha vocação para esportes, não era uma pessoa muito sociável. Eu mantinha minha cabeça baixa. Até naquela época eu tinha inclinação pra música, mas não tínhamos permissão para ouvir música pop ou assistir televisão. Era só sobre esportes! Mas tinha um garoto que tocava violão clássico e ele tinha permissão para levar o violão para o quarto. Sempre que ele tocava, eu tinha uma conexão emocional. De alguma forma me levava em pensamento para fora dos confinamentos do internato. Conseqüentemente eu entrei para a Gramophone Society, que costumava se reunir umas 2 tardes por semana e ouvir música clássica. Novamente isso me levava para um mundo completamente diferente. Eu tentei aulas de piano, mas eu não conseguia juntar a aspiração com a coordenação.
Eu pensei que talvez por causa da minha avó seria fácil, mas eu presumo que eu nunca me empenhei o suficiente. Eu nunca tive o pensamento de que se eu praticasse talvez eu conseguisse os resultados que eu desejava!
Quando eu tinha 10 ou 11 anos eu comecei a me enturmar com pessoas que gravavam o Top Twenty (top 20) na rádio Caroline no Domingo à noite e depois ouviam de novo, tudo escondido é claro. Não era permitido ouvir rádio no internato, mas alguns tipos de música eram permitidos. Podíamos ouvir ópera rock como Jesus Christ Superstar e Hair e coisas que estavam no meio entre música clássica e popular. Então isso foi o que me despertou naquela época e eu até pensava, ‘eu vou tocar violão’ mas eu tinha uma noção tão básica. Eu nunca sabia como eu ia chegar num nível mais avançado.
Eu mudei de escola quando tinha 13 anos, novamente para um internato irlandês, St Columbia em Rathfarnham. Os prédios eram velhos, não tinham cortinas e lá era muito frio, o tipo de frio que você nunca esquece. Não posso dizer que eu fiquei muito entusiasmado com essa mudança de colégio. Mas para ser justo, logo no inicio eu conheci um garoto chamado John Leslie, que tocava violão. John tinha fitas cassete e nós escutávamos The Who, The Grateful Dad, Kris Kristofferson, Caroline King, Neil Young, pessoas que eram famosas naquela época e coisas incomuns como Hawkwind, The Edgar Winter Group, Edgar Broughton. E os monitores (estudantes de séries superiores que tomavam conta dos alunos mais novos) escutavam Rory Gallagher, Beatles, Rolling Stones, Eric Clapton, então nós ouvíamos um pouco disso também, e alguns cantores americanos como Doobie Brothers. Então eu estava ficando bem ligado a música e parecia que sempre mudava meu humor; de alguma forma fez o internato se tornar suportável.
Eu me lembro de ler que Eric Clapton não começou a tocar violão até os 15 anos e então eu pensei ‘bom, eu ainda tenho tempo!’
Então eu comprei um violão que custou 5 libras em um brechó no cáis de Dublin e eu comecei a aprender algumas notas e tocar algumas músicas. Tinha um garoto na escola que tinha tipo uma banda começando. Ele tinha uma guitarra e a escola deu uma sala para ele praticar; tinha um baixista e um baterista e o som era simplesmente fantástico para mim, eu amava. Eu não sei como soava, provavelmente eram 4 adolescentes sofrendo para conseguir tocar uma música, mas o som do baixo, da bateria e da guitarra eram tão primitivos para mim (acho q ele quis dizer primitivo no sentido de já estar impregnado na personalidade dele). Eu comecei a perceber que não só a música me fazia sentir bem como eu consegui um pouco de atenção por estar tocando também. Você conseguia se aproximar de garotas e pessoas que tocavam eram consideradas descoladas. Eu acho que foi ai que eu tomei a decisão de que era isso que eu queria fazer. Eu não tinha o menor interesse por esportes. Eu não queria ter uma carreira acadêmica e também não tinha a menor aptidão para isso. Eu gostava de coisas criativas como pintura e música; eu achava essas comunidades mais interessantes.
Então o John me convenceu que podíamos começar a nossa própria banda. Ele queria tocar guitarra então ele disse que eu devia tocar baixo. Não lembro de ter me convencido disso logo de primeira. Eu sabia que eram necessários uma bateria e um baixo para fazer aquele som vibrante, mas eu não sabia nada sobre música que me qualificaria como um baixista. Mas o John disse que me ensinaria o que eu precisava aprender. Eu estava tendo aulas de violão clássico e tinha um professor de violão popular que aparecia por lá também, então eu aprendi algumas coisas rudimentares e decidi tocar baixo. Eu falei com meus pais e pedi para que eles me comprassem um baixo. Eu tive que fazer aquela promessa solene de que eu não ia desistir disso e esse tipo e coisa.
Agora, olhando para trás foi uma coisa fantástica para os meus pais fazerem, não era do tipo deles.
Era um pouco mais o tipo da minha mãe, eu acho. Ela tinha um lado romântico e provavelmente pensou que comprar um baixo não iria causar nenhum dano. Eu acho que por ter música na família ela conseguia se identificar com isso.
Então lá estava eu, com 15 anos, com um baixo marrom escuro e sem amplificador. Eu não tinha idéia do que fazer com ele. Absolutamente nenhuma idéia. Só parecia legal para mim. Profundo e satisfatório. Olhando bem, era esperado que alguém como eu tivesse alguns anos de experiência de rock amador e depois passar para algo como baixo. Mas o baixo era tudo que eu tinha, eu não tinha nada além disso.
Minhas notas foram tão ruins no ano seguinte que meus pais disseram que não estavam preparados para me manter numa escola tão cara. Foram noticias muito ruins para mim na época porque eu e John Leslie estávamos começando uma banda, estávamos escrevendo uma opera rock irlandesa baseada num mito céltico em que crianças são transformadas em cisnes pela madrasta bruxa. Mas eu tive que sair antes de ter a chance de me estabelecer como o Andrew Lloyd Webber da Irlanda.
Eu achei que era isso, a carreira musical tinha acabado. E lá fui eu despachado para Mount Temple, uma escola mais compreensiva no norte de Dublin, mas que não era um lugar que eu me sentia nem um pouco confortável, para contemplar um futuro não muito promissor em termos de esperanças de carreira.
É isso mesmo cris!
Eu aceitei esta proposta de trabalho a pensar em todas as pessoas que não podem possuir o livro traduzido ou não percebem pevas de inglês. Presumo que também foi essa força que moveu os tradutores dos trechos do livro existentes no outro tópico. Mas imagino que seja mesmo um livro muito dificil de se traduzir dessa maneira, principalmente quando é o sir Bono a escrever... aquele homem fala por todos os lados! :lol: Por isso, é que apenas aquelas pequenas partes não chegavam para matar a sede dos fãs de ler tal livro tão importante para a sua carreira de seguidores de U2.
Bom, deixem-me dizer que o melhor trabalho como tradutores que já vi foi aqui, nos fóruns da Ultraviolet. Como se já não bastasse ter de traduzir para si mesmos, ainda têm a preocupação em partilhar com a gente mais "desfavorecida" - como o Bono diria no seu trabalho humanitário. :lol: Vocês são mesmo fantásticos! E aqui presto uma homenagens a vocês, tradutores, de tão dedicados que são! Logo se vê as origens de tanta bonodade em vocês, né?! :D Continuem a contribuir com as vossas traduçoes, até porque de certa forma são traduções mais genuínas por serem feitas na hora pelo trabalho original. Critiquem o que acharem que está mal, e dêm sugestões. Nada melhor para nós que ter tradutores tão bons como vocês para nos assegurar qualidade no trabalho que estamos a desenvolver. Agradecemos e o resto das pessoas também!
Bom, quanto aos méritos, deixa isso para lá, Cris!! A iniciativa foi tua! Tu arrancaste com o projecto e falou comigo, eu apenas faço o trabalho, que diga-se de passagem nem é muito mau! :P
Beijos a todos e espero que tirem melhor partido disto, porque é a pensar em todos os os fãs que ainda não tiveram a oportunidade de viajar com U2 by U2.
Com o maior respeito e admiração
Joanne
Mysterious girl
22/04/2007, 18h39
Meus parabéns e minha admiração pelo empenho de vocês! :aprovado:
UAU!!!!!! Meus parabéns pela idéia genial e pela iniciativa, Cris e Joanne!!! :aprovado:
Como vocês bem disseram, um ótimo trabalho já estava sendo feito por aqueles que traduziram e postaram algumas partes do livro, mas realmente faltava um trabalho de maior vulto, com o livro todo traduzido e organizado seqüencialmente de forma a se poder ter a idéia do todo!
Mais uma vez, meus parabéns ao Cris e à Joanne pela generosidade e pela iniciativa! ;)
:aprovado: Obrigada gente! Aproveitem muito!! É uma grande honra para mim ajudar desta forma!!:P
Mila Hewson
22/04/2007, 20h06
Parabéns pela iniciativa e pela disposição.
É um belo projeto !!!
Se precisarem de ajuda, podem contar comigo !!!
Rosean Vox
22/04/2007, 20h32
Parabéns, meninas, maravilhoso projeto. É muito bom ter pessoas como vcs que se preocupam em ajudar o próximo. Vai ser um grande e belo trabalho. Valeu mesmo......:aprovado:
MYSTERIOUS
22/04/2007, 20h40
São Cristino:hipcrt:
Violet U2
22/04/2007, 22h22
Parabéns ao Cris e a Joane pela inciativa :aprovado:
Bonolocks
22/04/2007, 22h45
Valeu galera!!! Obrigado pelo incentivo!!!:aprovado: Amanhã ou no mais tardar terça-feira já teremos as páginas 14 a 27. Créditos também para a Line que fez boa parte das traduções dessas páginas.:aprovado:
Su Scout
22/04/2007, 23h02
Cris e Joanne, meus parabéns pelo altruísmo demonstrado pelos dois, inclusive pela Line. Já deu para perceber que essa foi uma ótima idéia e já está sendo muito apreciada.:aprovado:
Adri Soul Love
22/04/2007, 23h12
Haaaaaaa!!! :pulando: Obrigado gente, de coração, maravilhosa iniciativa:aprovado: :amor:
Bela iniciativa, cris e joanne!
:aprovado:
Valeu galera!!! Obrigado pelo incentivo!!!:aprovado: Amanhã ou no mais tardar terça-feira já teremos as páginas 14 a 27. Créditos também para a Line que fez boa parte das traduções dessas páginas.:aprovado:
Parabéns pra Line também! :aprovado:
Parabens pela iniciativa Bonolocks :aprovado:
A mto já percebi q tu és uma Gde pessoa, infinita sua generosidade em compartilhar com outras pessoas esse projeto maravilhoso.
Parabens tbm Joanne e a Line :aprovado:
Bonolocks
23/04/2007, 14h59
Brigadão mais uma vez turma! O apoio e incentivo de vocês é essencial prá gente poder continuar com esse trabalho!;)
E tenho boas notícias: eu divulguei o assunto na lista da UV e conseguimos mais uma colaboradora disposta e que tem o U2 By U2 em português, a Juliana Oliveira. Isso significa que poderemos ter mais partes do livro em menos tempo, prá nossa alegria!http://thelarrymullenband.com/style_emoticons/default/yahoo.gif
Muito obrigada a todos! A sério, é bom saber que temos pessoas do outro lado interessadas em ajudar!
Agora é só disfrutarem do que U2 by U2 tem para nos dar!! :P
Bonolocks
23/04/2007, 20h09
Páginas 14 a 20
Bono
Você não se torna um rock star ao menos que você tenha algo faltando em algum lugar, isso é óbvio para mim. Se você tivesse boas condições mentais ou fosse uma pessoa mais completa, você poderia se sentir normal sem 70.000 pessoas por noite gritando seu amor por você.
Blaise Pascal denominava esse sentimento de buraco do formato de Deus (God-shaped hole da letra de Mofo). Todo mundo tem um, mas os de algumas pessoas são maiores e mais sombrios que os de outras. É um sentimento de abandono, um deslocamento no espaço e no tempo.
Algumas vezes isso sucede a perda de alguém que amamos. No meu caso, eu era como o personagem daquela velha canção de blues “Sometimes I feel like a motherless child” (às vezes me sinto como uma criança sem mãe). Tantos anos depois, o meu buraco ainda consegue abrir. Eu acho que não é possível enchê-lo completamente nessa vida. Você pode tentar enchê-lo com músicas, família, fé; vivendo uma vida completa, mas quando as coisas estão silenciosas, você ainda consegue ouvir o sibilo do que está faltando.
Eu não tenho muitas memórias antigas da minha vida. Eu conversei sobre isso com meu irmão porque ele também não tem muitas lembranças. A única explicação que podemos dar para isso é que quando minha mãe morreu meu pai não falava nada sobre ela, nunca. Então, como resultado dela ter sido apagada da memória, simplesmente por não querer se lembrar dela, acho que muitas outras coisas foram apagadas também. É uma sina de cantores, perder a mãe. Aconteceu com Johnny Lydon. John Lennon. Parece ser o coração do rock, assim como perder o pai é para o hip hop.
Meu avô Hewson, pelo lado do meu pai, era um comediante. Ele se apresentava no Dame que ficava no Saint Francis Xavier Hall, no centro de Dublin. Eu não o conheci. Alguns dizem que ele morreu de tuberculose, mas é difícil ser definitivo, havia um estigma terrível naquela época. As pessoas tinham o costume de colocar pesos nos sapatos para disfarçar o fato de que estavam enfraquecendo. É uma história bem irlandesa. A Irlanda era como a África naquela época, era um país de terceiro mundo. Havia uma epidemia de tuberculose, então os trabalhadores, se o peso deles diminuía, colocavam chumbo nas botas para conseguir passar na pesagem. Meu pai me contou essa história. Seja lá qual for a verdade, meu avô era um homem infeliz. Na única foto que tenho dele, ele parece muito perturbado, e eu imagino que é assim que uma pessoa se sentiria se estivesse morrendo de tuberculose. Mas, estranhamente, ele continuou se apresentando. Eu acho interessante que esse homem se apresentava no Dame vestido de mulher, mas era tão calmo, até melancólico como pessoa. Eu acho que a peculiaridade de rir muito e depois morder a própria língua é algo recorrente na família.
Os Hewson são uma raça interessante, muito inteligentes, rápidos com palavras cruzadas, um pouco ansiosos no sentido de sempre estarem muito cientes do que está acontecendo ao redor. Apenas meu pai dirigia um carro. Eu não sei o que isso diz sobre a família, mas eu sei que existem algumas pessoas que desejam que eu não dirija. Mas existe melancolia em nós que eu acho que vem do meu avô. Meu pai, Bob Hewson, não deixava que isso transparecesse quando estava em público, mas eu acho que, se ele estivesse sozinho, ele sentia. Você pode sentir o gosto amargo-doce, o sentimento feliz-triste nas músicas do U2.
Minha avó, Rankin, pelo lado da minha mãe, era muito sorridente, o que disfarçava o fato de que por baixo do vestido, ela tinha uma vareta com a qual ela educava, eu acho, 8 crianças. O uso de contraceptivos era proibido na Irlanda e as pessoas tentavam conseguí-los do Reino Unido. Ela costumava brincar dizendo que os pacotes eram interceptados no correio e – tarde demais! – nascia outra criança, outra boca para alimentar. Era uma família bem unida. Eles moravam numa área pobre de Dublin, no número 10 da Rua Cowper. A casa da minha avó era sempre muito empolgante, sempre cheia de atividade. Eles cantavam músicas e minha avó tocava piano. Um lugar brilhante, brilhante, nota 10 (acho que foi um trocadilho com o número da casa). Nós chamávamos meu avô de “piada” Rankin. Ele lutou nas trincheiras na Primeira Guerra Mundial e o gás o deixou tossindo pelo resto da vida. Minha mãe, Iris, era a mais velha da família e era bem pequena, uma flor delicada, mas ela assumiu a responsabilidade de cuidar das crianças mais novas. A sua irmã mais próxima e melhor amiga era a Ruth, a historiadora da família. E tinha meu tio Jack, eu o amava. Em qualquer lugar que você fosse, Jack conhecia todo mundo; era impossível ir a um lugar em que ele não encontrasse alguém que ele conhecia. As pessoas sempre vinham dar um aperto de mão. Eu pensava que aquilo era meio tipo Deus. Ele é uma pessoa muito pra cima, muito generosa e foi delirante poder estar perto dele. Jack era um vendedor viajante, assim como muitos dos meus tios, e eles vieram de uma longa linhagem de vendedores viajantes. E de fato eu sou um vendedor viajante. Eu vendo as músicas do U2, porta a porta, cidade por cidade, e eu estimulo idéias como cancelamento de dívidas ou comércio justo e eu penso que devo ter tido essas idéias com os Rankins – o que, por sinal, é geralmente um nome judeu. Todos eles tinham aparência de judeus também. Eu ouvi dizer que os Rankins eram judeus quando estavam na Escócia, depois eles vieram para a Irlanda e não eram mais judeus, e eu acho que isso acontecia muito. Não sei se isso é verdade, mas eu gostaria que fosse.
Minha mãe e meu pai moravam bem perto um do outro. Minha mãe era Protestante e meu pai Católico e o caso de amor deles era praticamente ilícito na época. A Irlanda estava acabando de nascer como país e tudo estava muito agitado. O país estava praticamente em guerra civil com as diferenças de religião, com uma base Católica forte comandando essa nova nação enquanto o Protestantismo era visto como a fé dos antigos mestres, a religião dos invasores. Mas meus pais encararam a situação e se casaram.
Eu nasci em 10 de Maio de 1960, Eu acho que escrevi uma música sobre isso “Uma manhã sem graça acordou o mundo com gritos, eles estavam tão felizes, eu estava tão triste”(“One dull morning woke the world with bawling, they were so glad, I was so sad”). Não é uma grande rima, mas enfim, isso foi Out of control, o primeiro single do U2. Eu realmente cheguei no mundo chorando e aparentemente eu chorei por 3 anos, sem parar. Eu tenho uma vaga lembrança de estar no hospital, com 3 anos, fazendo exames para descobrir o que havia de errado com a criança que só gritava. Foi uma coisa estranha, eles pareciam pensar que talvez tivesse algo a ver com meu coração. Eu tenho alguma lembrança disso, e de uma enfermeira ruiva que eu acho que gostava, mesmo naquela época. Meu coração ainda bate de uma forma própria e exclusiva. Recentemente eu tive que re-diagnosticar meu batimento cardíaco incomum e o médico me disse: “Você é muito saudável, mas você tem o que é conhecido por um coração excêntrico”. Eu disse: “Eu poderia ter dito isso a você!” Eu tive que ir ao melhor especialista que o dinheiro pode pagar para que ele me dissesse algo que todo mundo que me conhece já descobriu há muito tempo.
O choro parou no primeiro dia que fui para a escola. Eu me lembro desse dia. Um garoto se aproximou do meu novo melhor amigo, James Mahon, e mordeu a orelha dele, e eu peguei a cabeça do garoto e a bati em uma grade de ferro. É horrível, mas esse é o tipo de coisa que eu me lembro. Os pequenos pedaços que eu consigo juntar do passado são quando não violentos, agressivos. Eu nunca gostei de machucar outras pessoas, mas talvez essa fosse uma desculpa para meu comportamento tão ruim.
Eu me lembro de ter tirado uma foto com meu irmão Norman (que é 8 anos mais velho que eu) e não ter gostado. Eu devia ter uns 3 anos. Nós tínhamos 2 leopardos de porcelana que ficavam em cima da lareira, e no final da sessão de fotos só sobrou um leopardo. E eu fui castigado por isso!
Eu era uma criança sardenta que tinha dificuldade de parar quieta desde o início, um bagunceiro cheio de vida e travessura, devia ser um pouco de excesso de testosterona. Eu devo admitir isso pelo primeiro apelido que ganhei da família: o Anticristo. Não era completamente errado. Eu nunca conheci outras crianças que tivessem o apelido de Anticristo! Eu chegava perto das minhas tias e ficava falando que ia destruir as casas delas. Mas, olhando para trás agora, acho que eu era só um pouco elétrico, um pouco esperto, um pouco experimental, só isso. Mas eu ainda sou um pouco assim, até hoje em dia. Quando eu contei a meu pai que Ali, minha esposa, estava grávida pela primeira vez, ele teve uma crise de risos. As lágrimas transbordavam em seus olhos, mas não era de forma alguma uma demonstração de emoção, eram lágrimas de tanto rir. Ele simplesmente olhou para mim e ao invés de me dar os parabéns, me disse a seguinte palavra: “Vingança!”
Eu queria me lembrar mais da minha mãe. Eu me esqueço da sua aparência. Eu tenho apenas algumas vagas memórias. Meu pai costumava fazer coisas, ele era bom em fazer as coisas por conta própria e ele construía armários e esse tipo de coisa. Eu me lembro que ele estava no quarto no andar de cima e estava usando uma furadeira elétrica e de repente ouvimos um grito, um som louco. Minha mãe e eu corremos para a escada e olhamos para cima. Meu pai estava furando um pedaço de madeira enquanto o segurava entre as pernas e a furadeira escapou da madeira e foi direto nas suas partes íntimas. Ele estava em pé, com um olhar de “Eu me castrei!”, e eu lembro da minha mãe literalmente chorando de rir. Obviamente não sabíamos se ele tinha se castrado ou não, mas mesmo minha mãe sabendo que podia ter sido um acidente sério não conseguia parar de rir. Ela tinha um senso de humor muito negro.
Eu tenho algumas lembranças dela rindo desse jeito. Me lembro dela me perseguindo com uma bengala de madeira depois de eu ter feito algo errado. Eu estava correndo para longe dela, apavorado, mas quando eu olhei, ela estava morrendo de rir. Ela não conseguia levar a disciplina assim tão a sério. Essa é uma boa imagem para se guardar.
Meu pai era um homem muito severo, mas todo seu rigor era desperdiçado comigo. Ele era um bom pai de todas as maneiras que você pode razoavelmente esperar, mas a gente se desentendia muito. Eu tenho certeza que era minha culpa na maioria das vezes, mas na natureza sempre tem um alce mais jovem no rebanho que vai desafiar o macho principal na disputa pela supremacia e talvez era isso que acontecia. Talvez ele me visse como um desafiante da posição dele. Eu não me lembro disso dessa forma, mas como já disse, eu não me lembro de muita coisa. Mas eu sei que a gente não se dava muito bem. Eu tenho uma lembrança de uma briga em especial na qual ele me trancou num cômodo. Eu levantei as venezianas, abri a janela e sentei no parapeito com os pés para fora, conversando com meus amigos que estavam no final da rua. Eu tinha 10 anos. Estava dizendo a eles o quão imbecil meu pai era e de repente eles ficaram quietos. Meu pai estava em pé bem atrás de mim me ouvindo falar mal dele, milhões de insultos e descrições cruéis e agora ele estava sabendo de tudo. Pensando bem agora, ele tinha que agüentar muita coisa de mim.
Bob trabalhava no correio como fiscal. Ele estava sempre de mau humor no Natal porque ele tinha que trabalhar muitas horas extras; ele acordava às 6 da manhã e não voltava para casa antes das 9 da noite. Era um mundo invisível para mim. Tentar conversar com meu pai era como tentar falar com uma parede de tijolos. A primeira vez que ele realmente conversou comigo foi na noite em que se aposentou dos correios, quando eu fui para a festa de despedida. Eu costumava ouvir todos os nomes, Genry não sei o que, Gary alguma coisa, mas eu nunca soube quem eles eram e eu não sabia exatamente o que meu pai fazia. Mas nessa festa em 1985 eu conheci todas essas pessoas e elas eram incríveis. Foi num Pub no centro da cidade, e tinha um cara tocando violino, e todos estavam cantando músicas. Um homem que tinha pintado um bigode igual ao do Hitler me apresentou a sua filha e eu perguntei: “Quem é você?” E ela disse: “A filha do Hitler”. Era como um filme de Fellini, muito surreal, o típico senso de humor de Dublin. Depois da festa, meu pai me mostrou o lugar onde trabalhou, onde eu nunca tinha ido antes, e me apontou a cadeira na qual ele costumava se sentar. Uma nova pessoa já tinha se mudado para a cadeira dele. E naquela noite, eu consegui conversar com meu pai pela primeira vez. Nós tomamos um copo de whisky, e ele começou a me contar algumas coisas sobre como era crescer, se tornar mais velho. Eu fiz uma anotação mental para não me esquecer dessa conversa tão facilmente.
A nossa casa ficava na 10 Cedarwood Road. Era uma casa normal, de classe média, tinha três quartos e uma garagem e eu dormia no quarto de arrumações, que era minúsculo. Na parte de trás da casa, havia campos e árvores. Era fantástico. Podíamos sair de casa, trepar em árvores e ficar lá durante o dia inteiro. Desaparecíamos para o meio da floresta. Quer dizer, não era bem uma floresta, mas havia imensas árvores, por isso, para mim era uma floresta. Lembro-me de ter medo, pois havia umas gangues que costumavam vaguear pelo meio dos “campos” e quando nos apanhavam, o que acontecia várias vezes, davam-nos uma carga de porrada ou então ameaçavam enforcar-nos e aterrorizavam-nos. Era um lugar muito interessante. Excitante, mas um bocado perigoso. Entretanto, deitaram as árvores abaixo e construíram as chamadas sete torres, os andares Ballymun. Não sei porque razão são chamados andares, pois são o primeiro projeto de construção em altura do país. Quando já todas as pessoas na Europa tinham chegado à conclusão de que não gostam de viver umas em cima das outras, decidiram fazer a experiência na Irlanda. Começaram a construção e, no início, parecia algo mesmo moderno, ver os edifícios a crescer. Era incrível! Meu Deus, um projeto de construção em altura! Uau! E com elevadores! Mas fizeram com que as pessoas saíssem do centro da cidade e fossem viver ali, separando assim as comunidades. Gerou-se muita agitação e insatisfação. Nessas torres habitavam gangues muito perigosas, por isso, embora vivêssemos numa rua muito pacata, tínhamos um bairro violento de cada lado. O Finglas de um lado, a ocidente, e o Ballymun do outro. Era como estar no meio de índios e cowboys, no meio de um estardalhaço constante entre bootboys e skinheads. Uma pessoa andava a vaguear pela rua e, de repente, aparecia uma gangue e perguntava: “De que bairro você é?”. E nós pensávamos: “Oh, merda! Esta gangue é do bairro Finglas ou do Ballymun?” Se déssemos a resposta errada, haveria morte. Por isso, eu e o meu amigo Guggi tivemos de nos tornar peritos em violência. As lutas de rua eram o pão nosso de cada dia. Lembro-me de, numa dessas lutas, ter pegado uma lata de lixo e de ter pensado: “Isto é de loucos. Vou mesmo acertar em alguém com isto?” Nesse momento, estava um rapaz em cima de mim pronto para me esmagar a cabeça com uma barra de ferro. Usei a tampa da lata de lixo para me proteger. Teria sido morte certa, se não tivesse a tampa. Não é a mesma violência de que se fala hoje. Não havia armas. Só havia paus, garrafas, navalhas...e, agora que penso nisso, alguns martelos e serras.
Quando cantamos canções, as pessoas acham que somos como as canções que cantamos. Mas a razão que me leva a gostar tanto de pessoas como Gandhi e Martin Luther King é que eu era exatamente o oposto deles. Eu era o tipo que nunca dava a outra face. Mas nunca gostei de violência. Nunca. Ficava doente só de pensar em sair para a rua e encontrar alguém com quem já tivesse tido uma rixa e que tinha voltado para mais rixas. Recordo-me de, alguns anos mais tarde, falar com o meu velhote sobre a violência dessa época, que teve um papel crucial no meu crescimento, e de ele se sentir ofendido. Protestou: “A nossa rua era muito pacata!” E era, de fato, uma rua muito sossegada. O problema era o que ficava à esquerda e à direita!
O meu pai era um autodidata e uma pessoa muito inteligente. Estudou sozinho Shakspeare e passava a vida ouvindo ópera. Era um excelente tenor e gostava de se pôr em frente às colunas e conduzir a música com as agulhas de tricô da minha mãe. Lembro-me bem do rosto dele, rendia-se por completo à música. Por qualquer motivo, nunca imaginou que a música iria ser algo hereditário, assim como os problemas de costas e o seu mau temperamento. Uns anos mais tarde, perguntei-lhe: “De que coisas você mais se arrepende?” E ele disse: “Não ter tido a oportunidade de ser músico.” E eu disse: “Então por que razão nunca te passou pela cabeça ensinar música aos teus filhos?” Sempre que eu pedia para ter lições, mandava-me logo calar. Não se interessava. Eu teria adorado aprender a tocar piano.
A minha avó tinha um piano e essa é, sem dúvida, uma das minhas primeiras lembranças. Não sei que idade tinha, mas a minha cabeça ficava, certamente, abaixo das teclas. Sentava-me debaixo do piano e ficava ali a ouvir o entoar da música até me perder por completo. Embora não conseguisse ver as teclas, levantava a mão, tocava no teclado e ouvia o som de uma nota. De seguida, tocava outra nota. Fazia como os miúdos, só para fazer barulho – mas não era bem barulho, era música. Já nessa altura, quase que conseguia ouvir as melodias no ar. Começava a distinguir acordes, pois primeiro tocamos uma nota e depois ouvimos uma rima para ela na nossa cabeça. De seguida temos de encontrar essa nota e depois ouvimos outra nota. É estranho ser compositor. É como se cada passo fosse uma questão de fé. Acreditamos que vamos ouvir a nota seguinte, até que a ouvimos e depois se juntam todas, formando uma melodia.
(Continua...)
Bonolocks
23/04/2007, 20h11
(Continuação...)
Muito mais tarde, quando tinha uns 15 anos, lembro-me, de ter passado por uma fase de adolescente angustiado. Uma das coisas que realmente me acalmava era tocar piano. Na verdade, eu não sabia tocar, mas costumava por o pé no pedal e carregava nas teclas e a sala alterava a sua forma, pois a nota ganhava uma espécie de nuvem de eco à sua volta. Parecia uma catedral. Lembro-me que as notas gélidas que brotavam do piano me faziam sentir muito melhor. Entreguei-me à música de corpo e alma enquanto a minha cabeça estava a explodir.
Lembro-me de quando venderam o piano da minha avó. Já não havia espaço na casa, pois agora havia mais netos e menos dinheiro. Eu estava sempre perguntando: “Podemos ficar com ele?”. Já na altura sabia que havia música dentro de mim. E a minha mãe disse: “Não, não temos espaço.” Eu disse: “Temos, sim. Podíamos colocá-lo ali.” "Raios! Cai fora daqui!", respondeu ela. A característica mais marcante da minha mãe é que era muito divertida. Tinha um excelente sentido de humor, o humor negro, e era pouco romântica. Para ela, tocar música não era nada de útil. “Para que você quer tocar isso?” Por isso, não me deixaram ter um piano. É algo que ainda hoje me perturba. Custa-me falar sobre o piano.
É tão estranho, é algo que não consigo entender. É como se a postura do meu pai se resumisse a: Não sonhe. Este era o conselho implícito e, em alguns casos, explicito. Sonhar é ficar desiludido, era esse o assusto habitual. Talvez, como ele tinha desistido dos seus sonhos, não queria que eu enchesse a minha cabeça com os meus. Mas dizer-me, antes de morrer, que o único grande arrependimento da vida dele foi não ter sido músico, leva-nos a pensar que a primeira coisa que ele faria seria garantir que os filhos tivessem essa oportunidade. Mas não – venderam o piano. Venderam a merda do piano. É incrível. Para um pequenino como eu, foi como se alguém me tivesse tirado o oxigênio. Não se consegue respirar.
Foi muito marcante. Creio que as sementes da ambição foram semeadas, paradoxalmente, por esta repressão do espírito. Se estivermos sempre dizendo a alguém para não fazer determinada coisa, mais essa pessoa tem vontade de fazê-la. A megalomania deve ter tido inicio nessa altura. Eu ia ter o meu momento de vingança. Todas as pessoas teriam de me ouvir! Embora ainda não soubesse ao certo o que iria tocar ou dizer, mas o mundo ia ter de me ouvir. O que, claro, era um sinônimo psicológico de “o meu pai vai ter de me ouvir”. Quando chega o momento, há apenas uma pessoa na audiência, por muita que seja a multidão. Pode ser o nosso pai na terra, o nosso pai no céu, uma namorada, um amigo... Pode variar, mas geralmente cantamos para uma pessoa.
Eu era promíscuo nas minhas ambições, namoricava todo o tipo de coisas. Um dia, acordei e decidi que queria ser jogador de xadrez. Li um livro sobre xadrez e fiquei fascinado. Com 12 anos, juntei-me a um clube de xadrez para adultos, estudei os grandes mestres, joguei xadrez de olhos vendados com o meu colega Joseph Marks. No ano seguinte, pensei: “Não. Vou ser pintor.” Faltava às aulas para ir ver os quadros de Louis Le Brocquy na galeria municipal. Andava ao sabor da maré. E ainda mantenho o gosto por vaguear. Os adultos chamam isso de curiosidade intelectual. A determinada altura, achei que queria estar num palco. Sabia que tinha esse talento dentro de mim. O meu amigo Reggie Manuel estava sempre me dizendo que eu devia ser ator e me lembro de ter procurado uma escola de representação dramática, por isso, devia estar mesmo decidido a ir em frente com a idéia. Mas não encontrei nenhuma, por isso, talvez não estivesse assim tão empenhado.
Quando era novo andei numa escola chamada Inkwell. Era uma pequena escola na igreja Protestante que ficava de costas para o rio Tolka. O diretor da escola era um homem muito simpático. Costumávamos jogar futebol nos intervalos e, se estivesse bom tempo, lançávamos a bola para o rio e tínhamos de avançar as grades para tentar apanhá-la na corrente. O diretor também vinha conosco. Agora que penso nisso, acho que para ele era uma alegria poder ausentar-se da escola durante uma hora. Íamos atrás da bola até o Jardim Botânico no Griffith Park, um lugar fantástico. Costumávamos ir para lá depois das aulas para passar o tempo. Era um lugar lindo, um verdadeiro oásis. Levávamos lá as garotas para passear.
Nos casamentos mistos, as crianças deviam ser educadas segundo a religião católica. Os protestantes totalizavam apenas cerca de 10 por cento da população naquele tempo e isso era uma maldição para eles. A minha mãe decidiu nos educar na igreja Protestante e o meu pai concordou. Aos domingos, ele deixava-nos num lugar de oração, numa pequena igreja irlandesa, e depois ia sozinho assistir à missa. Depois, quando nós saíamos, ele estava lá fora à nossa espera. Foi uma atitude tolerante da parte do meu pai, mas eu estava sempre discutindo com ele. Sempre. Éramos demasiado parecidos. Ele era politicamente comedido. Analisava e escolhia de entre as ofertas de direita e esquerda. Um homem de terceira via, mesmo antes de esse termo ter sido inventado, e muito antes de eu ter de o viver. A nossa casa era ambidestra, política e religiosamente.
Hoje em dia, levo os meus filhos à missa, à igreja, levo-os onde sinta que haja vida. Mas, naquela altura, havia uma reparação muito grande entre diversas religiões, por isso, creio que foi muito importante e o meu pai mostrou um enorme respeito pelo Protestantismo da minha mãe. Mas eu não sentia nada em relação a Deus e à igreja, não me diziam nada. O pai do meu amigo Guggi (pronuncia-se Googi) era um verdadeiro pregador e, quando eu ia com o Guggi à igreja dele, costumava ouvir sermões possantes e lembro-me que ficava bastante surpreendido com tudo. Pensava: “Uau, isto é um bocado diferente daquilo a que estou habituado.” Na igreja Protestante, eram todos muito simpáticos e era impossível não gostar deles, mas se não se tiver cuidado pode ser morte por delicadeza. Eu tinha a sensação de que era algo muito direcionado para a comunidade. Venerávamos Deus, mas acho que não sabíamos o que era Deus. Geralmente, o serviço não era muito animado, embora em Finglas tivéssemos a sorte de ter um reverendo jovem chamado Sydney Laing, que era muito ativo e divertido.
Fiquei amigo do Guggi quando eu era ainda Paul Hewson e ele Derek Rowan. Ele disse que não gostava muito de mim, mas que gostava de brincar no balanço que tínhamos no jardim de trás. O Derek tinha quatro anos e eu tinha três. Acho que, em vários aspectos, ele continua a ter quatro e eu continuo a ter três. Ele era e é uma pessoa fantástica. Veio de uma família enorme. Acho que eram uns doze. Se interessavam por motores e carros e tinham uma coleção de bicicletas e motos espalhada por todo o lado. De tudo o que o Guggi tinha, costumava me dar metade. Quando tinha uma libra, me dava meia libra. Ele me ensinou uma lição que guardo e tento passar aos meus filhos. O dom de partilhar é algo de extraordinário, pois ele podia não ter muito, mas mesmo assim partilhava tudo o que tinha. E quando eu estava sem grana e numa banda de Rock’n’roll, o Guggi, o meu amigo Gavin e a Ali, pessoas como eles me sustentaram durante anos. É um tipo de amizade que se leva muito a sério.
Havia música por todo o lado, crescendo. A ópera que o meu pai ouvia impregnava a casa. Era heavy metal para os meus ouvidos. Acho piada aquelas canções de ópera indecentes: o rei é infiel à rainha, depois contrai sífilis, matam o crocodilo e fazem sapatos para o rei. Mas, como é cantado em italiano, as pessoas acham que é interessante – em tudo. Eu me interessava por música popular irlandesa, por causa de todas as cantorias na casa da minha avó. O meu irmão tinha um gravador de fitas e tinha um excelente gosto musical. Como resultado, nunca cheguei a ultrapassar a fase da música pop. A maioria dos jovens começa a ouvir Rock’n’Roll durante a adolescência, mas aos 10 anos, eu já ouvia Jimi Hendrix, The Who, Beatles e John Lennon. Lembro-me de ter ouvido a música ‘Imagine’ quando tinha 12 anos e de ter ficado maravilhado. O que eu realmente apreciava era um duo popular chamado Hunky Dory. Adorava esse duo. Só anos mais tarde é que descobri que era o David Bowie e que Hunky Dory era o nome do álbum. O meu irmão tocava guitarra e tinha o livro de canções dos Beatles. Comecei, então, a aprender a tocar guitarra sozinho. O meu irmão me ensinou alguns acordes. Ele costumava tocar ‘Ruby, Don’t Take Your Love to Town’. Continuo fascinado por essa música. ‘If I Had a Hammer’ era outra, uma música gospel de protesto. De diversas formas, tenho escrito essas duas músicas desde então.
Nunca tinha pensado em seguir carreira como cantor, mas lembro-me de cantar hinos e de isso despertar em mim um forte sentimento de me sentir elevado pela música. E cantava-os muito bem até. Mas, quando chegou o momento de ir para a escola secundária, eu devia ter uns 12 anos, a minha mãe me levou para ser entrevistado pelo diretor do liceu St Patrick. Estava relacionado com a St Parick Cathedral que era bastante conhecida pelo seu coro masculino. Eu estava lá sentado e o diretor me disse: “Bem, você sabe, nós temos um coro masculino que é bastante famoso em todo o país e é algo que levamos muito a sério. Você está interessado em fazer parte do coro?” E, antes que eu pudesse abrir a boca, a minha mãe disse logo: “Não, não. Ele não está interessado.” Não foi por mal, não havia más intenções. Apenas não lhe passou pela cabeça que eu pudesse estar interessado e respondeu por mim. E, claro, eu tinha vergonha em admitir que gostaria de fazer parte de um coro. Nem quis dizer nada, com medo que ele me pedisse para cantar qualquer coisa.
Andei um ano nesse liceu, sempre infeliz, e basicamente fui convidado a sair. Fui apanhado atirando fezes de cão na professora de Espanhol. O apelido dela era Biddy (Tagarela) e não nos dávamos lá muito bem. Eu não tinha uma opinião muito boa sobre ela e penso que o sentimento era mútuo. Numa segunda-feira, eu e um grupo de rapazes pulamos as grades para o lado do parque, perto da Catedral. Ela estava lá almoçando. Encontramos fezes secas de cão, começamos a atirar nela e fomos apanhados. Saí então do liceu St Patrick’s e fui para a Mount Temple School. Esta escola tinha um ambiente bastante diferente. Lembro-me de, no meu primeiro dia de aulas, ter ido de bicicleta com o meu amigo Reggie Manuel. Eram cerca de cinco quilômetros e meio, o que já era uma longa viagem para quem tinha 12 anos, mas foi uma verdadeira aventura. No momento em que cheguei, senti-me vivo. O liceu St Patrick era só de rapazes, a Mount Temple era mista. Havia garotas e isso era razão mais do que suficiente para querer ir para lá. Adorava até o fato de estar perto da escola. Era bastante progressiva, coeducacional e não denominacional. Só havia duas escolas públicas assim no país. Era um lugar fantástico e todos nos sentíamos privilegiados por estar lá. Não era uma escola como as outras e eu divertia-me muito. A minha companhia era considerada agradável, as garotas gostavam de mim, os rapazes gostavam de mim, tudo corria bem. Até que deixou de correr. Como diz o Austin Powers: “Perdi o meu charme.”
Em Setembro de 1974, realizou-se o qüinquagésimo aniversário de casamento dos meus avós. Toda a família se reuniu e houve uma festa enorme. Alugaram um espaço num hotel, foi uma comemoração muito importante. O meu avô dançava, “abanava o capacete” ao som de Dicey Reilly e sentia-se o homem mais feliz da face da Terra com a mulher e toda a família à sua volta. A bebida começou a fluir, de tal forma que tiveram de deitá-lo e puseram um balde junto à cama, para o caso de ele não ter tempo de chegar ao banheiro. Já devem ter ouvido a expressão “Esticar o pernil”. Pois bem, Alec Rankin teve um ataque cardíaco durante a noite e morreu. Lembro-me de ter acordado e de a minha mãe não estar por perto. Perguntei: “Onde é que ela está?” e disseram-me: “Aconteceu qualquer coisa ao teu avô.” Entretanto ela voltou para casa e disse: “O teu avô morreu.” Ele faleceu sem sofrimento, mas ela estava abalada. Estávamos todos um pouco abalados. Depois, foi-se embora. Como era a irmã mais velha, era ela que organizava tudo na família. Lembro-me dela junto ao túmulo, vendo o pai sendo sepultado. Até que se desmoronou. Vejo o meu pai a segurando. Todas as pessoas começaram a falar: “O que aconteceu?” “Ela desmaiou!” “Meu Deus, ela desmaiou! A tua mãe desmaiou!” Estavam todos em estado de choque. Entretanto, voltamos para a casa número 10. Não compreendíamos o que estava acontecendo. Acho que eles não queriam que as crianças percebessem. Lembro-me de meu tio se aproximar da porta e começar a chorar, como uma criança. Foi tão estranho. Eu sabia que tinha acontecido algo terrível.
Ela tinha sofrido uma hemorragia cerebral. Sobreviveu quatro dias, acho eu. Ocorreram situações muito marcantes nesses dias. Bastante marcantes. Eu li a Bíblia e rezei a Deus para não deixar a minha mãe morrer.
Eu, o Norman e o meu pai fomos chamados para nos despedirmos dela. E depois desligaram o aparelho que a mantinha viva. É extraordinário. Eles têm uma escolha. Podem manter-nos vivos ou podem deixar-nos morrer. A decisão deve ter sido a de deixá-la morrer. Eles entraram, nós nos despedimos dela e depois desligaram a máquina. Lembro-me que o médico ficou bastante comovido. O padre, o mesmo Sydney Laing, era um homem bonito, elegante e muito atencioso com o meu pai, que não ia à nossa igreja. E foi assim. Eu sentia que a casa estava sobre mim. A minha mãe morreu e, de repente, ficaram apenas três homens vivendo debaixo do mesmo teto. Não passava disso, deixou de ser um lar. Era apenas uma casa, com três homens se matando lentamente, não sabendo como reagir àquele sentimento de perda e descarregando uns nos outros. A situação estava perto do auge.
Eu era apenas um rapaz normal, numa família agora pouco normal, que tinha perdido o interesse por tudo, exceto pelas garotas e pela música. O aproveitamento escolar foi pelo cano. Não tinha vontade de fazer nada. Não fazia idéia que se estava aproximando uma catástrofe, mas houve alguns incidentes que podem ter funcionado como alertas, como ter encostado um professor na parede durante a aula. Este foi um dos mais interessantes. Ele estava sendo um bocado mandão, mas, ao mesmo tempo, atacar um professor não é a atitude de uma pessoa no seu perfeito juízo. Houve outros incidentes que deixaram a direção da escola preocupada. Eu tinha sonhos muito vivos, mesmo quando estava acordado. Achei que estava ficando maluco.
Na Mount Temple compreendiam bem estas explosões comportamentais. Deram-me permissão para sair da escola. Podia entrar e sair sempre que quisesse. A minha mente estava acelerada, não por causa de drogas, mas por causa de toda a pressão relacionada a coisas que estavam para lá do meu alcance. Desde muito cedo, instintivamente acreditei em Deus, mas não sabia se Deus ou mais alguém acreditava em mim. Por que? Como? Onde? As grandes questões começavam a intensificar-se. Eu ia à igreja, mas parecia que as pessoas que lá estavam só cantavam salmos de glória e não havia grande glória presente. Para mim não bastava. A religião não me dizia nada. Contudo, aqui fora, quando olhava à minha volta, via pistas de que Deus devia existir, de que podia estar interessado em nós. E depois perdia a esperança outra vez.
Havia uma senhora muito bonita que ensinava religião, Sophie Shirley, e ela dizia coisas do gênero: “Sim, é um mundo em ruína, mas continua a ser lindo. As impressões digitais de Deus estão em todo o lado se as quisermos ver.” E ali ficava eu, na Dollymount Strand, olhando para o mar, observando as ondas, a vislumbrar uma tempestade no horizonte, e a perguntar-me: “Quem escolheu a cor do céu? Quem é que faz a Terra girar a esta velocidade? Quem inventou a gravidade e quem desenhou o riso de uma mulher? Será tudo apenas ciência? Acidente cósmico ou criação? Será amor ou sobrevivência dos mais bem dotados como conseqüência da seleção natural?”
Estas perguntas enchiam a minha cabeça de adolescente. A morte da minha mãe foi mais uma lenha para a fogueira. As grandes questões atingiam o ponto máximo. Sentia-me sem esperanças. Pensei em suicídio. Pensava muito em tudo. Ainda fico admirado com a quantidade de coisas que cabem na cabeça de uma criança de 14 anos. Mas alguma coisa tinha de ceder e assim foi. A minha mente libertou-se. Literalmente, durante duas semanas me esqueci de tudo. Não me lembrava do que tinha feito.
Estava trabalhando num projeto para a disciplina de História e isso tornou-se muito importante para mim. Era sobre a rua mais antiga de Dublin, a Church Street, e eu tinha de andar pelas igrejas e pelas escolas a entrevistar as pessoas que tinham vivido nessa rua. Depois, não encontrava os meus apontamentos dessas conversas e comecei a pensar se realmente tinha feito as entrevistas ou se não passava tudo de imaginação minha. Foi muito perturbador. Era uma espécie de descarga elétrica, células cerebrais sobrecarregadas. Virei uma série de cadeiras e mesas na sala de aula e tive um ataque de nervos.
Não sabia o que fazer. Entretanto, fui visitar o Jack Heaslip. Era um jovem e progressista professor liberal que, naquela altura, ainda não era crente. Mais tarde, tornou-se padre anglicano. Celebrou o meu casamento com a Ali e tem sido uma fonte de inspiração e serenidade para as nossas vidas. Batizou os nossos filhos e continua a ser um bom amigo. Mas, naquela altura, era apenas o professor de Inglês e o conselheiro de orientação. Havia pessoas muito importantes na escola naquele tempo. Donald Moxham, o professor de História, que encarava as vidas que lhe eram confiadas como tendo algum valor e considerava que cabia ao professor incentivá-lo. O Jack também era assim e eu gostava muito dele – mais do que isso, eu confiava nele, por isso, resolvi entrar. Falei, seguramente, durante horas e horas. Parecia que me tinham dado corda. Falei, falei, falei...
E ele pensou: “É capaz deste moleque estar com um esgotamento. Alguma coisa está acontecendo com ele.” Entretanto, enviou-me para uma psicóloga que vivia logo ao virar da esquina. Ela era excelente. Ouvia-me. Era ateia e talvez até comunista na altura, por isso, não conseguia compreender alguns dos problemas de caráter religioso pelos quais eu estava passando. Mas começava sempre por falar dos problemas dela. Contava-me tudo sobre o filho. Só mais tarde é que percebi que tudo não passava de uma técnica. Foi muito inteligente em me fazer sair de mim mesmo para me pôr a pensar nela e nas outras pessoas. Após algumas semanas, disse-me: “Acho que você já não precisa voltar aqui. Você está ótimo. Teve uma espécie de trauma.” Não creio que seja algo despropositado para alguém que já passou por tantas situações perturbadoras. Não considero que seja assim tão estranho. Foi dessa forma que isso se manifestou em mim: uma expansão de sentimentos agressivos e ligeiramente violentos e uma série de experiências religiosas que se seguiram. Porque, no meio de todo este desespero, eu chamei por Deus. E descobri que, por vezes, mesmo em silêncio, Deus responde. A resposta pode não ser aquela que queremos ouvir, mas acabamos sempre por obter uma resposta, se formos verdadeiros e estivermos preparados para nos entregar. Eu tinha de seguir estes sentimentos, ou instintos, para ver onde me levariam.
Estávamos em 1976 e eu não era o único na escola a atravessar uma experiência religiosa. Parecia que a escola inteira ia explodir. Foram os primeiros dias do que viria a chamar-se movimento ‘Carismático’ – Católicos e Protestantes na Irlanda adorando a Deus juntos, numa espécie de formato hippy rave, mas sem as batidas por minuto. Na Mount Temple, vários alunos se reuniram para estudar a Bíblia e estávamos todos vivendo experiências muito profundas e transformadoras. Foi muito interessante. No extremo Sul, chamam-lhe Renascimento. As pessoas ligadas à religião podem dizer que estas coisas acontecem em ciclos. Na história, lemos sobre o renascer de John Wesley, que fundou o Metodismo. É como se alguma coisa tivesse irrompido e durante alguns anos se espalhasse pelo país, como uma chama, e as pessoas vivessem profundas experiências religiosas. Depois, desaparece durante 50 ou 60 anos. Acho que era isso que estava acontecendo em 1976, pois a situação se passou com várias pessoas. Bob Dylan estava num extremo do espectro em L.A. e uma pequena escola em Clontarf, Dublin, estava no outro. Muitas pessoas que, na altura, tinham 16 anos contaram-me experiências semelhantes. Devem ter-se afastado disso na época, mas está no trabalho delas. Falava-se disso na época e ainda se fala. O mais louco de todos foi Michael Hutchence. Uma noite, estávamos sentados na praia, completamente “jogados”, e eu estava tentando explicar-lhe a origem de todas estas coisas. Ele virou-se para mim e disse: “Sabe, nesse ano, eu e o Andrew (o seu sócio compositor) tivemos experiências similares.” Eu pensei: “O quê?! Era como o Casanova nos dizendo que era devoto de Cristo.” Mas acredito que há uma espécie de ligação entre as energias perturbadoras da atividade criadora e a nossa vida espiritual. Ou talvez eu tivesse aquelas descargas elétricas porque não conseguia terminar os trabalhos de casa. Tirem a conclusão que quiserem. Foi bastante intenso.
Tinha então fogos de artifício para disparar. Cheguei a um ponto da minha vida em que queria fazer uma percepção espiritual do mundo. Comecei a fazer orações, porque achei mesmo que a minha cabeça ia explodir. Duas coisas aconteceram nas mesmas semanas e ambas salvaram a minha vida. E acabou por ser um ano bastante bom para mim. Um ano mesmo muito bom.
A primeira coisa foi ter tido uma visão do meu futuro. Lembro-me de ter visto uma garota, no seu primeiro dia de aulas, e de achar que ela parecia espanhola, morena com lábios de um vermelho ardente. Mais tarde, num daqueles dias em que a minha cabeça estava a explodir, o Reggie Manuel, o Cocker Spaniel, me levou para casa na sua moto. Olhei para trás e vi a mesma garota serena e misteriosa, tão simples, tão completamente desconhecedora de que era atraente. A fumaça que saía da moto criava a ilusão de que ela estava avançando por entre o nevoeiro. Tinha um ar tão sereno e, para alguém que não é de todo sereno, isso era a coisa mais atrativa do mundo. Assim era a Ali que, após algumas semanas, se tornou minha namorada e, após alguns anos, minha mulher.
Mais tarde, aconteceu outra coisa extraordinária. Juntei-me a uma banda. Depois disso, pouca coisa mudou. Continuo com a Ali e continuo com a banda.
Créditos: Line e Joanne.
Bonolocks
23/04/2007, 20h13
Páginas 21 a 24.
The Edge
Quase todo mundo me chama de Edge, ou The Edge se for uma ocasião formal. Eu sou o David Evans apenas para pessoas que não me conhecem direito, oficiais da imigração e coisas desse tipo.
Eu nasci em 8 de Agosto de 1961 em um hospital maternidade em Barking, na margem nordeste de Londres, então de alguma forma eu posso ser considerado um garoto de Essex.
Meus pais são do País de Gales, ambos de Llanelli, uma cidade no coração do sul industrial. Em Llanelli é tudo sobre dinheiro e rugby, tudo sobre essa cidade é cinzento e rígido. Eles se mudaram para Londres logo após se casarem, na metade da década de 50 e iniciaram uma família. Primeiro eles tiveram meu irmão Richard, que muitos conhecem por Dick, e depois eu. Meu pai, Garvin, um engenheiro, começou trabalhando para a companhia local de eletricidade e depois aceitou um trabalho em uma companhia elétrica chamada Plessey’s. Nós morávamos em Chadwell Heath nessa época, mas eu não me lembro de nada desse lugar. Depois, no começo de 1962 meu pai recebeu uma proposta de promoção e transferência, então meus pais decidiram deixar Chadwell Heath e iniciar uma nova vida do outro lado do Mar da Irlanda. Nós mudamos para a Irlanda quando eu tinha 1 ano. Minhas lembranças mais antigas são da nossa casa na pequena vila litorânea de Malahide e depois em um sonolento e pequeno subúrbio em Dublin. Era um lugar de refúgio e bom para criar crianças, mas um lugar que eu sempre tentava escapar quando tinha a oportunidade. Assim que eu aprendi a andar tudo que eu queria fazer era fugir. Eu era extremamente curioso e tinha um amigo, Shane Fogarty, que eu sempre tentava encontrar. Eu não sabia ao certo onde ele morava e a minha mãe me pegava, com 2 anos, no meio da cidade procurando pela casa dele. Para que eu conseguisse escapar com sucesso eu tinha que cronometrar as coisas no tempo certo, eu esperava até minha mãe estar descansando, então eu arrastava um banco até a porta da frente, destrancava e lá ia eu.
A vila era colina abaixo, então meu pequeno triciclo era um meio de transporte muito eficiente. Se eu conseguisse chegar até o final da área da garagem eu facilmente ganhava da minha mãe, porque ela estava grávida na época. Durante a infância eu tinha dois sotaques diferentes, um eu usava para me comunicar com a família, com um suave ritmo de Galês, e o outro para os meus amigos, misturando elementos do meu sotaque Galês, que eu não conseguia evitar, com minha melhor tentativa de imitar o sotaque Irlandês local. Eu acho que deve ter sido uma combinação bem estranha. A razão para essa dupla identidade era basicamente para ser entendido e também aceito pelos meus colegas. Mais tarde eu descobri que meu pai tinha feito a mesma coisa quando tinha 4 anos e morava em Londres. Ele oscilava entre o Galês e o Cockney (dialeto falado na Londres oriental).
Eu era um bebê muito fofo, eu vi as fotos. Mas quando eu tinha mais ou menos 5 anos algo começou a acontecer que mudou minha aparência radicalmente. Não estou falando de acidentes ou algum caso clínico, mas uma transformação gradual. E também não quero dizer que eu me tornei uma das crianças mais feias, mas minha aparência começou a alarmar adultos que me viam pela primeira vez e despertou olhares de desapontamento dos meus pais.
Minha cabeça cresceu, muito rapidamente para um tamanho absurdamente grande. Não era uma cabeça desproporcional, em alguns contextos era até bem bonita, mas com esse crescimento incomum, eu comecei a parecer com o garoto da capa da revista MAD.
Juntamente com a cabeça vieram os dentes, ou especificamente os meus dois dentões da frente. Quando eles apareceram saltando das minhas gengivas eu sabia que algo estava errado. O tamanho deles era óbvio desde o início, e eles cresceram de uma forma terrivelmente inevitável. Não importava o que eu fazia com a minha boca, não tinha como escondê-los, então quando eu tinha 7 anos, o look completo da revista MAD estava pronto.
Tudo se tornava mais difícil porque meu melhor amigo Shane, uma pessoa de quem eu era praticamente inseparável desde que tinha 2 anos, lembrava muito o Paul Newman quando era jovem, completo com dentes perfeitos e olhos azuis de cornflower (uma flor azul, conhecida no Brasil vulgarmente como escovinha). Ele sabia disso, assim como todo mundo também sabia. Um ano mais velho que eu, o Shane era super popular, um grande atleta e de alguma forma meu oposto. É engraçado como até quando se é criança dá para perceber essas coisas. Eu passei por anos de formação (época em que o caráter e conhecimento de uma criança estão sendo formados) como o famoso patinho feio, com o meu amigo Shane como um lembrete constante de que eu não era nada especial. O resultado foi que cresci ainda mais tímido e estranho. Eu acho que esse tipo de experiência ou te constrói ou te quebra. E no meu caso, ter uma família que me apoiava muito ajudou bastante. Eu não percebia isso na época.
Meus pais tinham uma conexão cultural muito forte com o país de Gales. Minha mãe Gwenda foi quem praticamente nos educou, então fomos criados com as clássicas influências Galêses: canto, rugby, igreja aos Domingos, uma certa sobriedade e um péssimo gosto para roupas. Mas, enquanto eu crescia, fui assimilando e me tornando Irlandês, assim como meus pais também de algumas formas.
O que nos levou para a Irlanda em primeiro lugar foi o apreço que meus pais tinham pelo jeito irlandês de se viver: o que é conhecido localmente como ‘the craic’, ou simplesmente, ‘saber como se divertir’. Não tinha nada de ‘craic’ nos vales do país de Gales ou na cidade de Llanelli. Chadwell Heath também não tinha nada de divertido. Mas meus pais tinham morado durante algum tempo no norte da Irlanda no início da década de 50 enquanto meu pai trabalhava para o Serviço Nacional, situado em Eglinton, próximo a Esquadra Armada da marinha, e eles se divertiram muito.
Divertiram-se tanto que quando meu pai fopi promovido e pode escolher entre gerenciar uma filial da Plessey’s em Dublin ou Manchester, eles decidiram sem hesitar por Dublin, acreditando que Dublin seria mais ‘craic’ do que Manchester. Com certeza eles estavam certos.
Como meu pai não é um homem que gosta de perder tempo, no primeiro Sábado depois de começar no novo trabalho ele comprou a casa onde moraríamos pelos próximos 40 anos. Meus pais são bem fáceis de se lidar em muitos aspectos, não se interessam pelas coisas pequenas do estilo de vida burguês. Ambos sofrem um pouco de angústia, o que é uma doença do País de Gales, mas no geral são pessoas bem positivas. Meu pai é muito competitivo, ele é muito trabalhador e gosta de estar sempre ocupado. Ele nunca gostou muito de feriados. Ele tentava, mas era óbvio que ele preferia estar em casa desenvolvendo um sistema de ar condicionado para um shopping. Ele nunca conseguia ficar parado. Tomar banho de Sol na praia seria uma indescritível e abominável forma de tortura para meu pai. Por outro lado, minha mãe é bem mais tranqüila e tinha um lado mais preguiçoso, mas de vez em quando a angústa Galês tomava conta e ela perdia a calma. Então, quando éramos crianças, não havia uma atmosfera muito rígida de disciplina, mas ocasionalmente nós passávamos dos limites e havia uma punição severa. No geral, não tinha como sermos mais felizes e apoiados. Minha irmã Gillian nasceu em 1963 em uma casa dominada pelos homens. Demorou um pouco para nos acostumarmos com ela. Eu me senti bem chateado quando ela chegou. Até então eu era a maçã dos olhos da minha mãe, ou pelo menos até minha grande cabeça começar a crescer. Eu não era sempre muito gentil com a Gill, nos primeiros anos eu a aceitava com má vontade. Eu superei isso, e com o passar do tempo começamos a nos entender muito melhor.
Meu irmão e eu nos entendíamos muito bem, além de termos senso de humor e aparência muito similar.
Nós saíamos juntos, criávamos vários tipos de explosivos caseiros, bombas de gasolina, fogueiras...íamos a passeios com nossos amigos em caminhões de entulho emprestados de construções locais, esse tipo de coisa. E se as outras pessoas não nos entendiam, nós entendíamos um ao outro. Nós éramos um pouco difíceis de lidar, mas éramos gentis e amigáveis. Era uma mistura de curiosidade, loucura, falta de controle rígido dos pais, e acesso a um laboratório de química da escola super abastecido que nos levou a esses experimentos, algo para quebrar o tédio dos subúrbios de Dublin na década de 70.
Nossa casa era a clássica dos subúrbios da década de 60, 3 quartos e um banheiro e meio. Meu pai se achava um faz-tudo, e com um pouco de ajuda ele construiu alguns cômodos a mais. Um, no final do jardim era usado como galpão, e mais tarde se tornou o local de ensaio da banda. Era um lugar pequeno, de 3 por 3 metros. Foi lá que um dos primeiros experimentos dos irmãos Evans com uma bomba de gasolina acabou dando errado. Meu irmão ainda tem a cicatriz. O outro cômodo era uma pequena oficina, do lado de fora da casa, cheia de partes e pedaços de aparelhos eletrônicos velhos, pedaços de madeira, latas com pregos, porcas e parafusos. Nós gastávamos horas desmontando ou montando coisas. Meu irmão era um prodígio de eletrônica. Ele construiu uma guitarra muito boa do zero com Barry O’Connell, um amigo do fim da rua, seguindo instruções de uma revista de eletrônica. Essa guitarra foi o auge de união de nossas fascinações: rock e bugigangas eletrônicas.
Tinha muita música na nossa casa. Eu amava ouvir qualquer música que eu pudesse, de qualquer origem. Quando eu tinha 2 anos, minha mãe costumava ligar a televisão para que eu pudesse tocar bateria –agulhas de tricô e latas de biscoito- junto com as músicas. Eu me lembro vividamente do profundo arrepio de ouvir pela primeira vez um coral cantando em perfeita harmonia numa manhã de Domingo numa capela no País de Gales, em uma de nossas peregrinações anuais para lá.
Foi uma experiência religiosa através de música. Infelizmente a nossa igreja em Malahide fez questão de preservar todos os entediantes aspectos do presbiterianismo e, apesar de grandes esforços dos meus pais – uma respeitável contralto e um excelente tenor - e do restante do pequeno porém entusiasmado coral, a música nunca se aproximou. Meu primeiro contato com o rock foi durante um Natal, assistindo o filme ‘A Hard Day’s Night’ dos Beatles na televisão. Eu fiquei muito impressionado e achei que eles fariam sucesso. Isso coincidiu com o meu irmão ter comprado uma pequena vitrola. Começamos a comprar álbuns juntos. O primeiro que compramos foi ‘Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band’ e o segundo foi ‘A Hard Day’s Night’. Eu quis comprar mais um dos álbuns antigos dos Beatles; Richard queria comprar um dos mais recentes. Entramos num empate e concordamos em comprar o recém lançado álbum do Ringo Starr ‘Sentimental Journey’. Foi ai que eu percebi que alguns álbuns são melhores que os outros.
Minha mãe deve ter suspeitado que eu tinha um ouvido para música porque ela comprou uma pequena guitarra espanhola quando eu tinha 7 anos. Para mim, isso foi completamente fascinante. Eu não conseguia tocar, eu nem sabia como segurá-la, mas era tão legal – isso eu sabia. Eu andava com ela e fingia, para os garotos ingênuos da minha rua, que eu conseguia tocar. A primeira guitarra foi para mim um pouco mais que um brinquedo. A primeira guitarra de verdade que entrou em nossa casa foi comprada pela minha mãe em um bazar por uma libra. Nunca na história dos bazares de Malahide uma libra foi tão bem gasta e trouxe tanto em retorno. Eu acho que ela foi comprada para meu irmão, mas nós dois praticávamos por horas. Era difícil, mas ela tocava no ritmo e quando nós trocamos suas cordas enferrujadas por cordas de nylon da guitarra espanhola soava suficientemente decente. Eu aprendi minhas primeiras notas nessa guitarra, ensinadas com eficiência pelo Richard, e logo eu comecei a aprender como tocar músicas inteiras.
Eu me interessei pelo fato de descobrir que podia fazer várias coisas com aquele instrumento e deixei todo mundo em casa maluco tocando o tempo todo, enquanto fazia todos os tipos de outras tarefas. Eu conseguia comer uma torrada e tocar guitarra, me vestir sem errar uma nota. Eu tocava toda noite enquanto o resto da família assistia televisão, era como uma trilha sonora para os filmes mudos. Minha mãe desistiu de gritar para que eu parasse, e costumava me bater com uma vareta. Nem isso adiantava. Eu tinha 12 ou 13 anos nessa época, e a nossa coleção de discos tinha aumentado para incluir álbuns do Slade e Alice Cooper.
Junto com os álbuns dos Beatles compramos uns do Led Zeppelin, Creedence Clearwater Revival, Rolling Stones, Jimi Hendrix, David Bowie, Yes, Rory Gallagher e Taste. Eu descobri Derek and the Dominos enquanto passava um tempo com meus primos mais velhos em Blackpool. É difícil explicar a importância da música para as crianças na nossa área. Não existia nada tão importante em termos de construir sua identidade. Eu tinha altas discussões com meus amigos sobre quem era a melhor banda do mundo, ou qual era o melhor álbum já feito. Os programas de música Top of the Pops e The Old Grey Whistle Test eram considerados imperdíveis. As revistas britânicas NME e Sounds eram lidas na íntegra, cortesia do nosso amigo Fergus Crossan, que trabalhava e podia comprar esses luxos. Nessa época eu comecei a ter aulas de piano, mas não era o que eu queria. Eu não conseguia me interessar por aprender lendo partituras quando podia pegar a guitarra e aprender só de ouvir. Com apenas algumas notas eu conseguia tocar minhas músicas preferidas do Slade, T-Rex e Beatles. A gente se juntava com alguns colegas, Shane e os irmãos O’Connell, e tocar um pouco. A gente se encontrava no final da rua, literalmente parados na esquina com algumas guitarras tocando e cantando músicas dos Beatles, T-rex, Simon and Garfunkel ou qualquer coisa que alguém tivesse aprendido.
Tinham sempre algumas garotas por perto para tornar mais interessante.
Tudo isso era considerado um avanço positivo. Pelo menos não estávamos mais explodindo coisas.
Minha educação primária foi na Escola Nacional St. Andrew’s, uns 5 minutos andando de casa. Meu irmão era bem inteligente e sempre se dava bem. Minha irmã sabia soletrar e era boa em Irlandês. Os professores tinham boas esperanças para ela também, mas eu não era exatamente um super realizador. Eu era incansável e estava sempre fazendo coisas idiotas. Eu estava sentado em uma mesa velha no fundo da sala de aula e demonstrando grande estupidez um dia eu escrevi meu nome em cima. Eu acho que fiquei até impressionado com o talento inesperado de detetive do meu professor quando eu fui imediatamente identificado e punido como o culpado. Eu estudei em St. Andrew’s durante um curto período com o Adam. Ele tinha o cabelo muito curto, usava óculos e tinha os dois dentes da frente muito grandes, como os meus. Adam era um ano e meio mais velho que eu e estava uma série na minha frente, mas eu me lembrava vagamente dele porque Malahide era uma cidade pequena. Depois ele foi transferido para uma escola mais chique. Então ele sumiu do mapa quando eu tinha uns 7 anos e não nos encontramos de novo até ele aparecer em Mount Temple.
Meu melhor amigo Shane estava na minha turma em St. Andrew’s. Eu era um ano mais jovem que o resto da turma e foi decidido no final do ano que eu não tinha idade suficiente para me formar. Shane seguiu em frente para uma escola maior e nós meio que perdemos contato. Eu o encontrei um dia logo depois que ele começou a estudar em Mount Temple e ele me contou sobre esse garoto maluco na turma dele chamado Paul Hewson. Ele parecia dividir o nosso interesse por explosivos: teve uma historia sobre um pequeno incêndio e pedaços de cápsulas de armas retirados do lugar de construção do que ia ser nosso novo colégio. Então eu ouvi falar sobre o Bono alguns anos antes de conhecê-lo. Pode se dizer que a sua reputação o precedia.
Mount Temple era uma grande mudança da pequena escola que eu estava acostumado. Era uma escola grande, multi-denominacional, co-educacional que incluía algumas vizinhanças muito barra pesada. Eu até saia com alguns garotos barra pesada da minha área, mas era um nível de barra pesada muito maior nessa nova escola. Foi minha primeira entrada no grande ‘mundo lá fora’ e algumas lições sobre não julgar as pessoas pela aparência tiveram que ser aprendidas. Os garotos com a aparência barra pesada nem sempre eram os mais barra pesada. Ainda bem que os dentes grandes e a cabeça começaram a balancear naquela época. Eu me encaixava bem, mas por ser um pouco tímido e ter um massivo complexo de superioridade eu penso nos meus primeiros anos em Mount Temple como o ‘período solitário’. Eu descobri que ser solitário e ter um complexo de superioridade funcionam bem porque sua destorcida auto-imagem nunca é contestada por se envolver de qualquer forma com o resto da humanidade. Apesar dos meus instintos solitários eu até fiz alguns bons amigos, principalmente John Lawlor e Stephen Balcombe. Steve era um jogador de futebol talentoso e acabou jogando por algum tempo no Leeds United. O John não era tão empenhado, mas era conhecido por ser uma pessoa muito legal. Eles me convidaram Um dia para o Skerries para assistir um show do Horslips, uma banda de rock muito popular na Irlanda. Foi o primeiro show ao vivo que assisti e foi de tirar o fôlego ver uma banda no palco. David ‘Barney’ era outro dos meus amigos em Mount Temple, ele era um baterista que me disse que tocava em uma banda de garagem. Quando eu fui a casa dele e os vi praticando eu fiquei absolutamente maravilhado. Eu sabia que tinha que entrar para uma banda. Eu senti que tinha encontrado meu nicho. Foi assim que conheci um pouco o Bono. Eu já tocava guitarra há algum tempo e o vi em algum lugar, em um dos recreios, sentado com uma guitarra e um livro de músicas dos Beatles tentando impressionar umas garotas.
Quando elas saíram, nós conversamos um pouco sobre notas e em que ritmos eu sabia tocar. Isso foi no segundo ano. Ele devia ter uns 15 anos e eu uns 14. Não nos demos muito bem, mas eu não pude deixar de observar que eu tocava muito mais que ele e mesmo assim ele era mais popular. Eu fiz uma anotação mental que talvez o jeito que você carrega a guitarra era tão importante quanto o quão bem você sabe tocá-la.
Antes do novo ano na escola, no verão de 1976, minha mãe disse ‘você lembra do Adam Clayton? Ele vai para a sua escola esse ano’. Eu estava procurando pelo Adam e foi literalmente no meio do ano que eu percebi que o hippie estranho que usava um cabelo afro e um casaco Afegão era de fato o garoto com os dentões que eu tinha conhecido quando tinha 7 anos. Eu já o tinha visto, mas pensei que ele estava na série depois da minha porque ele sempre estava atrás do laboratório de ciências com o resto da fraternidade dos fumantes. Era tudo muito boêmio naquela época e muito legal. De qualquer jeito, eu não percebi que ele estava na minha série até depois de formarmos a banda. O Larry eu já tinha visto. Você pode não saber o nome de todas as pessoas na série abaixo da sua, mas eu sabia quem ele era. Então, um dia meu professor de música Albert Bradshaw disse que o Larry Mullen tocava bateria e queria formar uma banda.
Créditos pela tradução: Line.
Bonolocks
23/04/2007, 20h18
Páginas 25 a 27.
Larry Mullen Jr
Eu tenho um passado normal. Meu pai era servidor civil, minha mãe era dona de casa. Eu nasci em 31 de outubro de 1961, o filho do meio de um total de 3. Eu tenho uma irmã mais velha, Cecília. E eu tinha uma irmã mais nova, Mary.
Tudo na minha vida foi bem normal por um tempo. Minha irmã morreu em 1973 e depois minha mãe morreu em 1976. Em algumas formas, esses eventos definiram o tipo de pessoa que eu me tornei. A morte da minha mãe certamente me catapultou em direção a banda.
Nós morávamos na avenida Rosemount em Artane, no norte de Dublin. Foi meu lar até meus vinte e poucos anos. Nada de especial uma casa normal. Minha mãe, quando era mais jovem era uma excelente pianista de concertos. Estranhamente não era uma casa muito musical, ao contrário das casas de alguns amigos meus que eram cheias de música. Eu comecei a ter aulas de piano quando tinha 8 anos. Eu não era muito bom, não tinha uma mente muito voltada para os estudos, e a idéia de ter que estudar escalas e a teoria da música não eram atraentes para mim. Eu queria tocar o piano e descobrir tudo por conta própria.
Meu pai era um disciplinador, assim como todos os pais eram naquela época. Minha mãe era mais calminha, ela sempre cedia as nossas vontades. Mas com meu pai você não podia aprontar, era um relacionamento difícil. Ele ia trabalhar de manhã, talvez te deixasse na escola no caminho e depois ele voltava pra casa às 6 horas, lia o jornal e assistia televisão. Meu pai era bem acadêmico. Ele tinha uma educação muito boa e ele dava muito valor aos estudos. Acho que ele era um pouco desapontado porque eu não era muito voltado para os estudos e não me interessava por esportes também. Ele era um esportista bem sucedido quando era mais jovem. Ele jogava futebol Galeico em um clube muito conhecido no norte de Dublin.
Ele era uma daquelas crianças que sempre foi muito inteligente e esperta e que a única coisa que tinha era seu cérebro e o usava para se dar bem nos estudos e nos esportes. Eu estudava em uma escola irlandesa onde tudo era ensinado pela língua irlandesa. Eu acho que no subconsciente eu estava me rebelando contra meu pai por não fazer as coisas que ele achava que eu devia.
Eu comecei a tocar bateria quando tinha 9 anos. Eu ia para uma escola de música para aprender a tocar piano, mas eu não podia ser considerado um grande sucesso. Em um dia memorável meu professor disse ‘Larry, pare de bater no meu piano’. Ela sugeriu que eu tentasse outro instrumento e eu fiquei muito feliz com isso. Eu estava saindo da aula de piano com a minha mãe e ouvi alguém tocando bateria. Eu disse ‘Você ouviu isso? Eu quero tocar isso!’ Meus pais tinham gasto uma fortuna em aulas de piano, então eles disseram que se eu quisesse aprender a tocar bateria eu teria que pagar pelas aulas. E foi isso que eu fiz. Eu cortava grama e lavava carros e assim ganhei dinheiro suficiente para pagar o primeiro período, graças a Deus meu pai pagou o segundo e terceiro períodos.
Eu nunca tinha me interessado por bateria antes de eu ouvir esse cara tocando. Era um estilo de tocar meio militar e tinha algo naquele som que me despertou interesse. Então eu entrei na turma de bateria do Joe Bonnie. Ele era um baterista das antigas, fazia parte de uma orquestra, tocava em teatros e coisas desse tipo. Ele devia ter uns 60 anos quando o conheci. O que mais me impressionava era quando ele tirava o PAD (não consegui traduzir, presumo que seja alguma coisa que se coloca em cima da bateria para tocá-la sem fazer barulho) da bateria. Normalmente você não podia tocar a bateria porque fazia muito barulho e o prédio não era a prova de som. Em ocasiões especiais ele tirava o PAD.E por coincidência eram nessas ocasiões que eu estava passando por perto. Eu me lembro do som que ele fazia com a bateria e como fazia você se sentir.
Parecia tão não musical em um nível, mas a forma que o Joe tocava parecia tão habilidoso. Eu nunca tinha visto algo parecido, era muito animador.
Então eu comecei as aulas. Eu gostava muito no início, mas depois eu fui enjoando porque eu só podia tocar naquele maldito PAD. Meu pai fez um PAD pra mim, era tipo um pedaço de borracha em cima de um pedaço de madeira e eu praticava com isso em casa. Praticava muito, mas acabei odiando o PAD. E ai eu tive que estudar a teoria da música de novo. Eu odiava, eu não conseguia entender o que isso tinha a ver com bater em algo, não fazia o menor sentido pra mim e tristemente eu desisti de estudar a teoria. Eu me arrependo porque depois me fez muita falta. Foi um erro, mas foi o mesmo que aconteceu com o piano, eu só queria tocar! Eu queria ir pra trás da bateria e tocar, mas eu não podia. Eu tinha que aprender sobre outras coisas e isso me entediava. Então meu professor morreu. A filha dele começou a dar aulas em seu lugar, mas eu tinha perdido o interesse, parei de ir as aulas e comecei a tocar por conta própria. Eu lembro que meu pai perguntou se eu ainda queria tocar e eu disse ‘Sim, mas eu quero tocar numa banda. Eu queria bater fisicamente na bateria’ Ele me sugeriu a banda Artane Boys, e eu me juntei a eles... por 3 semanas. Eu também não gostava muito daquilo, muita coisa pra aprender sobre como ler a música, muito pouco tempo batendo nos instrumentos, então eu perdi o interesse de novo. Eu pensei que entrando para a banda Artane Boys eles te davam uma bateria, te mostravam como tocar e você ia marchar no parque Croke.
Depois teve um problema com a minha aparência, queriam que eu cortasse meu cabelo. Na época meu cabelo estava na altura dos ombros. Eu cortei alguns centímetros e me disseram pra cortar mais. Isso foi a gota d’água pra mim. Eu saí e não voltei nunca mais. Eu acho que meu interesse na época era tocar numa banda do exercito ou me tornar um baterista de teatro.
O único tipo de musica que tocava na rádio na época era musica irlandesa tradicional e country. Mas minha irmã Cecília trazia alguns discos pra casa. Ela gostava dos Stones, David Bowie, Eagles, David Essex e Bruce Springsteen. Eu comecei a ouvir bateristas, olhando na TV, vendo os diferentes tipos de bateristas. Meus pais me levavam pra vários shows para eu observar vários bateristas diferentes. Os discos de Buddy Rich, Gene Krupa e Sandy Nelson começaram a chegar. O meu preferido era o disco do Nelson ‘let there be drums’ (deixe haver baterias) que meu pai comprou pra mim. Eu também me tornei fã de bandas de rock como T-Rex e The glitter band, que tinha 2 bateristas. Eu imitava os bateristas e tentava tocar junto com os discos. Um amigo da minha irmã estava vendendo uma bateria feita por uma empresa de brinquedos japoneses. Eu economizei e economizei dinheiro e no final meu pai ficou com pena e me ajudou. Então compramos essa pequena bateria. Bateria se tornou meu mundo e tomava cada instante do meu dia. Ficava no meu quarto, um quartinho com uma cama e uma bateria. Eu só podia praticar durante certas horas. Não queríamos deixar os vizinhos irritados.
Meu pai me colocou na Post Office (correio) Workers band. Eles tocavam muita música instrumental com percussão. Era muito mais interessante. E tinham garotas na banda, o que era grande parte do meu interesse, porque eu estava começando a descobrir garotas. Então eu ficava tocando que nem um louco tentando impressionar as garotas e esquecia o que eu tinha que tocar. Eu me divertia muito naquela banda. Entramos em competições ao redor do país e íamos a vários eventos. O uniforme nunca ficava bom em mim porque não era feito pra mim, eu usava o de pessoas que tinham largado a banda e tinham o dobro da minha idade e o dobro do meu tamanho. Tinha muita costura acontecendo no lar dos Mullen. Tinha algo muito legal sobre ter uma bateria presa a você enquanto se marchava pela rua. Pelo menos eu pensava assim.
Eu estava prestes a começar a estudar em Mount Temple. Meu pai queria que eu fosse para outras escolas onde eu teria que ser bom nos esportes e nos estudos. Eu fiz prova para duas escolas, mas eu não estava interessado. Não era nem preguiça, era um mundo diferente pra mim. Era o mundo do meu pai, não o meu. E então minha irmã Mary morreu. Ela tinha 9 anos, foi muito traumático para todos. Eu acho que meu pai desistiu de me forçar a fazer o que eu não queria depois disso. Eu fui a Mount Temple, era perto de casa e tinha acabado de ser aberta para o publico geral. Lá não tinha a mesma ênfase em realizações acadêmicas. Eu não era um gênio, mas eu comecei a tirar notas boas em matérias que eu não era bom até então, como matemática, artes e Inglês. Meu pai tinha parado de me forçar, não adiantava mais. Ironicamente, agora que meus próprios filhos estão no colégio eu entendo porque ele sentia a necessidade de me forçar tanto. Ele não estava errado sobre a importância da escola.
Foi meu pai que sugeriu que eu colocasse um aviso na escola para formar uma banda. A gente não se entendia muito, mas acho que no final das contas ele estava me ajudando. ‘O garoto quer tocar bateria, como posso ajudá-lo a sobreviver, porque ele nunca será um neuro-cirurgião’. Eu tinha começado a ter aulas com um baterista de jazz, mas eu estava ficando enjoado, eu queria tocar num abanda de rock. Então meu pai teve a idéia do aviso, foi idéia dele e não minha.
Então eu coloquei o lendário aviso, dizia algo do tipo ‘baterista procura músicos para formar banda’. Eu pensei apenas que seria divertido, não tinha nenhuma esperança e nem grandes idéias. Um amigo meu do colégio, Peter Martin tinha uma guitarra e um amplificador, mas ele não sabia tocar. Peguei emprestado com ele para o ensaio. Ele conhecia Ivan McCormick, que era da classe abaixo da nossa. Ele tinha uma guitarra e aparentemente ele sabia tocar. Ele apareceu no primeiro ensaio.
Depois que eu coloquei o aviso as pessoas perguntaram se eu conhecia o Paul Hewson e diziam que ele sabia tocar guitarra. Eu não o conhecia, mas parecia que todo mundo sabia com o que ele fazia, quem eram seus amigos então não demorou muito para que eu descobrisse com quem eu teria que lidar. Edge e Dick eram praticamente a mesma pessoa, eles gostavam de inventar coisas e tocavam uma guitarra amarela que eles mesmo fizeram, então demorou um tempo pra descobrir quem iria ficar na banda. Eu já conhecia o Adam, ele usava um casaco comprido de pele de carneiro do Afeganistão, ele usava óculos coloridos e fumava. As pessoas me perguntavam se eu conhecia o maluco que usava o casaco do Afeganistão e disseram que ele tinha um baixo. Não importava se ele sabia tocar, o Adam estava na banda e pronto. Então no sábado, 25 de setembro de 1976 esse estranho grupo de pessoas se juntou na minha cozinha. Foi o inicio de tudo.
Créditos pela tradução: Line.
Mysterious girl
23/04/2007, 22h31
:aprovado:
Eu já li esse livro em inglês, mas nada como o nosso idioma... :lol:
Bem pessoal, essa semana finalmente eu recebi meu U2 By U2. Não preciso nem dizer que passei horas babando em cima dele. É realmente um item que todo fã do U2 deve ter, mesmo que demore um pouco para obtê-lo. Foi muito prazeroso observar o registro fotográfico de toda uma história que de certa forma atinge cada um de nós, que somos fãs. Cada um tem sua música preferida, sua fase preferida, seu integrante favorito, mas não podemos deixar de lado cada aspecto dessa história maravilhosa que fez o U2 chegar onde está hoje.
Ao mesmo tempo me veio a frustração acompanhada desse prazer de ter esse livro em mãos. Sou um amante da leitura, mas meu inglês é muito básico. E observar diante de mim um livro como o U2 By U2, tendo nele milhares de linhas a ser degustadas e não poder fazer isso é desanimador. Recorri ao tópico "U2 By U2 - alguns excertos" e me dei conta de que o que está ali não é nem a ponta do iceberg que contém o livro. É grandemente elogiável o trabalho que as meninas estão fazendo de traduzir essa magnífica obra da literatura, tão importante para a história do rock, do próprio U2 e para nós, fãs. Mas o trabalho de tradução não é nada fácil, já que todos têm suas ocupações, suas prioridades.
Então pensei no que poderia ser feito, já que não temos indícios de que teremos uma edição desse livro aqui no Brasil. Existe a versão em português de Portugal. Mas, como muitos tem atestado, importar o livro de Portugal tem sido um processo duro cheio de burocracias e bem custoso, o frete saindo mais caro que o próprio livro.
E agora? Bem, nem tudo está perdido. Trocando altas idéias com a Joanne, nós decidimos nos empenhar num mega projeto. Colocar a disposição nesse tópico todo o conteúdo do livro U2 By U2. Como isso será feito?
A Joanne tem a versão em Português. A idéia inicial seria escanear partes do livro ou fotografá-lo. Eu ficaria com o trabalho de adaptar as expressões para o português do Brasil e digitar então o texto. Fizemos vários testes e acabou não dando certo, infelizmente. Mas a Joanne, como boa fã do U2 que é e empolgada com a idéia de ajudar todos os fãs que não falam inglês, tomou a iniciativa de digitar o texto do U2 By U2 e disponibilizar para nós.
Isso significa que poderemos fazer um trabalho mais rápido do que se fôssemos traduzir tudo. O meu serviço será apenas o de adaptar as expressões para o português/Brasil. Sendo assim os méritos deixo todos para ela, que terá esse enorme trabalho.
É claro que alguns poderão argumentar que não é a mesma coisa que traduzir diretamente do original e que se poderia perder a força de algumas expressões. Estamos conscientes disso. Mas achamos que será melhor do que nada. Entra aí o papel daqueles que falam inglês e quiserem nos ajudar em ajustar o que for necessário. Toda ajuda é bem vinda. Faremos a devida edição dos trechos, se isso for necessário.
Também quem quiser contribuir com traduções de trechos do livro sinta-se a vontade. Mas a idéia é não colocar partes do livro a esmo no tópico. Isso será feito para que possamos ter um tópico bem organizado. Vamos disponibilizar os textos em ordem de páginas, exatamente como está no U2 By U2. Então se alguém também estiver disposto a contribuir, o que seria ótimo, é só me mandar uma MP perguntando que página poderia traduzir, já que eu estarei a par do que será postado nos tópicos. E só quando chegar no número da página correspondente é que o texto traduzido será postado. Contamos com a colaboração de todos. (Naturalmente, comentários sobre os textos postados poderão ser feitos sem nenhum problema).
Já temos algumas páginas prontas e é claro vou aproveitar alguns textos já traduzidos pela Line que foi disponibilizado no "U2 By U2 - Alguns Excertos".
Vamos ficar ansiosos para poder ler toda essa história tão cativante. Mas teremos o bom senso de aguardar calmamente as informações que dependerão exclusivamente das circunstâncias da Joanne. Ela já assegurou que fará o máximo cada dia para digitar pelo menos um pouco de cada vez e a idéia nossa é postar os textos por página, com exceção do início que já temos pronto.
Então o próximo post já será o início de tudo.
Esperamos que apreciem!
NÃO SEI O QUE FALAR
TO PASMA
QUE COISA LINDA VC ESTÁ FAZENDO
NÃO EXISTE PALAVRAS
PARA ISSO
:D ;) :assobio: :aprovado: :aprovado: :D :lol: ;) :assobio: :aprovado: :assobio: :assobio:
COMO É BOM TER AMIGOS COMO VC
UMA JOIA RARA DIFICIL DE SE ACHAR
ADOREI A IDEIA E VOU VER O QUE CONSIGO AJUDAR
RSRSR
BJS
Sô Hewson
24/04/2007, 01h03
Cris, Line e Joanne: obrigada pela disposição, boa vontade e espírito de companheirismo para com todos nós aqui do fórum!!! :aprovado: Valeu mesmo!!!;)
Lorelai Gilmore
24/04/2007, 02h32
Muito obrigada! Parabéns pela belíssima iniciativa, e pela generosidade que todo verdadeiro fã do U2 deve ter!!!! :aprovado:
Bonolocks
24/04/2007, 07h54
Obrigado mais uma vez pelo incentivo, turma! Vocês é que são demaaaaisss!!! :aprovado: Todo fã do U2 merece ler essa obra prima da literatura musical. E palmas prá Line, Joanne e Juliana Oliveira, que estão trabalhando a todo vapor. A Juliana já me mandou mais páginas. Logo logo teremos mais dessas histórias emocionates prá ler.;) :aprovado:
Nuna_Vox_Hewson_
24/04/2007, 12h42
:aprovado: cris .. ainda bem que me passou isso pelo msn.. senao nunca teria :aprovado: vistooo,... MT BOA A IDEIA VIU???!!!
PARABENS PRA MINHA TWIN TBM.. JOOOOO...
parabens pros 2...
AMO VCS...:lol:
JuHewsonBand
24/04/2007, 15h11
gente...meus parabéns de coração!!!!
Bonolocks
24/04/2007, 19h26
Mais uma vez obrigado turma!!! Temos boas notícias: mais um colaborador que vai nos ajudar traduzindo partes do livro, o João Filardi. E o U2 By U2 em português será divulgado também no U2br.:aprovado:
http://www.u2br.com/index.php?op=NEArticle&sid=959
Mlpangelina
24/04/2007, 19h47
WOW! Parabéns pra quem se dispos a fazer esse trabalho humanitário! Eu tô com o meu, em ingles aqui, e não tô lendo...tô decodificando ele pq meu ingles é basicão. Tenho ele há umas semanas, mas inda nem cheguei a página 30 :chorando: Pra quem não pode comprar/tem o ingles péssimo é um ótima isso q vcs tão fazendo!! Parabéns!
Violet U2
24/04/2007, 20h47
Mais uma vez obrigado turma!!! Temos boas notícias: mais um colaborador que vai nos ajudar traduzindo partes do livro, o João Filardi. E o U2 By U2 em português será divulgado também no U2br.:aprovado:
http://www.u2br.com/index.php?op=NEArticle&sid=959
já está sendo divulgado e agradeço mto a vc e a Joane por permitirem isso e podem contar comigo p/ eventuais dúvidas, né Cris? :lol:
será um prazer ajudar no que for possível :aprovado:
Bonolocks
24/04/2007, 23h39
Páginas 28 a 49
ANOTHER
TIME
ANOTHER
PLACE
1976-1978
__________________________________________________
Páginas 29 e 30
Adam
No Verão antes de ir para a Mout Temple, passei algum tempo no Paquistão com um colega de escola e descobri o haxixe, o Bob Marley e andei por aí. Também deve ter havido alguns momentos de bebedeira.
Estava na casa do meu grande amigo Gordon Petherbridge, filho do embaixador americano no Paquistão e Afeganistão, e ele tinha deixado de estudar por razões semelhantes às minhas e estava na escola internacional no Paquistão.
Quando saí do Columba’s College desonrado, em vez de passar o verão em casa cheio de pena de mim, ele convidou-me para ir ao Paquistão. Fiquei lá cerca de um mês e, entretanto, ficamos uma semana em Cabul, pois fazia parte do percurso hippy. Houve, portanto, toda uma educação que passou pela compra de casacos afegãos, de roupa de algodão finíssimo e por tomar chá com os habitantes. Fumava-se muito haxixe, o que me ligou à música que costumava a ouvir e me ajudou a perceber quem eu era. Quando cheguei à Mount Temple, o espírito de rebeldia invadia-me e devo ter pensado que o ataque era a melhor forma de defesa: se eu entrasse com firmeza talvez ninguém se metesse comigo.
Com o meu passado e as minhas experiências, uma escola secundária no Norte de Dublin não era lugar onde me sentisse confortável. Cheguei no meio do ano e, por isso, precisava de me agarrar a tudo quanto pudesse. Tinha o meu casaco afegão, óculos de sol espelhados e andava sempre com um frasco de café. Achava as aulas bastante aborrecidas e puxar do almoço ou beber um café na sala era uma forma de protesto. Era uma forma de não estar presente. Havia poucas probabilidades de, subitamente, começar a interessar-me pelas aulas, por isso, foi muito difícil assentar. Aproximei-me dos fumantes, que se tornaram a minha comunidade: comecei a fumar cigarros e haxixe.
Duas ou três semanas depois de iniciar o primeiro período, ouvi dizer que o Larry Mullen tinha posto um aviso dizendo que queria formar uma banda. A minha única qualificação consistia no fato de eu ter um baixo, mas já foi o suficiente para ser convidado para o primeiro encontro na cozinha do Larry.
Bono: Foi o meu amigo Reggie Manuel, o “Bad Dog”, que me convenceu a ir àquela primeira reunião. Ele acreditou em mim de uma forma que me parece incompreensível. Quando todos diziam que eu devia ser vendedor ambulante, ele dizia: “Não. Você deve fazer outra coisa e esta pode ser a sua oportunidade.” E eu disse que não faria aquilo, que não poderia de maneira alguma andar com aquela gente, porque eles não eram legais. E nunca teria ido, pois me encontrava numa fase de auto-consciência na minha adolescência. Tinha perdido toda a confiança em mim mesmo. Mas o Bad Dog disse: “acho mesmo que você devia ir. Eu te levo lá” E assim fez. Apareci na casa do Larry, em Artane, sentado atrás na moto do Reggie. Acho que nem sequer levei a guitarra, porque não conseguia transportá-la na moto. Mas isso não queria dizer, de forma alguma, que eu iria cantar. Naquela altura, eu gostava era de guitarras. Devo ter achado que desenrascava com facilidade, que podia usar a guitarra de outro qualquer. Tinha de me armar em grande estilo e tentar causar boa impressão. Tinha ensaiado um pouco do solo ‘Abraxas’, do Santana. Pelo menos, pensava que seria capaz de o tocar até que o Edge o tocou e me soou bem diferente.
Edge: Um dos professores de música disse-me que um jovem queria formar uma banda. E eu pensei: “Boa, pode ser legal. Se vai começar outra banda de garagem, talvez seja melhor tocar com eles do que tentar começar a minha própria banda”. Resolvi aparecer com o meu irmão e estava lá o Adam e depois chegou o Paul com mais alguns. Nessa altura, já o meu irmão tinha saído da escola e fazíamos música juntos. Éramos uma espécie de duo. Levamos a guitarra amarela Flying V que o Dick tinha construído no barracão do jardim. Era um aparelho muito primitivo e simples, mas fazia barulho e isso é que era importante.
Adam: Lembro-me de ter conhecido o David e o Dick com a guitarra amarela deles. Foi interessante. Nenhum deles queria dividir a guitarra, pareciam combinados. Para mim, foi um bocado assustador. Eu tinha vivido muito isolado até aos 16 anos. Não estava habituado a andar de ônibus, por isso, ir a casa de alguém assim foi algo de extraordinário. Lembro-me que os pais do Larry e a irmã, a Cecília, estavam lá e que ele tinha a bateria montada na cozinha. Não percebi se era o Larry ou os pais dele que nos estavam avaliando.
Bono: O Larry foi incrível, pois sabia tocar bateria muito bem e o som era fantástico. Quer dizer, tocar bateria na cozinha é como cantar no chuveiro. A bateria mal cabia na cozinha. Nem sei como é que coubemos todos lá. Achei que o Edge tinha uma cabeça extraordinária – parecia um índio Apache. Já o tinha ouvido tocar, pois ele era da turma da Ali. Já sabia que ele tocava muito bem. A única coisa que me soava melhor do que a moto do Reggie Manuel era um power chord de uma guitarra elétrica. Quando o Edge abriu o regulador, fez imenso barulho. O Adam estava lá e foi tudo fantástico. Não sei se tocava bem, mas tinha estilo.
Adam: Não tocamos muito, estivemos mais conversando. Acho que o Bono nem sequer levou a guitarra, mas isso não o impediu de assumir a liderança.
Larry: Durante cerca de dez minutos, foi a banda de Larry Mullen, para proteger meu ego. Além disso, estávamos na minha cozinha. Depois, apareceu o Bono e estragou tudo. Basicamente destruiu a minha oportunidade de ser líder.
Bono: O Larry parecia muito novo, mas provocava muito entusiasmo. Já nessa altura, no meio dos ensaios, havia gritos e garotas tentando trepar no muro do jardim. Lembro-me de ele fazer uma coisa curiosa – vou apontar a mangueira contra elas! O que, aliás continua fazendo. Era do tipo: “Vão embora! Temos coisas importantes prá fazer.”
Edge: Não tivemos um começo lá muito promissor. Conversamos muito, éramos um grupo de pessoas tocando músicas que mal conhecíamos para tentar impressionar-nos mutuamente, na tentativa de perceber se tínhamos gostos musicais semelhantes. Era tudo muito primitivo, mas acho que conseguimos encontrar alguns pontos comuns. Todos gostavam do T. Rex e do Bowie. Eu devo ter tocado um tanto mal a música do Rory Gallagher e o Larry não ficou lá muito impressionado. Houve também quem tocasse a música dos Eagles, pois era um grande sucesso naquela altura.
Bono: O Edge gostava dos Taste, o grupo de Rory Gallagher. Naquela altura, eu costumava ouvir os Beach Boys e algumas músicas de Rock’n’Roll. Isso eu conseguia tocar, eram coisas simples de 12 compassos. O Larry gostava dos Eagles, tal como a irmã.
Edge: Lembro-me de ter pensado que gostava de todos ali, que era o mais importante. Achava que eram todos legais.
Larry: Eu não os conhecia nem eles me conheciam. Nunca me tinha passado pela cabeça enfiar quatro ou cinco estranhos num espaço para tocar música. Agora, tudo parecia possível. Quando terminamos o ensaio, agendamos logo um segundo ensaio.
Adam: A estratégia era encontrar uma sala para ensaiar na escola. Acho que era uma forma de nos tornarmos conhecidos na escola, de fazer com que todos soubessem que tocávamos numa banda.
Larry: Mr. McKenzie, o nosso professor de música na Mount Temples, deixava-nos ensaiar na sala dele às quartas-feiras, à tarde. Donald Moxham, um dos professores de História e bom amigo nosso, contribuía para que a escola nos apoiasse.
Adam: Às quartas-feiras só tínhamos aulas de manhã na Mount Temple, por isso, podíamos ensaiar na parte da tarde. Acho que todos tinham um pouco que fazer e, assim, foi mais fácil nos organizarmos. Os primeiros ensaios foram uma pêra doce. Havia muito entusiasmo. Havia instrumentos com remendos. Costumávamos pedir guitarras emprestadas e até as roubávamos. O Peter Martin foi posto de lado quase desde o início. Tinha uma guitarra e um amplificador, mas não sabia tocar e pertencia a um grupo etário diferente, assim, como o Ivan McCormick. Mas o Ivan ainda ficou conosco algumas semanas.
Edge: Eu e o Larry sabíamos tocar umas coisas, tal como o Ivan, mas o Adam não tocava nada, apenas fingia que tocava. No entanto, como tinha um baixo, não tínhamos dúvidas que iria ser o nosso baixista. O Bono nem sequer tinha guitarra, mas achava-se o guitarrista principal.
Larry: Foi óbvio desde o início que o Bono ia ser o cantor, não porque tivesse uma voz excelente, mas sim porque não tinha guitarra, amplificador nem transporte. Que mais é que podia ser? Ele achava que era um guitarrista, mas, sem ter um equipamento necessário, isso era impossível. Conseguia dedilhar umas coisas, mas não era guitarrista e podemos afirmar que continua a não ser.
Bono: Eu sabia uns acordes, sabia tocar algumas músicas. Não sei quando surgiu a idéia de querer cantar. Toda a vida gostei de cantar, mas não me lembro de ter falado nisso.
Edge: Ninguém queria cantar, pois isso seria nos expor demais e deixava-nos vulneráveis. Eu, pelo menos, nunca me senti à vontade para me chegar à frente e cantar.
Adam: Naquela altura, o Bono ainda não sabia se ia tocar guitarra ou cantar. Tanto quanto me lembro, nem sequer tínhamos microfones. Tínhamos duas guitarras, um baixo, uma bateria e metade de um amplificador que todos usávamos.
Edge: Era preciso estar constantemente afinando os instrumentos, pois não tínhamos muito cuidado com as guitarras, as cordas eram muito velhas e, naquele tempo, não havia afinadores eletrônicos. Por isso, tocávamos durante dois minutos e depois passávamos entre 15 e 45 minutos afinando. O progresso foi lento e durante bastante tempo tentamos, sem grande sucesso, tocar uma música, qualquer uma, do princípio ao fim. Visto agora, era bastante ridículo, mas nós nos achávamos o máximo.
Adam: Era caótico.
Larry: Todos davam sugestões sobre músicas das quais nunca sequer tinha ouvido falar. Eu limitava-me a acompanhá-los a tocar. Lembro-me de um aluno da turma do Bono, um daqueles tipos bonitos com um casaco de sarja, ter aparecido no ensaio e ter ficado nos ouvindo um tempo. Depois, perguntou: “O que estão tocando?” Ele estava, obviamente, tendo dificuldades em perceber. Quando lhe explicamos, ele disse: “Não tem nada a ver! A bateria está totalmente trocada!” Houve um lento reconhecimento de que se vamos tocar uma música, talvez fosse boa idéia aprender a tocá-la primeiro. Nunca conseguimos interiorizar isso.
Edge: Estávamos aprendendo a tocar juntos – não sabíamos de todo o que fazer. Havia alguns lampejos de talento, mas era muito difícil descobri-los no meio de tamanha falta de experiência, coordenação e de tudo o mais.
Larry: A primeira coisa a fazer foi arranjar um nome para a banda. ‘Feedback’. Um nome terrível. Falem com o Edge.
Edge: Era dos únicos termos técnicos que conhecíamos naquela altura. Lembro-me de o Adam ter mencionado como quem não quer a coisa, a palavra ‘gig’ (atuação), o que nos levou a pensar que ele sabia o que estava fazendo e que sabia tocar baixo. O Adam conhecia alguma gíria e já falava com grande confiança de ‘PA’s’ e ‘mesas de mistura’. Até que alguém, provavelmente o Adam, mencionou o termo ‘Feedback’. Acho que acabou por pegar, pois havia muito disso nos nossos primeiros ensaios. Parecia adequado.
Adam: O nome ‘Feedback’ parecia ligado ao rock. Nem sei quem o sugeriu.
Bono: Culpado, meritíssimo.
Edge: Não demorou muito até a banda começar a se unir em torno das pessoas que pareciam mais adequadas juntas. Eram elas, os quatro futuros U2 e o meu irmão Dick. Ele era tão bom guitarrista quanto eu, talvez um pouco mais excêntrico, mas um guitarrista muito completo, à sua maneira. Mas, após algum tempo, começou a notar-se que fazíamos mais sentido como grupo de quatro elementos. O Larry percebeu isso instintivamente, quase desde o início. Veio ter comigo ao corredor e me perguntou: “O Dick faz parte da banda?” E eu respondi-lhe: “Faz. Acho que sim. Mas por quê?” E ele retorquiu: “Não sei. Era só para saber. É que ele não anda na escola e é um pouco estranho, você não acha?”
Adam: No final do trimestre, teria uma mostra de talentos no ginásio da escola e decidimos estrear nessa ocasião. Nos dedicamos então a trabalhar para esse concerto.
Larry: Acho que só tínhamos duas músicas, era esse o nosso repertório. ‘Show Me The Way’ do Peter Frampton e, como piada, ‘Bye Bye Baby’ dos Bay City Rollers.
Edge: Na verdade, sentia-me envergonhado por estar tocando ‘Show Me The Way’. E senti-me tão envergonhado por tocar ‘Bye Bye Baby’, que consegui não pensar nisso até hoje. Mas, para dizer a verdade, acho que eram as únicas músicas que sabíamos tocar até o fim. Por muito que quiséssemos tocar ‘Blister on the Moon’ do Rory Gallagher, ou outra música um pouco mais credível que experimentássemos nos ensaios, isso ia ser impossível. Não éramos capazes. Estas duas músicas eram tão simples que até nós as conseguíamos tocar.
Larry: Lembro-me de ensaiarmos ‘Show Me The Way’. Sempre achei que tinha sido idéia do Bono. A letra tinha tudo a ver com ele.
(Continua...)
Créditos: Joanne.
Bonolocks
24/04/2007, 23h45
(Continuação)
Páginas 31 e 32
Bono: Lembro de tentar fazer uns números ao estilo rock e não ser capaz de cantar, a minha voz não soava muito bem. O Adam era um grande admirador do Peter Frampton e tocou a musica “I want you, show me the way”. E a minha voz, fossem quais fossem os acordes, conseguia cantá-la, conseguia cantá-la muito bem até. Por isso, foi estranho descobrir que afinal tinha voz, num determinado contexto. Mas, por causa de tudo o que se estava passando comigo, transformei esta musica pop numa oração. Foi assim que a cantei. Não a cantei para uma garota. Quer dizer, ao olhar para trás penso: “Como é que aquilo aconteceu?” Começava a utilizar a música para exprimir o que realmente sentia, mas servindo-me de uma qualquer musica pop velha. Mas, é claro, não existem musicas pop velhas. São músicas espantosas. A mais simples musica pop pode tornar-se uma obra-prima se for sentida.
Conheci o Peter Frampton em 2003, num acontecimento sobre a Aids, numa clinica para doentes de HIV nos arredores de Chicago. Havia muitas pessoas de comunidades e ambientes diferentes e estava ali aquele tipo trabalhando com elas, um homem absolutamente simples. Não estou falando de uma celebridade que aparece em um lugar qualquer, mas de alguém que arregaça as mangas e põe as mãos na massa. Há quem diga que o Peter Frampton desapareceu da face da terra. Mas, afinal, não desapareceu. Vive na face da terra com uma finalidade muito concreta, a de trabalhar com pessoas que perderam toda a esperança. Foi lindo. E disse-lhe que tinha descoberto a minha voz em uma música dele.
Edge: Acho que os Bay City Rollers foram uma sugestão do Larry.
Larry: Vivíamos brincando. Fazíamos aquilo para passar um bom bocado.
Bono: Achávamos tudo realmente muito divertido. Durante os ensaios tivemos a idéia de dar uma mijada por ali mesmo, pois as garotas costumavam passar enquanto nós ensaiávamos e encostavam a cara na porta. Fazíamos aquilo só para fazê-las rir. Elas começavam a gritar, pois aquilo era uma loucura naquele tempo.
Adam: A atuação foi durante o dia, não havia luzes. Tocávamos em cima de umas mesas colocadas no ginásio. Éramos só nós quatro. O Dick estava em aulas.
Larry: Havia muito entusiasmo e muitos nervos misturados. Eu estava muito consciente. Tinha medo que fôssemos um fracasso. Como é que iria suportar piadinhas dos meus colegas?
Bono: Subimos no palco. Eu estava tocando guitarra e quando ouvi aquele acorde em ré comecei a levitar. Quando ouvi aquele som daquele acorde a ecoar por entre as paredes, senti que tinha ganhado o meu passaporte de liberdade. A audiência delirou! Não interessa o que estávamos tocando, isso não é importante. Eu estava cantando, era uma sensação de libertação. Foi um concerto muito especial.
Edge: O que me surpreendeu foi estar ali tocando “Show me the way” que era na verdade uma melodia muito simples e, de repente, ter acontecido qualquer coisa, sobretudo na cabeça do Bono como artista. Toda aquela excitação de estar em palco e a reação das pessoas que estavam nos vendo.
Houve ali qualquer coisa que realmente funcionou, pois, mesmo a banda sendo um zero a esquerda, quando começamos a tocar, o nosso espírito soltou-se de uma forma muito visceral e primitiva. Se o vírus da atuação é contagioso, não há dúvidas que o pegamos naquele dia.
Bono: Foi um verdadeiro sentimento de libertação. Foi como mergulhar no mar e descobrir que sabe nadar.
Larry: Lembro de ter olhado para o publico e de ver o pessoal levantando e batendo palmas. Até alguns professores ficaram lá. Tive uma sensação de alivio. E depois ao tocar Bye Bye Baby, pensei: “É capaz de estarmos estragando tudo”.
Adam: A atuação acabou num instante, o que pode ter estado relacionado com o medo e nervosismo de estar em palco. Mas foi um delírio, uma enorme injeção de adrenalina. Durante aqueles dez minutos se abriu todo um mundo novo cheio de possibilidades. Senti uma enorme sensação de poder, por estar em frente a um público e perceber que se estabeleceu uma ligação, como se algo tivesse disparado, uma energia. Na altura, me pareceu que tinha havido uma revolta – e é capaz de ter havido mesmo.
Larry: Depois disso, acho que nos tornamos uma banda, conseguimos finalmente tocar um público sem nos desgraçarmos completamente. Foi como se minha identidade tivesse mudado. Já não era o cara loiro que andava pelos corredores, era agora o cara da banda.
Bono: Tudo mudou para mim, pois agora já sabia o que queria fazer para o resto da vida. Estava ali o que procurava. E aconteceu tudo tão depressa. De repente, tem-se uma razão de ser. Senti um alivio enorme e achei que não fazia diferença se tomasse pau nos exames. Eu andava com pessoas muito inteligentes, por isso não contava tomar pau. Os meus amigos iam todos para a universidade. Eu ainda precisava me esforçar um bocado para chegar lá, mas, no fundo sabia que nunca o faria. Era isto que eu ia seguir. Tudo se tornou mais simples, já via as coisas com clareza.
Larry: Se perguntassem ao Bono, ao Edge e ao Adam como é que eles se sentiram, eles teriam respondido que aquele momento mudou a forma como encaravam o futuro. A música e a banda eram tudo para eles. Eu não pensava assim. Era um rapaz envergonhado de 14 anos, que ainda não se tinha debruçado sobre diversas coisas, quanto mais sobre a banda e o futuro. Só sabia é que aquilo era muito mais divertido do que tocar sozinho no quarto.
Adam: Naquela altura, o Bono era, sem dúvida, o mais misterioso. Eu e o Edge íamos e vínhamos juntos dos ensaios, por isso, começávamos a nos conhecer melhor e passar mais tempo juntos. A mãe e o pai do Larry deixavam a bateria na escola, nos encontrávamos com eles e dávamos dois dedos de conversa. O Larry era um pouquinho mais novo, mas era o baterista, por isso, montava o seu material e sabíamos que podíamos contar com ele. Quanto ao Bono nunca se sabia quando ele iria aparecer. Algumas vezes vinha de moto ou o Guggi o trazia de carro, outras vezes metia-se em um ônibus se tivesse dinheiro. Fazia sempre uma entrada grandiosa. Às vezes tinha guitarra outras vezes não. Acho que naquela altura todos nos arranjávamos com o que tínhamos.
O Edge tinha um combo (amplificador com alto falantes) feito em casa e eu comprei uma cabeça de amplificador Marshall onde podíamos ligar tudo.
Compramos um microfone para o Bono poder cantar. Íamos avançando aos poucos. Mas em relação ao Bono, sempre soube que ele tinha outra vida lá fora. Tinha uma vida acadêmica, onde fazia obviamente parte de um núcleo de muitas pessoas e depois tinha outra vida em Cedarwood com o Gavin e o Guggi, que estiveram ligados aos Lypton Village e aos Virgin Prunes. Não sei, realmente, até que ponto o Bono tinha uma forma abrangente de ver as coisas, mas não há duvida de que tinha energia.
Edge: O Bono era uma grande personalidade, mas sabia que ele gostava de arriscar, por isso, de certo modo, me impressionava. No entanto, por outro lado, sabia que nem sempre podíamos contar com ele. Mas não havia problema. Quando percebi com quem estávamos lidando, deixei de me preocupar. Achei que todos estávamos arriscando, em maior ou menor grau.
Larry: Fui sempre o bebê e era tratado como tal. Eles estavam sempre de olho em mim. Não era muito mais novo do que eles, mas, no que diz respeito a conhecer bem a vida e ser experiente, eu era bastante ingênuo. Andava uns anos atrás e continuava e me esforçar academicamente. Mas conseguia marcar um ritmo e isso já era uma ajuda. Para mim era um pouco estranho conviver com pessoas mais velhas e mais avançadas do que eu. Todas as pessoas conheciam o Bono. Ele era muito popular e ativo na escola. Também conheciam o Adam por razões diferentes: bebia café nas aulas, vestia-se de forma invulgar e, regra geral, era um pouco excêntrico. O Edge era um dos crânios, destinado a ir para a universidade. No início me sentia intimidado, mas estava cheio de vontade de aprender.
Edge: Eu achava o máximo pertencer a uma banda, Na verdade não havia nenhuma outra razão para tocarmos juntos, pois não havia indícios de qualquer talento individual notório. Éramos a pior banda do mundo, tocando versões de outros. Nos ensaios acabávamos sempre por interromper as músicas, porque alguém estava tocando mal. Nunca conseguíamos levar nada até o fim.
Adam: Chegamos à conclusão de que não conseguíamos melhorar ensaiando apenas uma hora por semana e começamos a ensaiar também aos sábados. Foi uma grande mudança, porque todos tínhamos que abdicar de algum tempo livre para ir a escola ao sábado. Demos um passo em frente para outro nível. Entretanto atuamos em uma discoteca em St Fintain, numa escola em Sutton, no norte de Dublin. Iam atuar lá algumas bandas. Foi durante as férias da páscoa de 1977 e os meus pais iam para fora, por isso, ensaiávamos em minha casa.
Bono: Adam vivia no que eu considerava um palácio, em Malahide. Eu achava que era o bangalô mais bonito que já tinha visto e estava sempre impecável. A mãe dele era muito atraente, lembro de vê-la depois de sair do chuveiro, passando por nós embrulhada em uma toalha. Era bronzeada, loira e eu pensei: “Uau! É a tua mãe?”. Foi um daqueles momentos. Entretanto, eles foram passar uns dias fora e nós fomos todos para lá.
(Continua...)
Créditos: Juliana Oliveira.
Vertigo Man
24/04/2007, 23h53
Parabéns pela iniciativa :aprovado:
Assim como todos estou emocionado por esse trabalho de vcs.
Mais uma vez Parabéns e Muito Obrigado.
Maravilha de trabalho, :aprovado: só me falta o tempo pra acompanhar agora :)
JulianaSP
25/04/2007, 10h02
Obrigado mais uma vez pelo incentivo, turma! Vocês é que são demaaaaisss!!! :aprovado: Todo fã do U2 merece ler essa obra prima da literatura musical. E palmas prá Line, Joanne e Juliana Oliveira, que estão trabalhando a todo vapor. A Juliana já me mandou mais páginas. Logo logo teremos mais dessas histórias emocionates prá ler.;) :aprovado:
Muito obrigada ;-)))
Estou muitoooo feliz em participar !!!
http://www.ultraviolet-u2.com/foruns/images/uv/misc/progress.gif
Adri Soul Love
25/04/2007, 11h54
É incrível, depois de ler fecho os olhos e consigo imaginar tudo acontecendo, os rostos jovens e as expressões diante dos fracassos e das vitórias.
E o Bono, não consigo imaginar ele de outra maneira na banda, toda aquela energia tinha que ser libertada e a melhor maneira mesmo é gritar seus sentimentos pra todos ouvirem! Eu amo a maneira como ele faz isso!!!:wub:
Brigadu pelas traduções...:abraço:
Bonolocks
25/04/2007, 12h12
É incrível, depois de ler fecho os olhos e consigo imaginar tudo acontecendo, os rostos jovens e as expressões diante dos fracassos e das vitórias.
E o Bono, não consigo imaginar ele de outra maneira na banda, toda aquela energia tinha que ser libertada e a melhor maneira mesmo é gritar seus sentimentos pra todos ouvirem! Eu amo a maneira como ele faz isso!!!:wub:
Brigadu pelas traduções...:abraço:
Adri, sabe que eu tenho o mesmo sentimento? Parece até que tô vivendo naquela época, estudando na Mout Temple, vivendo no mesmo bairro que eles e vendo tudo aquilo acontecer. Você também expressou muito bem o que o ponto de vista relacionado com o Bonão. Muuuito bommmm!!!!:aprovado:
Mysterious girl
25/04/2007, 13h16
Não canso de parabenizar vocês todos... :D Belo trabalho!!!! :aprovado:
Marcinha nr 1
25/04/2007, 13h45
Parabéns pela iniciativa :aprovado:
Assim como todos estou emocionado por esse trabalho de vcs.
Mais uma vez Parabéns e Muito Obrigado.
Vcs são D+++++++++++++++
Bonolocks
25/04/2007, 13h56
Muito obrigado galera! É muito bom sabermos que estão apreciando.:aprovado:
Aí vai mais uma parte:
(Continuação)
Páginas 34 e 35 (página 33 – foto)
Larry: O Adam tinha um estilo original. Inventava sempre cenas muito doidas.Conseguia tocar em contratempo dentro do ritmo durante muito tempo. Era extraordinário. É isso que faz dele o grande baixista que é. Não é nenhum virtuoso, mas é um músico bastante inovador. E isso se deve a sua incapacidade, que é não ser capaz de tocar de forma perfeita dentro do ritmo. Eu também não sou um virtuoso, a minha afinação graças a Deus é boa. Se não fosse estaríamos metidos em uma grande encrenca.O Adam juntou-se à banda porque tinha um grande casaco afegão, um óculos cheio de estilo, um baixo, e uma cabeleira enorme e encaracolada. Se ele sabia tocar? Não me interessava. Tinha um aspecto legal.Era isso que importava.
Edge: Havia uma discrepância evidente entre aquilo que podemos chamar de aptidão musical entre os membros, mas não tinha importância, porque éramos todos uma grande porcaria. Num dos ensaios o Bono quase desesperado, pediu a sua amiga Maeve O’ Regan para nos ouvir e tentar perceber qual era o nosso problema. Ela assistiu ao ensaio e resumiu assim o problema: “O Larry é muito bom, o David toca bem, mas o Adam não sabe o que esta fazendo, não tem nenhuma noção dos tempos ou de afinação”. Nós próprios não tínhamos conhecimentos suficientes para nos apercebermos daquilo, mas ela topou logo tudo. Em condições normais, isso teria sido uma granada para as maiorias dos grupos, mas não para nós. O que faltava ao Adam em termos de talento natural, era compensado por sua vontade e dedicação. Nunca pensamos na hipótese de procurar um baixista melhor, pois éramos uma banda. Uma banda de aventureiros, mas uma banda.
Adam: Eu era afortunadamente ignorante e não fazia idéia de como sabia pouco. Abençoada ignorância! Acho que esse estado de graça se manteve até o nosso primeiro disco, talvez mesmo até o segundo. Depois disso, a falta de habilidade e de técnica começou a fazer falta. Naquela altura levava aquilo na brincadeira, tudo me parecia fácil e eu era o máximo. É formidável ler que, em bandas seminais como os Beatles ou os Stones, os membros do grupo eram músicos moldados antes de formarem a banda e serem compositores. Eles sabiam mesmo o que estavam fazendo, a nossa situação era completamente diferente. Durante os ensaios, nunca conseguíamos tocar uma música até o fim, por isso, quando começávamos a tocar em público, não sabíamos como é que ela devia terminar. Acho que o Larry era provavelmente o mais disciplinado, mas ainda assim muito louco. Tinha, pelo menos, uma noção de início, meio e fim. Talvez o Edge também, mas acho que se concentrava de tal maneira nos sons e não se concentrava devidamente na estrutura da música. O Bono nunca sabia as letras. Tínhamos problemas de afinação. Todos nós dávamos o nosso melhor, mas de uma forma indisciplinada e imatura.
Edge: Em Saint Fintan, já tínhamos um repertório um pouco mais vasto. Mas, lembrei-me, num momento de pânico uns vinte minutos antes do início do espetáculo, que nunca tínhamos conseguido tocar nenhuma música até o fim, por isso, não havia final. Nunca levamos nada até o fim. Lembro de estar sentado nuns degraus tentando convencer o Larry e o Adam a terminar algumas músicas.
Bono: Não éramos lá muito bons. E acho que continuamos sem o ser durante bastante tempo.
Edge: O Bono levou duas moças, a Orla Dunne e a Stella McCormick. Deve ter achado que isso ia avivar um pouco o nosso som.
Adam: O Bono decidiu que a banda precisava de um coro sexy.
Bono: Eu achava que a banda precisava de sexo! Acho que foi isso. Elas eram da minha turma na Mount Temple, cantavam no coro e eram as duas um pouco hippies. Era muito sensual, ambas cantavam e a Orla ainda tocava flauta. Na banda, cada um escolhia o seu próprio material. O Adam escolheu os Eagles, o Edge optou por Rory Gallagher e a minha escolha foi a pior de todas. Eu fui responsável por ‘Nights In White Satin’ dos Moody Blues. Achei que ia ficar fantástico com o coro sexy das garotas e com a flauta, mas foi um desastre. Era muito complicado para nós, tinha mais de quatro acordes.
Edge: A Orla e a Stella vieram falar comigo antes do espetáculo e me perguntaram: “David, não quer cantar? O Bono não sabe cantar muito bem”. E eu fiz a única coisa que podia, menti. Disse: “Eu acho que ele canta lindamente, não acham que ele canta bem? Estão completamente enganadas, ele é um grande cantor”. Eu sabia que elas tinham razão, mas eu jamais iria subir no palco para cantar. Elas insistiram: “Ele está sempre gritando e as pessoas nem conseguem perceber a letra”. E eu retorqui: “Que tolice! Eu adoro ouvi-lo cantar”. Depois inventei que tinha que ir trocar as cordas e fugi dali. O Bono, no início, usava apenas o volume e a energia como uma espécie de tática de choque para captar a atenção das pessoas. Não foi propriamente sutil, mas valia pelo empenho dele. Claro que devia ter ajudado se tivéssemos um PA (sistema de som) adequado, em vez de a voz dele ser amplificada através de um amplificador de guitarra.
Adam: Havia outro grupo chamado Rat Salad atuando. Eram assustadores.
Larry: Houve uma discussão sobre quem iria atuar primeiro e quem fecharia o espetáculo. Acabamos por sermos nós os primeiros.
Edge: Embora talvez fôssemos incrivelmente inaptos, para mim já era suficiente aquele entusiasmo de tocar em público. Só pensava: “Isso é mesmo legal. As garotas falam todas comigo e eu adoro fazer isso”. Íamos ser a banda de abertura de outro grupo, mas, mesmo nessa altura, embora soubesse que eles sabiam tocar, não achava que despertassem qualquer interesse. Havia ainda muito mais para desvendar. A música devia ser muito mais do que um rock intimista.
Larry: Fomos terríveis, as pessoas assobiaram e os Rat Salad riram na nossa cara. Foi horrível.
Bono: Compus minha primeira música enquanto ensaiávamos na casa do Adam. Foi interessante, porque aconteceu muito rápido. Não me lembro onde arranjei a guitarra nem de quem ela era, mas lembro-me de ter conseguido tocar acordes menores e alterar entre eles. Inventei um acorde, não é assim tão difícil.
Adam: Acho que o primeiro acorde era uma sétima em si maior, seguida por um lá maior. E ele só usava esses dois acordes, que vieram a tornar-se a música. Eram mágicos. Tinham modo e tom.
Bono: Arranjei logo um titulo: What’s going on? Pareceu original.
Adam: Naquele tempo, ainda não tínhamos ouvido falar do Marvin Gaye, por isso, não sabíamos que aquele título já tinha sido usado. Mas achávamos o máximo.
Larry: Pensei que chamava ‘Wednesday Afternoon’, porque ensaiávamos as quartas-feiras à tarde. Nos sentíamos muito frustrados por tentar fazer versões de outros artistas. Num dos ensaios, o Bono começou dedilhar qualquer coisa. Passado um tempo, já começava a soar como uma música.
Bono: Andávamos todos tentando tocar ‘Brown Sugar’ ou ‘Jumping Jack Flash’. E pensei: “Isto é interessante. È mesmo fácil compor músicas”. E parti do princípio de que todos seriam capazes, mas não era bem assim.
Larry: Foi muito interessante, porque ninguém disse: “Não soa bem como o original.” Não havia original. Foi um marco no desenvolvimento do U2. Depois de compormos a primeira música, passamos o resto do tempo tentando compor músicas melhores e eliminar as versões de outros artistas do nosso repertório.
Adam: Quando escolhemos as músicas e vimos o diverso material, lembro de sentir que aquela música que tentávamos tocar pertencia a outra geração. Não tinha a ver conosco. Éramos músicos muito ignorantes, que estavam no ponto para a energia do Punk quando ele surgiu. Éramos meros entusiastas exuberantes e quem sabe onde esse entusiasmo nos teria levado sem o Punk.
Bono: Naquele tempo, apenas uma centena de pessoas no país gostavam de Punk Rock. Pelo menos era o que eu achava. Na altura a música me aborrecia. Se aquele foi o verão em que Londres ardeu não sei, mas eu estava em brasa. Lembro que só havia ‘High Tide and Green Grass’ dos Roling Stones, uma coletânea dos primeiros sucessos deles. Era disso que eu gostava. E ‘The Idiot’ do Iggy Pop. Mas, já antes disso, gostava de rock n’ roll: Eddie Cochrane, Elvis, Beatles, Beach Boys. Não gostava do rock pesado, procurava algo que fosse realmente diferente. Penso que muitos eram da mesma opinião. E depois me lembro de ouvir os Radiators From Space. Foi a primeira banda punk irlandesa. Tinham um single com a seguinte letra: I’m gonna put my telecaster through the television screen because I don’t like what’s going on. (vou enfiar a minha telecaster pelo monitor da televisão, porque não gosto do que estou vendo). Quando ouvi isso, me despertei. Era igual a versão dos Beach Boys do ‘Johnny B Goode’.Do melhor rock n’ roll de doze compassos, embora adulterados, e eu disse: “Nós somos capazes de tocar isso, somos mesmo. Para além de sermos capazes de tocar, é disso que gosto.” E assim fizemos.
Adam: O Punk nos abriu a porta. Criou uma linguagem, embora não nos fosse muito acessível naquela altura.
Estávamos em 1977 e estava dando os primeiros passos na Inglaterra. Acho que aquele single excêntrico foi tudo o que chegamos a ouvir.
Um dos meus vizinhos foi o primeiro punk de Malahide e tinha os singles dos Sex Pistols e nós íamos para a casa dele ouvi-los, assim como outros que fossem sendo lançados: Buzzcocks, Dammed, Slaughter and the Dogs, Stranglers e Clash.
Edge: Creio que um momento marcante foi vermos os Jam no Top of the Pops e chegarmos a conclusão que não saber tocar não era um verdadeiro problema. Afinal a musica tinha mais a ver com energia e a tentativa de dizer qualquer coisa e não necessariamente com o conhecimento musical. Por isso, sentíamos encorajados ao ouvir aquelas bandas tocando coisas muito simples, da forma que nós tocávamos, com uma entrega total, dez vezes mais depressa do que deviam e com muito pouca sutileza, era só barulho. Que era o que nós fazíamos em tudo, por isso, servia perfeitamente.
Adam: No verão de 1977, arranjei um trabalho durante as férias escolares, em Londres, no mercado de peixe de Billingsgate.
Edge: A banda parou enquanto o Adam esteve fora. Isto porque, uma vez que ele parecia não se esforçar na escola, os pais disseram que o deixariam de sustentar. Por isso, sugeriram que fosse para Londres e arrumar um emprego, pois iria se tornar um rapaz inútil se não aprendesse a se sustentar. Os pais do Adam não sabiam se a música seria a melhor escolha para ele. Além disso, achavam que os conhecimentos musicais do Adam eram reduzidos e que, para ser bem sucedido era preciso ter talento, ou pelo menos, noções básicas de afinação e ritmo, coisas que constituíam um grande desafio para o Adam. Os pais do Larry o apoiavam muito, pois ele era realmente um baterista promissor. Os meus também me apoiavam, porque deviam achar que eu tinha jeito para aquilo e que era um bom passatempo. O Bono e o pai, isso era outra história, mas o Bono seguia seu caminho.
(Continua...)
Créditos: Juliana Oliveira.
Muito obrigado galera! É muito bom sabermos que estão apreciando.:aprovado:
Aí vai mais uma parte:
(Continuação)
Páginas 34 e 35 (página 33 – foto)
Larry: O Adam tinha um estilo original. Inventava sempre cenas muito doidas.Conseguia tocar em contratempo dentro do ritmo durante muito tempo. Era extraordinário. É isso que faz dele o grande baixista que é. Não é nenhum virtuoso, mas é um músico bastante inovador. E isso se deve a sua incapacidade, que é não ser capaz de tocar de forma perfeita dentro do ritmo. Eu também não sou um virtuoso, a minha afinação graças a Deus é boa. Se não fosse estaríamos metidos em uma grande encrenca.O Adam juntou-se à banda porque tinha um grande casaco afegão, um óculos cheio de estilo, um baixo, e uma cabeleira enorme e encaracolada. Se ele sabia tocar? Não me interessava. Tinha um aspecto legal.Era isso que importava.
Edge: Havia uma discrepância evidente entre aquilo que podemos chamar de aptidão musical entre os membros, mas não tinha importância, porque éramos todos uma grande porcaria. Num dos ensaios o Bono quase desesperado, pediu a sua amiga Maeve O’ Regan para nos ouvir e tentar perceber qual era o nosso problema. Ela assistiu ao ensaio e resumiu assim o problema: “O Larry é muito bom, o David toca bem, mas o Adam não sabe o que esta fazendo, não tem nenhuma noção dos tempos ou de afinação”. Nós próprios não tínhamos conhecimentos suficientes para nos apercebermos daquilo, mas ela topou logo tudo. Em condições normais, isso teria sido uma granada para as maiorias dos grupos, mas não para nós. O que faltava ao Adam em termos de talento natural, era compensado por sua vontade e dedicação. Nunca pensamos na hipótese de procurar um baixista melhor, pois éramos uma banda. Uma banda de aventureiros, mas uma banda.
Adam: Eu era afortunadamente ignorante e não fazia idéia de como sabia pouco. Abençoada ignorância! Acho que esse estado de graça se manteve até o nosso primeiro disco, talvez mesmo até o segundo. Depois disso, a falta de habilidade e de técnica começou a fazer falta. Naquela altura levava aquilo na brincadeira, tudo me parecia fácil e eu era o máximo. É formidável ler que, em bandas seminais como os Beatles ou os Stones, os membros do grupo eram músicos moldados antes de formarem a banda e serem compositores. Eles sabiam mesmo o que estavam fazendo, a nossa situação era completamente diferente. Durante os ensaios, nunca conseguíamos tocar uma música até o fim, por isso, quando começávamos a tocar em público, não sabíamos como é que ela devia terminar. Acho que o Larry era provavelmente o mais disciplinado, mas ainda assim muito louco. Tinha, pelo menos, uma noção de início, meio e fim. Talvez o Edge também, mas acho que se concentrava de tal maneira nos sons e não se concentrava devidamente na estrutura da música. O Bono nunca sabia as letras. Tínhamos problemas de afinação. Todos nós dávamos o nosso melhor, mas de uma forma indisciplinada e imatura.
Edge: Em Saint Fintan, já tínhamos um repertório um pouco mais vasto. Mas, lembrei-me, num momento de pânico uns vinte minutos antes do início do espetáculo, que nunca tínhamos conseguido tocar nenhuma música até o fim, por isso, não havia final. Nunca levamos nada até o fim. Lembro de estar sentado nuns degraus tentando convencer o Larry e o Adam a terminar algumas músicas.
Bono: Não éramos lá muito bons. E acho que continuamos sem o ser durante bastante tempo.
Edge: O Bono levou duas moças, a Orla Dunne e a Stella McCormick. Deve ter achado que isso ia avivar um pouco o nosso som.
Adam: O Bono decidiu que a banda precisava de um coro sexy.
Bono: Eu achava que a banda precisava de sexo! Acho que foi isso. Elas eram da minha turma na Mount Temple, cantavam no coro e eram as duas um pouco hippies. Era muito sensual, ambas cantavam e a Orla ainda tocava flauta. Na banda, cada um escolhia o seu próprio material. O Adam escolheu os Eagles, o Edge optou por Rory Gallagher e a minha escolha foi a pior de todas. Eu fui responsável por ‘Nights In White Satin’ dos Moody Blues. Achei que ia ficar fantástico com o coro sexy das garotas e com a flauta, mas foi um desastre. Era muito complicado para nós, tinha mais de quatro acordes.
Edge: A Orla e a Stella vieram falar comigo antes do espetáculo e me perguntaram: “David, não quer cantar? O Bono não sabe cantar muito bem”. E eu fiz a única coisa que podia, menti. Disse: “Eu acho que ele canta lindamente, não acham que ele canta bem? Estão completamente enganadas, ele é um grande cantor”. Eu sabia que elas tinham razão, mas eu jamais iria subir no palco para cantar. Elas insistiram: “Ele está sempre gritando e as pessoas nem conseguem perceber a letra”. E eu retorqui: “Que tolice! Eu adoro ouvi-lo cantar”. Depois inventei que tinha que ir trocar as cordas e fugi dali. O Bono, no início, usava apenas o volume e a energia como uma espécie de tática de choque para captar a atenção das pessoas. Não foi propriamente sutil, mas valia pelo empenho dele. Claro que devia ter ajudado se tivéssemos um PA (sistema de som) adequado, em vez de a voz dele ser amplificada através de um amplificador de guitarra.
Adam: Havia outro grupo chamado Rat Salad atuando. Eram assustadores.
Larry: Houve uma discussão sobre quem iria atuar primeiro e quem fecharia o espetáculo. Acabamos por sermos nós os primeiros.
Edge: Embora talvez fôssemos incrivelmente inaptos, para mim já era suficiente aquele entusiasmo de tocar em público. Só pensava: “Isso é mesmo legal. As garotas falam todas comigo e eu adoro fazer isso”. Íamos ser a banda de abertura de outro grupo, mas, mesmo nessa altura, embora soubesse que eles sabiam tocar, não achava que despertassem qualquer interesse. Havia ainda muito mais para desvendar. A música devia ser muito mais do que um rock intimista.
Larry: Fomos terríveis, as pessoas assobiaram e os Rat Salad riram na nossa cara. Foi horrível.
Bono: Compus minha primeira música enquanto ensaiávamos na casa do Adam. Foi interessante, porque aconteceu muito rápido. Não me lembro onde arranjei a guitarra nem de quem ela era, mas lembro-me de ter conseguido tocar acordes menores e alterar entre eles. Inventei um acorde, não é assim tão difícil.
Adam: Acho que o primeiro acorde era uma sétima em si maior, seguida por um lá maior. E ele só usava esses dois acordes, que vieram a tornar-se a música. Eram mágicos. Tinham modo e tom.
Bono: Arranjei logo um titulo: What’s going on? Pareceu original.
Adam: Naquele tempo, ainda não tínhamos ouvido falar do Marvin Gaye, por isso, não sabíamos que aquele título já tinha sido usado. Mas achávamos o máximo.
Larry: Pensei que chamava ‘Wednesday Afternoon’, porque ensaiávamos as quartas-feiras à tarde. Nos sentíamos muito frustrados por tentar fazer versões de outros artistas. Num dos ensaios, o Bono começou dedilhar qualquer coisa. Passado um tempo, já começava a soar como uma música.
Bono: Andávamos todos tentando tocar ‘Brown Sugar’ ou ‘Jumping Jack Flash’. E pensei: “Isto é interessante. È mesmo fácil compor músicas”. E parti do princípio de que todos seriam capazes, mas não era bem assim.
Larry: Foi muito interessante, porque ninguém disse: “Não soa bem como o original.” Não havia original. Foi um marco no desenvolvimento do U2. Depois de compormos a primeira música, passamos o resto do tempo tentando compor músicas melhores e eliminar as versões de outros artistas do nosso repertório.
Adam: Quando escolhemos as músicas e vimos o diverso material, lembro de sentir que aquela música que tentávamos tocar pertencia a outra geração. Não tinha a ver conosco. Éramos músicos muito ignorantes, que estavam no ponto para a energia do Punk quando ele surgiu. Éramos meros entusiastas exuberantes e quem sabe onde esse entusiasmo nos teria levado sem o Punk.
Bono: Naquele tempo, apenas uma centena de pessoas no país gostavam de Punk Rock. Pelo menos era o que eu achava. Na altura a música me aborrecia. Se aquele foi o verão em que Londres ardeu não sei, mas eu estava em brasa. Lembro que só havia ‘High Tide and Green Grass’ dos Roling Stones, uma coletânea dos primeiros sucessos deles. Era disso que eu gostava. E ‘The Idiot’ do Iggy Pop. Mas, já antes disso, gostava de rock n’ roll: Eddie Cochrane, Elvis, Beatles, Beach Boys. Não gostava do rock pesado, procurava algo que fosse realmente diferente. Penso que muitos eram da mesma opinião. E depois me lembro de ouvir os Radiators From Space. Foi a primeira banda punk irlandesa. Tinham um single com a seguinte letra: I’m gonna put my telecaster through the television screen because I don’t like what’s going on. (vou enfiar a minha telecaster pelo monitor da televisão, porque não gosto do que estou vendo). Quando ouvi isso, me despertei. Era igual a versão dos Beach Boys do ‘Johnny B Goode’.Do melhor rock n’ roll de doze compassos, embora adulterados, e eu disse: “Nós somos capazes de tocar isso, somos mesmo. Para além de sermos capazes de tocar, é disso que gosto.” E assim fizemos.
Adam: O Punk nos abriu a porta. Criou uma linguagem, embora não nos fosse muito acessível naquela altura.
Estávamos em 1977 e estava dando os primeiros passos na Inglaterra. Acho que aquele single excêntrico foi tudo o que chegamos a ouvir.
Um dos meus vizinhos foi o primeiro punk de Malahide e tinha os singles dos Sex Pistols e nós íamos para a casa dele ouvi-los, assim como outros que fossem sendo lançados: Buzzcocks, Dammed, Slaughter and the Dogs, Stranglers e Clash.
Edge: Creio que um momento marcante foi vermos os Jam no Top of the Pops e chegarmos a conclusão que não saber tocar não era um verdadeiro problema. Afinal a musica tinha mais a ver com energia e a tentativa de dizer qualquer coisa e não necessariamente com o conhecimento musical. Por isso, sentíamos encorajados ao ouvir aquelas bandas tocando coisas muito simples, da forma que nós tocávamos, com uma entrega total, dez vezes mais depressa do que deviam e com muito pouca sutileza, era só barulho. Que era o que nós fazíamos em tudo, por isso, servia perfeitamente.
Adam: No verão de 1977, arranjei um trabalho durante as férias escolares, em Londres, no mercado de peixe de Billingsgate.
Edge: A banda parou enquanto o Adam esteve fora. Isto porque, uma vez que ele parecia não se esforçar na escola, os pais disseram que o deixariam de sustentar. Por isso, sugeriram que fosse para Londres e arrumar um emprego, pois iria se tornar um rapaz inútil se não aprendesse a se sustentar. Os pais do Adam não sabiam se a música seria a melhor escolha para ele. Além disso, achavam que os conhecimentos musicais do Adam eram reduzidos e que, para ser bem sucedido era preciso ter talento, ou pelo menos, noções básicas de afinação e ritmo, coisas que constituíam um grande desafio para o Adam. Os pais do Larry o apoiavam muito, pois ele era realmente um baterista promissor. Os meus também me apoiavam, porque deviam achar que eu tinha jeito para aquilo e que era um bom passatempo. O Bono e o pai, isso era outra história, mas o Bono seguia seu caminho.
(Continua...)
Créditos: Juliana Oliveira.
Kd a foto???
:chorando: :chorando: :chorando: :chorando:
Brincaderinha
hehehehe
bjs enorme
amigo estou adorando
pena que não estou conseguindo
ler ainda
e nem ajudar vcs
mais quem sabe
semana que vem consigo
hehehe
Rosean Vox
25/04/2007, 23h00
Cada página que leio sinto mais vontade de agradecer a voces por nos proporcionar tudo isto. Está valendo, muito.....:aprovado:
Rosean Vox
25/04/2007, 23h01
Cada página que leio sinto mais vontade de agradecer a vcs por nos proporcionar tudo isto. Está valendo muito......:aprovado:
Su Scout
25/04/2007, 23h11
Eu tenho que parabenizá-los de novo por algo tão proveitoso. :aprovado:
JuHewsonBand
25/04/2007, 23h30
Nossa...isso aki(pelo o que eu olhei,de auto) tá incrível!!!
eu não estou com mt tempo pra ler agora,então tô salvando td no word,e qdo tiver tempo...eu leio com mais calma
mas parabéns Galera!!!!!!!mais uma vez vcs são excelentes!!!:aprovado: :D
Bonolocks
26/04/2007, 10h07
Turminha, vocês nem imaginam como esses "feedbacks" são importantes! Servem muito como estímulo prá gente continuar com o trabalho. Que bom que estão apreciando!!!:aprovado:
Para esclarecimento, no post #25 Bono comenta que seu pai era um homem de terceira via, em inglês "third-way man".
Homem da terceira via: Aquela pessoa realmente engajada politicamente, que tem uma conduta social responsável.
Agradecimentos à Bel pelo esclarecimento.:aprovado:
Bonolocks
26/04/2007, 10h10
Páginas 37 e 39 (páginas 36 e 38 – fotos)
(Continuação)
Adam: Em Brillingsgate, o trabalho começava às seis da manhã. Eu tinha que chegar as cinco para montar a banca. O trabalho terminava as onze, altura em que ia para Oxford Street ou para o Soho, comprava discos e andava por ali observando as pessoas. Acho que era um pouco prematuro em alguns aspectos, eu tinha uma certa habilidade para me evidenciar. Agora já não tenho a mesma energia. Uma vez metido no meio, também bebia uns copos, experimentava alguma droga ou outra e, por isso, me sentia um menino crescido. Encarava isso como uma oportunidade de adquirir o máximo possível de experiência do mundo, de descobrir uma forma de ter uma carreira e chegar a algum lugar.
Comprava os discos em Londres e depois trazia para casa. Nesse verão comprei ‘Horses’, da Patti Smith, ‘Marquee Moon’, do Television, o primeiro álbum do Clash, o Stranglers, assim como um disco do Ted Nugent e um álbum de heavy metal de um grupo chamado Lonestar, que não teve grande êxito. Quando voltei, percebi que o resto da turma tinha ouvido coisas como Richard Hell e vi que todos gostavam do mesmo tipo de música.
Edge: O Adam voltou de Londres com uns discos muito interessantes...e um horrível de heavy metal. Estávamos todos falidos, por isso, aquela era a recompensa, acho eu, por ter passado o verão no mercado de peixe. Foi fantástico. Gostei muito do ‘Horses’ e algumas semanas depois fui comprar uma cópia em vinil para mim. Era uma música completamente inovadora e diferente de tudo o que se ouvia na época, juntamente com Pistols, Clash e Stranglers. A música da Patti Smith tinha essa característica de confrontação. A grande diferença é que era poesia. O Punk tinha a raiva toda, mas não tinha poesia. O meu amigo Stephen Balcombe não era grande apreciador de música, mas eu estava tão contente com aquele álbum que queria que todos ouvissem. Ele veio a minha casa, coloquei o disco para tocar e ouvimos o primeiro minuto e meio de ‘Gloria’: Jesus died for someboby’s sins but not mine...(Jesus morreu pelos pecados de alguém, mas não pelos meus). O Stephen olhou para mim e disse: “Isso me dá nojo!” Acho que era muito pesado e conflituoso ter aquela criatura esquisita, sexualmente ambivalente, vomitando palavras que desafiavam toda a sua fé. Eu achei fantástico. Gostei da simplicidade da produção e achei o som das guitarras fabuloso. O Tom Verlaine tocava em uma das músicas e se tornou uma grande influencia para mim no grupo Televison. Tínhamos ouvido Richard Hell and The Voidois (anterior companheiro de pugilismo de Verlaine). Como tal, conhecíamos um pouco o panorama nova-iorquino. A beleza sombria de Patti Smith era cativante e inspiradora.
Adam: Enquanto estive fora poupei algum dinheiro. Comprei uma coluna de 15 polegadas para ligar ao amplificador e uma estante de 4x12 para músicas do Edge. Assim, ele tinha alguma coisa para ir tocando. Aos poucos, íamos adquirindo novos equipamentos.
Bono: Fui para UCD (University College Diblin) estudar inglês e história, para fazer uma licenciatura em artes. Mas, afinal, me matriculei em vão, porque levei pau em irlandês e quem levava pau nessa disciplina levava pau em tudo. Era assim naquele tempo. Não devia ter ido para lá. Voltei, então, a Mount Temple para repetir o ano, o que era legal para mim, pois a banda estava lá.
Tinha trabalhado em uma sapataria da cidade chamada Justin Lord’s. Trabalhei lá com o Guggi durante o verão e, assim, conseguimos juntar algum dinheiro. Gostávamos de punk rock e tínhamos casacos como o do Iggy Pop na capa do The Idiot, com as mangas muito curtas e tínhamos uns sapatos afunilados muito loucos e psicodélicos. Cortamos o cabelo.
Um dia fui para a escola com um alfinete de pressão espetado na bochecha, para impactar todos, o que naturalmente aconteceu - acho que houve um enorme reboliço. A Ali acabou comigo e eu larguei do alfinete de pressão por amor.
Edge: Comecei a usar um casaco da marinha que era do meu pai, da época que ele andava na tropa. Me caiu muito bem. Era preciso improvisar para ter um ar punk, e eu não tinha muito dinheiro para gastar com roupas da moda. Por volta dessa época arranjamos um novo nome para a banda que refletia a nossa mudança para essa nova música enérgica.
Adam: Era mais do que evidente que “Feedback” não ia fazer parte do movimento punk e que ‘Hype’ ia. O fato de ter sido o nome da primeira banda do Bowie também deve ter ajudado. Não sei quem teve a idéia.
Bono: Culpado, meritíssimo.
Larry: Lembro que me perguntaram: “Por que vocês se chamam Hype? É isso que são ou realmente sabem tocar?” Feedback fazia mais sentido, uma vez que era algo que tínhamos de sobra.
Edge: Aprendemos algumas músicas dos Ramones e foram esses os primeiros números punk que tocamos. Acho que ‘Glad To See You Go’ foi o primeiro.
Adam: O Punk tinha músicas simples, tocadas muito depressa. As pessoas chamavam de rhythm and blues acelerados o que, em alguns casos, era verdade. Havia o Radiators From Space, uma banda punk irlandesa, o Boomtown Rats, e, de repente, o punk se aproximava de casa. Havia uma certa esperança de podermos tocar ao vivo e conseguir alguns contratos de gravação. Começávamos adicionando algum material punk, uns números do Ramones, alguns do Sex Pistol e, possivelmente, algum do Wire e do Stranglers.
Larry: Bono era um grande fã do The Stranglers e ele queria ensaiar 'Go Buddy Go'. Estava tudo Ok, mas eu ainda estava incerto sobre alguns materiais punks.
Bono: Houve um momento fantástico, quando eu estava com o alfinete de pressão e os sapatos afunilados. O Larry disse: “Nós não somos uma banda punk, né?” Era uma frase que ele repetia constantemente “Nós não somos uma banda punk, né?”
“Não Larry, não somos.” “Estamos ouvindo o Stranglers, certo? Eles são punk, não são? Estamos tocando uma música deles. E eu não quero pertencer a uma banda punk!”
“PRONTO, NÃO SOMOS UMA BANDA PUNK. ISTO NÃO É UMA BANDA PUNK;”
Acho que o que realmente estava acontecendo, era que o pai andava infernizando seu juízo em casa, pois tinha gasto uma grande quantia de dinheiro em lições de Jazz.
Já custava muito ao pai dele aceitar que o Larry tocava em uma banda que não era de Jazz, mas a idéia de que éramos punk rock o fez perder a cabeça. Por isso, acho que obrigou ao Larry jurar que não estava em uma banda punk rock.
Larry: Depois de me juntar a banda, comecei a pensar de forma diferente em relação à música. Comecei a pegar alguns discos da minha irmã, Steely Dan, Bruce Springsteen. Gostava muito de David Bowie. Até que surgiu a onda punk. Eu ainda era muito novo para entender. Não percebia qual era o alvo da revolta da música punk. A imagem do Sex Pistols cuspindo para os fãs e os fãs os cuspirem também era nojenta. Contudo, musicalmente, Never Mind The Bollocks é um dos melhores álbuns. Mas eu ainda nem sequer tinha 17 anos. Usava cabelo comprido e calças jeans. Não estava preparado para rebelião. Ainda não estava nessa fase.
Lembro de ter conhecido um amigo do Bono, o Gavin Friday, indo para um show do Boomtown Rats. Ele era o verdadeiro punk. Trazia uma jaqueta de couro, calças afuniladas, aqueles sapatos com solas grossas, um corte de cabelo muito curto e ar carrancudo.
Bono: Eu e o Guggi conhecemos o Gavin quando tínhamos uns 13 anos. Vivíamos todos na Cedarwood Road. Acho que ele tinha ido a uma festa sem ter sido convidado, entrou na festa e levou um amigo, e nós os acompanhamos para tentar roubar qualquer coisa lá de casa. Houve algum reboliço, coisas de adolescentes. Mas ficamos amigos. Ele era bem legal. Chamava Fionan Hanvery e era meio hippy. Costuma ouvir os T.Rex, era parecido com o Marc Bolan e passava a vida levando porradas dos Skinheads e dos Bootboys. Porque usava cabelo comprido. Costumavam o chamar de Handbag (bolsa de mão) Hanvey e mais tarde, por vingança, ele costumava andar com uma bolsa enorme. O Gavin adotou por completo o punk rock. Acho que ainda era mais ligado a música do que eu. Andava sempre com um ar desafiador. Tinha umas botas militares enormes, e cortou o cabelo como o autor do filme ‘Eraserhead’, um cabelo grande e levantado, que lhe dava um ar de doido. Algumas pessoas consideravam aquilo tão ofensivo, que, mal o viam, tinham vontade de matá-lo. Só que, quanto mais vontade mostravam ter de querer matá-lo, mais escandalosamente ele se vestia.
Edge: O Bono tinha outra carta escondia, aquilo do Village com o Gavin e o Guggi, um mundo diferente de relações. Lembro dele falando muito de um cara chamado Derek Rowan, um dos seus melhores amigos. Pela forma como o Bono descrevia o Guggi, um tipo durão, mas divertido e brilhante, imaginei que fosse uma pessoa mais entroncada. Por isso, fiquei bastante surpreso com aquele cara de aspecto delicado parecido com o Iggy Pop, de cabelo loiro, mas nos relacionamos rapidamente, pois ele tinha um bom humor. Eu gostava de quase todos que o Bono levava aos ensaios. Achava o Gavin um cara muito bacana e achava que ele contribuía muito com seus conhecimentos musicais, boas idéias e com uma coleção de discos melhor do que a minha. Achei que podíamos trabalhar com ele se ele alinhasse.
Bono: Talvez tenha sido eu a ter a idéia do nome ‘Lypton Village’ mas não sei onde fui buscar isso. Nós inventávamos nomes, locais míticos, até a nossa própria linguagem. Não gostávamos do mundo em que vivíamos, por isso, começamos a reinventá-lo e tenho a certeza de que foi muito arrogante e exclusivo. Costumávamos ter ataques artísticos e, então, íamos para a Grafton Street, enfiávamos em um ônibus com nossas escadas, ferramentas, serras e um cacho de bananas. Subíamos a escada, dávamos pequenos espetáculos, tentando atrair a multidão e, depois, desatávamos correndo. Não havia muita arte no que fazíamos, era apenas a idéia de usar o humor como uma arma. Era tudo muito ao estilo Monty Python. Nunca perdíamos o Monty Python. A atribuição de nomes fazia parte do processo. Havia vários nomes diferentes e muitos personagens: Strongman, Pod, Day-Vid. O meu primeiro nome foi Steinhegvanhuysenolegbangbangbang. Imaginei isso escrito na capa de um álbum. Depois encurtei para Hausman e depois para Bono Vox.
Larry: Em um fim de semana, estávamos andando na O’Connell Street e passamos por uma loja de aparelhos auditivos. O Bono aponta para lá e diz: “Sou eu!”. Dizia Bono Vox.
Bono: A idéia era que se não gostamos da vida que nos foi dada, talvez também não gostemos do nome que nos deram. É, provavelmente, a melhor forma de rebeldia contra o nosso pai, não queremos o nome dele. Mas também não nos era permitido escolher o nosso nome, fazia parte das regras. O Edge por pouco não passou a chamar Inchicore, que é um local nos arredores de Dublin. Não sei porque razão. Não sei se teria pegado “E na guitarra Inchicore”. Também não tinha certeza quanto ao nome Bono Vox, era muito longo. Quer dizer, já o uso desde os meus 15 anos. A idéia de usar como nome artístico era interessante, porque Bono era um sobrenome familiar. Só meus amigos mais chegados é que me chamavam de Bono, o meu nome era Paul Hewson. Até, que, um dia, perguntei aos membros da banda se não se importavam de começar a me chamar de Bono. Aceitaram, mas levaram algum tempo para acostumar.
Adam: Eu gostava muito dos Village. No que diz respeito a minha própria revolta, de tentar fugir de minhas raízes de classe média e me revoltar contra meus pais, eles eram, naturalmente, as pessoas que me atraiam. Além disso eram também bastante generosos, sobretudo o Gavin e o Guggi. Tinham sempre dinheiro na carteira, cigarros e estavam dispostos a oferecer uma xícara de chá ou outra coisa qualquer. Tornaram-se numa espécie de grupo de apoio. E acho que à medida que o punk começou a se apoderar dos Village e as pessoas começaram a usar roupas cada vez mais estranhas, era tudo apenas uma forma de expressão. Não tinha nada da violência comum no punk expressado no interior das cidades. Naquele tempo não se bebia muito, por isso, não haviam aquelas loucuras cometidas pelo consumo de álcool. Era tudo muito moderado.
Bono: O Adam tinha um forte sentido do surreal. Costumava sentar ao meu lado nas aulas de Alemão. Chegava na aula, sentava, pegava a garrafa de café e bebia. Ninguém bebia café. Depois pegava um romance e começava a ler. Mas sempre com modos impecáveis. Se alguém perguntasse o que estava fazendo, ele respondia: “Peço imensas desculpas, mas estou muito interessado nesse livro e não me parece que vá falar alemão.”
Ele era um surrealista convicto e o Edge e o Dick costumavam mandar o barracão do jardim pelos ares, eram uns inadaptados e era isso que esses dois grupos de pessoas tinham em comum.
Larry: Eles eram estranhos e chegavam a ser intimidadores, mas nunca se meteram comigo.
Edge: Demos alguns concertos em Sutton, em outubro de 1977. Um deles no Marine Hotel. O nosso palco era uma série de mesas encostadas umas as outras. Tocamos coisas básicas, não havia mistura e a música era todo o barulho que conseguíssemos produzir. Tocamos muito alto. Foi o início da nossa fase punk e por isso tínhamos uma sonoridade muito mais intensa do que no início.
Larry: Tocamos algumas versões do Stranglers e alguns originais. O público era composto por pessoal amigo. Estava um ambiente muito quente, com todos suando. Os nossos amigos nos apoiaram muito, sempre aplaudindo e pulando.
Bono: Cortei meu dedo. Deixei cair o plectro, mas continuei tocando e o sangue continuava escorrendo. A Telecaster branca, a guitarra do Peter Martin, estava toda manchada de sangue, e na minha cabeça eu estava tentando que ela atravessasse a televisão de alguém. Eu ouvia as pessoas gritando: “Há sangue ali!” Era estimulante.
Edge: O Bono pode ter tocado guitarra, mas não sei se estava ligada. O Dick estava tocando conosco, por isso, não havia necessidade de três guitarras. O Bono tinha alguma guitarra dele naquela época? Acho que não.
Bono: Os membros da banda me disseram: “Você tem mais jeito para começar uma revolta do que para ser músico.” Não sei se fiquei magoado ou não, mas eles levaram a melhor. Lembro de ter pensado que se ia ser vocalista tinha que desenvolver uma personalidade pública. Estava compondo algumas músicas e uma delas chamava: ‘The Fool’. Tínhamos estudado teatro na escola e havia uma idéia Shakespeariana na minha cabeça. Queria criar uma personalidade que fosse o oposto de Ziggy Stardust, que não fosse super legal, que fosse talvez muito pouco legal e infantil e se safasse sempre ao dizer o que lhe apetecia. A letra mudava sempre que eu a cantava, mas quando tive de escrever para fazer um esboço, cheguei à conclusão de que era uma porcaria. ‘Alive in na ocean, a world of glad eyes, insane!’ isso era um verso. ‘They call me the fool. I’m gonna break all the rule.’ Meu Deus!
(Continua...)
Créditos: Juliana Oliveira (Agradecimentos também à Su Scout por alguns esclarecimentos).
Mysterious girl
26/04/2007, 12h30
:aprovado:
Bonolocks
26/04/2007, 14h22
Temos mais uma boa notícia. A Nonata (ntrevia) também será uma das colaboradoras na parte de tradução!:pulando: Obrigado Nonata por se coocar à disposição!!!
Bonolocks
26/04/2007, 14h26
(Continuação)
Páginas 40 e 42 (página 41 – foto)
Adam: Suponho que se o movimento Punk não tivesse surgido, teríamos de nos ter esforçado mais fazendo versões de outros grupos. Mas surgiu e nós fomos capazes de captar a verdadeira essência das músicas de três acordes e fazer alguma coisa com elas. Depois, começamos rapidamente a compor as nossas próprias músicas. Não eram músicas fantásticas, mas eram certamente enérgicas e experimentais.
Edge: Comecei a interessar-me mais em compor as nossas próprias músicas. O Bono já tinha duas e, então, decidi compor uma coisa chamada ‘Life on a Distant Planet’. Acho que o processo passou por descobrir uma ligação entre melodia e guitarra na televisão irlandesa, nunca conseguiu passar além da inspiração inicial de ser uma melodia que ganhasse asas. Eram apenas duas ou três idéias que se juntaram. Ainda no outro dia estive pensando nisso. Devia acabar aquelas coisas. Aquela era a minha primeira melodia com a banda. Embora já tivesse composto algum material com o meu irmão, uns anos antes, uma espécie de rábulas cômicas. Brincamos com o gravador de cassetes. Foi inspirador ver o Bono compondo algumas músicas e, depois, descobrir que eu era capaz de fazer o mesmo.
Larry: Eu sei que estávamos tentando compor músicas, mas achávamos complicado terminar grande parte das idéias. Eu e o Adam fazíamos muitas experiências na guitarra, íamos tocando. Após dias, ou até mesmo semanas, de experiências, lá surgia um verso ou um refrão, e depois, talvez algumas letras, era tudo muito calmo... Entretanto, surgia uma idéia vinda do nada e as coisas começavam a ganhar sentido. O processo ainda consegue ser o mesmo, 30 anos depois.
Adam: Naquela altura, ensaiávamos às quartas-feiras à tarde, aos sábados e aos domingos, apenas para tentar chegar ao fim de uma música. Às vezes, ensaiávamos na casa do Edge, porque os pais dele eram muito tolerantes. Podíamos passar lá o dia e beber café à vontade. Eu e o Edge reuníamo-nos lá muitas vezes e, de vez em quando, o Larry também aparecia. Ele tinha sempre que negociar com os pais, pois, às vezes, não podia sair de casa e, além disso, precisava sempre de um carro para transportar a bateria. O Bono só aparecia dependendo de arranjar ou não transporte, se pudesse vir de boleia na moto ou no carro de alguém. Foi daí que surgiu ‘Street Missions’, que se tornou a nossa música de referência. Eu e o Edge compusemos os versos básicos e depois o Bono, numa das suas saídas, compôs o refrão e deu a ideia para a letra.
Oh no man, I just got here
You got me thinking
I’m about to leave
Someday, maybe tomorrow
New direction, hello oh no no no
I walk tall, I walk in a wild wind
I love to stare
I love to watch myself grow
Someday, maybe tomorrow
New direction, hello
Oh no no no no no no no
Street missions...
Edge: Fantástico! Não significa rigorosamente nada! Nem sei se o Bono estava mesmo escrevendo sobre alguma coisa em concreto. Acho que se limitava a improvisar melodias vocais a partir dos nossos riffs. Ele ouvia os acordes, que eram meros sons, transformava-os em palavras e depois, eventualmente, podia ser que ganhassem algum significado. É como falar em línguas, talvez não divinamente inspirado, mas a partir da alma.
Bono: O mais interessante de ‘Street Missions’ era o final, um faboloso solo de guitarra num registo temporal completamente diferente. Todas as pessoas diziam que havia regras no Punk, tais como não haver solos de guitarra. Mas nós dissemos: “Nós tocamos solos de guitarra se quisermos.” Nunca iríamos ser uma banda punk, pois estávamos interessados em outras coisas como, por exemplo, no lirismo da música do Edge.
Adam: A primeira metade era bastante punky e enérgica. Depois, como não sabíamos como acabar, decidimos acrescentar um solo de guitarra. Não fazia muito sentido, mas, de certa forma, resultava nas atuações ao vivo. Proporcionava ao Bono um pequeno intervalo instrumental, antes de ter de cantar a parte final.
Bono: Já naquele tempo, o Edge tinha um quê de especial. Quando começava a tocar, as pessoas olhavam para ele. Ele era extraordinário e ficava sempre muito quieto. Não se mexia. Quando tocava acordes, andava de um lado para o outro, mas na parte do solo costumava ficar tão quieto que tudo à sua volta se aquietava. Era como se tudo parasse, até o prórpio tempo. Ele era um contador de histórias através dos solos de guitarra. Eram pequenas viagens.
Edge: Muitas das nossas músicas tinham aquelas variantes estranhas, ‘Turn left ar Greenland!’ que, por vezes, não funcionavam, diga-se de passagem. Depois, ocasionalmente, dizíamos “Uou!” Poucas bandas já fizeram o mesmo, deixar que a pura imaginação as conduza para outro lado. Julgo que isso advém da nossa forma de escrita, durante os ensaios, com todos tocando a todo gás. Nessas alturas, astávamos mais abertos a alterações brutais de humor e de rumo numa música, e isso é possível quando estão todos presentes ao mesmo tempo. Todos atingem esse alvo completamente diferente em conjunto e faz-se um realinhamento instantâneo dos instrumentos. É muito difícil escrever esse tipo de coisas, pois nunca conseguíamos o mesmo se estivéssemos sozinhos. Creio que a força da banda se faz notar na sua habilidade de executar esses movimentos radicais.
Adam: Para acompanhar a ética punk de falta de conhecimento musical, as nossas primeiras composições musicais eram caracterizadas por uma falta de virtuosismo. Por isso, tentámos sempre adicionar um momento inesperado, algum tipo de alteração que, de certa forma, se sobrepusesse ao fato de não sabermos fazer as coisas corretamente. Acho que andávamos à procura de dramatização no que fazíamos. E, quando não se é um virtuoso, só se consegue criar impacto com cortes súbitos – manter o ritmo base da bateria e fazer uma sequência de pratos ou de timbalões, tocar alguma coisa muito rápida ou com falta de harmonia ou outra coisa qualquer. Costumávamos definir esses pedaços e juntá-los uns aos outros. Tínhamos imenso orgulho na ‘Street Mission’. Costumávamos começar e acabar os nossos espectáculos com ela. Era o nosso ‘Freebird’.
Larry: Demos um concerto durante um furo numa festa disco, no porão do antigo edifício da escola. Lá, o ambiente era sempre muito abafado e nas paredes escorriam gotas de condensação. Nós estávamos tocando e o Edge resolveu trepar numa parede. Escorregou e caiu estatelado no chão. Eu não sabia se ria ou chorava.
Edge: Num momento de pura adrenalina, tentei subir a parede sem perceber que esse gesto teria funcionado sem problemas mais cedo durante o dia, mas naquele momento era letal. As paredes escorriam suor depois de algumas horas naquele espaço fechado cheio de gente aos pulos. Tentei, então, trepar na parede, mas não consegui sequer segurar-me. O sapato escorregou e “splash”, caí estatelado no meio do palco. Mas continuei a tocar, cheio de dores, sempre fingindo que não tinha doído nada.
Tínhamos um espetáculo agendado no Nucleus, um pequeno clube em Raheny, mas tocamos tão mal na discoteca da escola que o DJ, que trabalhava no Nucleus, e que também era da Mount Temple, não nos chamou. Mas insistiu em nos ouvir. Tocamos para ele algumas músicas e, a muito custo, nos deixou atuar. Antes do espetáculo decidimos embebedar-nos, pois sabíamos que era o que se fazia quando se pertencia a uma banda rock. Por isso, além da forma terrível como tocámos habitualmente, fomos indescritivelmente maus e o som foi atroz. Ali estávamos nós, naquela cabana de escuteiros minúscula, e nem sequer tínhamos um sistema de som como deve ser. Gravamos o espetáculo e, uns dias depois, tornamos a ouvi-lo, sem querer acreditar no que estávamos ouvindo. O Bono parecia que estava rugindo e só se conseguia ouvir um barulho distorcido que parecia dos Stooges nos seus primórdios. Infelizmente, creio que estávamos tocando uma música dos Eagles. Foi nessa altura que o Bono anunciou ‘Jumping Jack Flash’ e o meu irmão começou a tocar ‘Brown Sugar’, misturando as músicas dos Stones. Foi, sem dúvida, um dos momentos mais fracos. Estávamos todos desafinados. Na gravação, se consegue ouvir o DJ dizendo-nos, no meio do concerto: “Vocês não param? Parem, por favor! As pessoas foram todas embora!” Ao ouvir a gravação do concerto, pensei pela primeira vez: “Meu Deus, não! Isto não vai dar resultado!” Éramos desesperadamente incoscientes. Havia um espetáculo que era um grande momento, mas depois os três seguintes eram uma porcaria.
Bono: O Dick era um guitarrista muito inovador. Tinha centelhas de gênio e o governo pagava para ele frequentar a universidade. Não se limitava a dar-lhe uma bolsa, pagavam-lhe mesmo. Naquela altura, ele tinha uma idéia louca, falava de computadores dizendo que iam tomar conta do mundo e mudar o nosso modo de vida.
(Continua...)
Créditos: Joanne.
Adri Soul Love
26/04/2007, 23h20
(Continuação)
Páginas 40 e 42 (página 41 – foto)
Naquela altura, ele tinha uma idéia louca, falava de computadores dizendo que iam tomar conta do mundo e mudar o nosso modo de vida.
(Continua...)
Créditos: Joanne.
:lol: E aqui estamos nós, lendo sobre suas vidas no computador...essa vida é muito louca mesmo!
Brigadu!:aprovado:
Bonolocks
27/04/2007, 11h30
Mais uma excelente notícia.:aprovado: Vamos contar com o apoio de mais uma colaboradora para a tradução do livro. É a Huanita, que faz parte da lista da UV há uns 9 anos e é formada em inglês.:aprovado:
Então já temos como colaboradores a Joanne, a Juliana Oliveira, o João Filardi, a Nonata (ntrevia) e agora a Huanita. E claro, não podemos nos esquecer das traduções da Line que adiantou bastante o nosso serviço. Agradecemos de coração a boa disposição de todos eles em tornar disponível em português esse livro maravilhoso!http://thelarrymullenband.com/style_emoticons/default/drinks.gif
Depois do almoço teremos mais duas páginas disponíveis!
Bonolocks
27/04/2007, 13h27
(Continuação)
Páginas 43 e 44
Bono: Tinha a cabeça cheia dessas histórias. Às vezes era mesmo muito divertido ter o Dick na banda, porque uma pessoa escolhia uma música e cada um dos irmãos Evans tocava outra diferente. E lembro que o Larry, muito do seu jeito, estava sempre fazendo a mesma pergunta: “O Dick faz mesmo parte da banda?” E perguntou ao Edge: “tem certeza que o Dick quer mesmo estar na banda?” Até que acabamos percebendo que o que o Larry queria dizer era: “Ele tem mesmo que fazer parte da banda?” Porque não há nada mais assustador para um baterista do que o som das pessoas afinando os instrumentos, e bem alto. Continuo, achando extraordinário que o Edge não olhe para baixo quando esta afinando. Felizmente, agora tem alguém que faça a afinação por ele.
Nesta fase, os nossos ensaios eram apenas pessoas gritando umas com as outras do começo ao fim. A nossa primeira apresentação na televisão surgiu após uma discussão sobre como terminar alguma coisa.
Adam: Como de costume isso foi comandado pelo Bono. Ele tinha ouvido dizer que um produtor da RTE (televisão publica irlandesa) ia se encontrar com o Albert Bradshaw, o professor de música, para arrumar um coro para seu programa juvenil chamado: Youngline.
Edge: Fizemos constar que gostaríamos de participar do programa.
Adam: O Bono conseguiu que o Albert Bradshaw se comprometesse a trazer o cara para nossos ensaios. A idéia era dizer que éramos uma banda juvenil que escrevia e tocava as suas próprias músicas. Mas, aquele em particular, como acontecia em todos os ensaios, passamos a maior parte do tempo discutindo e não tínhamos ensaiado nada e não tocamos nada, pois estávamos muito ocupados discutindo.
Bono: Nós pensávamos: “Uma pessoa do mundo dos espetáculos e da televisão vem nos ver!” Por isso, estávamos ainda mais agitados e difíceis do que de costume e quando ele bateu na porta estávamos em plena gritaria. Paramos e ficamos sem saber o que fazer, pois não conseguimos tocar as músicas que queríamos, as nossas próprias músicas. E ele disse: “Ouvi dizer que compõem as próprias músicas.” E eu disse: “Sim, é verdade!” E ele disse: “Posso ouvir alguma?”
Adam: O Bono disse para tocarmos Ramones, porque eram melódicas e conseguíamos nos desenrolar bem.
Bono: Tocamos ‘Glad to See You Go’ dos Ramones e ele disse: “É fantástica!” Foram vocês que compuseram?” E eu disse: “Fomos.” E eles ficaram todos olhando para mim, tipo “Fomos nós?” “Sim, fomos nós!”Depois tocamos outra música dos Ramones, ele perguntou: “Essa também?”E eu disse “Sim.”
Adam: O produtor disse: “São músicas fantásticas. Nem parecem criadas por gente tão jovem.” E nós: “Foi fácil!”
Bono: Ele convidou para o espetáculo e quando chegamos ao estúdio de televisão tocamos as nossas próprias músicas. Ele nem reparou.
Larry: Tocamos ‘Street Mission’ e ‘Life On a Distant Planet’. Foi como sermos levados para a cabine de um avião, nunca tínhamos estado em um estúdio de televisão. Era bem menor do eu imaginava. Era um espaço branco, com luzes penduradas no teto. Não havia público. Foi uma experiência incrível, e bastante estranha ao mesmo tempo, passar da minha cozinha para um estúdio de televisão. Foi outro acontecimento marcante. Nem estávamos acreditando que, íamos mesmo aparecer na televisão. Nos dias de hoje, já não é nada especial, todo mundo aparece na televisão. Para uma banda punk irlandesa, nos anos 70, era algo de outro mundo.
E, num momento muito pouco punk, resolvi polir o kit de bateria e os címbalos (pratos), porque achei que ia dar um ar profissional.
Edge: Fizemos a audição para a RTE como The Hype, mas na época em que participamos já éramos U2.
Bono: Eu gostava do nome Hype. Mas, para nós, era o nome de um grupo de punk rock e era evidente que esse não era o caminho que estávamos trilhando. O nosso caminho era outro. Não sei quem é que deixou de gostar do nome nem quem pensou em mudar, mas fomos conversar com o Steve Averill, ou melhor, o Adam foi e ele sugeriu alguns nomes.
Adam: Eu andava sempre agarrado na saia de alguém que nos pudesse ajudar de alguma maneira. O Steve Averill era filho de um amigo dos meus pais.
Tinha feito parte do Radiators From Space, uma banda do início do punk, que editou um álbum e ele acabou desistindo. Duraram apenas seis meses e depois ele voltou ao seu emprego habitual como designer gráfico. Mas ele conhecia o meio. Devia ser uns dez anos mais velho que nós. Eu costuma ir na casa dele em Portmarnock. A mulher dele oferecia café ou alguma coisa para comer e ficávamos ouvindo música e conversando. Agora, recordando isso, fico espantado por alguém daquela idade ficar horas conversando com um adolescente, depois de um dia inteiro de trabalho. Foi muito generoso da parte dele. Naquela época ele estava numa de sintetizadores, como Devo, Kraftwerk e outros. Eu não percebia nada daquilo, porque preferia a energia do punk. Somos amigos já faz muitos anos. O Steve achava que Hype não era um nome sério. Começou por sugerir que pensássemos na roupa que vestíamos e disse que precisávamos tirar umas fotografias. Mais tarde, desenhou nosso primeiro cartaz e criou alguns pins.
Edge: Nós admirávamos o Steve Averill, porque fazia parte do Radiators From Space, e depois descobrimos que também era um fantástico artista comercial. Nos deu uma lista de seis nomes possíveis, para ser franco, não gostamos de nenhum.
Bono: Alguns dos nomes eram muito arrojados para mim naquele tempo e continuaram sendo. ‘Flying Tigers’ era um deles. ‘The Blazers’. Oh dear, oh dear...O que seria do rock n roll sem trocadilhos? Só a bem pouco tempo é que percebo que The Beatles era um trocadilho. Nunca tinha reparado. Os considerava tão fabulosos, que nunca tinha me ocorrido que fossem alegres apreciadores de jogos de palavras.
Adam: U2 surgiu naturalmente, do nome do avião espião, do qual eu tinha ouvido falar, pois a minha família esteve ligada a aviação. Não sei se os outros fizeram a mesma associação de idéia. Não era um nome obvio, não enchia os olhos.
Era o que gerava menos desentendimentos.
Bono: O atrativo no nome U2 era a sua ambigüidade. Podia ter inúmeras interpretações. Para mim, fazia lembrar mais U-boat (submarino alemão usado na segunda guerra mundial), do que o Gary Powers e o seu avião espião, e isso me agradava. Estranhamente, a linha de trem que vem de Berlim e nos leva até a estação do jardim zoológico chama linha U2. Podemos vê-lo por todo lado em Berlim.
Edge: Era o melhor entre os piores. Pensamos naquele nome durante alguns dias e dissemos: “Bem, sempre é melhor que Hype. Por que não experimentamos durante algum tempo?” E escolhemos o nome U2. Á medida que o tempo ia passando, fomos gostando cada vez mais do nome. Tinha um impacto gráfico muito intenso. Não significava nada em particular, por isso, começamos a gostar do fato de não ter grandes conotações. E também nos diferenciava do The Whatevers, do The Jam, do The Clash, de todas as bandas que naquele tempo tinham nomes começados por “The.” O nosso nome era um pouco diferente, mas não foi de forma alguma um momento “Eureca”, tipo: “É o melhor nome do mundo.” Foi mais do tipo: “Serve”.
Adam: Acho que as pessoas reconheceram que tinha várias conotações. Era um nome moderado. Além disso. Era só uma letra e um número, por isso, podia ficar em tamanho grande em um cartaz. E podia fazer parte de uma conversa banal, por isso, podia ser incluído em slogans publicitários e coisas do gênero. Todos concordamos que podia funcionar bem.
Bono: Eu detesto o nome, por acaso. Depois de pegar percebi que também era um trocadilho horrível. Ainda não tinha dado conta. Vocês também (you too= U2). Oh, não!
(Continua...)
Créditos: Juliana Oliveira.
Mysterious girl
27/04/2007, 13h40
O negócio ai tá firme mesmo hein!!! :aprovado: Legal!!!!! :P
Bonolocks
27/04/2007, 13h44
O negócio ai tá firme mesmo hein!!! :aprovado: Legal!!!!! :P
A todo vapor. A equipe tá arrebentando!!!:saúde:
Vertigoatomic
27/04/2007, 13h57
Parabens pessoal. Grande iniciativa!
Bonolocks
27/04/2007, 14h07
Parabens pessoal. Grande iniciativa!
;) :aprovado:
JulianaSP
27/04/2007, 16h40
Gente...vim aqui agradecer as mensagens ...fico muito feliz em saber que estão gostando.......:)
Bjuus e mto obrigada a todos :aprovado:
Juliana Oliveira (Ju2)
Marcinha nr 1
27/04/2007, 16h42
Gente...vim aqui agradecer as mensagens ...fico muito feliz em saber que estão gostando.......:)
Bjuus e mto obrigada a todos :aprovado:
Juliana Oliveira (Ju2)
Nós é que temos que agradecer muiiiito a todos vcs que estão nos proporcionando este prazer de ler este livro.:D
cran02girl
27/04/2007, 18h40
Depois de todos esses acontecimentos aqui na UV, entrar nesse tópico é simplesmente animador... Ver pessoas que nao medem esforcos em compartilhar conosco informaçoes preciosas... Fico muito feliz pela iniciativa de todos e todas, e já estou lendo o livro! Pow, se nao fosse vcs, iria lê-lo só daqui há 10 anos.
Parabens pessoal!
Depois de todos esses acontecimentos aqui na UV, entrar nesse tópico é simplesmente animador... Ver pessoas que nao medem esforcos em compartilhar conosco informaçoes preciosas... Fico muito feliz pela iniciativa de todos e todas, e já estou lendo o livro! Pow, se nao fosse vcs, iria lê-lo só daqui há 10 anos.
Parabens pessoal!
Nem sabes o quanto fico feliz de saber isso. Ler o teu comentario e o de todos os outros foi muito bom, mesmo! Parece que o nosso objectivo foi alcançado! :aprovado:
Aproveitem a oportunidade, gente, e divirtam-se ao máximo! :P
Bonolocks
27/04/2007, 19h09
Depois de todos esses acontecimentos aqui na UV, entrar nesse tópico é simplesmente animador... Ver pessoas que nao medem esforcos em compartilhar conosco informaçoes preciosas... Fico muito feliz pela iniciativa de todos e todas, e já estou lendo o livro! Pow, se nao fosse vcs, iria lê-lo só daqui há 10 anos.
Parabens pessoal!
Poooxa! Como é animador ouvir isso, Carol! :aprovado: Eu também estou lendo o livro por causa do trabalho dessa equipe. Não considero a edição que faço uma leitura, pq presto mais atenção nos termos técnicos. Então tô salvando no word, imprimindo e levando prá casa prá ler ao som do U2. E tem sido emocionante saber tudo isso que aconteceu no início, e algumas vezes muito engraçado. Eu não iria me conformar se não pudesse ter a oportunidade de lê-lo. Por isso meu muito obrigado novamente a todos os que tem se esforçado em digitar e traduzir prá nós essa história fantástica!!!;) :aprovado:
"**" Tutu "**"
27/04/2007, 21h56
Brigada por estarem tarduzindo o livro!!!!!:aprovado:
Sem vocês teria que ficar esperando até não sei quando para ler o livro...
E é bom vcs não colocarem as fotos, que daí nos ficamos ainda naquela espectatica:)
Nesse ritmo, vamos ter o livro inteiro em pouco tempo!!!:lol:
followerU2
27/04/2007, 23h27
Ainda não havia parabenizado o Cris e essa equipe de fãs abnegados aqui no fórum, embora já o tenha feito na lista. Porém nunca é demais reconhecer o valor dessa iniciativa. Parabéns galera!
Cris, ando bastante ocupada tentando organizar o próximo podcast, então apesar de querer ajudar não me comprometo de imediato, mas certamente o farei num futuro próximo.
Keep up the good work! :)
MT
Bonolocks
28/04/2007, 08h59
Obrigado Tutu e obrigado MT pelo apoio!!! :aprovado:
MT, o podcast, esse excelente meio de conhecermos mais a fundo nossa banda sem dúvida não poderia ser deixado de lado. Estamos também na expectativa prá ouvir o próximo programa. Em relação ao U2 By U2, com certeza sua ajuda será mais que bem vinda. Assim que tiver disponibilidade é só entrar em contato. ;)
Tô bem feliz com esse projeto, porque é realmente muito prazeroso trabalhar em cima dos textos e ao mesmo tempo acompanhar a trajetória da banda. E feliz também, porque no ritmo que está a equipe terminaremos o U2 By U2 em português antes mesmo do que eu imaginava. Parabéns turma!!!:saúde:
MacphistoMr
28/04/2007, 14h05
Boa Bonolocks (http://www.ultraviolet-u2.com/foruns/member.php?u=1589). Thanks pelas transcrições.
Bonolocks
28/04/2007, 14h20
Boa Bonolocks (http://www.ultraviolet-u2.com/foruns/member.php?u=1589). Thanks pelas transcrições.
;) :aprovado:
Bonolocks
28/04/2007, 14h25
(Continuação)
Páginas 45 e 46
Edge: Havia muitos trocadilhos, bons e ruins, que o nome sugeria, mas nós estávamos interessados apenas na sua abrangência. Tínhamos uma série de pins dizendo: “U2 could happen to anyone”, que tínhamos feito na época. Cada pin tinha uma palavra com o nome U2 em cada uma delas: U2 COULD; HAPPEN; TO; ANYONE. Um conjunto de quatro pins que só faziam sentido se ficassem alinhados na ordem certa. Era bom para esse tipo de coisa, permitindo brincar com idéias diferentes.
Larry: Da primeira vez que nosso nome apareceu no jornal, nos chamaram de “U2 Malahide”. O que eles queriam dizer era ‘U2 de Malahide’, que, como é obvio, também não estava certo.
Edge: Nesta altura, o Adam tinha digamos que “optado” por sair da escola.
Adam: Ocorreram alguns incidentes na Mount Temple. Não havia uniforme escolar e acho que houve algum falatório sobre se um rapaz podia usar saia. Quando comecei a fumar, o dinheiro se tornou cada vez mais importante, pois precisava dele para poder comprar cigarros. Por isso, convenci várias pessoas a apostarem 50 pennies cada uma (cerca de 0,75 euros) em como eu não ia usar saia na escola. Esse foi o primeiro incidente.
Larry: Creio que um rapaz se despiu e andou correndo nu pela escola e, na época, foi mencionado o nome do Adam. Mas eu não cheguei a ver nada.
Adam: Não me lembro de nenhum incidente em que tivesse me despido, mas não é improvável.
Bono: O Adam era conhecido por se despir e passear nu pelos corredores da escola.
Adam: Nessa época, tornou-se claro para o professor encarregado do internato, Donald Moxham, que, embora fosse uma pessoa muito sensata e equilibrada não tinha grande interesse pela escola. Ele era um homem facilmente irritável e acho que não gostou em saber disso. Eu era apanhado por coisas insignificantes, mas ele ficava sempre irritadíssimo. Devo dizer que, apesar de sua posição, ele era muito tolerante, pois era muito empenhado como professor e em dar oportunidades às pessoas. Até tinha nos disponibilizado um espaço para ensaiarmos, entre muitas outras coisas. Por isso, de certo modo, estávamos na mesma onda, mas ele acabou dizendo que achava que eu tinha “ultrapassado” o sistema escolar e não havia razões para continuar lá gastando recursos valiosos, o que foi uma maneira muito educada de me por para fora. Eu poderia ter protestado e talvez tivesse ficado lá. Mas ele me deu uma escolha. Disse: “Os exames que te permitirão ter o diploma do secundário estão na porta, se quiser, pode vir fazer”. E eu, com dignidade, disse: “ Eu também não quero fazer a porcaria dos exames!” Foi uma mentira, pois sabia que não ia obter bons resultados. Arrogância juvenil.
Edge: O Adam se tornou nosso agente e mandou fazer cartões de visita. Durante algum tempo, o Adam e o Bono foram, sem dúvida, os mais vocais do grupo, já que eu e o Larry éramos muito novos. O fato do Adam conhecer termos exóticos como ‘gig’ (atuação) e ‘riff’ (seqüência repetitiva de notas) dava a ele uma certa autoridade. Acho que nós até usamos a palavra ‘rift’ até ele nos corrigir. Estávamos bem impressionados.
Adam: Embora eu dirigisse a banda, o que quer que isso significasse, acho que estava sendo incentivado pelo Bono. Ele sabia sempre o que queria e o que a banda era capaz de fazer. Mas eu tinha mais tempo disponível do que os outros, e além disso, em minha casa as regras para usar o telefone eram mais liberais. Acho que o Bono não podia fazer telefonemas em casa. O pai dele era muito rígido. Por isso era eu que telefonava para todas as pessoas que achava que podiam nos ajudar. Havia um lugar chamado The Spinning Wheel, na Mary Street, onde costumava ter atuações aos sábados e domingos à tarde e eu ia para lá conversar com as pessoas. Naquela altura, eu era apenas um cara de pau e qualquer pedacinho de informação ou contato com o mundo do espetáculo me fazia andar motivado dias a fio.
Edge: Começou a levantar uma questão sobre se meu irmão fazia ou não parte da banda. Estava tornando evidente que, como grupo de quatro elementos nos dávamos bem. Como compúnhamos as músicas em quatro, começou a se desenvolver uma forma natural de tocarmos juntos. Mas foram momentos difíceis, porque eu me sentia relutante diante d a idéia do Dick não fazer parte do grupo. Durante algum tempo, não quis ver a sensatez dessa atitude.
Larry: O Dick era um cientista e eu não percebia porque razão tínhamos um cientista na banda. Eu era novo, e não era muito diplomático. Desculpa ai Dick.
Adam: Éramos muito sensíveis em relação ao fato de termos dois irmãos na banda. Um deles andava na escola com a gente e era, por assim dizer, um dos nossos. Nessa altura, assim como agora, tudo se resumia: “Somos uma banda? Quem pertence à banda? O que isso significa?” O Dick pertencia, obviamente, a uma geração diferente. Já estava na Trinity College e não tinha as mesmas ambições que nós. Era um excelente aluno, por isso, era impossível que tivesse o mesmo empenho que nós na banda. Nem sempre podia ir aos ensaios, não fazia muitas coisas que nós fazíamos e não estava presente em discussões importantes. Havia ainda outra coisa atrativa em ficarmos reduzidos a uma banda de 4 integrantes. Era mais intenso, só um guitarrista fazendo power chords e não havia excessos. Começamos a nos preocupar mais com a nossa imagem. Tiramos idéias de revistas como a Hot Press e a NME, de alguns grupos punk, começamos a analisar o trabalho artístico deles, e começou a se tornar evidente que o Dick não se encaixava na banda. A barba também deve ter influenciado.
Larry: As coisas começaram a ficar complicadas. Um dia, houve um pequeno desentendimento. O Dick se virou para mim e me deu um soco na barriga. Acho que foi a ultima gota.
Adam: Foi uma transição difícil, porque ninguém queria ofender ninguém. O Edge não tinha voto na matéria, devido aos conflitos de interesses. Acho que não tomou o lado de ninguém. Era algo que eu, o Larry e o Bono tínhamos que resolver.
Bono: Não me lembro de como é que tudo se desenrolou.
(Continua...)
Créditos: Juliana Oliveira.
Bonolocks
28/04/2007, 23h13
Galera, só para constar, a equipe está trabalhando maravilhosamente bem! Para terem uma idéia eu já tenho comigo mais 12 páginas do livro prá postar. Falta editar algumas e esperar outras páginas que vem antes na sequência (provavelmente até segunda receberei mais 5 ou 6 páginas). Amanhã entrarei na net só à noite.:assobio: Então, talvez começarei a postar essas páginas amanhã ou no mais tardar segunda-feira. Espero que estejam apreciando! Bom final de semana turma!!!:aprovado:
Violet U2
28/04/2007, 23h17
tá mto bom Cris :aprovado:
Galera, só para constar, a equipe está trabalhando maravilhosamente bem! Para terem uma idéia eu já tenho comigo mais 12 páginas do livro prá postar. Falta editar algumas e esperar outras páginas que vem antes na sequência (provavelmente até segunda receberei mais 5 ou 6 páginas). Amanhã entrarei na net só à noite.:assobio: Então, talvez começarei a postar essas páginas amanhã ou no mais tardar segunda-feira. Espero que estejam apreciando! Bom final de semana turma!!!:aprovado:
Parabéns a todos vocês, Cris!
Vcs estao a todo vapor mesmo :aprovado:
To suando pra acompanhar e to adorando poder ler esse livro maravilhoso.
Mais uma vez meu agradecimento a todos vcs envolvidos no projeto :aprovado:
Sô Hewson
29/04/2007, 04h52
Realmente nunca é demais agradecer pelo comprometimento e pela dedicação de todos!!!! Muito obrigada mesmo!!! :aprovado: :aprovado:
E estou ansiosa para ler o restante!!! ;)
Realmente nunca é demais agradecer pelo comprometimento e pela dedicação de todos!!!! Muito obrigada mesmo!!! :aprovado: :aprovado:
E estou ansiosa para ler o restante!!! ;)
faço minhas as suas palavras sô....o pessoal que está traduzindo está de parabéns!
Bonolocks
30/04/2007, 00h15
Valeu pelas palavras mais uma vez turma. Aí vão mais duas páginas!
(Continuação)
Páginas 47 e 48
Edge: Telefonei ao Dick e contei-lhe a novidade. Dei uma grande volta à história. Disse-lhe que havia um novo projecto chamado U2, que só tinha quatro elementos. Que os Hype iam acabar.
Adam: O momento exato em que nos tornamos U2 foi numa mostra de talento em Limerick, patrocinada pela Harp Lager, no dia de Saint Patrick, em Março de 1978. O prémio era 500 libras (cerca de 635 euros) e um contrato discográfico. Tínhamo-nos inscrito como The Hype e ocorreu-nos que, se ganhássemos, esse seria o nome pelo qual passaríamos a ser conhecidos. Por isso, tivemos de mudar de nome antes do concurso.
Bono: Os Hype deram um espetáculo à meia-noite no Project Arts Centre.Um espectáculo sério, numa verdadeira sala de espectáculos de Dublin! Depois da atuação fomos celebrar. Acho que não houve muito descanso nessa noite. No dia seguinte, tínhamos de acordar cedo para apanhar o trem para Limerick. Alguns integrantes dos Village foram conosco. Foi uma animação ir no trem com os nossos colegas para ir atuar num lugar onde havia pessoas ligadas ao mundo da música. Era Rock ‘n’ roll!
Larry: Eu e o meu velho chegamos à Connolly Station vinte para as duas e reparamos que o único trem que ia para Limerick saía às 14h da Houston Station. Lembro-me de ele ter começado a resmungar: “Você é um grande idiota!” enquanto íamos correndo ao longo da linha de regresso ao carro. Por pouco não apanhávamos o trem.
Adam: Foi uma festa e tanto! Estavam lá o Gavin, o Guggi, o Strongman e o Pod. E a Maeve O’Regan.
Larry: Nunca tinha ficado num hotel. Acho que partilhei o quarto com o Pod e o Strongman. O Bono dividiu o quarto com a Maeve O’Regan. Achei aquilo uma loucura. Ele estava dividindo o quarto com uma garota. Sentia-me completamente intrigado com aquilo, pois sabia que os meus pais não iriam aprovar.
Bono: Sempre tive amigas que não eram minhas namoradas. No topo da lista estava a Maeve. Éramos verdadeiras almas gêmeas. Falávamos da vida e de poesia, de sexo e de fé, de amor e de medo, e “de todas as coisas que nos mantêm na misteriosa distância entre um homem e uma mulher”. Lembro-me que queria mesmo falar com ela. Acho que tinha alguma coisa planejada. Mas éramos amigos e, por isso, não iria acontecer nada entre nós. Mas, ela foi dar um passeio com o Adam e não voltou para conversar comigo sobre poesia, política ou outra coisa qualquer. Fiquei magoado e compreendi o poder do Afro, mesmo que fosse um Afro invertido. Isto porque o Adam tinha um cabelo que deixaria o Michael Jackson orgulhoso. Além disso, sabia acender cigarros e bater levemente o cigarro para fora do maço. Naquela altura, o mais provável era eu pegar fogo em mim mesmo.
Eu devia parecer uma pessoa muito segura de si mesma. E o tinha sido, quando era mais novo, mas a autoconfiança não resiste a tudo. Nada de bom surgiu depois disso. Acho que a arte é uma tentativa de a pessoa se identificar. Se temos a certeza de qual é o nosso lugar no mundo, não existe qualquer razão para tentá-lo descobrir. Eu já fui uma pessoa muito segura de mim mesmo, mas, depois, a minha mãe morreu e a minha segurança se foi. Quando tinha 17 anos, recuperei alguma confiança, porque descobri o que queria fazer na vida. Até sou capaz de ter atingido um certo nível irritante novamente. Mas não muito. Porque agora já sabemos o tamanho da queda e essa idéia nunca desaparece. Mas eu ainda andava tentando resolver esse problema.
De qualquer forma, em palco demonstrava grande segurança. Alguma vez viram uma pessoa desastrada e sem graça que consegue nadar maravilhosamente? Normalmente, não passa de uma pessoa desajeitada que esbarra contra as mesas e cadeiras e tropeça em sacos, mas quanto entra na água tudo se transforma. Comigo acontece o mesmo. Porque estou fazendo aquilo que gosto. É uma sensação fantástica. A música me deu muita confiança.
Adam: O concurso era uma sala com um palco enorme, um sistema de som e luzes e todos aqueles músicos das showbands fazendo o que eles sabem fazer, todos à espera de conseguir um contrato discográfico, alguns tipos mais novos e mais punks, e nós.
Larry: As apresentações iam começar cedo, às seis da tarde. O lugar estava lotado. Assistimos à apresentação das outras bandas e nos sentíamos pouco confiantes.
Edge: Não fazia idéia do que é que eles esperavam daquele espectáculo. Achei que ia ser um concurso terrível de amadores e que o vencedor ia ser um grupo que conseguia cantar ‘Auld Lang Syne’ e beber um copo de água ao mesmo tempo. Mas, quando chegamos lá, encontramos o Jackie Hayden, juiz da CBS Ireland, que era um tipo todo modernaço, e, por isso, achamos que as coisas podiam correr melhor do que pensávamos. Entretanto, vimos algumas atuações antes da nossa e achamos que eram todos músicos muito bons. Muitos deles estavam tocando versões de outros grupos, mas outros apresentaram originais. Achei que as músicas não eram grande coisa, mas eles sabiam tocar e cantar afinados. Estava um tanto nervoso e achei que íamos nos estrepar na primeira dificuldade.
Bono: Havia bandas que sabiam acompanhar o ritmo, eram afinadas e pareciam muito seguras, tudo o que nós não conseguíamos ser nem fazer. Mas algumas bandas têm tudo mesmo “aquilo”. Nós só tínhamos “aquilo”.
Edge: Acho que tocamos três músicas nossas. Não demoramos mais de três minutos, eram coisas simples.
Larry: Tocamos ‘Street Mission’ e mais umas músicas.
Adam: Acho que tocamos ‘Life On A Distant Planet’ e uma coisa chamada
‘The TV Song’. Chamava-se assim porque tinha um som parecido com o da banda television. Era melódica, a meio-tempo e o principal atrativo era o fato de sabermos tocá-la até o fim.
Edge: Lembro-me apenas de termos arrasado. Às vezes, sente-se que a sala vibra. Me fez lembrar o primeiro concerto que demos no ginásio da Mount Temple e eu conseguia ver no rosto das pessoas que tínhamos estabelecido uma ligação. Me fez sentir muito bem, mas ainda não fazíamos idéia de que iríamos ganhar.
Larry: Todos os que estavam conosco em Limerick acharam que nos tínhamos saído muito bem. Não tivemos grande reação por parte do público, mas fomos a única banda com um repertório só de originais. Depois da atuação, nos sentamos junto do público. Subiram ao palco mais alguns grupos e depois houve uma pausa enquanto era feita a votação. Não me lembro de qual era o processo de votação, acho que não era nada de muito complicado, mas eu estava tão intusiasmado que nem sequer pensava nisso. Os East Coast Angels ficaram em terceiro lugar. A Maeve O’Regan virou-se para mim e disse que íamos ficar em segundo ou primeiro lugar. E eu disse-lhe que ela não tinha entendido o sistema de votação. Entretanto, um grupo popular só de garotas ficou em segundo. Eu já estava convencido de que tínhamos perdido. E a Maeve disse: “Vocês ganharam!” E tinha razão. Nem conseguíamos acreditar. Quinhentas libras e a oportunidade de gravar um single. Melhor do que isto era impossível.
Adam: Foi uma das raras ocasiões em que o meu pai esteve presente. Ele tinha parado em Shannon e foi assistir ao espetáculo. Não queríamos acreditar que tínhamos vencido. Eu achava que as nossas probabilidades eram as mesmas de quem joga na loteria, ou isso. Mas foi estrondoso termos realmente ganho. Lembro-me de ter agarrado na cadeira que estava à minha frente e de tê-la espatifado no chão. Mesmo em cima do pé do meu pai. E ele nem percebeu porque, pois não sabia que tínhamos mesmo vencido.
Edge: O pessoal ficou doido. O Pod saltou bem alto e aterrou em cima de mim. Quase me partia a perna com a excitação. Devido à forma como o concurso estava organizado, o mais provável era que nem sequer tivéssemos sido colocados, por isso, saltamos das garras da derrota e da ignomínia para a vitória. Mal podíamos acreditar. Fiquei em estado de choque. Não tínhamos idade para nos divertirmos noite fora, mas acho que ninguém dormiu naquela noite. O Adam, sendo o mais velho e aquele que se comunicava melhor com os adultos, foi receber o cheque. O pai do Adam estava perto dele e ficou com o dinheiro por uma questão de segurança. E foi assim. Foi uma grande afirmação termos vencido aquele concurso, embora eu não soubesse até que ponto haviamos sido bons, nem como tinha sido a competição. Mas, naquela fase, foi muito importante vencer para levantar a moral e para que todos acreditassem no nosso projeto.
Larry: Houve uma espécie de desfile na manhã seguinte e nós ficamos assistindo da varanda do hotel. Íamos ter de ficar o dia todo em Limerick por causa dos horários dos trens. Ainda éramos muito novos para nos servirem bebidas nos bares, por isso, passamos a tarde inteira na feira popular local. Não imaginamos até que ponto o fato de termos vencido em Limerick iria mudar as nossas vidas.
Adam: De certa forma, essa vitória lançou-nos num novo curso. Foi tudo muito amador, mas para nós era muito real e, quando nos apercebemos, o contrato discográfico não era bem um contrato discográfico. Não havia nada que favorecesse o artista. Mas já estávamos um passo à frente.
Bono: Na viagem de regresso à casa, alguém tentou atirar o troféu pela janela do trem, porque parecia uma taça de um campeonato de golfe.
Adam: Depois disso, os Hype de cinco elementos ainda fizeram mais uma apresentação, na qual se despediram do Dick. Foi no salão da igreja presbiteriana, em Howth. Parecia uma daquelas ocasiões em que se vai tomar chá com o vigário. Não tinha nada de ar de rock ‘n’ roll. Mas não deixou de ser uma noite divertida para todos nós.
Bono: Naquela noite atuaram quatro bandas e o Adam entrava em todas!
Tocou com os Hype, depois ele e o Edge apoiaram o Gavin e o Guggi no primeiro espetáculo dos Virgin Prunes e, por fim, tocou algumas músicas com a nova banda do Steve Averill, os Modern Heirs. E com o U2, claro. O Adam tinha uma coisa fantástica, sabia sempre o que queria e tinha a coragem de o dizer. E tudo o que ele queria era estar numa banda e ir até ao fim.
Edge: Foi um momento de virada. Fizemos versões de outros artistas como Hypes e depois regressamos como U2 com um repertório de originais.
O Dick ficou um tanto desiludido por ter chegado o fim. Acho que o aceitou com um certo fatalismo. Não houve lágrimas nem cenas. Mas, quanto a mim, houve uma certa tristeza. Ele era meu companheiro e meu irmão. Vivemos muito unidos durante muitos anos e éramos companheiros na música. Agora, íamos seguir caminhos separados. No entanto, tinha de reconhecer que era o melhor para todos. A nossa banda de quatro integrantes era mais intensa. Esta nossa nova versão possuía uma harmonia e um entusiasmo que eram muito apelativos. Estávamos ansiosos pelas próximas músicas, pelas próximas atuações. Tínhamos apanhado a febre do Rock ‘n’ Roll.
Hoje em dia, o Dick passa a maior parte do tempo fazendo pesquisa no campo da ciência informática. Vemo-nos com regularidade e ele continua a tocar guitarra e a estar envolvido no mundo da música. Tenho certeza de que sente alguma mágoa pelo trem ter saído da estação sem ele. Ele teria adorado fazer parte de tudo aquilo conosco. Mas também sei que não está sempre pensando que as coisas poderiam ser diferentes. Já naquele tempo, existia no U2 uma harmonia que os Hype nunca tiveram. Não teria sido a mesma coisa com dois guitarristas. Ele tocava com tanta sutileza, de forma tão singular. É absolutamente brilhante. No início, tocava guitarra muito melhor do que eu. Foi ele quem me ensinou a tocar, mas o seu estilo natural foi sempre diferente. Ele é uma pessoa mais do tipo intelectual e isso se podia notar na sua forma de tocar.
Adam: Me lembro do significado de quando nos tornamos o U2 naquela noite, de termos ficado só os quatro. Era um sentimento de estabilidade, estávamos onde devíamos estar, tocando o nosso próprio material e estava tudo bem. Na semana seguinte: Top of the Pops!
Créditos: Joanne.
Bonolocks
30/04/2007, 00h20
Páginas 50 a 52.
1978 – 1980
STARING
AT THE SUN
__________________________________________________ ____________
Edge
Foi um processo muito lento para finalmente chegar à conclusão de que isso era o que eu realmente queria fazer da minha vida.
Talvez tenha acontecido com Adam primeiro porque, nesse ponto, ele estava sem rumo, e a música era um bote salva-vidas. Mas eu não estava naquela situação; eu tinha muitas opções. Apenas não tinha nenhum interesse real em nada mais além da música.
Estava esperando encontrar a coisa que se tornaria o trabalho da minha vida – e essa coisa me encontrou. Concordei com ela e finalmente, quando a banda começou a melhorar e nós começamos a escrever músicas, eu percebi que isso era o que eu queria fazer. Não foi porque eu sempre nutri uma ambição secreta de ser um rock star . Isso veio apenas mais tarde. Eu não queria estar em nenhuma outra banda. A princípio nós estávamos todos indo a lugar nenhum, e decidimos ir lá juntos. Então, algo muito especial começou a acontecer entre nós. Era um tipo de sentimento de irmão para irmão, uma grande lealdade mútua e a confiança de que poderíamos percorrer todo o caminho. Antes de sabermos tocar, antes de conseguirmos escrever nossas músicas, antes de podermos nos apresentar, nós acreditávamos em nós mesmos como uma banda. Se eu não tivesse tropeçado com Bono, Adam e Larry, provavelmente eu teria ido para uma faculdade, tentado conseguir um diploma em qualquer coisa e continuar uma vida daí. Eu não tenho nenhuma idéia de onde estaria sem o U2.
LARRY: Eu estava surpreso com o quão longe nós tínhamos ido. Mas eu ainda não queria ficar entusiasmado com isso. Por ora, era só um pouco de diversão. Não estava pronto para abandonar tudo pela banda. As coisas em casa não eram tão simples assim; eu não podia fazer tudo que queria.
ADAM: A banda era tudo para mim, eu tinha apostado todas as minhas fichas nela. Eu não tinha nenhuma outra opção.
BONO: A gente ainda estava na escola, mas na minha cabeça Mount Temple tinha se tornado uma sala de ensaios. Tenho grande carinho por ela como um lugar que ajudou a moldar a mim mesmo, aos meus amigos e à minha banda, uma sensação de orgulho de que nós éramos parte de algo em progresso.
Eu realmente acreditava que o U2 era capaz de se tornar algo extraordinário, não sei por quê. Mas se você voltar ao depósito de idéias pobres, havia sempre algumas boas por lá. Acho que o 1° conceito que tivemos sobre valores era que pessoas que vivem vidas ordinárias tinham coisas extraordinárias em suas mentes, às vezes - na maioria das vezes, na verdade. Penso em Patrick Kavanagh dizendo: ‘Ninguém precisa ser medíocre, se é ele mesmo. Deus não cria nada, além de gênios’. O rock’n’roll tinha tendência a simplificar o real, reduzindo todos os pensamentos complicados e todas as idéias de um adolescente a apenas “você quer ser rico e repousar”. Isso é o rock’n’roll. Mas todo mundo que eu conhecia era mais complicado que isso. Todos eles tinham pensamentos loucos enquanto estavam crescendo, e eles ficaram menos loucos quando cresceram. E isso é uma vergonha. Jovens lidam com grandes conceitos como a morte e a indefinição de ser um homem ou uma mulher. Eu queria escrever sobre todas essas coisas. A ironia do punk não explicava o suficiente para mim, e o poder do acorde não me dizia algo aceitável sobre o que quer que fosse que estivesse acontecendo na minha cabeça e na minha vida.
Eu estava rodeado de pessoas extraordinárias. Guggi sempre teve um jeito diferente de ver o mundo. Meu pai costumava chegar perto quando estávamos ambos desenhando; ele observava e dizia: ‘Você realmente tem talento...Guggi.’ E ele realmente tinha. Até mesmo quando criança, ele era um bom artista, um prodígio. A família dele sabia que ele era talentoso e eles queriam que tudo desse certo para ele, mas eles não sabiam o que fazer com uma criança-artista. Na nossa rua, acho que ninguém sabia. Então, Guggi e Gavin formaram o “The Virgin Prunes”, mas Guggi nunca se interessou de verdade por música. Para ele, o Prunes era um jeito de virar um artista.
Mas eu sempre soube que ele era legal. Não apenas porque ele conseguia desenhar retratos, mas porque ele via coisas que as outras pessoas não viam. Mesmo se fosse apenas dinheiro no chão – o que sempre era, a propósito.
Ele tinha um olho incrível para aventuras e oportunidades. A gente costumava ir aos concursos quando estávamos na cidade, porque as pessoas que ganham ficam tão entusiasmadas que elas nunca catam todo o dinheiro; há sempre alguma coisa que fica para trás. Há o grande momento quando todas as moedas caem e parece que alguém está pulando numa piscina feita de prata. Nós sempre usávamos a nossa perspicácia pela cidade, e costumávamos descrever todas as pessoas que encontrávamos através de sons, ao invés de palavras. Eu sempre sabia o que ele queria dizer. Nós desenvolvemos esse tipo de código, um jeito de reinterpretar o mundo.
Nós seguimos um dos nossos amigos nas baladas por toda a cidade, ele era muito interessante para nós. Tinha um corte de cabelo moicano, um cobertor sobre sua cabeça e uma grande bengala. Nós nunca mais iremos ver algo assim em nossas vidas. Nós o seguimos pelas ruas até o “Project Arts Theatre”. Esse era o Mick Mulcahy, o merecidamente aclamado artista. Nós andamos pelo Project, um local onde arte e pessoas da classe média habitavam, e onde havia um homem pelado rastejando com sua barriga pelo chão. Esse era Nigel Rolfe, um artista um pouco menos conhecido! Ele espalhou um pó branco e preto no chão e rastejava sobre ele. Eu e Guggi achamos tanta graça que chegamos a chorar. Essas pessoas estavam realizando performances e no Dada – nós não sabíamos o que o Dada era. Mas como todos nós tínhamos problemas com os nossos pais, nós gostamos da sua sonoridade.
Nós conhecemos Jim Sheridan por esses tempos, um autor dramático que mais tarde viria se tornar um grande produtor cinematográfico. E Mannix Flynn, que já tinha entrado e saído várias vezes de centros de reabilitação juvenis e escrito alguns artigos muito poderosos sobre isso. Ele tinha uma grande energia, e seus olhos eram cheios de alegria e travessuras. Ele estava conversando sobre o teatro e como utilizar o espaço do palco, como mover o corpo e como fazer as pessoas acreditarem em você. Ele começou dando aulas de mímica pra mim, pro Gavin e pro Guggi. Com o U2 e o The Prunes e todas essas coisas interessantes acontecendo, realmente parecia que alguma coisa especial estava para acontecer.
EDGE: O The Virgin Prunes apresentou uma oportunidade para o Dick, justamente no momento em que o The Hype se metamorfoseou no U2. O Gavin e o Guggi queriam montar uma banda juntos, porque nesse momento o U2 (menos o Bono) era sua banda suporte. Bono viu Dick como um perfeito contraste para as atitudes inovadoras do Gavin e do Guggi, eu achei essa uma idéia brilhante e então convidei o Dick e ele pareceu cautelosamente otimista. Próximo passo seria eles ensaiarem, e parecia que eles estavam juntos por anos. Eu tenho que dizer que me senti um pouco aliviado quando eles deram certo. Eu realmente não gostava da idéia de deixá-lo abandonado.
BONO: Eu sempre gostei do Dick. Eu achava que ele era inovador e extraordinário. Eu achava que ele era na realidade mais bem apropriado, com suas idéias experimentais, para o “Virgin Prunes”.
ADAM: Então o Gavin e o Guggi montaram sua própria banda com membros do Village e os meus dias como um integrante honorário do Prune, chegaram ao fim. Eu gostava do Prunes, nós todos gostávamos, mesmo achando que eles eram praticamente o oposto do U2. Mas eu não tive dificuldades com o conceito, o exibicionismo do Gavin e do Guggi e o fato que era mais sobre fazer barulho e ofender as pessoas. Eu sempre estava feliz em fazer barulho o máximo possível.
LARRY: Nós gastamos as £500 do prêmio do Limerick em algumas poucas coisas. Nós fizemos nosso primeiro ensaio fotográfico. Bono, Adam e Edge fizeram uma viagem à uma loja de roupas punk irlandesas, No Romance, de propriedade das irmãs Moylett, Regine e Susan. Eles se prepararam com algumas roupas novas.
BONO: Nós tinhamos uma idéia bem clara do que nós queríamos. Eu tinha em minha cabeça um fundo branco e nós tentando um tipo de visual do início dos anos sessenta, no estilo do Velvet Underground. E todos tínhamos que usar calças apertadas, porque era isso que se fazia se você fosse punk rock. Larry se recusou e foi para a sessão de fotos com uma calça boca-de-sino. Calças boca-de-sino eram o inimigo, eles eram os hippies esquecidos, então nós tentamos escondé-lo nos fundos.
ADAM: Steve Averill tinha organizado a sessão de fotos com a intenção de fazer um pôster nosso. Isso era uma grande coisa para nós, ter um pôster colorido, com um grande U2 em vermelho e uma foto de todos nós. Essas coisas de status realmente significavam muito naquela época. Olhando para isso agora, nós realmente parecíamos crianças. As fotos foram tiradas por uma garota chamada Phil Sheehy e foram as nossas primeiras fotos a sair na revista Hot Press.
EDGE: Hot Press era a revista irlandesa sobre música e nós todos líamos. Bill Graham era um dos escritores que todos nós realmente respeitávamos. Ele possuia um jeito muito especial de escrever, que podia ser muito impenetrável algumas vezes, mas apesar de tudo ele tinha um coração e uma alma para música, que vinha à tona muito claramente em seu trabalho. Nós eramos seus grandes fãs, e de alguma forma o Adam conseguiu persuadí-lo a nos conhecer.
BONO: O Adam era muito persuasivo. Ele tinha impresso alguns cartões escrito “Adam Clayton, empresário do U2”, e convidava as pessoas. Esse era o mundo pós-Geldof em que era permitido fazer barulho e brigar por um lugar no começo da fila. De repente, subir o Monte Everest de helicóptero era extremamente popular. Você poderia fazer essas coisas se você fosse esperto. Tinha um pouco disso na gente: quem nós poderíamos amarrar? E Bill sabia disso e nos deixou pôr o laço ao redor do seu pescoço.
Créditos: João Filardi e Nonata (ntrevia)
ranilsongf
30/04/2007, 13h03
aconteceu na RAH tour
http://www.youtube.com/watch?v=Et_-7iaoSms&mode=related&search=
http://www.youtube.com/watch?v=hl90x5SUOI4&mode=related&search=
followerU2
30/04/2007, 14h36
ranilsongf, há um tópico no U2 Mart pra colocar videos do YouTube sobre o U2, da próxima vez procura lá, okay? Nessa thread ficou off topic.
Cris, estou impressionada com a velocidade com que as transcrições das páginas estão sendo disponibilizadas. Se eu tivesse a edição portuguesa certamente ajudaria de imediato. Parabéns pelo esforço galera!
MT
Bonolocks
30/04/2007, 14h37
(Continuação)
Páginas 53 e 54
ADAM: Eu estava administrando a banda, visto que eu fazia ligações e tentava conseguir apresentações. Na verdade, isso significava ligar para algumas pessoas duas ou três vezes por semana, e às vezes elas se rendiam. Mas o talento natural do Bono de se conectar, de saber onde procurar por apresentações e o que fazer em seguida, qualificou-o como sendo muito eficiente na parte da liderança. Foi idéia do Bono ligar para a Hot Press e conseguir um encontro com Bill. A idéia era levá-lo para um ensaio em Mount Temple, tocar algumas músicas, e então ir para o pub local, o White Horse, e conseguir alguma informação dele.
Ele realmente foi e sentou-se no meio de nós, discutindo algumas músicas. Ele tinha a mente aberta, um cara curioso. Nós éramos garotos de escola na época, sabendo nada, na verdade, e pobremente capazes de tocar nossos instrumentos. Mas ele sentou conosco no pub e deu-nos algumas pérolas de sabedoria.
EDGE: O conselho mais útil de Bill foi ‘Encontrem um empresário’. Nós dissemos ‘Parece bom. Você conhece algum?’ E ele disse ‘Tem um cara. Ele está como empresário de uma banda chamada Spud, no momento. O nome dele é Paul McGuinness’. Bono disse ‘Você pode conseguir o número do telefone dele?’. E foi isso. Como resultado daquele primeiro encontro, acho que conseguimos algo na Hot Press, realmente uma menção muito pequena, que Bill colocou com uma foto. Mas era típico dele fazer isso. Ele adorava saber o que estava acontecendo nas várias garagens do subúrbio. Ele quis is a Clontarf para encontrar um bando de crianças porque havia uma pequena chance de algo interessante estar acontecendo.
BONO: A algumas pessoas é dada a dádiva de enxergar o que está errado no presente. A poucas pessoas é dada a dádiva de perceber o que pode estar no futuro. Bill estava no segundo grupo. Ele nunca se irritava sobre onde as coisas estavam porque ele sabia o que tinha ao contornar-se uma esquina. Ele era bom nisso. É algo raro, você sabe.
PAUL MCGUINNESS: Eu nasci num hospital do exército na Alemanha em 1951, onde meu pai estava situado com o RAF [RAF: Royal Air Force (Força Aérea Real)]. Fiquei apenas um ano lá, então mudamos para uma sucessão de outras bases do RAF. Meu pai era de Liverpool, que é conhecida como a maior cidade irlandesa fora da Irlanda. Minha mãe era professora; ela era de Kerry. Eles decidiram, eu acho, por razões culturais ou talvez até mesmo religiosas, mandar-me para um internato na Irlanda. Então em 1961, aos dez anos, eu entrei para o Clongowes Wood College, dirigido pelos jesuítas.
Achei a Irlanda um lugar muito estranho, quando fui pela primeira vez. Achava difícil entender o que as pessoas estavam dizendo. Mas fiz o melhor que pude e, quando deixei a escola, eu me via como um irlandês. Fui para o Trinity College em Dublin, para estudar psicologia e filosofia. Perdi o interesse quase imediatamente.
Era uma forma muito extrema de psicologia que estava sendo difundida na época; eles eram cheios de bons comportamentos e havia pouca discussão sobre o lado profundo da mente. Continuei com a filosofia, e apesar de ser satisfatório para os meus professores, eu não estava fazendo muita coisa. Rapidamente me tornei amigo de algumas pessoas que estavam mais interessadas em ouvir música e conhecer garotas, e fumar baseados. Era o nosso modo de vida. Eu estava envolvido em teatro com os Trinity Players, atuei um pouco (não muito bem), dirigi algumas apresentações e editei a revista da faculdade durante um período. Eu insultei Brendan Kennelly, o Junior Dean, o que realmente deixou-o bravo. Ao fim do meu 3° ano, recebi uma carta de Kennely dizendo que eu não poderia fazer os testes porque não tinha comparecido a nenhum sermão. Esse tipo de proibição era desconhecida, porque era habitual alunos se esquivarem dos sermões, mas essa era a vingança de Kennelly, então foi o fim. Tive que deixar Trinity.
Meus pais insistiram na minha matrícula na Universidade de Southampton, perto de onde eles viviam, em Bournemouth. A idéia era que eu ficasse em algum lugar onde eles pudessem ficar de olho em mim. Mas isso não me agradou e, depois de uma semana ou duas, peguei o trem para a faculdade. Tive vários empregos: trabalhei de motorista de táxi, trabalhei numa loja de livros, guia turístico em peregrinações a Lourdes. Ao fim do ano, tinha juntado dinheiro suficiente para voltar a Trinity e repetir meu terceiro ano. Estava na metade do ano quando me ofereceram o trabalho de diretor local em um filme, John Boorman’s Zardoz. Minha única qualificação era que eu conhecia o diretor de produção e ele sabia que eu queria entrar para o negócio de filmes. Tudo que o trabalho envolvia era estacionar os caminhões, esse tipo de coisa, prestar serviço em uma filmagem. Mas eu aceitei o emprego e fiz um pequeno pacto comigo mesmo que se eu ainda estivesse trabalhando com filmes quando os testes chegassem, não me preocuparia em fazê-los.
Relembrando aquele período, eu queria ser ou um produtor de filmes (nunca quis ser um diretor) ou o empresário de uma grande banda de rock and roll.
Eu ouvia falar de pessoas como Brian Epstein (empresário dos Beatles), Andrew Oldham (empresário dos Rolling Stones) e Albert Grossman (empresário de Bob Dylan), e achava que esse era um bom trabalho para quem é capaz de envolver uma grande parte de criatividade do tipo mais interessante – juntar-se a um pequeno grupo de pessoas e construir algo que tenha impacto cultural. Eu nunca fui um músico, nem mesmo um músico frustrado. Eu não conseguia tocar nada, um fato que era óbvio para mim. Mas eu era um fã de música. Comprava discos e lia as revistas sobre música quando podia, e como estudantes, alguns de nós tinhamos um tocador e às vezes colocáva-mos uns discos pra tocar.
Um dos meus amigos, Michael Denny, empresariava a Horslips, uma banda de rock-folk formada por caras espertos e talentosos e que todos trabalhavam em agências ou tinham algum tipo de trabalho relacionado. Eles se tornaram extremamente populares na Irlanda. Naquela época, eu era apenas um estudante e todos eles já eram mais velhos do que eu, mas eles eram todos meus amigos e eu acompanhava alguns deles. Eu percebi como eles acabaram começando um grupo e conseguindo um contrato de gravação, adquirindo vans e assistentes e começando a cruzar as fronteiras, e eu desenvolvi um certo gosto por tudo isso. Então comecei a procurar bandas para empresariar. Eu experimentei um pouco; havia um compositor chamado Shaun Davey que eu empresariei para conseguir o seu single de estréia. Ele fez uma música para um comercial de televisão para o National Dairy Council. Era chamada de “The Pride of The Herd”. Nós o lançamos na CBS e o Council trouxe centenas de cópias para dar a fazendeiros e ele chegou ao número um.
Um velho amigo da Trinity, chamado Don Knos tinha um grupo de música folk bem conhecido localmente, que alegrava com o nome Spud. Eles provavelmente acharam que o que estava dando certo para o Horslips, poderia dar certo para eles, então eles me pergutaram se eu queria empresariá-los. Eles eram um grupo com cinco integrantes, com um baterista e tocavam em bares por todo o país. O Horslips tinha aberto um salão de bailes para uma banda de rock folk e então eu comecei a agendá-los com os mesmo promotores. Mas isso foi muito difícil – eu acho que é justo dizer que eles não eram carismáticos como o Horslips e eles também eram menos ambiciosos. Era muito difícil financeiramente trabalhar com eles, porque eles tinham família e precisavam do dinheiro, e então sobrava muito pouco para coisas que precisávamos como pôsters, roupas para usar nos shows e coisas assim. As suas metas eram muito pequenas.
Eles estavam acostumados a ir à Suécia algumas vezes por ano, onde a diferença nas taxas de câmbio fazia com que eles conseguissem um bom dinheiro. Eles foram esquecidos pelo selo de gravação com o qual tinham contrato, o Polydor, e então nós fizemos o nosso próprio selo chamado Break Records e gravamos alguns álbuns que a Sonet, uma companhia de gravação sueca financiou. Então eu comecei a aprender como conseguir financiamento para fazer alguma coisa mais profissional do que simplesmente ser uma banda e alugar roupas e vans e sempre estar quebrado. Eu tentei ser bem profissional, mas eles sempre tentavam acabar uns com os outros, em diferentes combinações. Dois deles, uma vez vieram falar comigo em uma manhã e disseram: “Você tem que se livrar dos outros três”. Depois, em uma permutação diferente, alguns deles poderiam voltar a tarde e dizer: “Não, não, nós não queremos nos livrar dos outros como havíamos dito antes, nós temos que nos desfazer dos outros caras”. Eles não eram muito leais uns com os outros.
Bill Graham era um amigo meu do Trinity. Ele sempre parecia ter uma grande idéia sobre música e sempre tinha alguns álbuns muito interessantes debaixo do braço. Nós até escutávamos músicas juntos algumas vezes, e assim a medida que o tempo ia passando, eu ia empresariando o Spuds e ele trabalhando para a Hot Press, e algumas vezes nós saíamos juntos para alguns clubes noturnos e sonhávamos com a idéia de levar uma banda irlandesa ao topo. O Horslips já tinha demonstrado que eles poderiam deixar sua marca além dos limites de Dublin. Eles tiveram um grande número de contratos de gravação com a Atlantic, RCA, Mercury. É verdade que eles frequentemente eram abandonados, mas eles fizeram dez álbuns e tinham quatro ou cinco contratos de gravação. Mas eles sempre tiveram seu próprio selo na Irlanda. Eles fizeram um bom dinheiro aqui e usaram pra investir seus lucros em turnês mal sucedidas pela Alemanha ou Grã-Bretanha ou até mesmo na América, onde eles poderiam tentar e ganhar algum tipo de apoio.
Bill e eu conversávamos sobre essa idéia de uma ´banda nova´. O que isso realmente significava era começar do zero, não com pessoas que já tinham participado de várias outras bandas e estavam cansadas. Juventude era importante. Eu acho que não há muito o que se tentar se você já tem vinte e sete, vinte e oito anos. Parecia para mim que uma banda nova e ambiciosa poderia usar Dublin como uma base para tomar conta do mundo, de preferência do jeito que o Horslips tinha tentado, mas fracassado. Então eu comecei a procurar por todos os lugares por bandas. Fui convidado para empresariar algumas, mas recusei todas. Eu era um técnico de filmagens freelance, o que era razoavelmente bem pago, quando tinha trabalho, e eu achava que tinha feito muito pouco dinheiro com a minha empreitada no mundo da música. Nessa época eu estava casado com Kathy Gilfillan, que eu conheci na faculdade. Minha esposa me apoiava na maioria das vezes, mas minhas necessidades eram modestas. Eu dirigia um velho carro (banger) e vivíamos em um apartamento com dois quartos na Ballsbridge.
Eu acho que o Bill mencionou o U2 em março de 1978. As lembranças que eu tenho, são eles perseguindo o Bill indo a um dos ensaios e tocar algumas músicas, aí o Bill disse: “Mas essas são músicas do Ramones!”. Eles ficaram embarassados por ele saber que a música era dos Ramones e não deles, mas eles tinham uma ou duas músicas de sua autoria e o Bill deve ter visto alguma coisa neles. Ele falou que eles precisavam de um empresário e que deveria ser eu. Eu comecei a receber ligações telefônicas do Adam. Eventualmente, após algumas oportunidades perdidas, ele veio me ver com uma fita demo, que devia ter sido acabada de ser gravada em um ensaio. Eu nem mesmo tinha um tocador de fitas e então tocamos a fita cassete na máquina da minha secretária eletrônica. Eu era bem ingênuo sobre música, então eu não podia dizer o quanto ruim aquilo era. Ouvi aquilo diversas vezes, realmente era bem grosseiro, mas devia ter alguma coisa, porque eu concordei em ir e vê-los.
ADAM: Eu acho que nós o encontramos na porta do Projects Art Centre. Ele era uns dez anos mais velho que nós, então ele deveria ter uns vinte e sete. É uma grande diferença de idade se você tem dezessete. Ele me cumprimentou como uma pessoa mais velha, mas definitivamente bem legal, vestido com uma jaqueta de couro e jeans. Ele tinha uma certa autoridade.
PAUL: Eles estavam abrindo no Project para uma banda chamada Glamblers, que era empresariada pela minha irmã mais nova. O U2 era a banda de suporte e era claramente melhor. Eles estavam fazendo mal, o que eles sabem agora fazer de melhor. Bono era muito pouco comum, ele estava na frente do palco tentando seduzir o público, fazer com que eles olhassem nos seus olhos. A maioria dos outros cantores nessa época olhava prá qualquer outro lugar, menos pra platéia. O Edge estava tocando um tipo de guitarra metálica, mas eram mais notas do que acordes e você podia até imaginar o que ele estava tentando fazer, mesmo que ele não estivesse se dando cem porcento. O Adam parecia como se soubesse exatamente o que estava fazendo. Eu realmente não estava olhando prá isso do ponto de vista musical – eu apenas achava que ele tinha tudo para ser um bom baixista. O Larry tocava bateria com toda a força e todos ocupavam os mesmos lugares que ainda hoje ocupam no palco.
Os Conheci depois de um concerto e levei ao Granary Bar ali perto, ofereci umas bebidas, que, como é obvio, não podiam consumir, pois eram muito novos.
EDGE: Na Irlanda, ainda havia a lembrança dos dias do “domínio britânico”, que se revelava de formas estranhas. Se alguém tivesse um sotaque inglês como o do Paul, as pessoas reparavam logo e faziam caso. Era algo inconsciente, mas eu testemunhei isso inumeras vezes. Na verdade, tipos valentes, alguns dos quais conviviam com a gente, tinham medo do Paul. O primeiro trabalho dele para o U2 foi conseguir que nos servissem bebidas no Granary Bar, coisa que era extremamente difícil.Já tínhamos sidos colocados na rua várias vezes, mas ele conseguiu que trouxessem bebida para todos. E nós pensamos logo que, se ele tinha sido capaz de fazer isso, então talvez fosse a pessoa indicada para nos representar.
(Continua...)
Créditos: João Filardi, Nonata (ntrevia) e Juliana Oliveira.
Bonolocks
30/04/2007, 14h49
ranilsongf, há um tópico no U2 Mart pra colocar videos do YouTube sobre o U2, da próxima vez procura lá, okay? Nessa thread ficou off topic.
Cris, estou impressionada com a velocidade com que as transcrições das páginas estão sendo disponibilizadas. Se eu tivesse a edição portuguesa certamente ajudaria de imediato. Parabéns pelo esforço galera!
MT
Realmente MT, a galera está a todo vapor. Prá você ter uma idéia, já me enviaram até a página 70, que logo estará disponível. Só estou fazendo os últimos acertos prá postar.;) E obrigado mais uma vez pela disposição em nos ajudar.:aprovado:
Marcinha nr 1
30/04/2007, 15h02
aconteceu na RAH tour
http://www.youtube.com/watch?v=Et_-7iaoSms&mode=related&search=
http://www.youtube.com/watch?v=hl90x5SUOI4&mode=related&search=
Inclusive coloquei na semana passada estes dois videos nos Downloads.:aprovado:
Bonolocks
30/04/2007, 20h14
(Continuação)
Páginas 55, 56, (57 – foto), 58 e 59.
LARRY: O Paul causava boa impressão devido ao seu sotaque requintado e a boa aparência. Tinha óculos escuros, embora devessem ser lentes bifocais coloridas. Lembro de ele ter ficado bastante impressionado com a presença do Bono no palco. Suponho que também deve ter achado que o resto da banda era aproveitável, pois veio à tona a possibilidade de ser nosso agente.
BONO: O Paul tinha e tem um ar bastante confiante. Um dos seus dons é falar. Uma idéia que pareça impossível de se realizar, se torna possível, bastando ele falar nela. Ele nos disse:
“É mesmo assim.
Componham algumas músicas,
toquem elas ao vivo e depois, é só gravá-las.”
“E depois compramos um furgão?”
Acho que essa foi a minha reação
Ele disse: “Não, nada disso. Primeiro tem que ir a uma gravadora, editar o primeiro álbum e, depois, fazer uma turnê.”
“E depois compramos o furgão?”
O que nós queríamos era ter um furgão para ganharmos dinheiro. Numa noite, fomos para Kerry, para tocar em um bar onde podíamos dormir no andar de cima, poupando assim o dinheiro do alojamento. O dono do bar era muito generoso: “Sanduíches, chá, café, o que vocês quiserem. Não tenham vergonha.” Por isso, é obvio que comemos todos os sanduíches que apareceram na frente e bebemos até não poder mais. Nessa noite, depois do concerto assistido por apenas 70 pessoas, ele nos pagou 100 libras pela atuação (cerca de 127 euros), menos os sanduíches e o alojamento. Ficamos com 30 libras...mas o furgão custou 40 libras. Achávamos que se comprássemos um furgão ganharíamos muito dinheiro. Se o nosso agente pudesse, de alguma maneira, subsidiar o furgão...e ele tinha ar de quem tinha possibilidades, por causa de seu sotaque. Mas a deixa dele era: “Vocês têm tudo. Só precisam melhorar. Mas já tem o que é preciso.”
LARRY: Eu era cauteloso em relação ao Paul. Já na nossa fase ouvia historias de agentes e gravadoras que exploravam as bandas. Foi uma decisão tanto quanto estranha, vinda de um homem que era notoriamente perspicaz e inteligente. Mas o que é que eu percebia disso? Eu era apenas um garoto metido.
EDGE: Acho que o Paul não estava preparado para ser agente de outra banda. A experiência com os Spud não tinha sido propriamente um triunfo. Entretanto, esteve envolvido na promoção de diversas bandas na Suécia. Algumas até recusaram lhe pagar a comissão, pois ele estava em Dublin e elas na Suécia sem intenções de regressar, Por isso “Que se lixe!” Ele se sentiu ofendido. De qualquer forma nos dávamos todos muito bem, mas ele não se pronunciava se estava interessado em ser nosso agente ou não.
ADAM: A conclusão que chegou após o nosso primeiro encontro foi: “Vocês estão se safando muito bem. Tem dado concertos, estão melhorando e isso é claro. Estão nas noticias.” E nós dissemos: “Não! Isso não basta. Queremos dar mais concertos. Queremos fazer uma demo, queremos gravar um disco.” Mas ele achava que ainda não estávamos preparados. Agora entendo, mas, na época, parecia uma espécie de rejeição. Além disso, queríamos um agente para resolver alguns de nossos problemas, como por exemplo: a falta de dinheiro, a aquisição de instrumentos de confiança e um furgão para deslocações durante os concertos. Durante algum tempo ficou tudo na mesma.
PAUL: Tinha quase certeza de que essa era a banda que eu procurava, mas passamos semanas, talvez até meses, estudando, tendo reuniões só para confirmar se éramos todos inteligentes, empenhados, e se tínhamos o mesmo objetivo. Confirmado. Eles tinham um bom grupo de fãs que os seguiam para todos os lados para apoiá-los. Eram habilidosos, ambiciosos e perspicazes.
BONO: Lembro do meu aniversário de 18 anos. Fomos todos ao McGonagles, onde já era de costume eu ir com o Guggi, o Gavin e os Village. No tempo dos meus pais, aquilo era um salão cristão de dança. Agora era palco de concertos punk-rock. Íamos vestidos com roupas escandalosas que encontrávamos no guarda-roupa das nossas mães. Ou dos nossos irmãos mais velhos, e íamos para a MacGonagles. Nunca tínhamos dinheiro para uma viagem de táxi até em casa, por isso, íamos a pé por quase todo o caminho e só no ultimo lugar possível é que pegávamos um táxi. Assim, ficava mais barato. Lembro que estava deitado na rua O’Connel, depois de ter bebido alguns copos, não muitos. Estar bêbado era considerado algo ridículo. Era só para fracassados, coisa que ninguém quer ser. Como eu digo: “What you mock will surely overtake you” (o que você zomba ira certamente te dominar).Lembro de estar deitado olhando para o céu e de me sentir bem por fazer parte de uma banda. Por estar onde estava, por estar vestido como um péssimo figurante do Star Trek. Enquanto estava olhando para cima, surgiu um cara na minha frente, a cara de um policial. Ele disse: “Importa de se levantar? Não pode dormir aqui no meio. Está na rua O’Connel!” Quando chegamos em casa ficamos acordados conversando. Fomos para minha cozinha e falamos sem parar, sempre sobre música, até o nascer do sol. Foi na manhã seguinte do meu aniversário que escrevi ‘Out of Control’!
Monday morning eighteen years dawning. I said how long?/ It was one dull morning, I woke the world with bawling. They were so glad. I was so sad. Há uma música de aniversário para você: não querer nascer.
É engraçada, é juvenil, eu sei, mas é uma idéia interessante para uma música. E percebemos que não temos direito de dar a nossa opinião nos dois momentos mais importantes da nossa vida: quando nascemos e quando abandonamos o planeta. ‘I was oh the feeling it was out of control’
EDGE: O Bono apareceu com a idéia para a ‘Out of Control’ e nós deixamos aquilo andar. No inicio, éramos tão péssimos músicos que só compúnhamos aquilo que sabíamos tocar e é por isso que não passavam de refrões simples, idéias simples, acordes simples e o Bono andava sempre procurando melodias nos nossos ensaios instrumentais. ‘Shadows And Tall Trees’ surgiu em uma dessas procuras. Eu e o Bono costumávamos apresentar algo que tivéssemos preparado anteriormente, mas, no final, as músicas só eram aproveitadas se as soubéssemos tocar.
Não digo que tinha canções fantásticas que não chegavam ver a luz do dia, mas, se o ensaio não corresse bem, a música não ia a lado nenhum. Era nessa base que as nossas idéias eram testadas. Como nessa época ouvíamos muita música, as nossas composições eram influenciadas por: Patti Smith, The Jam, Clash, Siouxsie and the Banshees, Bowie, Magazine, Buzzcocks. Tudo o que nos rodeava foi tirado do caldeirão e, entretanto, as músicas surgiam.
Só estávamos tentando descobrir uma forma de fazer corretamente. Houve muitas falsas partidas, muitos julgamentos e erros pelo meio. Às vezes, criávamos coisas inovadoras, mas longe de serem perfeitas. Foi algo muito difícil e excêntrico, eclético e esquizofrênico, mas o mais importante é que tinha força e muita vitalidade. Dedicamos muita energia e entusiasmo.
Foi a partir de ‘Out of Control’ que as criações das canções se tornaram mais entusiasmantes. O processo era o mesmo, mas elaborado. Normalmente, fazíamos uma jam e os riffs acabavam surgindo naturalmente e nós começamos a construir idéias em torno desses riffs. Durante os ensaios, havia muita discussões com o Larry.-“Alterou a parte da bateria. Não era assim que costumávamos tocar!” - decidimos, então, optar por um sistema que gravasse os ensaios e depois as melhores partes ficariam gravadas, para servir de orientação, independentemente de ser uma parte da bateria, de guitarra ou de melodia vocal. Essa se tornou uma característica marcante nos nossos primeiros ensaios, trabalhávamos as músicas a partir de um gravador de cassetes.
Era difícil ouvir o Bono, por isso, as letras não eram uma grande prioridade. O Bono nunca falava sobre as letras. Mesmo que a música já estivesse quase pronta, nunca sabíamos se ele tinha a letra. As letras estavam meio escritas, só para dar sentido a uma ou outra frase que lá estivesse. Depois, havia partes inteiras que eram só “palha”, como nós as chamávamos.
Se eu escrevesse uma letra, o que às vezes isso acontecia, tinha de o convencer a cantá-la, o que era difícil. Compus uma música intitulada “Cartoon World”, mas o Bono colaborou na letra. Jack and Jill went up the hill/ They dropped some acid and they popped some pills! Certeza que essa parte foi ele quem escreveu.
BONO: Tentava encontrar o nosso som com situações e rimas infantis. Tínhamos uma música chamada ‘Concentration let’s go.’ E pronto. A ‘Cartton World’ foi igual. Estávamos tentando descobrir a nossa linguagem. O trabalho era basicamente gratificante - julgo que já nessa altura sabíamos que tínhamos que criar uma nova espécie de moda, baseado no que estava fora de moda.
ADAM: Fizemos a nossa primeira demonos Keystone Studios. O Jackie Hayden, da CBS Ireland, estava supervisionando tudo, embora ache que ele é o primeiro a ter admitido que não é produtor. Foi horrível, pois ninguém nos entendia. Aparecemos lá e não fazíamos idéia do que estávamos fazendo. Mas nos colocarem em um estúdio de gravação, onde estávamos afastados uns dos outros e onde não podíamos nos comunicar, a gravação ia ficar péssima e não íamos tocar nada. Foi um inferno.
BONO: Nunca tinha estado em um estúdio de gravações. Desci até o porão e, sentada na recepção estava uma moça mais bonita do mundo, com uma voz linda. Pensei: “Uau! Será que em todos os estúdios de gravação há pessoas como ela?” Chamava-se Mariella Frostrup (veio se tornar uma famosa apresentadora de televisão). Lembro do meu entusiasmo ao ver os equipamentos. Era tudo sério.
Penso que estávamos todos irritadíssimos e não correu muito bem. O som na minha cabeça não era o mesmo que se ouvia nas colunas. Era um som muito leve. Nós estávamos habituados ao som dos ensaios. O volume da bateria, dos pratos, do baixo e da guitarra disfarça muitos problemas.
EDGE: Não fazíamos a mínima idéia do que estávamos fazendo. Confundi por completo o som da guitarra. O volume da minha guitarra estava tão baixo que quando ouvimos a gravação, parecia uma guitarra de brinquedo. Não imaginávamos que, num estúdio o som pudesse ser tão alto.
BONO: Entretanto apareceu o pai do Larry e o tirou dali, porque ele só tinha 15 anos.
LARRY: Eu tinha provas no dia seguinte, por isso, só pudemos gravar durante algumas horas. Entretanto, apareceu meu pai e disse: “Tenho de levar você para casa. Ele tem aula amanhã.” E lá fui eu.
ADAM: Tínhamos que fazer esse trabalho durante a noite, porque ficava mais barato. Mas o Larry teve que ir embora às onze horas. Perdemos o rítmo por completo. Ainda só tínhamos terminado as pistas de guia. O Jakie queria que gravássemos todas as músicas, mas acho que só conseguimos terminar a gravação de uma, chamada ‘Inside Out’. Foi uma sensação fantástica ouvir a nossa música, mas foi, ao mesmo tempo, uma espécie de choque perceber que o som não era assim tão bom. Não tinha nada a ver com as músicas que ouvíamos na rádio.
BONO: Eu tinha um problema na voz. Era grande fã dos Siouxsie and the Banshees, o que não constituía um problema. È aliás, umas das melhores coisas que possa acontecer a alguém, exceto se adotarmos o sotaque dela. Eu era mímico e por conseqüência, tinha que ter muito cuidado com o que ouvia, pois a minha voz podia mudar. Muitos cantores são na verdade excelentes mímicos.
Por exemplo, o David Bowie e o Mick Jagger. Aparentemente, o John Lennon também era. E até faz sentido, é uma coisa de ouvido, é a capacidade de imitar alguém falando, e ficar com sotaque. É como desenhar - para isso, é preciso ter olho e na música é preciso ter ouvido. Por isso, as gravações eram ridículas. Eu tinha um sotaque britânico: ‘Oh dear, oh dear, oh dear.’
Quando se toca ao vivo o volume abafa muitas falhas. Durante a atuação, a pessoa se perde no tempo, consegue interagir com o público. O Gavin era um enorme fã do Bowie. Eu também. Mas ele conhecia tudo o que era do David Bowie, dos Kraftwerk, de Brecht e Oscar Wilde. E acho que toda a malícia na minha voz vinha dele. Ao contrário de quando cantava ‘Show Me The Way’ no ginásio da escola, aí a voz não tinha malícia, era genuína. Entramos, então, naquela fase de usar o batom da mãe, calçar os sapatos dela, que são muito grandes, ir tropeçando até a cozinha e a família começa a rir. Era mais ou menos isso: experimentar a roupa dos outros. Mas isso é algo que temos que fazer para descobrir o que nos fica bem. Acredito plenamente que o U2 é uma das melhores bandas, e sempre acreditei desde o início, mas seria bom se as nossas gravações pudessem ser prova disso. Demorei bastante tempo até descobrir a minha voz.
LARRY: Achei o som fantástico. Em comparação aos nossos ensaios, aqui eles tinham o som saindo das colunas gigantes, acrescentando o efeito do eco. Fiquei completamente maravilhado. Não me recordo de nenhuma dificuldade durante a gravação e não fiquei tão decepcionado como os outros em relação ao resultado. Achei que o som estava bom...infelizmente.
EDGE: As aulas terminaram. Demos um concerto no parque do estacionamento da escola. Foi a nossa despedida da Mount Temple. Chegava agora o momento de descobrir que rumo tomar.
Os meus pais tinham uma atitude bastante liberal, o que agora posso dizer que funcionou com perfeição. Nos deixavam fazer qualquer coisa, independentemente do que fosse. Às vezes, não era boa idéia, mas na maioria das vezes não tinha problema. Éramos nós que decidíamos quase tudo. Então, fiz um acordo com meus pais. Disse: “Isso da banda está se tornando sério. Não sei até onde vamos conseguir chegar, mas estou gostando muito de trabalhar com essas pessoas e de fazer o que estou fazendo, gostaria de continuar durante um ano para ver no que dá. Se após um ano não acontecer nada e não tivermos um contrato de gravação, então irei para a faculdade.” Não tinha nenhuma intenção de ir para a faculdade, mas sabia que era a única forma de ganhar algum tempo. Eles acabaram concordando e a nossa casa se tornou automaticamente o local de ensaios da banda. Nesse ano, compusemos muitas músicas no barracão no fundo do jardim. Transformamos isso em nosso lugar de ensaios. O teto tinha um buraco que tapamos com sacos de areia e tínhamos um colchão enorme na porta. Lá conseguimos enfiar todos. Se vissem, chorariam de rir. O espaço tinha cerca de três metros quadrados, mas, mesmo assim, deu para colocar o isolamento sonoro e cabermos todos lá dentro com os instrumentos. Era demais, até começar a chover. A areia ficou toda molhada e, com o peso, o teto caiu em cima da gente.
BONO: O meu pai me deu um ano. Disse: “Tudo bem, pode viver aqui em casa durante um ano. Mas se, ao fim de um ano, não tiver dinheiro para pagar suas contas, arruma um trabalho ou sai de casa.” Achei que foi bastante generoso da parte dele. O meu irmão já tinha ido embora, por isso, era só eu e ele.
Era o espetáculo do Bono e do Bob, e foi mesmo um espetáculo. Ele tentava continuar sendo o sargento, mas eu não era um bom soldado.
LARRY: Saí da escola em 1978. Lá, o primeiro e o segundo ano foram um sacrifício. Por volta de 1977-78, fiz os exames intermediários. Me saí bem, para espanto de todos, e até mesmo para meu espanto. A escola me ofereceu um lugar e a oportunidade de completar meus exames de certificação do secundário. Nessa época, a situação econômica era tão instável que as pessoas que terminavam os estudos com boas médias não conseguiam arrumar emprego. A minha irmã trabalha em uma empresa americana, em Dublin, e eles queriam recrutar um novato para o departamento de compras. A empresa estava ligada a exploração petrolífera ao largo da costa da Irlanda. Acabei trabalhando lá durante um ano no departamento de compras, na expectativa de, eventualmente, me tornar programador de informática na seção de geologia.
ADAM: Eu ainda gerenciava a banda, mas precisávamos de alguém com mais autoridade. Como o Paul MacGuiness não queria aceitar, estávamos sempre tentando pensar em alguém para assumir o cargo. Há muitas pessoas ligadas a música irlandesa que não devem gostar de lembrar quando menosprezaram o nosso desenvolvimento.
PAUL: Houve um período, logo no início do verão, que andávamos rodeando. Olhando para trás, vejo que fizeram de tudo para tentar a dimensão das suas crenças cristãs, pois achavam que, se eu percebesse poria a milhas. E tinham razão. Era algo que não estava explicito e teria sido preocupante.
EDGE: Creio que comecei a me tornar espiritualmente consciente quando tinha cerca de 15 anos. Tínhamos uma professora de educação moral e religiosa chamada Sophie Shierley, que foi a primeira cristã renascida que eu conheci. Ela era completamente atormentada pela minha turma por ser ingênua e não ser muito legal, mas eu gostava da matéria. Respeitava tudo o que ela dizia, pois tinha pessoas na família devotas à religião cristã, sobretudo minha avó materna. Quando o Bono começou a falar sobre isso, fiquei imediatamente interessado em saber o que ele tinha descoberto. Me contou que tinha um cara que ia na casa do Guggi, onde morava com seus dois irmãos em Glasnevin, situada do outro lado do cemitério. “Willows” era o nome da casa. O Shane O’Brien ia muitas vezes lá e ficávamos conversando uns 6 ou 7 sentados em volta da mesa bebendo café, falando do que é ser cristão, lendo a Bíblia e orando por uma inspiração divina ou uma pista. Esse foi o nosso primeiro encontro. Sei que o Bono tinha falado com o Adam sobre as suas crenças, mas o Adam não acreditava nada naquilo. Era contra qualquer organização religiosa e tudo o que fosse espiritual. Achava que tudo aquilo era perigoso e uma verdadeira afronta. Um dia, veio falar comigo e disse: “O que esta fazendo? Só esta fazendo isso por causa do Bono. Isso não é coisa sua.” O Adam deve ter pensado que o Bono, devido a sua forte personalidade, estava convertendo o grupo em um grupo cristão e ficou aterrorizado com a idéia. Isso o perturbava, pois ele não entendia.
(Continua...)
Créditos: Juliana Oliveira.
Bonolocks
30/04/2007, 20h22
(Continuação)
Página 60, (61 – foto).
ADAM: Não creio que tenham feito muitas alusões a Deus ou tenham mencionado o Seu nome. Mas reparei que quando essas pessoas apareciam nos shows, estavam todas um pouco diferentes. Não eram músicos. A forma como essas pessoas se afirmavam não me parecia genuína. É o que eu acho. Pareciam que pertenciam a um culto e que eram pessoas fechadas.
PAUL: Eles costumavam ir ao meu apartamento na Waterloo Road, onde falávamos sobre como poderíamos conquistar o mundo. Na época não percebi, mas eu tinha um frasco grande cheio de moedas onde guardava todos os trocos que tinha no bolso, e era esse dinheiro que financiava a banda. Era com esse dinheiro que pagávamos o transporte e outras coisas.
BONO: É triste. Nós pensávamos que o Paul tinha muito dinheiro, simplesmente pela forma como falava – e porque trabalhava na indústria cinematográfica. Costumávamos ir na casa dele e marcávamos as reuniões para mais perto possível da hora do almoço, para comer alguma coisa. Ele tinha um frasco com trocados. Acho que nunca roubamos dinheiro desse frasco. Isto é, talvez tenhamos tirado dinheiro emprestado sem ter a intenção de devolver. Mas certeza que contamos isso a ele. Acho que tinha nos falado: “Se precisarem de dinheiro, tem ai algum trocado.”
ADAM: O Paul tinha muitas características, mas o que mais se destacava na época era a sua franqueza. Via a vida preto no branco e as coisas eram honestas ou não eram. Estava do lado do artista e contra o negócio. Não sei porque ele era assim. Talvez porque tinha estado ligado ao teatro e via os atores como pessoas que precisavam de apoio. Ou talvez tivesse ficado assim mais tarde quando esteve ligado ao cinema. Seja como for, ele era assim. E elogiava de uma forma prática nossas qualidades e o modo como apresentávamos os espetáculos. Sempre foi muito generoso com a gente e sou muito grato a ele por essa bondade. Nós nunca tínhamos dinheiro e ele estava sempre oferecendo as refeições, ou café e, se fossemos a um bar, pagava as bebidas.
(Continua...)
Créditos: Juliana Oliveira.
MacphistoMr
30/04/2007, 22h05
Eita.. haja copy, edit e paste :) Valeu.
Bonolocks
30/04/2007, 22h08
(Continuação)
Página 62, (63 – foto), 64 e 65, (66 e 67 – fotos).
BONO: O Paul não transmitia calor humano. Trabalhava na indústria cinematográfica e estava sempre levando na cabeça por parte da Kathy, pois ficava muito tempo pensando na sua banda revelação. Ela era uma mulher séria e começou a ficar preocupada com o Paul, por ele perder cada vez mais tempo com o projeto. O que mais me surpreendeu no Paul foi ele ter dito: “Não quero ser amigo de vocês. Quero ser seu agente.” Não havia espaço para amizade. Muito interessante. E, por isso, os Village deixaram de gostar dele, porque se ele não queria ser nosso amigo, também não queria certamente ser amigo deles. Passou a ser inimigo público número um. Ele não queria uma relação tipo: “estamos nisso juntos”. Seria como se nosso médico ou nosso contador fosse amigo íntimo. Era uma relação meramente profissional, na qual éramos os clientes dele. Acho que era assim que ele nos via.
ADAM: Uma das primeiras coisas que Paul fez por nós foi um pouco controverso. Nós fomos tocar em um show no McGonagles com a banda do Steve Averill - The Modern Heirs, e outra banda de Dublin, chamada Revolver, e nós seríamos os primeiros a tocar, mas ele fez o Modern Heirs ir primeiro. Eu acho que o argumento dele era que tinha alguém chegando para nos ver. Havia uma vibração meio estranha no ar, e eu sabia que o Steve estava um pouco apavorado com isso. Paul era capaz de fazer coisas como essa, na qual você não se sentia muito confortável, mas você gostava do fato de ter alguém defendendo sua posição. Isso pode ter sido o início de nossa ascenção.
BONO: Meu pai conheceu o Paul. Paul falava com um sussuro baixo, da sua ascendência britânica, e isso significa que meu pai imediatamente não confiou nele. Ele tinha dito “Cuidado com aquele camarada”. Com certeza, meu pai não confiava em ninguém. Você sabe, qualquer pessoa batendo na sua porta após meia-noite era um assassino, toda garota era uma fã alucinada. Todo amigo era um psicopata. Toda pessoa do mundo da música era inescrupuloso e ladrão. Agora, como ele sabia tudo isso?
EDGE: Ter o Paul a bordo não mudou muito as coisas no começo. Ele apenas nos disse para continuar escrevendo músicas e fazendo shows. Havia uma cena underground se desenvolvendo na cidade de Dublin, com bandas como o Revolver, The Vipers, The Atrix, DC Nien, The Blades, The New Versions e Berlin. Era sempre uma confusão conseguir alguma coisa e o Adam é que fazia a maior parte do barulho. Isso era um pouco frustrante. Eu me lembro de ir ao McGonagles com o Adam para falar com o Terry O´Neil, que dirigia o clube, sobre tocar como banda de suporte da segunda entrada de shows, apenas para descobrir que nós estávamos sendo rebaixados para o final da lista, depois de uma nova banda feminina chamada The Boy Scoutz. Quando nós ficamos sabendo que aquele era a primeira apresentação ao vivo delas, o Terry disse, “Não importa se elas são uma bosta, porque só o que as pessoas querem é ver meninas em uma banda punk”. Então veio o verão com algumas apresentações de suporte no McGonagles e no Project e em alguns bares pela cidade. A nossa equipe de estrada nessa época era o ´Tiger Hunter´, também conhecido por Lep Murphy, um dos melhores amigos do meu irmão. Antes do Tiger, nós tínhamos a ajuda do Stephen Milburn, vizinho do Adam.
LARRY: Por causa do meu trabalho, não era possível que eu participasse de todas as apresentações durante a semana. Eu conhecia um cara chamado Eugene, que tocava bateria em uma banda de rock ao norte de Dublin, chamada Stryder. Ele era um grande cara e me cobria nos shows que eu não podia ir.
BONO: O Larry arranjou seu primeiro substituto, um garoto de alguma banda de metal. Mas aí um segundo baterista foi trazido sem que ele soubesse – Eu acho que o Larry estava decidindo se ia ou não ficar na banda. E isso ia sendo protelado. O Larry não ia pras sessões de fotos, e então o Guggi o substituia. Ele não era tão parecido, mas por causa dos cabelos loiros, Guggi podia ficar atrás e fingir ser o baterista. Só que o Larry sofreu um acidente, ele estava trabalhando como entregador e ele atropelou seus próprios dedos do pé enquanto dirigia uma motocicleta. Ninguém consegue imaginar como ele conseguiu isso, mas isso significava que não conseguiria participar das apresentações, e nós então achamos um cara chamado Eric Biggs. Ele usava uma jaqueta de couro, ele era meio misterioso, o tipo do cara boa-pinta e fácil de se conviver. Nós realmente conversamos com ele sobre ser o baterista do U2. A questão era: o Larry podia ser levado a sério ou não? Esse cara, o Eric, era sério. Nós éramos sérios...Larry é muito sério! Mas não sobre ter certeza que queria estar na banda. Eu acho que havia um certo blefe – qualquer outra besteria sua e nós traríamos o outro cara.
LARRY: Eu estava comprometido com a banda tudo que eu podia naquele momento. Eu fiz um trato com os meus pais, eu trabalharia um ano e teria algum suporte caso as coisas não dessem certo na minha carreira musical. Também, eles não tinham condições de me sustentar, então eu não tinha escolha. Bono fazia trabalhos pra conseguir um trocado, pintor e decorador, ele trabalhou numa loja de calçados por um tempo. Era apenas ele, seu pai e seu irmão, e eu acho que havia uma certa tolerância com seu estilo de vida por causa do seu caráter. O Edge e o Adam tinham mais condições. Eu não estou dizendo que eles sempre podiam contar com seus pais, mas eles sabiam que não iriam acabar nas ruas. Havia muita pressão sobre mim para que eu pelo menos tentasse ganhar alguma experiência fazendo alguma outra coisa. Eu não tenho muita certeza se a banda entendeu, mas eu estava preso com o acordo que tinha feito com meus pais.
ADAM: O Larry estava se afastando de nós. Tocar nos shows não parecia muito importante para ele, e o restante de nós estávamos tentando ensaiar, nós estávamos tentando escrever. Então nós tínhamos outro baterista, e ele fazia um bom trabalho como substituto. Mas ultimamente, eu acho, ele não era um Beatle.
Eu estava sob pressão dos meus pais para conseguir um emprego. Eu consegui protelar isso apenas por um tempo. Finalmente decidi procurar um trabalho onde eu achava que poderia usar uma van. Eu entregava produtos chineses para um pequeno varejista próximo de Malahide, o que envolvia dirigir uma van da Volkswagen por todo o país. Eu achava: “Pelo menos vou poder usar a van à noite para transportar os nossos intrumentos”. Mas isso era ingenuidade da minha parte. Meu patrão não gostou da idéia de usar seu carro com uma banda à noite.
Mas até que era interessante dirigir pelas estradas da Irlanda entregando caixas de chás para lojas em Tralee e em Cork. Eu gostava de ficar fora, porque eu poderia escutar o rádio e não ter ninguém me monitorando, mas as horas eram extremamente longas, o dinheiro não era grandes coisas e a van não era tão divertida de se dirigir. E eu eventualmente acabava bantendo-a. Tinha sido um longo dia e eu estava voltando para Dublin por volta de 9.30 da noite, tentando voltar para a cidade para um ensaio. Apenas um dos faróis estava funcionando. Eu estava vindo um pouco rápido numa curva e não consegui ver o meio-fio. Então, esse foi o fim da minha carreira como motorista.
EDGE: Nós conseguimos fazer o show de abertura para o The Stranglers no The Top Hat Ballroom. Essa era nossa primeira aparição ao lado de uma banda de sucesso e foi um momento um pouco decepcionante perceber que a cultura punk não concedia para bandas de abertura um camarim ou mesmo algumas cervejas.
ADAM: O Paul foi à um casamento, e então não podia ser nosso empresário e lutar por nós. Nós tinhamos que ter certeza que teríamos uma passagem de som e luzes e um camarim, e que nós seríamos tratados justamente e ser pagos ao fim do show. Mas eu acho que nós não tivemos uma passagem de som, e eles tinham pego todos os camarins, então nós tivemos que esperar no backstage atrás das caixas de som. Eu sabia que isso era só a raiz do que enfureceria o Bono mais tarde. Então nós subimos no palco e fizemos nosso show, e logo na primeira ou segunda música o Edge quebrou uma corda e nunca mais conseguiu colocar sua guitarra no tom novamente. Eu acho que o Bono sentiu a hostilidade da platéia, que era uma audiência do punk hardcore e não tinha nem um pouco de tolerância com a gente. Quando acabou nossa apresentação, o Bono foi até o camarim do The Stranglers e começou a discutir sobre heróis e como tratar as pessoas.
BONO: Eu tive uma pequena discussão com o Jean-Jacques Burnel (baxista do The Stranglers). Tenho certeza que ele nunca irá lembrar, mas foi um grande momento para mim.
LARRY: A grande música do The Stranglers era “No More Heros” e esse era o argumento do Bono com eles: se não existem mais heróis, como vocês podiam tratar uma banda de abertura como merda?
BONO: Os The Stranglers tinham presença – muito masculino, viril. Não era garotos franzinos, do punk-rock inglês. Eu perguntei à JJ se ele usaria um adesivo do U2 no seu baixo? E ele disse, “Porque eu deveria? Usem seus próprios adesivos”. Ele não estava agindo de uma maneira punk-rock, e nós decidimos que ele era um idiota e que não entendia o que era o movimento punk-rock. Ele não apenas não eram punk-rock, eles eram os inimigos do punk-rock. Então nós nos negamos a assití-los no palco. Ao invés disso, nós invadimos o camarim durante o show e roubamos o vinho deles. Eu estava cheio de indignação e coragem. Era um tipo de raiva que estava em mim, sempre comprando briga com pessoas que eram muito maiores que eu.
EDGE: O Bono entrou no camarim e voltou com uma garrafa de vinho sob protestos, e então nós bebemos atrás dos autos-falantes. Mas foi legal vê-los fazer a checagem de som. Eles eram velhos, e isso me surpreendeu. Jet Black, o baterista, estava provavelmente na casa dos trinta, mas poderia facilmente ter uns cinquenta.
ADAM: Nós tinhamos uma dívida dupla com o Virgin Prunes no Project. Eu acho que nesse momento o Paul começou a ficar um pouco chateado com o Prunes.
PAUL: O Prunes se tornou o nosso show de abertura obrigatório. Nós até mesmo tínhamos pôsters do U2, com “e o Virgin Prunes” impresso no canto inferior. Eu tenho que admitir que eu não era um grande fã – o meu desgosto com algumas coisas que eles faziam não era nenhum segredo.
EDGE: As ações do Gavin eram muito extremas, ele estava no Dada e suas performances artísticas estavam muito além da sua época. Sua atitude com o público era muito mais de confronto do que a nossa. Enquanto o Bono apresentava um charme ofensivo, o Gav era apenas ofensivo. Quando o McGuiness se tornou nosso empresário, isso era a única coisa que ele odiava, que o Prunes era uma coisa fixa e que eles estavam sempre por perto.
PAUL: Eu podia assistir o Prunes enquanto o U2 estava no backstage. O Bono dizia, “Eu não consigo entender porque o público tá de tão mau humor”. E eu dizia, “Deve ser porque os seus amigos do Virgin Prunes jogou um monte de resto de porco em cima deles”.
EDGE: O Paul poderia argumentar que nós estávamos literalmente pagando essas pessoas para irritar o público. Nossa lealdade ao Prunes era tanta que nós estávamos felizes em dá-los a oportunidade de tocar. Nós realmente gostávamos do que eles faziam, na realidade eu acho que nós não imaginávamos o quão importante eles eram. Naquela época, você não via nada parecido em Londres ou em Nova York, apenas em Dublin. Olhando retrospectivamente, eles eram inovadores e extraordinários.
(Continua...)
Créditos: Nonata (ntrevia).
MacphistoMr
30/04/2007, 22h13
Repetiu Locks louco :P hehhee
Mysterious girl
30/04/2007, 22h18
Parabéns a todos!!! Muito rápido vocês hein.... :aprovado:
Grande trabalho!!! :)
Bonolocks
30/04/2007, 22h27
Repetiu Locks louco :P hehhee
mac, é essa conexão da minha net que tá lerdíssima.:reprvd: Já postei e editei essa parte do U2 By U2 umas 8 ou 9 vezes, sem brincadeira.<_< Tô com vontade de chutar tudoooo!!!!:bravo: :bravo: :bravo:
Valeu pelo toque!;)
Parabéns a todos!!! Muito rápido vocês hein.... :aprovado:
Grande trabalho!!! :)
O trabalho deles tem sido maravilhoso! Parabéns, de novo, a todos!
Eita.. haja copy, edit e paste :) Valeu.
Mac, é essa minha conexão que tá lerdíssima.:reprvd: Já postei e editei esse último post umas 8 vezes, sem brincadeira.<_< Tô com vontade de chutar tudoooo!!!:bravo:
Valeu pelo toque!;)
E Cris, muita calma nessa hora! :P Tudo parece estar indo super bem... ;)
Bonolocks
30/04/2007, 22h36
O trabalho deles tem sido maravilhoso! Parabéns, de novo, a todos!
E Cris, muita calma nessa hora! :P Tudo parece estar indo super bem... ;)
Ahhhh!!! Obrigado pelo apoio, Cris!:abraço: Acabei de lembrar daquele último texto que postei no Pub. Agora já tô calminho.:) Por enquanto.<_< :lol:
Bonolocks
30/04/2007, 22h56
Notícia boa! :aprovado: Mais uma colaboradora para nos ajudar com traduções: Aleh Hewson! Bem vinda à equipe, Aleh!!!:saúde:
Violet U2
01/05/2007, 11h38
aeeee, a Aleh já tinha me dito sobre as tradu que ela tem, que bom que ela veio ajudar tbm :aprovado:
MacphistoMr
01/05/2007, 12h59
Violet, cheia das tradus tambem :)
followerU2
01/05/2007, 15h42
O trabalho até aqui está muito bom, parabéns.
Cris, a título de colaboração: detectei alguns erros de concordância nominal e verbal nos últimos capítulos, algo facilmente detectável e corrigível utilizando o recurso de Ortografia e Gramática do Word, na minha versão é a tecla F7. Eu já corrigi a cópia que fiz em word pra guardar e reler com calma :).
MT
Bonolocks
01/05/2007, 17h52
O trabalho até aqui está muito bom, parabéns.
Cris, a título de colaboração: detectei alguns erros de concordância nominal e verbal nos últimos capítulos, algo facilmente detectável e corrigível utilizando o recurso de Ortografia e Gramática do Word, na minha versão é a tecla F7. Eu já corrigi a cópia que fiz em word pra guardar e reler com calma :).
MT
Ok! Obrigado pela dica MT. Estarei atento às próximas!;)
E aproveitando, gostaria de dizer que a fileira dos tradutores está aumentando. Vamos contar com a colaboração também da Cris Flor!:aprovado: :aprovado: Bem vinda também, Cris!!!
E além disso a Cris Kite está nos ajudando ao nos esclarecer alguns trechos do livro. Obrigado também por sua colaboração, Cris!!!;)
Paulinhazinha
01/05/2007, 17h58
O trabalho de vocês aqui é realmente impressionante. Todos estão de parabéns pela incrível vontade de ajudar o próximo e pelo trabalho que tem sido feito, que está maravilhoso!!
Parabéns a quem teve a iniciativa e a todos os colaboradores! :aprovado:
Bonolocks
01/05/2007, 18h56
O trabalho de vocês aqui é realmente impressionante. Todos estão de parabéns pela incrível vontade de ajudar o próximo e pelo trabalho que tem sido feito, que está maravilhoso!!
Parabéns a quem teve a iniciativa e a todos os colaboradores! :aprovado:
;) :aprovado: :abraço:
Ok! Obrigado pela dica MT. Estarei atento às próximas!;)
E aproveitando, gostaria de dizer que a fileira dos tradutores está aumentando. Vamos contar com a colaboração também da Cris Flor!:aprovado: :aprovado: Bem vinda também, Cris!!!
E além disso a Cris Kite está nos ajudando ao nos esclarecer alguns trechos do livro. Obrigado também por sua colaboração, Cris!!!;)
:abraço: ;)
Cris Flor
01/05/2007, 20h02
E aproveitando, gostaria de dizer que a fileira dos tradutores está aumentando. Vamos contar com a colaboração também da Cris Flor!:aprovado: :aprovado: Bem vinda também, Cris!!!
Pra mim vai ser um prazer e um orgulho participar desse projeto!!!
Mysterious girl
01/05/2007, 21h16
:aprovado:
Adri Soul Love
02/05/2007, 00h35
Obrigado galera, tá muito bom!!!:aprovado:
Valeu Bonolocks e galera do bem! :aprovado:
Bonolocks
02/05/2007, 07h47
Valeu Adri! Valeu Limão!!! A equipe está de parabéns mesmo! E está aumentando! Mais uma que irá nos ajudar na parte de traduções, a Mila Hewson!!! Bem vinda à equipe, Camila!!!:aprovado:
Bonolocks
02/05/2007, 08h21
Tive que apagar e postar esse trecho novamente, porque fui editar e deu erro.:reprvd: Desculpa ae galera! Espero que não haja problemas dessa vez!;)
(Continuação)
Páginas 68, (69 – foto) e 70.
BONO: O Prunes veio com a idéia de um apelido para o Paul. Ele era o The Goose (“O bobo”).
EDGE: Os apelidos não eram necessariamente inventados para que você soasse como um membro de uma banda de rock. Eles eram dados para que nós podessemos sacanear as pessoas. Então Bono Vox da O´Connell Street, para dá-lo seu nome completo, foi usado para brincar com o Bono. Já para The Edge, eu acho que eles estavam de alguma forma se divertindo com o formato da minha cabeça. O Adam era a Sra. Burns, porque ele as vezes aparecia vestido como uma velha senhora, e o Larry era conhecido como The Jam Jar. Bill Graham era Burgundy. Existiam alguns apelidos realmente fantásticos, Joycean, Little Biddy One Way Street e Gook Pants Delaney. Mas Sra. Burns e The Jam Jar e The Goose não eram usando frequentemente, eles eram um pouco pesados. Havia várias formas de insulto mascarados nesses apelidos. Por um tempo Bono era Bon Smelly Arse. Eu fiquei feliz que esse apelido não colou , ou as coisas poderiam ter sido diferentes. Eu não sei se a banda teria ido tão longe com um cantor chamado Bon Smelly Arse.
ADAM: Os nomes que tendiam a ficar eram aqueles que se relacionavam com a aparência da pessoa. Como o Edge tinha uma cabeça muito grande e angular, o apelido parecia apropriado. E Bono Vox da rua O´Connell simplesmente se adaptou a ele – isso era uma loja de aparelhos auditivos. Não que ele seja difícil de se ouvir...ou que outra pessoa seja difícil de ser estutada por ele! Mas isso simplesmente coube.
BONO: Os ensaios nesse ponto eram apenas uma gritaria de argumentos, cada um mais longo que o outro. Eu era provavelmente o principal responsável por isso – mas veja, eu vim de uma casa onde todos gritanvam com todos, então eu achava que isso era um discurso normal. Meu pai e meu irmão assistindo rugby, sentados em frente a televisão e meu pai chacoalhando o pulso e apontando para o árbitro gritando: “Eu vou te matar!”. Meu irmão também. Eles eram barulhentos, e eu acho que eu também era. Eu não sou mais agora. Em nossa casa, eu raramente aumento o tom da minha voz; eu posso esquentar de outras maneiras. Mas, naquela época, eu achava que era dessa forma que se falava com as pessoas. Então havia muito, muito de agressividade, e porque nós não éramos funcionais como uma banda, isso era muito difícil. Como eu não era senhor de nenhum instrumento, eu contava com o Edge, que contava com o Adam e com o Larry, e nenhum de nós éramos bons o suficiente para nos apoiarmos. Você podia escutar a melodia chegando, você estava quase para agarrá-la, ia ser perfeita, e então alguma besteria acontecia. Alguém derrubava alguma coisa de metal, e você queria matá-lo. E no meu caso era: “Eu vou te matar se você fizer isso de novo!”.
LARRY: O Bono era – e ainda é – um poço de contradições. Ele tem idéias muito claras na sua cabeça de como a música deve ser, de como ela deve soar e como deve ser sentida, e ele cria expectativas muito grandes. Eu acho que é meio frustrante para ele subir no palco e dar 100 porcento de si e achar que a banda não é capaz de lhe dar todo o suporte que precisa. Ele sente como se estivesse lá fora com a bunda pra fora da janela, pulando como um homem possuido. O som não era muito bom no palco, ele não conseguia ouvir a bateria e ele podia deixar isso subir à sua cabeça e achar que era porque alguém não estava dando o máximo de si – por exemplo, eu. Então ele podia ficar frustrado, e essa frustração ir crescendo e ele de repente podia explodir.
BONO: Não era que eles não ligassem, ou que eles não estivessem prestando atenção. Estávamos apenas estragando tudo, cometendo erros ordinários. Mas isso era terrível, poderia ter brigas e gritarias no camarim, berros na sala de ensaio. Mas também havia risadas. Porque eu nunca tinha nada pra comer. Eu sempre comia o lanche deles. Larry era muito organizado, ele levava as coisas. Ele tinha uma chapa na sala de ensaios, e ele podia tostar seus sanduíches de queijo. Ele saia pra fazer xixi e quando ele voltasse o sanduíche teria sumido, e ele então começou a levar mais. Coisas como essa. Eu estava acostumado a estar numa gangue com o Guggi e o Gavin, mas nós não gritávamos um com o outro. Então, de alguma maneira isso sugeria que a banda era mais parecida com uma família, o que implicava numa série de regras diferentes àquelas da amizade. Mas então nós começamos a ser amigos na banda. Nós começamos a sair mais juntos, e havia alguns bons momentos.
PAUL: Eu me lembro de uma discussão feroz uma vez com o Bono que aconteceu na rua O´Connell, na chuva, enquanto ele estava esperando o ônibus. A discussão era provavelmente sobre qual seria o nosso próximo passo, como tocar em algum show. Nós tomávamos as decisões juntos. Eu fazia recomendações na maior parte do tempo e eles geralmente as seguiam, mas com certeza não ficava ordenando-os e havia muitas disputas e desentendimentos. Havía, em algum momento, uma teoria doida de que nós estávamos tão quebrados e deveríamos iniciar uma segunda banda, que se apresentaria sob um nome diferente e tocaria covers, e poderia ganhar alguma coisa para sustentar o U2, que continuaria tocando seu próprio material.
BONO: Essa era uma idéia muito boa. Muito prática.
PAUL: Havia um grande número de bandas em Dublin naquela época que ia significativamente melhor financeiramente do que nós. Havia um grupo chamado The Lookalikes e ninguém jamais sabia com quem eles deveriam parecer, mas eles tinham grandes shows fixos em lugares como o Baggot Inn e o Crofton Airport Hotel. Eles estavam claramente fazendo mais dinheiro, e nós não fazíamos nada. Então, veio a sugestão nesse momento, que nós deveríamos conseguir lugares fixos pra tocar e colocar as coisas no lugar no que se referia as nossas bases financeiras.
BONO: Como nós iríamos conseguir uma van? Essa era a questão. Aquele era o ano da van, e nós não tínhamos uma. Os The Lookalikes tinham sua própria van. Eles não apenas tinham sua própria van, eles tinham sua própria PA.
Como o meu pai estava pra me perguntar sobre dinheiro, havia já algumas semanas que estávamos pensando em aprender músicas de outras pessoas e fazer um setlist 50/50, como nós fazíamos antes, mas fazendo com maior propriedade dessa vez, para que conseguissemos nossa van.
‘Eles não têm.’ ‘Eles têm.’‘Eles a alugam.’
‘Eles não alugam, eles a possuem.’
‘Eles a alugam.’
‘Eu estou dizendo a você, eles possuem sua própria
Maldita PA e luzes e van.’
‘Como eles fazem isso?’
‘Eles estão conseguindo montes de concertos pelo país’
‘Como?’‘Eles tocam músicas de outras pessoas’.
‘Maldita lotação esgotada! Nós devemos aprender
algumas músicas de outras pessoas?’
ADAM: Nós estávamos sempre procurando por apresentações que de fato pagassem alguma coisa. Então nós achamos que poderíamos tentar fazer alguns shows no Crofton Airport Hotel. Isso não funcionou porque as bandas que realmente faziam dinheiro eram aquelas que faziam apenas versões cover. Eu acho que seis pessoas apareceram, e só porquer achavam que era outra banda que ia tocar.
LARRY: Nós fizemos várias apresentações no Arcadia em Cork. Nós tínhamos a nossa primeira base de fãs naquela maravilhosa cidade. Essa foi a primeira cidade em que lotamos um show.
EDGE: Em Cork havia um bom panorama musical, Íamos dar um show na universidade, por isso, havia sempre público garantido nos finais de semana. As pessoas iam lá para beber alguma coisa e não faziam a mínima idéia de quem éramos, mas se estabeleceu uma ligação. Quando fomos lá novamente as pessoas estavam lá de propósito para nos ver e o show foi um sucesso. Durante algum tempo, fomos mais famosos em Cork do que em Dublin.
LARRY: Foi em Cork que conhecemos o Joe O’ Herlihy. Era o engenheiro de som do Arcádia Ballroom. Era um verdadeiro profissional. Havia muitos microfones. Ele era o melhor na época e, mais tarde, quando arrumamos dinheiro para pagar ele, passou a ser o nosso engenheiro de som. E, quase 30 anos depois, continua sendo.
EDGE: Conseguimos convencer o Paul a gravar uma nova demo. Sabíamos que íamos ter que ser melhores do que antes. Tínhamos que nos envolver mais, não podíamos deixar que fossem os técnicos que controlassem o som. Tínhamos que aprender mais sobre o processo de gravação.
ADAM: O Paul convenceu o Barry Devlin, do Horslips, produzir o álbum. O Paul não gostava muito da idéia que estarmos ali todos enfiados em um estúdio sem perceber nada do que estava acontecendo. Então pensou: “Se o Barry estiver lá, saberá como é que estas sessões funcionam e o que devemos fazer.” Pensamos que íamos fazer um disco que ia ser um sucesso, mas não foi bem assim. Perdemos muito dinheiro e tempo na gravação.
LARRY: Foi bem mais complicado do que achávamos e, mais uma vez, não tínhamos nos preparado suficiente antes de entrar no estúdio. Mas no final ficamos contentes com o resultado.
EDGE: Gravamos ‘Street Missions’, ‘The Fool’ e uma música nova com o título ‘Shadows And Tall Trees’, que acabou sendo a única música sobrevivente.
ADAM: Nunca pensamos que fosse tão difícil gravar demos.
PAUL: Demorou algum tempo até conseguirmos um contrato discográfico. Uma situação que achei frustrante e incompreensível, tendo em conta que eu achava que o U2 era bom, embora aquelas primeiras gravações não tivessem sido muito convincentes. Eu era ingênuo e não reconhecia a falta de conhecimentos. Comecei enviando as gravações, sobretudo para o A&R em Londres e também para a América. Algumas vezes tínhamos resposta, outras não. De vez em quando, aparecia alguém para ouvir a banda, mas sempre acontecia alguma coisa de errado. Começamos muitas vezes com o pé esquerdo – foi um período difícil.
LARRY: A morte da minha mãe em um acidente de avião em novembro de 1978 acabou me esclarecendo o que me diz respeito a banda. Não digo que, se ela fosse viva, não tinha me lançado para esse mundo, mas depois que ela morreu este era o único lugar onde eu queria estar.
EDGE: Por incrível que pareça, a morte da mãe do Larry nos chocou de tal forma, que acabou nos unindo ainda mais. Os laços de amizade entre nós se fortaleceram e foi a partir disso que as coisas começaram a mudar para melhor. O Larry estava com um pé fora da banda e mais virado para a indústria de petróleo, entretanto, voltou para a banda e esqueceu esse trabalho.
LARRY: Depois da morte de minha mãe não conseguia me concentrar em nada. Tudo em mim se desligou. O Bono começou a me ligar para tentar me convencer a sair e pôr de lado os meus problemas. Um dia estávamos sentados na soleira da porta e ele me disse sobre quando perdeu sua mãe aos 14 anos. Eu não fazia idéia. Senti que tinha encontrado alguém que me compreendia. Estabelecemos uma ligação, e passado uns tempos, nos tornamos grandes amigos. Senti então que estava preparado para voltar à banda. Agora era tudo diferente. Eu já não fazia parte de um grupo, agora pertencia a uma banda e a banda veio se tornar minha fuga. Me entreguei de corpo e alma.
(Continua...)
Créditos: Nonata (ntrevia) e colaborações de Juliana Oliveira e Cris (Kite).
Wild Honey*
02/05/2007, 16h05
Obrigada Bonolocks!
Bonolocks
02/05/2007, 16h17
Obrigada Bonolocks!
Obrigado Wild Honey! Méritos prá toda a equipe!!!;) :) :aprovado:
Wild Honey*
02/05/2007, 16h21
Obrigado Wild Honey! Méritos prá toda a equipe!!!;) :) :aprovado:
:aprovado: :aprovado: :aprovado: :aprovado: :aprovado:
Violet U2
03/05/2007, 18h49
(Continuação)
Páginas 45 e 46
Edge: Havia muitos trocadilhos, bons e ruins, que o nome sugeria, mas nós estávamos interessados apenas na sua abrangência. Tínhamos uma série de pins dizendo: “U2 could happen to anyone”, que tínhamos feito na época. Cada pin tinha uma palavra com o nome U2 em cada uma delas: U2 COULD; HAPPEN; TO; ANYONE. Um conjunto de quatro pins que só faziam sentido se ficassem alinhados na ordem certa. Era bom para esse tipo de coisa, permitindo brincar com idéias diferentes.
isso aí em negrito tá mto estranho.. alguém pode me esclarecer???:dúvida:
não seria, "Cada pin tinha uma palavra com o nome U2"??? Tirando essa parte do em cada uma delas??? Ficou mto esquisito...
Ou seria, Cada pin tinha uma palavra que o nome U2 acompanhava... fiquei confusa..
Mlpangelina
03/05/2007, 18h59
Vou dá uma olhada aqui no livro pr vê como tá...
Violet U2
03/05/2007, 19h15
eu olhei, mas achei estranho.. o sentido é esse, mas ficou esquisito a tradução.. e aí comecei a pensar aqui.. e ainda estou pensando.. mas pode ser que seja isso mesmo.. e que eu esteja complicando ;)
Aleh_Hewson
03/05/2007, 21h43
bom, eu penso que seja
pin = broche
broche com o nome U2 em cada um deles
bom, eu penso que seja
pin = broche
broche com o nome U2 em cada um deles
eu também acho que seja isso...
um bronche, com o nome do U2 e outras inscrições...;)
Violet U2
03/05/2007, 22h56
bom, eu penso que seja
pin = broche
broche com o nome U2 em cada um deles
então, traduzindo melhor a frase seria: Em cada pin tinha uma palavra com o nome U2:... e continuaria com os exemplo lá..
saquei..
valeu Aleh :aprovado:
BETY VOX
04/05/2007, 01h15
Gente muito obrigado! estou muito emocionada, chorando mesmo, pois o meu inglês é o básico do básico se não fosse por vocês eu nuca iria ler o livro é por isso que eu tenho muito orgulho de ser UV.
Deus abençõe todos vocês.:aprovado:
Bonolocks
04/05/2007, 08h03
Bety, que bom que está apreciando! Prá nós também tem sido um trabalho muito satisfatório! Acompanhar a trajetória dessa banda, ou mais do que isso, desses quatro leais amigos, que foram um exemplo de não abandonar os seus sonhos é muito emocionante!
Muito obrigado pelas palavras! A equipe fica feliz com isso!:aprovado:
:babando:
Estou babando mesmo aqui!
Bom demais o trabalho de vcs!!!
Se dependesse do meu inglês pra lá de deficiente eu não poderia ler tão cedo.
Valeu muito e muito pela caridade que vcs estão fazendo pelos desprovidos de um inglês decente assim como eu...
:lol:
Bonolocks
04/05/2007, 14h23
:babando:
Estou babando mesmo aqui!
Bom demais o trabalho de vcs!!!
Se dependesse do meu inglês pra lá de deficiente eu não poderia ler tão cedo.
Valeu muito e muito pela caridade que vcs estão fazendo pelos desprovidos de um inglês decente assim como eu...
:lol:
Mais uma vez obrigado! Se tudo der certo essa semana vem bastante coisa.;)
Muito obrigada gente pelo apoio! Desde que entrou mais gente na equipa de tradução e digitação do livro tem havido menos trabalho para cada um, ou seja, trabalha-se mais depressa e melhor! Por isso, estamos neste momento muito orgulhosos!! :lol: Cris, não se ponha com muitos agradecimentos apenas a nós, vc tem desenvolvido um trabalho como coordenador fantástico! Não sei como seria sem vc, aliás, nem sequer seria, pk foste tu que tiveste a ideia...
Bom, é isto... só queria agradecer a todos, e dizer que o livro é muito mais do que ainda nós postamos aqui, por isso preparem-se!!! haahaha! :lol:
Beijos
JO
JulianaSP
04/05/2007, 21h20
Mais uma vez obrigado! Se tudo der certo essa semana vem bastante coisa.;)
Muito obrigada gente pelo apoio! Desde que entrou mais gente na equipa de tradução e digitação do livro tem havido menos trabalho para cada um, ou seja, trabalha-se mais depressa e melhor! Por isso, estamos neste momento muito orgulhosos!! :lol: Cris, não se ponha com muitos agradecimentos apenas a nós, vc tem desenvolvido um trabalho como coordenador fantástico! Não sei como seria sem vc, aliás, nem sequer seria, pk foste tu que tiveste a ideia...
Bom, é isto... só queria agradecer a todos, e dizer que o livro é muito mais do que ainda nós postamos aqui, por isso preparem-se!!! haahaha! :lol:
Beijos
JO
Faço minhas as palavras da Joanne :aprovado:
Bjuuus a todos
Ju
Bonolocks
04/05/2007, 23h41
Muito obrigada gente pelo apoio! Desde que entrou mais gente na equipa de tradução e digitação do livro tem havido menos trabalho para cada um, ou seja, trabalha-se mais depressa e melhor! Por isso, estamos neste momento muito orgulhosos!! :lol: Cris, não se ponha com muitos agradecimentos apenas a nós, vc tem desenvolvido um trabalho como coordenador fantástico! Não sei como seria sem vc, aliás, nem sequer seria, pk foste tu que tiveste a ideia...
Bom, é isto... só queria agradecer a todos, e dizer que o livro é muito mais do que ainda nós postamos aqui, por isso preparem-se!!! haahaha! :lol:
Beijos
JO
Originalmente Escrito por JulianaSP http://www.ultraviolet-u2.com/foruns/images/uv/buttons/viewpost.gif (http://www.ultraviolet-u2.com/foruns/showthread.php?p=230436#post230436)
Faço minhas as palavras da Joanne :aprovado:
Bjuuus a todos
Ju
http://thelarrymullenband.com/style_emoticons/default/air_kiss.gif http://thelarrymullenband.com/style_emoticons/default/kiss3.gifhttp://thelarrymullenband.com/style_emoticons/default/give_heart2.gif http://thelarrymullenband.com/style_emoticons/default/give_rose.gif
Cara vocês todos são muito do bem! Valeu!:aprovado:
Cara vocês todos são muito do bem! Valeu!:aprovado:
Temos boas influências da parte da música... :P
Bonolocks
06/05/2007, 16h09
(Continuação)
Páginas 71 e 72.
BONO: Eu havia passado por algo parecido. Nós nos tornamos amigos próximos naquele momento, e aquele a quem havia sido um baterista meio precoce que trazia problemas para cada solução que você podia oferecer, se tornou um de meus melhores amigos. E o que eu entendi sobre o Larry foi a motivo no qual ele agonizava sobre tudo, sobre cada comprometimento, incluindo o comprometimento com a banda. É porque ele leva esses assuntos – verbal, emocional, entre outros – muito seriamente na vida. Ele não é um bagunceiro, ele leva sua palavra muito a sério. É uma força maravilhosa estar em uma sala com alguém que não pode mentir. Isso lhe dá muito poder. Então, para se manter nessa posição, ele se move muito lentamente em qualquer direção, mas raramente muda de opinião. Quando ele ganha espaço, ele permanece no mesmo.
PAUL: Larry é a roda barulhenta do U2 que necessita sempre de serviço e óleo antes de ser rodada. Ele é a voz do lúgubre, sempre questionando nossa sabedoria acerca do que estamos planejando. Ele nem sempre está certo, mas está com freqüência o suficientemente certo para fazê-lo valer o esforço.
BONO: De certo modo, essa é uma voz na qual eu estou familiarizado, através do meu próprio pai. Larry é o Sr. O-que-pode-dar-errado – mas as coisas podem e dão errado. Assim sendo, Larry é o freio da banda, e quando o foguete está na trajetória errada, você fica muito feliz em tê-lo por perto.
ADAM: Os Greedy Bastards tocaram no salão Stardust e nós abrimos para eles. Aquilo realmente fora rock’n’roll. Tinha o cheiro de rock’n’roll, a aparência de rock’n’roll. Tinha postura e movimento. Os Bastards eram membros do Thin Lizzy e do Sex Pistols. Phil Lynot estava em seu melhor momento naquela época. De alguma forma, apesar de ser um cara melódico e hard rock, ele era capaz de se encaixar no punk. Podia-se notar que ele estava curtindo aquilo. Foi uma época empolgante.
Eles chegaram à cidade na noite anterior e fizeram uma jam no Baggot Inn ou no McGonagles, e Steve Jones, o guitarrista do Pistols, tocou com a Explorer do Edge. Edge disse: “Se esse cara estragar a guitarra, eu não posso me apresentar amanhã!” Então ele estava meio que de olho no Steve Jones o tempo todo, esperando que ele não fosse derrubar a guitarra.
LARRY: Havia muita ação nos bastidores. Aquilo parecia glamoroso para nós, e fomos bem melhor tratados do que havíamos sido com os Stranglers. Porém, todos eles pareciam estar se divertindo muito mais. Sexo, drogas e rock’n’roll, eu suponho.
ADAM: Eu não sabia que estávamos sobrando. Eu acho que só estávamos escovando as casacas daquelas pessoas, que realmente não queriam estar junto com um bando de garotos. Eu acho que eles queriam usar drogas e correr atrás das garotas. Mas foi interessante para nós estar no meio daquela atmosfera, porém, de uma forma “voyerística”, vendo coisas como equipamentos e suas caixas protetoras, roadies e sistemas de iluminação. Era tudo o que você aspirava ter no futuro.
BONO: Phil era uma grande estrela. Ele carregava consigo certa postura e elegância na quais eu nunca tinha visto antes. Mas havia entre eles olhares que indicavam saber de algo que eu não entendia o que era, e isso me incomodava. Alguém estava no camarim, e um dos Greedy Bastards saiu do palco, passou direto pela porta, vomitou no local, e em seguida voltou imediatamente para o palco. Havia um clima entre eles que era bem distante do nosso. Era como se as duas bandas não poderiam ter estado mais longe do que estavam.
Phil estava no momento final do Thin Lizzy e a ponto de deslizar colina abaixo em direção ao abismo. O mesmo aconteceu com o Sex Pistols. Eles haviam terminado e tudo ficou ruim. E lá estávamos, apenas uma promessa e tentando encontrar uma saída. Foi um momento estranho. Mas nós realmente não sabíamos o quão obscuro poderia ser para rapazes em uma banda de rock. Eles começaram a brincar com fogo, e de repente a situação se reverteu e agora o fogo estava brincando com eles. Estavam simplesmente sendo consumidos e derrotados pelas chamas de tudo o que é ruim acerca de sexo, drogas e rock’n’roll. De fato, Phil se tornou meu vizinho próximo em Howth alguns anos depois, e eu não sabia o que fazer, porque ele ainda mantinha a mesma aparência. E ele era tão amável comigo e gentil a respeito de nossa banda. Ele dizia: “Você quer vir para jantar?” E eu não ia porque não sabia o que fazer. Hoje eu gostaria de ter reconsiderado porque ele era ótimo. Liricamente, o Heavy Metal é um dos formatos mais sem cabeça que existem, com os cantores mais fracos mediante o spectrum do pop, mas ainda assim havia um cara com certa perspicácia lírica e uma voz que era tão elegante e líquida. Mas nós achávamos que os Greedy Bastards não eram legais – isso era algo estranho.
ADAM: Houve um tempo em que eu pensava que estar em uma banda significava sexo, drogas e rock and roll. Foi um desejo, originalmente. Mas, uma vez que eu me achei naquela situação, eu não estava tão ávido por isso. Não tinha tanta certeza se queria ser o parceiro daquela pessoa ou usar aquelas drogas, então havia conforto no fato que as outras três pessoas na banda eram sãs naquele nível. Isso tirou a pressão de mim, porque eu realmente acho que não estava confortável com aquele tipo de situação.
LARRY: Eu era um garoto de altar; tive uma tradicional educação católica. Parei de ir à igreja depois que tudo aquilo aconteceu, e não me vi de volta. Bono, por outro lado, tinha uma fé muito forte e, pela primeira vez, ele conversou sobre isso abertamente comigo depois que minha mãe morreu.
BONO: Eu tinha conhecido algumas pessoas que fizeram despertar aquele algo que sempre esteve adormecido em mim, e acho que no Edge e no Larry e em algumas pessoas que conhecíamos. Conhecemos essas pessoas através de um grupo chamado Shalom. Eles são uma comunidade, do tipo que nunca tínhamos visto antes. Estavam nas ruas, vivendo como cristãos do primeiro século. Acreditavam em milagres como casos diários, e viviam a vida na fé. Eram fascinantes. Havia um toque de loucura Pentecostal neles, o que significava que eu nunca estava completamente confortável, mas certamente valia a pena olhar mais de perto. Havia um homem que liderava o grupo, que veio de uma missão na China ainda criança. Ele era realmente um orador fervoroso, extraordinariamente talentoso, com uma erudita compreensão profunda da natureza das Escrituras a que eu ainda me agarro firmemente. Eu era atraído por aquilo – aquilo que quase justificava a loucura dos outros porque havia um pouco daquilo, também. Mas sempre há. Eles justificariam dizendo que quando o Espírito Santo descia sobre os apóstolos, eles começavam a falar em vários idiomas, e as pessoas pensavam que eles estavam bêbados, ou loucos.
EDGE: Originalmente nossa busca era algo completamente independente. Nós a chamávamos de Monday Night Group (Grupo da Noite de Segunda) porque nos encontrávamos nas noites de segunda-feira, inicialmente na casa de Guggi e eventualmente numa sala da Mount Temple. Não havia hierarquia de qualquer tipo, nem regras ou regulamentos. Aberto a todos que viessem, nenhuma doutrina, apenas um grupo de crianças interessadas em assuntos espirituais, tentando decifrar grandes questões. Então, como o grupo atingiu um certo tamanho, aproximadamente quarenta ou cinqüenta pessoas, membros daquele grupo maduro, Shalom, envolveram-se. Era algo bom passar o tempo lendo as Escrituras e descobrir mais sobre todo esse sistema de crença, o Cristianismo, e o que realmente significa. Mais tarde descobrimos que o movimento Rasta tinha uma fascinação similar pelas Escrituras, e eles se sentavam fumando maconha e discutindo referências da Bíblia em sessões que eles chamavam de ‘reasoning’ (raciocinar, pensar de forma lógica). Nós fazíamos o mesmo, mas sem fumar.Esses encontros nas noites de segunda nos deram um tipo de sistema de suporte que alimentou as relações ainda em desenvolvimento dentro da banda. Nós estávamos atravessando muita coisa juntos, e havia muitos laços de amizade e respeito entre nós.
Nós tínhamos um pequeno espaço para ensaio na rodovia Malahide. Era uma casa de veraneio condenada, que nós conseguimos por cinco libras a semana, ou algo parecido. Eu não sei porque eles perdiam tempo alugando aquilo pra gente. Era um verdadeiro lixo, mas era perfeito para o que nós precisávamos.
BONO: O Edge conseguiu sua primeira unidade de distorção (eco unit), e isso mudou tudo. Nós estávamos procurando por coisas diferentes e nós não conseguiríamos obtê-las apenas com acordes poderosos. Então eu falei pro Edge, “Você já ouviu o começo de Animals do Pink Floyd? Você tem que conseguir uma dessas unidades de distorção. O The Cure está tocando com uma, mas eu acho que a gente pode extrair muito mais disso.”. E ele comprou uma, chamada Memory Man. Se você conhece a precisão com que ele toca, esse é um efeito que ele irá dominar, assim como Jimi Hendrix fez em Wah Wah. Era um punk rock com uma sinfonia – de repente você está no espaço e não em um subúrbio.
EDGE: O Memory Man realmente era uma unidade com tecnologia análoga muito atrasada. Ele não tinha nenhum tipo de leitor digital, então você não podia informar quais eram as suas melodias, o que era uma desvantagem, porque nós percebemos bem rapidamente que as distorções que eu estava usando é que determinavam o tempo da música. Então eu tive que cobrir o Memory Man, colocando pequenas marcas com inscrições chinesas no pedal, representando diferentes músicas. Eu tinha que estar certo ou então a música sairia fora de tempo. Mas naqueles dias só havia um tempo: muito rápido!
LARRY: Como eu e o Edge conseguíamos nos manter no tempo da música está além de mim. Na realidade eu não sei se nós estávamos no tempo certo. Nós estávamos em todos os lugares. Isso é chamado de fazer música por acidente.
EDGE: O Adam é a outra razão pelo qual a minha maneira de tocar guitarra se desenvolveu desse jeito. Ele era um baixista tão não-ortodoxo e, Larry e eu, na tentativa de fazer tudo funcionar, desenvolvemos um estilo mútuo de acomodar a pegada do Adam. De alguma forma, o Larry e eu éramos como a sessão rítmica e a maneira extremamente forte do Adam de tocar baixo era como o fio condutor, e isso estava muito além da vanguarda.
BONO: O Adam estava trazendo muita segurança ao processo, e ele estava começando a produzir sons incríveis com seu baixo, mesmo achando que ele era um baixista muito excêntrico. Ele poderia tocar coisas realmente complicadas de uma maneira tão simples e então ser incapaz de entrar no tempo, e você seria simplesmente deixado para trás coçando a cabeça.
LARRY: O trabalho de um baixista em uma banda é basicamente com o baterista na sala de controle (engine room), a outra parte da sessão rítmica. Mas o Adam adotou uma posição muito mais musical. Ele sempre achava um jeito de fazer o instrumento trabalhar prá ele.
(Continua...)
Créditos: Cris Flor, João Filardi e Nonata (ntrevia).
Muito obrigada gente pelo apoio! Desde que entrou mais gente na equipa de tradução e digitação do livro tem havido menos trabalho para cada um, ou seja, trabalha-se mais depressa e melhor! Por isso, estamos neste momento muito orgulhosos!! :lol: Cris, não se ponha com muitos agradecimentos apenas a nós, vc tem desenvolvido um trabalho como coordenador fantástico! Não sei como seria sem vc, aliás, nem sequer seria, pk foste tu que tiveste a ideia...
Bom, é isto... só queria agradecer a todos, e dizer que o livro é muito mais do que ainda nós postamos aqui, por isso preparem-se!!! haahaha! :lol:
Beijos
JO
Poxa, eu também queria deixar meus agradecimentos por poder participar dessa incrível jornada de tradução desse livro e vê que as pessoas realmente estão se beneficiando e adorando poder lê-lo.:aprovado: :pulando:
Queria, assim como a Joanne falou, parabenizar o Cris que está organizando todo esse trabalho e gerenciando essa equipe...:abraço:
Abraços,
Nonata
Mila Hewson
06/05/2007, 17h23
Eba !!! Mais U2 By U2 pra gente !!!
E, como a Nonata disse obrigado Cris por ter essa idéia e por ter me incuído nessa equipe. Tomara que mais e mais pessoas entrem nesse time !!!
Valeu gente !:aprovado: :aprovado:
Bonolocks
06/05/2007, 22h09
Poxa, eu também queria deixar meus agradecimentos por poder participar dessa incrível jornada de tradução desse livro e vê que as pessoas realmente estão se beneficiando e adorando poder lê-lo.:aprovado: :pulando:
Queria, assim como a Joanne falou, parabenizar o Cris que está organizando todo esse trabalho e gerenciando essa equipe...:abraço:
Abraços,
Nonata
Originalmente Escrito por Mila Hewson http://www.ultraviolet-u2.com/foruns/images/uv/buttons/viewpost.gif (http://www.ultraviolet-u2.com/foruns/showthread.php?p=230520#post230520)
Eba !!! Mais U2 By U2 pra gente !!!
E, como a Nonata disse obrigado Cris por ter essa idéia e por ter me incuído nessa equipe. Tomara que mais e mais pessoas entrem nesse time !!!
Valeu gente !:aprovado: :aprovado:
Ahhhhhh!! Vocês é que são demais! Está sendo um prazer enorme trabalhar com essa equipe tão cooperadora e gente fina! E depois, se não fosse por vocês eu também não estaria tendo a oportunidade de ler esse livro realmente incrível!:aprovado: :abraço:http://thelarrymullenband.com/style_emoticons/default/give_heart2.gif http://thelarrymullenband.com/style_emoticons/default/give_rose.gif
Bonolocks
07/05/2007, 19h26
(Continuação)
Páginas (73 e 74 – fotos), 75, 76, (77 a 79 – fotos).
EDGE: Nossa construção de acordes era interessante. Nós não gostávamos de acordes maiores porque estes soavam muito alegres e os acordes menores soavam muito tristes, então nós preferimos voltar a utilizar os fundamentos absolutos, com intervalos de quinta (fifths) e notas de base, nada de enfeites. A terceira nota se tornou nossa inimiga. A terceira é a nota que dá a sensualidade do acorde de uma forma maior ou menor e se você deixar de usar a terceira nota, o tom fica ambíguo e muito mais propenso a diferentes melodias. Eu apareci com alguns acordes que não tinham terceira; basicamente você toca a nota natural com uma quinta e uma oitava, talvez com alguns intervalos no meio. Isso funcionou muito bem porque manteve os acordes completamente abertos. E quando fomos gravar, tal ambigüidade me proporcionou a habilidade de tocar com overdubs (gravação adicionada a algo já gravado). Podia-se realmente mudar muito o estilo porque não estávamos escrevendo os acordes da maneira tradicional.
Eu acho que nós recolocamos a virtuosidade e o talento para composição com um ótimo senso de dinâmica, sendo capazes de criar várias texturas diferentes, de uma maneira muito simples. Este era um de nossos segredos: muitas de nossas músicas apresentavam pausas e sessões na época em que o cenário musical estava mudando completamente. E a harmonia foi uma das maneiras na qual fizemos isso. Era um tipo de som que as pessoas não exploravam muito. O The Police utilizou isso um pouco, mas outras pouquíssimas bandas também o fizeram.
A harmonia cria um som para os capitadores da guitarra elétrica somente com a vibração da corda. A corda move para frente e para trás e se você tocar no ponto exato do meio da corda, você consegue fazê-la vibrar em duas partes; uma vibração agradável que te concede a nota na oitava exata. Há outras áreas em que se você a toca em determinado ponto você conseguirá talvez um quarto ou um terço da vibração da corda, então você tem subdivisões da corda toda e isso lhe permite o intervalo correspondente. Se conseguir um quarto da corda, no entanto, são duas oitavas acima. Um terço da corda provavelmente seria uma quinta. Se tratando de como isso soaria, há diferentes características harmônicas, não exatamente como uma nota regular, porque se toca a corda para conseguir esse efeito de vibração, e assim, o som fica mais sutil.
Ao vivo, nossas idéias realmente mantêm-se em foco. Muitas das pausas foram improvisadas ao vivo e após ter-se utilizado de certa idéia algumas vezes, a mesma entra no repertório para tal música e ali fica anotada. Nós tocávamos a música e de repente o Bono acenava com a mão esquerda, o que significava: “Vamos para outra direção”. Então nós nos centrávamos e mudávamos de direção. Nós éramos muito bons em tocar sem um script e as pausas de harmonia foram uma das coisas nas quais nos tornamos particularmente adeptos.
LARRY: Bono odiava a idéia de que as músicas e a setlist fossem seguidas tão à risca. Ele queria que fosse tal qual o jazz, sendo capaz de mudar a cena, parar e tentar algo em um tempo diferente, e depois voltar para onde se havia parado. Claro que nós não fazíamos idéia do que ele queria. Então lá estava a famosa mão esquerda acenando, dando-lhe direções em que ponto parar ou diminuir o ritmo. Por questões de saúde e segurança, eu tive que aprender essa nova linguagem de sinais e imaginar o que ele estava querendo. Eu aprendi muito rápido. Até hoje ele faz isso.
ADAM: A improvisação requer certo conhecimento musical. Eu acho que havia muitas moscas ao redor dos nossos traseiros e fazendo muito barulho. Havia o leve, o médio e o alto, e nós nos movíamos entre esses três tons, mas eu não acho que tínhamos conhecimento o suficiente para ir além. Era mais sobre como cada um de nós aprendíamos a fazer o que fazíamos. Era mais uma prática em pública do que uma improvisação.
PAUL: Nós estávamos tentando criar um status para a banda na Irlanda e ao mesmo tempo atrair interesse das gravadoras em Londres. Gente como Charlie Eyre da A&R, Chris Briggs e Tom Nolan da EMI, Chas de Walley e Muff Winwood da CBS e Tarquin Gotch da Arista vinham ocasionalmente assistir a uma apresentação do U2 e nós ficávamos muito empolgados, achando que eles nos ofereceriam um contrato, mas isso nunca acontecia. Houve assim um longo período entre arrumar apresentações e receber respostas desanimadoras dos agentes da A&R.
LARRY: Nós éramos um sucesso e um fracasso. Nós poderíamos fazer três excelentes apresentações seguidas e depois duas péssimas, e as gravadoras sempre iriam assistir as péssimas. Nós éramos inconsistentes. Houve uma apresentação no Baggot Inn quando alguns caras da gravadora do Reino Unido vieram nos assistir. Eles ouviram duas músicas e logo saíram para assistir aos The Specials em um programa de TV qualquer. Nós chegamos a pensar que seríamos contratados naquele momento e naquela apresentação. Na mesma noite Bono, nosso amigo Pod e eu caminhamos até o ponto de ônibus totalmente decepcionados.
ADAM: Nós éramos rejeitados por todas as gravadoras por no mínimo duas vezes. Nós não podíamos entender porque essas pessoas não percebiam que nós éramos uma contratação importante para eles. Era sempre uma decepção, simplesmente porque significava que tínhamos que esperar mais um pouco para provar-nos a nós mesmos. A nós parecia que o cenário estava se movendo rápido, e nós não queríamos ser deixados para trás, então nós tivemos que voltar e continuar a ensaiar, e a escrever mais canções. Nós fizemos algumas demos em um pequeno estúdio chamado The Eamon Andrews Studio. Dave Freely era o engenheiro do lugar. Foi muito barato porque eram somente quatro faixas. Nós tivemos mais tempo para ensaiar os números a fim de apresentá-los ao vivo. Aquela fora mais uma sessão bem sucedida.
BONO: Esses demos foram bem criativos. Foi quando o som do U2 começou a se desenvolver, com músicas como “Alone In The Night”, “Another Time, Another Place”.
LARRY: Alguns dos outros estúdios que nós estivemos, pelo menos pareciam mais profissionais. Era uma sala pequena, com uma mesa realmente pequena. O engenheiro, que era um cara legal, perguntou: “Com quem vocês querem que o som se pareça?”. Ele tinha uma coleção de gravações que nós poderíamos escolher. Nós respondemos: “Não queremos parecer com nenhum deles”. E quando nós acabamos de gravar, não parecíamos nem com nós mesmos.
EDGE: O Paul estava distribuindo os nossos primeiros demos com sucessos mixados. Eu acho que ele sentia naquele tempo que nós não estávamos preparados, mas o Bono estava absolutamente certo que com a segunda seqüência de demos, que nós queríamos, iríamos conseguir o nosso contrato mais cedo do que nunca.
BONO: O Paul não aparecia com a tal van, e eu estava começando a ficar cansado com isso. “Oh Yeah. Todas essas grandes idéias. Mas onde está a merda da van? Onde estão os shows? O Adam é que consegue as apresentações. O que você está fazendo? Você que deveria ser o empresário.” Apesar dos protestos do Paul que o demo não era bom o suficiente para ir pra Londres, eu não podia esperar. Porque eu estava correndo contra o tempo. Meu velho já estava me lembrando que o meu ano em casa já estava quase acabando. O calor tinha chegado. Eu não podia suportar não conseguir um contrato de gravação, e então fui à Londres e provoquei interesse. O Paul dizia: “Espere. Melhore. Nós iremos fazer isso de uma maneira mais programada.” E eu dizia: “Nós não podemos esperar. E se nós queremos fazer direito na Irlanda, nós devemos fazer direito na Inglaterra. E então eles irão nos escutar na Irlanda.” Esse era o plano que eu tinha em mente.
Eu fui pra Londres com a Ali. Isso era uma grande coisa na minha cabeça, porque eu estava fazendo uma viagem com essa linda garota e eu deveria estar no comando, mas eu não sabia o que eu estava fazendo ou onde estava. Eu nunca tinha ido à Londres antes. Nós não éramos casados, mas íamos dormir no mesmo quarto e concordamos que também íamos dormir na mesma cama. O pai dela tinha me olhado nos olhos, e você sabe, eu ia viajar por uma semana com a filha dele. Então eu tive que cumprir com a minha promessa, o que foi muito, muito difícil.
Nós fomos visitar o Phil Chevron do The Radiators, a banda que se originou do The Radiators From Space, e que agora estava baseada em Londres. Ele foi de grande ajuda e nos indicou alguns jornalistas do mundo da música que ele achava que eram bons. E eu tinha alguns jornalistas que eu achava que eram promissores. Eu procurei os endereços, consegui o Tube, localizei as revistas NME ou Sound ou Record Mirror, fui até lá, encontrei os jornalistas que nós achamos que eram mais abertos a novas músicas, perguntei por eles na recepção. O que é muito interessante, porque se você recebe um telefonema “Tem alguém aqui na recepção querendo falar com você”, você não pensa: “Mande ele se danar, eu não quero essas pessoas.” Você apenas pensa no assunto, e recebe a mim e a minha namorada. E eu diria: “Escute, nós somos de Dublin, uma banda chamada U2, e nós realmente gostaríamos que você escutasse esse demo.” Eu tinha maneiras perfeitas. E eles dariam uma olhada nesse garoto com olhar de maluco e diriam:
“Bom, eu volto daqui à uma hora”.Eles diriam: “O que?”.
“Eu volto daqui à uma hora.” “Eu tenho uma droga de coluna pra escrever!”
“Bom, eu estarei aqui por apenas um ou dois dias.”
Nesse momento um jornalista chamado Dave McCullough da Sounds nos ajudou muito. E um camarada chamado Chris Westwood, do Record Mirror foi extremamente generoso e foi a primeira pessoa a nos colocar na capa de uma revista. Ele tinha gostos muito esotéricos, mas também um ouvido para o pop. Ele era o mais encorajador de todos e disse: “Você devia tentar essa gravadora, você devia tentar aquela gravadora. O cara que assinou com o The Sex Pistols tem seu próprio selo agora, você deveria vê-lo.”
Então eu apareci sozinho batendo à sua porta – eles se chamavam Automatic Records. E eu disse:
“Chris Westwood da Record Mirror disse que nós deveríamos procurá-lo”
“Ah, sim, você está com a Record Mirror?”
“Não, eu sou de uma banda.”
“O que você quer dizer com uma banda?”
Eu disse: “Você ouviria a nossa música?
O cara da Record Mirror disse que você iria gostar”
E eu fiz ele escutar na nossa frente.
Ele disse: “Vocês têm um empresário?”
“Sim.” “Por que ele não está aqui?”
“Ele está em casa tentando descobrir como nós iremos conseguir uma van.
Eu sou a festa avançada, mas ele pode ligar pra você amanhã.”
Aliás, foi a Ali que pagou por tudo isso. Eu não tinha nenhum dinheiro.
EDGE: Nós tocamos alguma coisa no chamado The Dark Space Festival, no Project Arts Center, um evento que acontecia todas as noites com apresentações de artistas performáticos, strippers, comediantes e a maioria das bandas pós-punk locais. Era como se nós fizéssemos parte de uma interessante cena em projeção. Tinha um grande nível de excitação entre aqueles que conheciam o que estava acontecendo em termos musicais, mas na realidade não tinha nada que enchia minha cabeça. Tudo parecia um pouco de segunda-mão, pra falar a verdade. Entre as bandas que tocavam por Dublin, eu achava que nós éramos os melhores. Olhando para as bandas que tinham lançado discos na Inglaterra naquela época, eu achava que nós éramos tão bons quanto qualquer um deles. Os The Mekons estavam tocando e eles eram uma banda inglesa que tinham alguma credibilidade com a subcultura. Eu me lembro de ficar perto do Bill Graham assistindo eles e o Bill se virou pra mim e disse: “A única coisa notável nessa banda é o senso mais desenvolvido de atitude.”
Eu acho que nós entendemos que escalar o palco era uma atitude em si e pra isso funcionar tinha que ter um elemento de auto alerta, mas ao mesmo tempo nosso foco tinha que estar em outro lugar. Isso foi uma coisa que eu notei quando nós conhecemos bandas de Londres, eles eram praticamente definidos por suas atitudes, a imagem que projetavam. Era uma coisa bem externa, enquanto que na Irlanda era muito mais balanceado entre isso e o que você tinha pra dizer, o que você defendia em termos de política e ideais. Isso podia ser uma coisa paroquial versus uma coisa da cidade grande. Nós sempre achamos que tínhamos estilo, o que era claramente falso. Eu acho que não entendemos aquela linguagem, mas também achávamos que era um aspecto do rock ´n´ roll que era supervalorizado. Não que nós fossemos contra isso, era um tipo de questão ética, nós estávamos apenas interessados em outras coisas.
ADAM: A maioria das bandas de Londres ou de Nova York tinha muita consciência da imagem. Mas eles tendiam a ser mais velhos do que a gente; nós estávamos apenas tentando tocar nossos instrumentos e escrever músicas, e nós não imaginávamos que tínhamos que apresentar uma analogia visual da sua música e de onde ela estava vindo, portanto o interessante conceito fashion daquele período.
Eu nunca gostei de sessões de fotos, ou vídeos com essas intenções, acho que são pontos chaves da música comercial. Eu acho que devíamos estar mais envolvidos em reconhecer o dano que isso poderia causar se fosse mal interpretado, porque no nosso começo nós fizemos isso tão errado que levo um tempo para nos recuperarmos.
EDGE: O Bono com calças xadrez e camisas pólo e com um mamilo cortado. Isso era provavelmente o mais ridículo que poderia chegar.
(Continua...)
Créditos: Nonata (ntrevia) e Cris Flor com colaboração de Éber e Thiago
(ethanhawk)
Bonolocks
07/05/2007, 19h32
(Continuação)
Páginas 80 e 81.
ADAM: Eu tinha um colete de lã em dois tons, laranja e preto, com cores muito New Wave, que a minha namorada, Donna, tinha tricotado prá mim. E é claro que o Larry ainda tinha suas calças boca-de-sino.
EDGE: Eu tocava uma guitarra Explorer, que eu tinha comprado em Nova York durante uma curta viajem de fim-de-semana. Eu tinha uma listinha das guitarras que eu queria experimentar – Les Paul, Rickenbacker – mas aí eu vi a Explorer na vitrine da primeira loja de guitarras que passei na frente e “Wow!”. Toquei ela por alguns instantes e realmente adorei. Foi o seu formato em zig-zag que me fez decidir, mas o som e a sensação eram o máximo. Todos tocavam o mesmo tipo de guitarra e então eu pensei, nosso som é diferente, vamos parecer diferentes.
LARRY: As apresentações no The Dandelion Market Car Park começavam em maio. Uma apresentação todo sábado à tarde, por seis semanas, quinze pence cada, para todas as idades. As pessoas costumam falar dessas apresentações como sendo legendárias. Elas eram. O The Dandelion foi onde nós demos o nosso primeiro grande passo.
EDGE: Era quase um cenário apocalíptico, um estacionamento de carros no porão de um distrito de Dublin do século dezoito, você realmente se sentia como se estivesse nas entranhas de algum buraco. O palco tinha que ser montado todo final de semana e nós trazíamos a PA e as luzes. O som não era tão ruim pro local.
LARRY: Havia um pano atrás do palco com o logo do U2. As pessoas começaram a olhar pra nós, a banda começou a usar roupas que refletiam a nossa época, e a nossa platéia também. E eles eram a nossa platéia, eram os nossos contemporâneos.
ADAM: Era nossa política nos livrarmos das manchetes e criar as nossas próprias estradas e construir nossos próprios prédios com a nossa platéia. Essas apresentações na hora do almoço eram fantásticas. Os ingressos eram muito baratos e sempre havia muita gente na cidade aos sábados à tarde com nada prá fazer, e eles vinham em semanas sucessivas.
LARRY: A primeira apresentação foi um pouco escassa. A segunda um pouco atarefada. A terceira foi legal – a quarta foi incrível. Nós estávamos crescendo como uma força musical. Sentíamos como se estivéssemos refinando o que fazíamos musicalmente. Esse foi o começo do Bono escalando e correndo ao redor do palco como um animal enjaulado.
BONO: Nós começamos a empregar lições das aulas de arte performática, mas sob uma visão pop e tudo começou a mudar. Você podia sentir a energia, você sabia que alguma coisa estava acontecendo. Era o nosso momento Beatles-na-Cavern.
ADAM: Teve um show que o Edge não foi. Ele estava muito doente e antes que nós arrumássemos tudo, eles o levaram ao Hospital Mercy, logo depois da esquina. O médico deu uma olhada nele e disse: “Você está com meningite”.
EDGE: Eu disse: “Eu posso tomar alguns remédios pra aliviar a dor e voltar depois do show?”. O médico disse: “Se você sair desse prédio eu não serei responsável por sua vida.”. Então eu disse: “Qual dessas é a minha cama?”.
ADAM: O público já estava lá àquele ponto, então o show deveria continuar.
BONO: Eu toquei guitarra, o que geralmente não é uma boa idéia.
LARRY: Nós tocamos uma música do Lou Reed, “Sweet Jane”, diversas vezes. Eu não conseguia me lembrar da parte da bateria, mas toquei assim mesmo, como eu já tinha feito várias vezes antes com músicas que eu não sabia.
BONO: Então nós começamos a fazer o The Jingle Bells. Nós tivemos essa grande idéia, deixe nós decidirmos quando será o Natal, e vamos fazer no meio de julho, no McGonagles com decoração e árvore de Natal. Era uma forma de estar numa banda pop e continuar sendo surreal. É um longo caminho até a Zoo Tv, mas a inspiração é a mesma: Tudo que você sabe está errado.
ADAM: Essa era uma coisa bem estranha a se fazer, eu devo confessar. Mas nós estávamos cientes que tínhamos que inventar alguma coisa para sermos lembrados. E com as nossas fontes tão limitadas, nós sempre tentávamos pensar além do caixa e maximizar o que era possível.
EDGE: Nós tínhamos uma tela montada ao lado do palco, pelo qual o Bono e minha irmã Gill desapareceram durante uma música chamada “Boy/Girl” e suas silhuetas eram projetadas na tela, com eles tirando um a roupa do outro.
BONO: Ela era uma figura maravilhosa. E ela parecia maravilhosa atrás da tela assim como na frente. Essa era uma boa idéia.
ADAM: Bono tinha sua rotina do cigarro, da qual lhe eram extraídas consideráveis milhas. Teve sua importância durante vários anos, eu acho. Na verdade, era mais uma rotina do isqueiro, onde ele ascendia repetidamente o mesmo para tentar ascender um cigarro que ele pegava da platéia. Aquilo era para compensar o fato de que não podíamos custear aqueles refletores de luz negra – Essa era a versão irlandesa dos refletores.
(Continua...)
Créditos: Nonata (ntrevia).
Bonolocks
07/05/2007, 19h35
(Continuação)
Páginas (82 – foto), 83 e 84, (85 a 87 – fotos).
BONO: Eu não fumava naquela época. Mas costumava acender um cigarro, e era como fumar depois de fazer sexo, no final de um momento ofegante após uma canção. Eu sempre procurava por um globo giratório de luz negra, e nunca conseguia um. Então, quando as luzes se apagavam, eu começava a brincar com um isqueiro como se ele fosse um revolver. Eu era como Jesse James. Podia fazer o isqueiro reluzir como seis estampidos de uma arma, uma atitude um tanto teatral. Foi nessa época que eu descobri que de quinze músicas tocadas, as pessoas se lembravam de apenas alguns momentos, dois poderiam ser musicais, mas três eram dramáticos. O drama estava funcionando conosco. Era uma forma de chamar a atenção do público para a música. Ou se as músicas não fossem boas, o drama distraia o público, e elas se tornavam apenas trilhas sonoras para a atuação no palco. Você pode se tornar um mestre na arte da distração.
Foi nesse verão que tudo começou a acontecer. Foi quando a Hot Press começou a nos apoiar. E a filosofia do editor Niall Stokes e dos jornalistas da Hot Press começou a parecer mais verdadeira para nós do que, por exemplo, a da NME. Quando nós olhamos para isto agora, percebemos que um tipo de revolução cultural Maoísta estava acontecendo na Inglaterra. Por um lado isso era bom, por outro ruim. Modismos. Ao passo que a Hot Press se sentia expressiva, havia política de verdade envolvida nisso. Também havia um sentimento de que a música era parte da maioridade da Irlanda. Eu não posso subestimar a importância da Hot Press, do Bill Graham, do Niall Stokes e do Liam Mackey. Eles vinham nos ver várias vezes. Tinham boas impressões da banda – ela era importante. Algo iria acontecer ali.
ADAM: Quando nós deixamos de ser pequenos competidores e alcançamos algum sucesso, pudemos sentir que as pessoas se aproximavam. Entre RTE, Hot Press e a rádio pirata havia muito apoio. Dave Fanning era importante, ele era o DJ roqueiro líder na estação pirata Radio Dublin e estava sempre a procura de bandas irlandesas para tocar. Ele fazia entrevistas e shows de divulgação. Até mesmo as empresas de equipamentos ficaram mais atenciosas, porque você precisa de favores e bons negócios se quiser que as coisas sejam feitas. Gravadoras vinham nos ver, mas era desesperador porque sempre acontecia algum problema.
PAUL: Eu achava evidente que o U2 tinha munição e equipamento para ser uma grande banda. Certamente eu não tinha nenhuma dúvida sobre isso. Mas era muito desanimador que isso não estivesse claro para o pessoal da A & R. Jackie Hayden e David Duke da CBS na Irlanda estavam interessados, mas não tinham orçamento suficiente para financiar um contrato discográfico. Então, um agente da A & R chamado Chas De Whalley, da CBS de Londres, melhorou nossa situação. Ele apareceu com algum dinheiro para o demo e produziu algumas faixas.
ADAM: Chas era muito bom. Ele era relativamente jovem e eu não sei se ele tinha muita experiência com produção, mas estava entusiasmado, queria contratar a banda. Eu acho que envolvê-lo foi uma jogada muito esperta do Paul porque isso significava que ele deveria ser leal a nós e nos ajudar a conseguir o contrato discográfico.
BONO: Eu não me lembro dessas sessões terem sido grandiosas. Nós estávamos crucificados pelo constrangimento, era difícil manter o ritmo e o vocalista parecia sofrer uma crise de identidade. Mas as músicas que nós gravamos eram fortes o bastante para superar nossa fraqueza.
LARRY: ‘Out Of Control’ tem algumas imperfeições no tempo. Em uma parte da música a intenção era que houvesse uma pausa de um compasso de duração. E por uma razão qualquer ela passou a ter três pausas e meia em um compasso, o que é um pouco estranho. A sessão de gravação foi mais ou menos assim: ‘O Larry não está tocando a mesma parte / o ritmo está diferente / está acelerando e desacelerando.’ Muito depois me contaram que um executivo da gravadora CBS disse que a banda era ótima, mas que o baterista era horrível e devia ser demitido. Como ele estava certo.
EDGE: Não foi uma gravação fantástica e nós não ficamos terrivelmente impressionados com a mixagem original do Chas. Nós gravamos em Keystone, mas acabamos remixando em Windmill com Robbie Mc Grath que tinha sido engenheiro de som dos Horslips. Não sei se isso ajudou.
ADAM: A CBS do Reino Unido aprovou o disco.
EDGE: A CBS vinha se arrastando por muito tempo. De fato eles sugeriram que se nós excluíssemos o Larry, eles nos dariam o contrato discográfico. Nós dissemos a eles que esquecessem isso. A idéia partiu de Muff Windwood da A & R ou Duff Windbag como passamos a chamá–lo depois de ouvirmos aquela sugestão.
PAUL: Eu sugeri que as faixas fossem lançadas como um single somente na Irlanda, e em troca, a CBS teria o direito de lançar os álbuns do U2 no país mesmo que nós fossemos contratados por outra gravadora. Por esta razão os discos do U2 foram lançados pela CBS Ireland por alguns anos, o que na verdade era embaraçoso para a CBS, porque lembrava que eles tinham perdido uma grande chance. A CBS Ireland lançou um EP de três faixas com as músicas do demo: ‘Out Of Control’, ‘Stories For Boys’ e ‘Boy/ Girl’. Fizemos uma competição no programa de Dave Fanning para escolhermos o lado A e eu acredito que cada pessoa que telefonou votou em ‘Out Of Control’. Então, em setembro, o EP ‘U2 3’ foi lançado em sete polegadas com uma capa esquisita e em uma edição limitada de doze polegadas.
EDGE: Foi uma emoção assombrosa, ter o meu primeiro álbum e ouvi-lo tocar na rádio. Eu também estava frustrado – sabia que a gente podia fazer melhor. Mas pelo menos era alguma coisa.
LARRY: Pat Kenny tinha um programa de rádio matinal na RTE e houve um debate sobre a nova geração da música irlandesa. Bono foi ao programa. Eu estava trabalhando na companhia de exploração de petróleo. Escapuli para uma sala vazia e sintonizei o rádio para ouvir o programa. E então aconteceu pela primeira vez. Eles tocaram trinta segundos de ‘Out Of Control’. O som era espantoso.
BONO: Eu nunca gostei do jeito como ela soa. Eu gostava de tocá-la mas ela meio que estragou quando eu pus no toca-discos. Mas nesse ponto meu pai soube que todo o negócio da banda era sério. Então estava tudo bem.
ADAM: Era emocionante ouvir sua própria música no rádio. Mas nós ainda não tínhamos um contrato, isso nos assustava. Sabíamos que o single nos sustentaria por três ou quatro meses, mas, e depois?
EDGE: Eu tinha me comprometido em ir para a faculdade caso o nosso contrato não saísse depois de um ano, e agora meu tempo tinha acabado. Eu tive que fazer a ligação. Me matriculei no Kevin Street Technical College e me inscrevi no curso de Ciências Naturais. Fiz tudo isso por obrigação. Eu tinha tanta certeza de que conseguiríamos o contrato discográfico que não comprei nenhum livro, pedia emprestado para outras pessoas quando precisava ler. Não queria gastar nenhum dinheiro dos meus pais com coisas que eu não iria usar. Todos os meus cadernos eram cheios de canções, idéias para letras de música, set lists, logotipos para a banda. McGuinness costumava rir quando eu mostrava algo em que estava trabalhando, porque ficava tudo em um livro supostamente dedicado à ciência. Havia duas linhas de química, e o resto era U2.
ADAM: Nós estávamos em um impasse e conscientes de que para manter a nossa fama na Irlanda, teríamos que subir mais um degrau na nossa carreira. A idéia era fazer uma turnê por clubes na Inglaterra, que seria financiada através de um contrato autoral. Bryan Morisson era o editor, ele foi nos ver ensaiar no barracão do jardim da casa do Edge. Nós nos amontoamos naquele espaço apertado e tentamos tocar alguma coisa para que ele ouvisse. Ele não comentou muito sobre a música, mas como os pais do Edge não estavam, ele reclamou da sujeira na casa e sugeriu que lavássemos a louça.
PAUL: Bryan Morrison era um editor independente. Houve um tempo em que ele foi empresário do Pink Floyd. Ele estava na ativa por vários anos, na verdade ainda está. Ele foi avisado sobre o U2 pelo seu caça-talentos Mark Dean. Ele nos ofereceu um contrato autoral, mas não tinha muito dinheiro. Eu acho que o valor era de três mil libras, mas nós estávamos tão desesperados que aceitamos em princípio. Iríamos usar o dinheiro para financiar os shows em Londres, que estavam sendo marcados por um agente chamado Ian Wilson. Então, dois dias antes de partirmos, Bryan Morrison telefonou e disse, “Eu estive pensando sobre o contrato e mudei de idéia. Vou pagar a vocês um adiantamento de mil e quinhentas libras.”
EDGE: Nós íamos vender os nossos direitos autorais por uma mixaria pelos próximos vinte anos ou algo parecido. Era um negócio muito ruim e no último minuto, sabendo que nós tínhamos a turnê agendada, ele conseguiu piorar. Então basicamente nós dissemos a ele que fosse estufar o traseiro.
ADAM: Nós reunimos a banda e decidimos nos aproximar de nossos pais e pedir que eles nos financiassem. Minha relação com os meus pais estava tão conturbada que eu não podia pedir dinheiro para eles. Eles insistiam “arranje um emprego”. Foi então que os pais do Edge, o pai do Larry Mullen e o Bob Hewson contribuíram com quinhentas libras cada um.
BONO: Quinhentas libras era muito dinheiro naquela época. Foi então que, no meu caso, o Grande Lobo Mau virou a Pequena Chapeuzinho Vermelho e chegou com maçãs polidas. Meu pai me ajudou. Tenho certeza que foi depois de me fazer ouvir muitos insultos, mas ele me ajudou.
LARRY: O pedido foi recebido com uma mistura de espanto e descrença. Mas, bem ao seu estilo, meu velho colaborou com o dinheiro.
PAUL: Eu peguei algum dinheiro emprestado com Seamus Byrne e Tiernan MacBride, dois colegas da filmagem. Nos esforçamos bastante para poder viajar. Algumas semanas depois, Bryan Morrison foi ver a banda. Foi a primeira vez que ele assistiu ao show e eu me lembro de quando ele perguntou, “Eu suponho que tenha sido um engano, não foi? Vocês não irão assinar um contrato comigo agora.” E eu respondi, “Não.”
ADAM: Um dia antes de partirmos para Londres, tivemos uma espécie de acidente. Eu estava dirigindo o carro dos meus pais, levando Edge e o equipamento para um ensaio no Stardust, em Artane, e nos envolvemos em uma pequena colisão.
EDGE: Foi uma pequena batida que provavelmente aconteceu a quinze milhas por hora. Nós estávamos nos arrastando lentamente pela estrada em um Austin velho, barulhento e com os pneus carecas. De repente, surgiu um caminhão enorme na nossa frente bloqueando as duas pistas. Nós pisamos no freio (e que freio), o carro meio que derrapou e atingiu o caminhão. Nós não tínhamos seguro, estávamos numa pior e a última coisa em que pensei era que estava ferido, mesmo que meu corte na cabeça estivesse sangrando e meu braço não parecesse muito bem.
Eu deixei o Adam lá, agarrei minha guitarra e peguei um ônibus para Stardust. Eu disse aos outros, “Nós batemos, o Adam não vem para o ensaio.” E então, um deles respondeu, “Eu acho que você está sangrando. E por que está segurando a sua mão desse jeito?” De repente eu me dei conta, “Oh droga, eu sofri um acidente. Eu preciso procurar alguma ajuda médica.” Então eu fui ao médico e ele fez uns curativos. Expliquei que nós íamos para Londres no dia seguinte e ele disse, “Eu acho que você vai ficar, OK?” Eu acordei em agonia no dia seguinte. Acho que eu torci todos os tendões e músculos da minha mão esquerda.
ADAM: Edge estava sofrendo de dor. Ele passou toda a viagem para a Inglaterra com a mão dentro de um balde de gelo. Meus pais também não ficaram satisfeitos quando souberam que estavam sem carro e que eu era o motorista. Oh Deus, meus pobres pais. Mas nós alugamos uma van e eu fiz uma bela fuga. Nós partimos em uma aventura e estávamos confiantes e convencidos de que conseguiríamos o contrato discográfico.
EDGE: Durante todo o caminho na balsa eu fiquei em agonia. Quando chegamos em Liverpool paramos no General Hospital. Eles me deram várias cartelas com comprimidos de morfina e me liberaram. Nós tínhamos um dia para nos instalar, e no próximo faríamos um show. Então eu peguei a guitarra e percebi que mesmo sem poder mover o pulso, eu conseguia usar meus dedos. Com um gesso enorme e uma tipóia eu me recostei no apartamento que nós alugamos e tentei imaginar como eu ia tocar as músicas com a mão machucada. Havia algumas coisas que eu não podia fazer, mas para a maioria eu estava OK, então nós fomos em frente com os shows e, para criar um efeito dramático, eu subia no palco usando a tipóia. Eu tirava minha mão da tipóia, colocava cuidadosamente no braço da guitarra e seguia com o show.
LARRY: Havia histórias de bandas que iam para Londres e ficavam em quartinhos. Bem ao seu estilo, Paul alugou um apartamento em Collingham Gardens em Kensington. Bono e eu dividimos um quarto, assim como Edge e Adam.
ADAM: Nós vivíamos com duas libras por dia. Fazíamos uma vaquinha e íamos para o péssimo restaurante italiano local, uma coisa exótica para nós naquela época.
PAUL: Ir de A para B e não gastar todo o dinheiro era a prioridade. Mas eu costumava usar uma expressão – “É importante não ter medo do dinheiro” – nem do excesso, nem da falta. Dinheiro era como diesel, servia para nos levar ao próximo ponto.
BONO: Paul Mc Guiness nos levou ao Poon’s, que é um restaurante chinês famoso de Chinatown. Tudo isso era novo para a gente. Nós entramos e havia todos aqueles garçons chineses gritando com a gente. Nós sentamos à mesa e tentamos fazer um pedido. E eles ficavam dizendo: “Anda logo, o que vocês querem?” E eu me lembro do Larry respondendo: “Calma aí, nós estamos pagando pela comida aqui. Vocês não gritam com a gente, nós gritamos com vocês.” Paul explicou ao Larry que em restaurantes requintados você deve deixar que eles gritem. Ou paga mais pelos insultos. Larry não aceitou o conceito...na época, ou nunca.
Larry é uma figura muito cautelosa. Eu acho que ele não estava seguro longe de casa em uma cidade como Londres. Eu estava maravilhado, meus olhos estavam do tamanho de salsichas, e eu caminhava por Londres com músicas na minha cabeça.
LARRY: Nós estávamos em Londres, estávamos buscando ativamente o nosso contrato discográfico, esse era o objetivo. Por isso os shows eram muito importantes. Havia muita discussão sobre o que era e o que não era legal e como nós devíamos nos apresentar no palco. Eu me lembro da frustração do Bono em alguns shows quando não íamos bem. E o Edge ficava interrompendo os acordes da guitarra – em todos os shows os acordes de guitarra eram interrompidos. Nós tínhamos que desenvolver uma sintonia entre o baixo, a bateria e a voz enquanto o Edge ajustava os acordes. Essa sintonia se tornou uma parte importante do nosso cenário.
ADAM: Por um lado era emocionante porque estávamos mais próximos do calor de onde as coisas aconteciam. Mas Londres também era um lugar muito assustador para a gente, e continuou a ser por um bom tempo. Parece que muito tempo passou antes de começarmos a fazer bons shows por lá, porque era muito estrangeiro e alienígena para nós.
LARRY: Nós estávamos como peixes fora d’água, muito inseguros sobre o que fazíamos. Tínhamos alcançado um certo nível na Irlanda, então isto era como voltar ao zero, tocar para nove ou dez pessoas que não se envolviam com o show. O som dos clubes não era muito bom, nós não conseguíamos ouvir o que estávamos tocando, parecia que tudo tinha se voltado contra a gente. Eu não pude deixar de pensar que talvez tudo fosse um grande erro.
EDGE: Alguns shows foram realmente bons, outros foram um tanto bagunçados. Nos apresentamos no Moonlight Club, no The Hope and Anchor, no The Rock Garden, no Dingwalls, no Eletric Ballroom abrindo para os Talking Heads, e vimos várias gravadoras.
(Continua...)
Créditos: Mila Hewson com colaboração de Cris Flor.
hawkmoon269
07/05/2007, 19h52
Jeová!!vcs são mesmo a minha salvação!!
se não fosse por vcs,eu iria passar um século pra ler esse livro!
eu fiz curso de inglês,mas me enrrolo toda na tradução.:lol:
a propósito elas estão ótimas!!:aprovado::aprovado::aprovado:
Jeová!!vcs são mesmo a minha salvação!!
se não fosse por vcs,eu iria passar um século pra ler esse livro!
eu fiz curso de inglês,mas me enrrolo toda na tradução.:lol:
a propósito elas estão ótimas!!:aprovado::aprovado::aprovado:
:aprovado: :aprovado: :aprovado:
Adri Soul Love
07/05/2007, 20h50
Brigadinhu novamente!!!:lol:
followerU2
07/05/2007, 21h26
ADAM: Bono tinha sua rotina do cigarro, da qual lhe eram extraídas consideráveis milhas. Teve sua importância durante vários anos, eu acho. Na verdade, era mais uma rotina do isqueiro, onde ele ascendia repetidamente o mesmo para tentar ascender um cigarro que ele pegava da platéia. Aquilo era para compensar o fato de que não podíamos custear aqueles refletores de luz pisca-pisca – Essa era a versão irlandesa dos refletores.
Amigos, se me permitem uma pequena colaboração de quem frequentava shows e festas (mais conhecidas como reuniões dançantes :lol: ) no final dos anos 70...seria melhor traduzir esse trecho como "luz estroboscópica" em vez de "refletores de luz pisca-pisca", ou então luz negra, que é como a gente chamava na época. É ao que o Adam se refere ao dizer strobe light. Okay? Nem sei se ainda se usa isso, mas era muuuuito legal :P
MT
PS.: Quem tem o dvd boot Looking for the Light in São Francisco pode conferir o Bono dando uma de Jesse James com o isqueiro, exatamente o que eles descrevem nessa passagem do livro, e isso acontecia durante Boy/Girl.
Bonolocks
07/05/2007, 21h52
Amigos, se me permitem uma pequena colaboração de quem frequentava shows e festas (mais conhecidas como reuniões dançantes :lol: ) no final dos anos 70...seria melhor traduzir esse trecho como "luz estroboscópica" em vez de "refletores de luz pisca-pisca", ou então luz negra, que é como a gente chamava na época. É ao que o Adam se refere ao dizer strobe light. Okay? Nem sei se ainda se usa isso, mas era muuuuito legal :P
MT
PS.: Quem tem o dvd boot Looking for the Light in São Francisco pode conferir o Bono dando uma de Jesse James com o isqueiro, exatamente o que eles descrevem nessa passagem do livro, e isso acontecia durante Boy/Girl.
Obrigado MT!:aprovado: Já editado.;)
BETY VOX
07/05/2007, 23h00
Brigadode novo gente, estou ávida por mais:D
Mila Hewson
08/05/2007, 10h38
Amigos, se me permitem uma pequena colaboração de quem frequentava shows e festas (mais conhecidas como reuniões dançantes :lol: ) no final dos anos 70...seria melhor traduzir esse trecho como "luz estroboscópica" em vez de "refletores de luz pisca-pisca", ou então luz negra, que é como a gente chamava na época. É ao que o Adam se refere ao dizer strobe light. Okay? Nem sei se ainda se usa isso, mas era muuuuito legal :P
MT
PS.: Quem tem o dvd boot Looking for the Light in São Francisco pode conferir o Bono dando uma de Jesse James com o isqueiro, exatamente o que eles descrevem nessa passagem do livro, e isso acontecia durante Boy/Girl.
Obrigada pelo esclarecimento MT, quando fiz a tradução fiquei me perguntando se esse termo "luz estroboscópica" existia mesmo. Luz negra ficou melhor.
Cris, na minha tradução, quando eu me refiro a globos giratórios de luz, eu também queria mencionar a luz negra, então se quiser pode editar !! ;)
Bonolocks
08/05/2007, 11h08
Obrigada pelo esclarecimento MT, quando fiz a tradução fiquei me perguntando se esse termo "luz estroboscópica" existia mesmo. Luz negra ficou melhor.
Cris, na minha tradução, quando eu me refiro a globos giratórios de luz, eu também queria mencionar a luz negra, então se quiser pode editar !! ;)
Beleza Mila! Editado!;)
(Continuação)
Páginas (73 e 74 – fotos), 75, 76, (77 a 79 – fotos).
...
EDGE: O Bono com calças xadrez e camisas pólo e com um mamilo aparecendo. Isso era provavelmente o mais ridículo que poderia chegar.
Créditos: Nonata (ntrevia) e Cris Flor com colaboração de Éber e Thiago
(ethanhawk)
Oi gente,
eu queria fazer uma pequena correção da tradução que eu fiz da página 76.
Na última frase do Edge, que ele se refere ao modo de se vestir do Bono, ao invés de "mamilo aparecendo" é "mamilo cortado". Então fica assim:
EDGE: O Bono com calças xadrez e camisas pólo, com um mamilo cortado. Isso era provavelmente o mais ridículo que poderia chegar.
Abraços,
Nonata
P.S.: Cris, podes fazer essa correção???
Bonolocks
08/05/2007, 13h14
Oi gente,
eu queria fazer uma pequena correção da tradução que eu fiz da página 76.
Na última frase do Edge, que ele se refere ao modo de se vestir do Bono, ao invés de "mamilo aparecendo" é "mamilo cortado". Então fica assim:
EDGE: O Bono com calças xadrez e camisas pólo, com um mamilo cortado. Isso era provavelmente o mais ridículo que poderia chegar.
Abraços,
Nonata
P.S.: Cris, podes fazer essa correção???
Ok Nonata! Editado tb!:)
Ok Nonata! Editado tb!:)
:aprovado: :aprovado: :aprovado:
Bonolocks
09/05/2007, 07h24
(Continuação)
Páginas (73 e 74 – fotos), 75, 76, (77 a 79 – fotos).
BONO: O Paul não aparecia com a tal van, e eu estava começando a ficar cansado com isso. “Oh Yeah. Todas essas grandes idéias. Mas onde está a merda da van? Onde estão os shows? O Adam é que consegue as apresentações. O que você está fazendo? Você que deveria ser o empresário.” Apesar dos protestos do Paul que o demo não era bom o suficiente para ir pra Londres, eu não podia esperar. Porque eu estava correndo contra o tempo. Meu velho já estava me lembrando que o meu ano em casa já estava quase acabando. O calor tinha chegado. Eu não podia suportar não conseguir um contrato de gravação, e então fui à Londres e provoquei interesse. O Paul dizia: “Espere. Melhore. Nós iremos fazer isso de uma maneira mais programada.” E eu dizia: “Nós não podemos esperar. E se nós queremos fazer direito na Irlanda, nós devemos fazer direito na Inglaterra. E então eles irão nos escutar na Irlanda.” Esse era o plano que eu tinha em mente.
Eu fui pra Londres com a Ali. Isso era uma grande coisa na minha cabeça, porque eu estava fazendo uma viagem com essa linda garota e eu deveria estar no comando, mas eu não sabia o que eu estava fazendo ou onde estava. Eu nunca tinha ido à Londres antes. Nós não éramos casados, mas íamos dormir no mesmo quarto e concordamos que também íamos dormir na mesma cama. O pai dela tinha me olhado nos olhos, e você sabe, eu ia viajar por uma semana com a filha dele. Então eu tive que cumprir com a minha promessa, o que foi muito, muito difícil.
Nós fomos visitar o Phil Chevron do The Radiators, a banda que se originou do The Radiators From Space, e que agora estava baseada em Londres. Ele foi de grande ajuda e nos indicou alguns jornalistas do mundo da música que ele achava que eram bons. E eu tinha alguns jornalistas que eu achava que eram promissores. Eu procurei os endereços, consegui o Tube, localizei as revistas NME ou Sound ou Record Mirror, fui até lá, encontrei os jornalistas que nós achamos que eram mais abertos a novas músicas, perguntei por eles na recepção. O que é muito interessante, porque se você recebe um telefonema “Tem alguém aqui na recepção querendo falar com você”, você não pensa: “Mande ele se danar, eu não quero essas pessoas.” Você apenas pensa no assunto, e recebe a mim e a minha namorada. E eu diria: “Escute, nós somos de Dublin, uma banda chamada U2, e nós realmente gostaríamos que você escutasse esse demo.” Eu tinha maneiras perfeitas. E eles dariam uma olhada nesse garoto com olhar de maluco e diriam:
“Bom, eu volto daqui à uma hora”.Eles diriam: “O que?”.
“Eu volto daqui à uma hora.” “Eu tenho uma droga de coluna pra escrever!”
“Bom, eu estarei aqui por apenas um ou dois dias.”
Nesse momento um jornalista chamado Dave McCullough da Sounds nos ajudou muito. E um camarada chamado Chris Westwood, do Record Mirror foi extremamente generoso e foi a primeira pessoa a nos colocar na capa de uma revista. Ele tinha gostos muito esotéricos, mas também um ouvido para o pop. Ele era o mais encorajador de todos e disse: “Você devia tentar essa gravadora, você devia tentar aquela gravadora. O cara que assinou com o The Sex Pistols tem seu próprio selo agora, você deveria vê-lo.”
Então eu apareci sozinho batendo à sua porta – eles se chamavam Automatic Records. E eu disse:
“Chris Westwood da Record Mirror disse que nós deveríamos procurá-lo”
“Ah, sim, você está com a Record Mirror?”
“Não, eu sou de uma banda.”
“O que você quer dizer com uma banda?”
Eu disse: “Você ouviria a nossa música?
O cara da Record Mirror disse que você iria gostar”
E eu fiz ele escutar na nossa frente.
Ele disse: “Vocês têm um empresário?”
“Sim.” “Por que ele não está aqui?”
“Ele está em casa tentando descobrir como nós iremos conseguir uma van.
Eu sou a festa avançada, mas ele pode ligar pra você amanhã.”
Aliás, foi a Ali que pagou por tudo isso. Eu não tinha nenhum dinheiro.
Editando só o trechicho em vermelho:
Eu tinha maneiras perfeitas. E eles dariam uma olhada nesse garoto com olhar de maluco e eu diria:
Bonolocks
09/05/2007, 07h28
(Continuação)
Páginas (82 – foto), 83 e 84, (85 a 87 – fotos).
EDGE: Foi uma pequena batida que provavelmente aconteceu a quinze milhas por hora. Nós estávamos nos arrastando lentamente pela estrada em um Austin velho, barulhento e com os pneus carecas. De repente, surgiu um caminhão enorme na nossa frente bloqueando as duas pistas. Nós pisamos no freio (e que freio), o carro meio que derrapou e atingiu o caminhão. Nós não tínhamos seguro, estávamos numa pior e a última coisa em que pensei era que estava ferido, mesmo que meu corte na cabeça estivesse sangrando e meu braço não parecesse muito bem.
Eu deixei o Adam lá, agarrei minha guitarra e peguei um ônibus para Stardust. Eu disse aos outros, “Nós batemos, o Adam não vem para o ensaio.” E então, um deles respondeu, “Eu acho que você está sangrando. E por que está segurando a sua mão desse jeito?” De repente eu me dei conta, “Oh droga, eu sofri um acidente. Eu preciso procurar alguma ajuda médica.” Então eu fui ao médico e ele fez uns curativos. Expliquei que nós íamos para Londres no dia seguinte e ele disse, “Eu acho que você vai ficar, OK?” Eu acordei em agonia no dia seguinte. Acho que eu torci todos os tendões e músculos da minha mão esquerda.
Editando só o trechinho em vermelho:
“Eu acho que você vai ficar bem. Eu acordei em agonia no dia seguinte.
;)
Bonolocks
09/05/2007, 12h34
Prá quem está acompanhando esse tópico e ainda não tem o livro, poderá, se quiser ver muuuitas fotos que a Cacau disponibilizou nesse tópico: http://www.ultraviolet-u2.com/foruns/showthread.php?t=4505&page=17
;)
Rosean Vox
09/05/2007, 21h00
Não vou me cansar nunca de agradecer a esta galera que esta passando tudo isto para outros fãs, como eu, que não têm como traduzir o livro. "MUITO OBRIGADA MESMO!!!!!", a generosidade de vcs merece muita gratidão. Valeu!!!!!!!:aprovado: :aprovado: :aprovado:
Oi, sou professora de inglês e também ajudar na traduçao do U2 by U2... mas não sei como fazer... alquem pode me dizer?:D
beijoss
Oi, sou professora de inglês e também ajudar na traduçao do U2 by U2... mas não sei como fazer... alquem pode me dizer?:D
beijoss
Oi Domi,
você pode entrar em contato com o Bonolocks (através de mensagem pessoal ou email - é só clicar no nick dele que aparece as opções), pois é ele que tá organizando todo esse trabalho. Vai ser ótimo ter mais um colaborador...:aprovado: :aprovado: :aprovado:
Bonolocks
11/05/2007, 09h24
Originalmente Escrito por Domi http://www.ultraviolet-u2.com/foruns/images/uv/buttons/viewpost.gif (http://www.ultraviolet-u2.com/foruns/showthread.php?p=232084#post232084)
Oi, sou professora de inglês e também ajudar na traduçao do U2 by U2... mas não sei como fazer... alquem pode me dizer?:D
beijoss
Oi Domi,
você pode entrar em contato com o Bonolocks (através de mensagem pessoal ou email - é só clicar no nick dele que aparece as opções), pois é ele que tá organizando todo esse trabalho. Vai ser ótimo ter mais um colaborador...:aprovado: :aprovado: :aprovado:
Enviei um e-mail prá Domi.
Obrigado também por se colocar à disposição, Domi!:aprovado:
Mila Hewson
12/05/2007, 16h42
Eba !!!! :pulando::pulando::pulando: (ataque de criança histérica e feliz). Olha nossa equipe crescendo !!! Desse jeito vamos terminar bem rápido, tô boba de ver como estamos adiantados com as traduções. É isso aí Domi, join us e seja bem vinda !! :)
Bonolocks
14/05/2007, 15h18
(Continuação)
Páginas 88 e (89 – foto).
BONO: Era durante essa turnê que iam decidir se assinávamos o contrato ou não. Era uma situação de “ou vai ou racha”. Nas melhores noites eles não apareciam e nas más estavam todos lá. No final de semana todas as gravadoras tinham nos rejeitado. Apesar de termos captado o interesse da imprensa, acabamos indo para casa envergonhados, sem o contrato que tínhamos prometido aos nossos pais e aos nossos fãs.
ADAM: Íamos passar o Natal em casa, mas em estado de choque. Londres era uma cidade grande e os locais que ouvíamos dizer que eram excelentes para fazer os shows, mais pareciam banheiros que outra coisa...e mesmo assim não conseguimos encher o espaço. Representantes de todas as gravadoras tinham ido nos ver e mesmo assim, não conseguimos arrasar Londres. Estávamos sem dinheiro. Eu tinha duas guitarras e no final dessa semana, tive que vender a minha Rickenbacker para pagar as passagens de volta para casa. A situação era desesperadora, porque tínhamos falhado, não tínhamos um tostão, devíamos dinheiro aos nossos pais e ninguém queria assinar contrato com a gente. Não podíamos estar pior.
BONO: Tivemos uma última idéia. O nosso último plano era usar a imprensa irlandesa, que tem por costume ser cúmplice com os irlandeses que causam uma pequena faísca fora do país, transformando essa faísca em um incêndio. Começamos trabalhando o conceito “U2 irrompem no Reino Unido.” Criticas entusiastas, tudo começava acontecer. Fomos capa da Record Mirror no Reino Unido, o que foi muito importante. Fomos capa da Hot Press, na Irlanda. Acabaram os shows para meia dúzia de gatos-pingados. Da forma como as coisas corriam, apareceram 200 pessoas no Half Moon, em Herne Hill, para ver nosso show. Entretanto agendamos a turnê pela Irlanda, que terminou com o nosso último show no Estádio Nacional em Dublin, onde nunca nenhuma outra banda jovem tinha se apresentado. Era um lugar onde só os grandes tocavam, era o “estádio de boxe” de Dublin. As pessoas estavam espantadas. “O U2 é assim tão bom?” “Sim. É mesmo bom.” É verdade!
ADAM: Convencemos a CBS Ireland a lançar outro single, que era uma nova demo da música ‘Another Day’, e que nem era das melhores do U2, verdade seja dita. Mas era uma faixa interessante. Foi a melhor gravação das últimas demos, tinha um quê de moderno e revolucionário. Fizemos uma turnê na Irlanda por todos os lugares que pudessem ser palco de excelentes shows. O ponto alto da turnê, que só durou cerca de uma semana, foi no Estádio Nacional. Estiveram presentes 2.500 pessoas, e naquele tempo era um lugar onde se apresentavam todas as grandes bandas estrangeiras. Era um local bastante internacional na época. Conseguir fazer show lá foi considerado bastante corajoso.
EDGE: Éramos famosos em Dublin. Aos olhos das pessoas, o fato de termos ido a Londres foi quase tão importante como se tivéssemos assinado um contrato com a gravadora.
LARRY: As bilheterias e as pessoas estavam comprando os bilhetes. Havia um entusiasmo enorme em torno daquele show - era como se tivéssemos voltado como herois vitoriosos. Lembro de chegar ao estádio e de termos testado alguns instrumentos. Havia um sistema de som muito bom, havia luzes e conseguiamos nos ouvir em palco. Depois de todos os problemas enfrentados em Londres, isso era perfeito.
ADAM: Foi o melhor show das nossas vidas até aquele momento. Reparamos que sempre que dávamos grandes shows nos sentíamos muito melhor do que quando nos apresentávamos em clubes.
Quando sabíamos que íamos apresentar em um lugar maior do que o anterior, nos sentíamos bastante confortáveis com a idéia. É quase como se os lugares pequenos fossem demasiado pequenos.
LARRY: Famílias, amigos, amigos de amigos, estavam todos lá. Estava lá meu pai e muita gente da idade dele. Fizemos um show fabuloso. A reação do público foi muito especial.
BONO: Durante esse show apareceu o A&R da Island Records que se dá pelo nome de Capitão. Nick (algumas vezes chamado de Bill) Stewart. Tinha ignorado todos os nossos shows no Reino Unido e agora dizia: “Meu Deus, eles vão se apresentar em um estádio? Ficaram mesmo famosos.” Chega lá e descobre que aquilo não é propriamente um estádio, mas sim um local espaçoso e que as entradas não estavam esgotadas, mas que estava quase casa cheia. Foi um bom show. Era o nosso show de retorno para a casa e as nossas famílias estavam presentes.
LARRY: O Nick Stewart foi conversar com a gente depois do show e nos propôs um contrato de gravação. Não podia ter acontecido em melhor momento.
BONO: Bola no cesto. Último minuto de acréscimo.
Créditos: Juliana Oliveira (JulianaSP).
Bonolocks
14/05/2007, 17h49
Galera, essa tarefa que tem sido tão bem feita pela equipe tem dado uma grande satisfação. Saber mais detalhes sobre a melhor banda do mundo nas próprias palavras dos integrantes do U2 tem sido extremamente gratificante. Por vezes me pego emocionado com o que leio. Por ex., no capítulo Into The Heart, que vou postar em breve fiquei impressionado com a grandeza e humildade do Adam. Grandeza de personalidade, grande ser humano.
Outra coisa que me deixou impressionado foi a maneira do Steve Lillywhite trabalhar. Ele sempre levou em consideração as limitações de cada um e ao mesmo tempo os fazia sentir importantes, num momento que eles realmente precisavam de toda essa força. Grande exemplo!
E tem sido demais acompanhar o trabalho de gravação e de como cada música surgiu no início de suas carreiras. Quero dizer, não tenho palavras prá expressar a emoção que é acompanhar toda essa trajetória.
Bem essa foi só uma prévia. Vou deixar com vocês sentirem na pele a emoção que certamente acompanhará essa viagem no tempo. Em breve!
;)
Bonolocks
14/05/2007, 19h35
__________________________________________________ __________________
Página 90
INTO
THEHEART
1980 - 1981
__________________________________________________ _______________
Páginas 91 e 92.
ADAM
Assinamos o contrato de gravação no banheiro das mulheres no Lyceum Ballroom, em Londres. É uma longa história...
BONO: O Capitão media quase 1,90m, tinha um queixo que mais parecia uma peça mal acabada e uma voz muito suave. Disseram-nos que tinha pertencido ao Exército Britânico e aos serviços secretos como agente à paisana na Irlanda do Norte durante os conflitos. Lembro-me de ter pensado: “O Capitão tentando passar por irlandês? Não é possível”.
EDGE: O Nick Stewart parece mesmo um oficial importante do Exército Britânico. Quando lhe perguntaram o que é que ele estava fazendo na Irlanda do Norte ele respondeu: “Personificando um irlandês alto. Coisa que é extremamente difícil, pois não há nenhum!” Era um verdadeiro figurão, e acabou por se tornar o A&R da Island Records.
BONO: Eu gostava mesmo do Nick. Era divertido, adorava música e tinha um bom sentido de representação. Sabia que tinha descoberto algo de especial e não estava nada preocupado com o fato de ainda não ter dado a volta ao Chris Blackwell, o dono da Island.
PAUL: Fui para Londres para fazer as negociações, o que não foi fácil, pois quando só há uma pessoa nos oferecendo um contrato é difícil discutir. Felizmente, o Nick não era o único que nos dava apoio na Island Records. Rob Partridge, o assessor da imprensa, era amigo do Bill Graham e eles costumavam ter conversas sobre os U2. Ele era também muito chegado ao Chris Blackwell, o dono da Island, e havia outro tipo de imprensa, o Neil Storey, que era doido pelo U2. Na verdade, o mérito pela assinatura do contrato vai para todas estas pessoas, assim como para a Anne Roseberry, da Blue Mountain Music.
LARRY: Quando pensamos que o acordo já estava no papo, o Nick mencionou que precisava trazer outras pessoas da gravadora para nos ver. Felizmente, íamos atuar num pequeno festival intitulado A Sense of Ireland, que teve lugar em Londres e que foi promovido pela Câmara do Comércio da Irlanda. Atuamos no Acklam Hall, em Notting Hill, com mais duas bandas, o Berlin e o Virgin Prunes. Não chegou nem perto da apresentação que demos no estádio de Dublin, mas foi o suficiente para conseguirmos o acordo.
BONO: Já estávamos na capa da NME mesmo antes de termos o contrato. Acho que isso até deve ter ajudado.
EDGE: O Paul Morley, da NME, tinha ido a Cork para assistir à nossa apresentação no Arcadia. De um dos balcões, alguém deixou cair a cerveja em cima do meu amplificador e ele explodiu. Só se via fumaça saindo. E eu pensei: “Caramba! A NME está aqui presente, o público vai começar a ficar impaciente... É o nosso pior pesadelo.” E o Bono tentou resolver o assunto. Disse: “Muito bem, quero 100 pessoas aqui em cima.” Se colocou em cima de uma coluna e disse: “Vamos jogar o jogo da adulação ao Rock’n’Roll. Quero que me venerem!”. Ficou muito tempo assim. Entretanto, arranjei outro amplificador e recomeçamos o espetáculo. No final, estávamos no camarim e o Paul Morley entrou falando em tom declamatório sobre “o auge metafísico”. Tinha adorado! Gostou do espetáculo pela coragem e audácia que o Bono tinha demonstrado e nos deu um fantástico elogio.
LARRY: Lá estávamos nós em Londres, à espera do contrato, e numa noite fomos a um concerto no Lyceum. O Paul apareceu com o Nick stewart e disse: “Tenho o contrato.” E fomos todos para o banheiro das mulheres assinar os nossos nomes.
PAUL: Precisávamos ir para um lugar onde pudéssemos ver o que estávamos fazendo e o banheiro das mulheres sempre tinha melhor aspecto do que o dos homens.
ADAM: Acho que assinar um contrato de gravação no banheiro das mulheres tem um quê de Rock’n’Roll. Foi bastante ridículo, mas creio que não afetou a qualidade do documento.
LARRY: O pessoal do ‘A sense of Ireland’ nos hospedou no Tara Towers Hotel. Era bastante requintado para os nossos padrões e, como tínhamos de ficar por lá durante alguns dias por causa do contrato, ficamos sem dinheiro para pagar a conta do hotel. Foi então que o Bono disse ao Paul para telefonar ao Nick Stewart a pedir algum dinheiro.
EDGE: O Nick disse: “Eu falo com o departamento financeiro. Já assinamos o contrato, mas ainda não está tudo resolvido. Vou ver o que posso fazer.” Passadas algumas horas, voltou e disse: “Muito bem, rapazes. Aqui está o saque.” E deixou cair um saco cheio de dinheiro em cima da cama.
LARRY: Tinha algumas centenas de libras dentro do saco. Eu pensei: “Isto é fantástico!” A pessoa telefona a uma gravadora, pede-lhe dinheiro e ele vem ao nosso hotel trazer um saco cheio dele. Isto é o mundo da música!
EDGE: Era mesmo um saco cheio de dinheiro. Não havia clipes, nem elásticos segurando as notas. Parecia que tinha assaltado uma loja no caminho para o hotel. Mais tarde, viemos a descobrir que ele tinha tirado tudo do fundo das despesas para emergência de todos os departamentos da Island Records, e foi com esse dinheiro que pagamos o hotel e voltamos pra casa.
ADAM: Não era o melhor contrato que uma banda podia assinar, mas já era bom. Era o compromisso de alguns singles, um álbum e algum dinheiro.
PAUL: A Island Records teve início nos finais de 60 e mantinha ainda algum do seu caráter liberal. Na verdade, tivemos muita sorte em assinar contrato com a Island, pois, embora tivesse poucos recursos e ainda fosse um pouco desorganizada, foi a nossa oportunidade de nos tornarmos bons no que fazíamos. Lá, fomos tratados de forma honrada, mas aquilo que eu considerava respeito era, na realidade, um certo caos. Começou tudo muito bem e, de um momento para o outro, o tipo de coisas que as bandas esperam que a gravadora faça, éramos nós que fazíamos. Quisemos manter a iniciativa e isso significava fazer os nossos próprios planos, sobretudo ao que dizia respeito às turnês. Fomos criando várias amizades ao longo dos anos. Tentamos tratar as pessoas com lealdade e lembrar-nos de que as pessoas que trabalham nas gravadoras, mesmo que se tornem diferentes com o passar dos anos, nos contrataram porque gostaram da nossa música e podemos sempre mencionar isso. Estamos competindo com o tempo deles. Será que vão prestar atenção ao novo disco do Bob Marley ou vão trabalhar no disco do U2 durante as próximas horas?
O Chris Blackwell era muito esperto, muito falador, um excelente aliado para o U2. Agarrou-se à inteligência da banda e ao empenho que os integrantes do grupo demonstravam. Ele costuma citar-me uma coisa que, aparentemente, eu lhe disse nesses primeiros tempos: “Nós não estamos no negócio das gravadoras, estamos no negócio do U2, o que é muito diferente.” E ele concordou – tinha percebido a mensagem.
ADAM: Pouco tempo depois de termos assinado o contrato, começamos a planejar a gravação de um álbum, de singles e tentar encontrar um produtor. O Nick queria que trabalhássemos com o Martin Hannett, o que foi uma decisão inspirada.
BONO: O Martin Hannett era um gênio. Já tinha trabalhado com o Joy Division, que era a nossa banda preferida naquele tempo. Seria difícil encontrar um grupo tão pesado na música como o Joy Division. O nome da banda, a letra das músicas e o vocalista eram enormes. Mas, mesmo assim, consegui sentir neles a busca de Deus, da luz, da razão...uma razão de ser. Com o Joy Division, e sentia-se isso sobretudo por parte do vocalista, a beleza era a verdade e a verdade era a beleza e eles buscavam ambas. Para atenuar a miséria do dia-a-dia, construíram, com a música deles, uma espécie de catedral. Olhando para trás, vejo que foi um ponto bastante religioso da música. Estávamos muito longe de chegar à música pop. Naquele momento, o que se passava em todo o lado ela política como uma alternativa. Havia uma revolução cultural, estimulada pela polêmica da imprensa musical quase seguidora do maoísmo. O tema era: “A música não é uma questão de vida ou morte. É muito mais séria do que isso.” Não admira que tenham morrido pessoas.
LARRY: Nos encontramos com o Martin em Londres, onde ele estava gravando com o Joy Division. Foi um encontro estranho. Havia uma espécie de intensidade criativa no ar. Eles pareciam calmos e desprendidos. Ao contrário de nós, pareciam estar concentrados no trabalho em estúdio. Não havia tagarelices, não viemos embora dizendo: “São muito divertidos, não são?” Eram todos respeitosos e muito bons.
EDGE: Eles estavam gravando ‘Love Eill Tear Us Apart’ e nós ficamos assistindo. Sentia-se a atmosfera no estúdio, como se estivesse acontecendo algo incrível. O ambiente era sufocante – era uma vibração muito intensa. Acho que eles andavam ouvindo Wagner. Não foi bem uma sessão de Rock’n’Roll muito comum, longe disso, mas soou muito bem.
BONO: Ali estava Ian Curtis em pessoa, um cara com uma voz possante.
Estávamos vendo discos deles e encontramos dois do Frank Sinatra: The Wee Small Hours e Songs For Swinging Lovers. Isto era post-punk, eles estavam ouvindo Wagner. Tinham a coleção de discos mais incrível que eu já tinha visto, e que tinha mais em comum com o Bob Hewson do que com o filho dele. Fiquei boquiaberto.
EDGE: Mostramos ao Martin um demo de ’11 O’Clock Tick Tock’. Ele não ficou muito impressionado, mas disse que tinha gostado da música.
BONO: O título da música nasceu de um bilhete que o Gavin Friday tinha colocado na minha porta na Cedarwood Road. Íamos nos encontrar às “11 em ponto” – é o final da noite. A idéia para esta música surgiu quando eu estava sentado no balcão do Electric Ballroom assistindo a uma apresentação dos Cramps, uma banda de rock’n’roll extraordinária. Foi o gótico no seu ponto mais alto, com o palco cheio de velas. O vudu estava na ordem do dia, havia uma atmosfera satânica e eu estava pensando que aquela ia ser a noite da tragédia. Todos tinham um olhar perdido. Era por causa daquela maquiagem sombria, faces brancas, olhos pintados de preto, aquelas ameixas que os meus colegas dos Virgin Prunes punham no rosto. Parecia o fim do mundo. Para um rapaz tão jovem, com 19 anos, vindo dos subúrbios de Dublin, parecia que aquilo não tinha vida nenhuma. Provavelmente, até tinha mais humor do que aquele que eu fui capaz de captar no momento.
EDGE: Nós desprezávamos este movimento que, a nossa ver, era só o anular da antiga hegemonia dos aborrecidos grupos de metal dos anos 70, substituída por algo virado para a individualidade e expressividade rude. Era como se a vida nos fosse tirada por este elemento codificado e a orientado para a moda que se estava instalando. Para se estar na moda, era preciso nos vestir e agir de uma certa forma e compor determinados tipos de músicas. Assumimos uma postura de orgulho e decidimos que não queríamos ser iguais a todos os outros grupos nem assumir a postura do dia, que era olhares sombrios, poucos movimentos em palco, comportamentos enfadonhos e montes de músicas com letras completamente incompreensíveis, que provavelmente nem sequer significavam nada. Não éramos legais, porque éramos diferentes. Não quisemos ficar parados, quisemos emergir como uma banda viva.
Mais tarde, nesse mesmo ano, me lembro de o Bono ter subido no palco no Lyceum. Estávamos nos apresentando com o Echo and the Bunnymen e três ou quatro grupos no Norte da Inglaterra, que faziam parte dessa nova onda psicodélica e que raramente suavam em palco. Nós interagimos com o público. No meio de ‘Electric Co’, o Bono deu um salto extravagante de uma coluna e as calças dele se rasgaram. Toda a imprensa estava presente, assim como o pessoal das gravadoras e todas as pessoas ligadas à música. E o Bono começou a agir de forma desvairada. Foi algo do gênero: “Eu estou fazendo isto pra vocês! Estou fazendo isto pra vocês!”, arrancando a roupa do corpo com repugnância por ter sequer tentado entrar na moda. E ele completamente se perdeu naquilo. E tornou-se característico nos nossos concertos que, ocasionalmente, o Bono ficasse tão entusiasmado que entrava numa espécie de transe e ninguém sabia o que poderia acontecer. Eram momentos de perigo. Nessa noite, na realidade, as coisas não correram lá muito bem, mas foi sobretudo devido à frustração e revolta que sentíamos em parte por causa do que estava acontecendo na Inglaterra e foi nesse momento que eles, e nós, percebemos que esta história de amor não ia ter um final feliz. Iria haver sangue nas paredes, provavelmente o nosso e o deles.
PAUL: O Martin Hannett veio de Manchester para gravar o primeiro disco nos Windmill Lane studios, em Dublin. Não ficou muito impressionado com as instalações e fez que mandássemos trazer alguns equipamentos especiais de Londres.
BONO: Ele parecia o Dr. Who e sabia muito de tecnologia. Tinha harmonizadores e coisas das quais nunca tínhamos ouvido falar. Sempre nos sentimos atraídos pelos técnicos de som e, antes do Brian Eno, havia o Martin. Ele acrescentou uma seqüência harmônica de guitarra em ‘11 O’Clock Tick Tock’ e a música ficou com um som totalmente diferente. Foi o que ele certamente aprendeu com o Joy Division, saber pegá-los nos subúrbios e fazê-los sentirem-se o canto mais extremo da Via Láctea.
ADAM: O Martin parecia um enorme gnomo de jardim. Era uma pessoa muito descontraída, mas, depois de conhecê-lo melhor, percebi que afinal ele estava era sempre de ressaca – havia ali uma boa dose de erva fumada.
EDGE: Nunca tínhamos estado num estúdio com um produtor adequado, por isso, estávamos um pouco nervosos e isso afetou o desempenho de todos. Foi bastante complicado fazer as linhas de guia. Não chegávamos a acordo em relação ao tempo da música. Começávamos com um tempo e após 16 compassos já estávamos três ou quatro BPM’s (batidas por minuto) acima. E continuávamos sempre avançando cada vez mais rápido ao longo da música.
ADAM: Acredito que ele não achou que o nosso ritmo era grande coisa. Estava mesmo sendo muito complicado fazer a faixa da música e ficamos naquilo durante horas. Até que ele disse ao Edge: “O que é que vamos fazer? Já são três da manhã e ainda não conseguimos acertar com a seção de ritmo!”
(Continua...)
Créditos: Joanne.
Bonolocks
14/05/2007, 19h38
(Continuação)
Páginas 93, (94 e 95 – fotos) e 96
LARRY: Ele me perguntou se eu não usava metrônomo, que é uma referência de tempo metronômica. E eu disse que nunca tinha usado um e que achava que não ia conseguir tocar dentro do ritmo se usasse aquilo. Eu estava tentando me sentir a vontade em um ambiente novo e tentava fazer as coisas como achava melhor. O Martin já devia estar perdendo a paciência comigo. A faixa não estava perfeitamente dentro do ritmo, mas servia. Ele ouviu a faixa vez após vez sem conta. No final da primeira sessão, eu já não suportava ouvir aquela música. Acho que ele devia estar fortemente medicado, pois, à medida que a sessão decorria, ele se tornava cada vez mais incoerente. Mas, apesar da sua condição, fez um bom trabalho.
PAUL: O Martin era de lua. Lembro de uma vez ele ter saído do banheiro do meu apartamento na Waterloo Road com um frasco de xarope para tosse e me dizer: “Essa cena é legal na Irlanda?” e bebeu tudo numa golada.
EDGE: Assim que terminamos a faixafoi um alivio. Foi tão duro, que acho que o Martin estava preparado para gravar a parte vocal e fazer a mixagem. Mas eu achei que podíamos fazer mais e disse: “Que tal fazer um overdubs?(gravação adicionada a algo já gravado)” Ele olhou para mim como se eu fosse de outro planeta e disse: “De que?” Eu respondi: “Pode ser de outra guitarra?” E ele disse: “Força com isso.” – se bem me lembro, sem muita convicção. Quando entrei na sala de gravação, não fazia idéia o que eu ia fazer. O engenheiro de som colocou a fita cassete e eu comecei a tocar. Comecei em uma parte melodiosa e fui até o refrão. De repente, o Martin ficou todo entusiasmado e disse: “Caramba! Vai ser um sucesso! Adorei!”
Sei que ele já era produtor há muito tempo, mas acho que foi a primeira vez que fez overdubs de guitarra. A mixagem ainda demorou algum tempo, pois ele tinha seu próprio tambor de som, um processador de efeitos chamado “modulador de tempo”. Lembro que no final ele teve cuidado em desligar tudo, para que o nosso engenheiro de som não visse o que ele tinha feito.
BONO: No final, o disco parecia ter mais a ver com ele do que com a gente, mas acho que é excelente e melhor por causa disso.
PAUL: A ’11 O’Clock Tick Tock’ chamou atenção, mas não foi nem de perto um sucesso. No entanto já era hábito sermos pessimistas. Assim, se alguma coisa não desse certo, não íamos nos sentir derrotados. Compramos uma van. Tinha uma divisória na parte de trás, que era muito espaçosa, e mandei colocar um banco. Não era muito confortável, mas, pelo menos, era uma van. Dava para transportar muitos equipamentos lá atrás e para levar os quatro membros da banda e mais uma ou duas pessoas na frente. Provavelmente, o lugar mais confortável era o chão. Percorremos a Inglaterra e Irlanda nessa van e tivemos momentos bastante atribulados durante uma das viagens. Era de noite e o motorista, que já não lembro quem era, devia estar muito cansado.
BONO: Tínhamos finalmente uma van! Vivíamos nela. Lembro muito bem dela. Tinha um estofado castanho, que eu passava várias horas olhando. Em vez de ficarmos em Manchester, Birmingham ou Liverpool depois dos shows, fazíamos a viagem de volta e guardávamos o dinheiro que iria ser gasto com hotéis para ir, uma vez por semana, comer em um bom restaurante. Tudo isso foi induzido pelo Paul McGuinness. Podíamos ter um pouco de dinheiro, mas ele preferia dormir na van para depois poder desfrutar de uma boa garrafa de vinho. Acabamos entendendo mais de vinhos do que de guitarras. Mas ali estava eu, num espaço confinado com aqueles homens, era como estar em minha casa em Cedarwood Road! Mas dessa vez eu tinha que fazer essa família dar certo. Sentados na van, ficamos conhecendo a vida uns dos outros. Eram horas e dias ouvindo músicas e dormindo no chão, sim porque eu conseguia dormir em qualquer lugar. Consigo dormir de pé, na rua, no frio...Eu dormia no chão mesmo por cima do lugar do eixo. Conseguia sentir o eixo rodando e sentia o calor do motor. Era um sono atribulado, pois a pessoa fica meio acordada, meio dormindo, durante toda a viagem desde Manchester até em casa. A cabeça ficava cheia de músicas e a voz rouca de tanto cantar. Entretanto acordávamos em Londres.
EDGE: Em vez de ficarmos em um hotel, que seria extremamente caro, o Paul arrumou uma casa para alugarmos, que, mesmo ao estilo Mcguinness, não era nenhum lugar reles em Clapham, mas era mesmo em frente ao Hyde Park, junto da casa do Jeremy Thorpe, antigo líder do partido liberal. Acho que só tinha três quartos e nós ficamos todos abarrotados no mesmo. Parecia ser característico na gestão do McGuinness que não tivéssemos dinheiro, mas sempre encontrávamos bons restaurantes para comer. Era adepto dos pensamentos de Oscar Wilde: posso passar sem coisas indispensáveis, mas não interfiram nos meus luxos.
PAUL: De certa forma isso é verdade, pois durante algum tempo, decidimos que não gastaríamos muito dinheiro em hotéis, preferíamos ir a bons restaurantes. O nosso agente Ian Flooks era uma espécie de bom viveur e seguramente encorajou essa prática. O nosso primeiro agente, Ian Wilson nos deixou para dirigir outra banda e eu comecei a trabalhar de perto com o patrão dele, o Ian Flooks. Ele tinha uma agência excelente chamada Wasted Talent e trabalhava com o Police, Pretenders, Clash, Talking Heads e todas as grandes bandas do momento. O Ian era muito inteligente e acho que conseguiu prever o sucesso do U2.
Começamos então a ter um contato mais próximo. Planejamos turnês em todos os detalhes, discutíamos como seriam os shows, os espaços, para quantas pessoas íamos apresentar. Tínhamos uma política de shows bastante conservadora. Queríamos ter a casa cheia, por isso, apresentávamos em lugares que fossem pequenos para a banda e não agendaríamos um segundo dia se achássemos que iria ter metade da audiência. Foi algo que fizemos sistematicamente ao longo dos anos. Queria sair de cada show sabendo que muita gente não tinha conseguido assistir, pois estava esgotado.
LARRY: Começamos lentamente a conquistar o nosso público e nos apresentamos em diversas escolas técnicas e universidades pelo Reino Unido. O dinheiro estava sempre curto, mas ainda conseguimos juntar algum para comprar um bom PA e uma mesa de som. Assim ficava tudo mais simples nas apresentações, mas não garantia que a banda estivesse em forma todas as noites.
Percorremos o Reino Unido de uma ponta a outra, ocasionalmente fazendo paradas em estações de serviço para comer alguma coisa e satisfazer a nossa crescente paixão pelo Space Invaders. Passamos as noites em hotéis que iam desde o mais sublime até ao mais barato. A gota d’água foi quando dormi em uns lençóis de nylon cheios de buracos. Estava na hora de comprar um saco de dormir. Se este era o encantador estilo de vida do Rock’n’roll que me haviam prometido, então quero o meu dinheiro de volta. Às vezes, chegávamos ao palco completamente quebrados. Para mim o fato de andar sempre em viagens de um lado para o outro e a convivência o dia todo era a pior parte. Eu gostava das apresentações, mas tinha muito tempo livre. Naquela época, eu não ligava muito para bebida. Vendo agora as coisas, bem que me faz falta. Mas o Adam sim, esse se divertia muito. Só fazia loucuras, como fugir pela janela do hotel no meio da noite pendurado numa corda de lençóis. Ele adorava fazer isso.
ADAM: A diversão é algo muito relativo. Se terminávamos um show às 23hrs, ainda tinha tempo para ir a qualquer lugar. Sim, confesso que na maioria das vezes, ia para bares e clubes, achava muito divertido. É o que as pessoas daquela idade fazem – além disso, naqueles dias o hotel não era grande coisa para querermos voltar logo para lá.
Lembro que era uma época de muita competitividade – “Quem esta fazendo o que? Onde? E são bons?”. A nossa finalidade era definir a posição que ocuparíamos e fazer de tudo para melhorar. Não era assumir uma postura de laissez faire e ficar esperando para ver o que acontece no dia seguinte. O objetivo era: “Temos que ir naquele programa de televisão. Temos que conseguir a capa daquela revista. Temos que continuar avançando, sempre com a mesma energia.”
PAUL: O Martin Hannet teria produzido o álbum do U2, mas estava fazendo a mixagem dos sons ao vivo para Joy Division na América. Então o Ian Curtis se suicidou e a turnê nunca chegou a se realizar.
EDGE: O Martin cancelou tudo no último minuto. Estava completamente cansadoe, naquele momento, não estava com muita vontade de fazer a gravação do U2. O nome Steve Lillywhite veio à cabeça. Tinha produzido do Siouxie and The Banshees, o XTC e outros grupos excelentes que admirávamos. Tivemos a oportunidade de testar a nossa relação com o Steve no nosso segundo single, que foi ‘A Day Without Me’.
ADAM: O Martin era muito descontraído e era uma pessoa da noite. O Steve era muito mais inteligente, prudente, e fazia com que as coisas avançassem. Ele nos dava força, fazia nos sentirmos bem com a gente mesmo. Quando fazia a mixagem de um disco era sempre da melhor forma tirando o melhor partido do que estava lá. O Martin tentava abafar ao máximo o som da banda, enquanto o Steve quase que arrebentava com as colunas. ‘A Day Without Me’ não foi um sucesso, mas exibiu o uso do eco, dando ao Bono mais garra para cantar.
BONO: O Steve foi uma rajada de ar fresco. Era quase como um apresentador de televisão para crianças: “Vamos lá, peguem uma caixa de cereais e uma garrafa de suco vazia e cortem a tampa. Se as colarem fica como um telefone!”
Ele era esse lado da Inglaterra, positivo e prático: “Muito bem, vamos arrumar uma forma de conseguir. Larry, Adam, vocês não estão no tempo certo. Ok! Vamos lá, tenho algumas idéias!” E, claro, o Larry ficava ali sentado com ar carrancudo enquanto ele tentava ajudá-lo. Mas o Adam foi diferente. O Adam é nosso espelho. Se ele se engana, nos enganamos todos. Se não se enganar, tudo vai bem. É assim fazer parte do U2 – é ele que regula a marcha. E se tornou um bom amigo do Steve.
(Continua...)
Créditos: Juliana Oliveira (JulianaSP).
Bonolocks
14/05/2007, 19h42
(Continuação)
Páginas (97 e 98 – fotos), 99, 100 e 101
ADAM: Havia em certo nível de entusiasmo, o Steve parecia ser o homem certo. Não sabíamos se tínhamos o que era preciso para fazer um álbum, que mais tarde foi gravado no Windmill Studios. Acho que nenhum de nós queria ir para Londres. Isso teria sido precipitado. Ainda éramos muito novos, vivíamos com os nossos pais e não tínhamos muito dinheiro. Quando assinamos o nosso contrato com a gravadora, estávamos tirando cerca de 25 libras (cerca de 31 euros) cada um por semana. Não dava para muitas viagens de táxi, tínhamos que continuar andando de ônibus. O Windmill Lane Studios era o melhor estúdio de Dublin e os donos eram conhecidos do Paul, por isso, ele nos conseguiu um bom contrato.
BONO: O Steve tinha vindo direto de uma sessão com o Peter Gabriel, por isso, estava em uma fase experimental quando veio trabalhar com a gente.
Foi bastante divertido gravar o álbum, porque experimentamos de tudo. Viramos uma bicicleta ao contrário e usamos as rodas para percussão e tocamos nelas com garfos. Partimos garrafas para efeitos sonoros, tocamos xilofone. Foi uma aproximação criativa daquilo que é gravar o disco de uma banda de rock. O mérito é todo do Steve. O Adam e o Steve ficavam acordados fazendo experiências e depois as colocavam em prática com a gente no dia seguinte. As faixas das músicas estavam fantásticas – gravamos a bateria no fundo da escadaria e espalhamos microfones pelos quatro andares até o teto. Enquanto eles faziam a parte da bateria, eu me deitava no sofá. Gostava de ficar ali ouvindo. Por mim, teria feito o álbum só com bateria.
EDGE: O Steve sabia como nos fazer dar o nosso melhor. Não havia aborrecimentos e as sessões eram sempre bastante positivas. Penso que foi especialmente bom para o Adam e para o Larry termos trabalhado com alguém que conseguia perceber que nós não éramos músicos incríveis. Fazíamos o que sabíamos.
LARRY: O Steve foi como o Dr. Feelgood, um estímulo para as tropas. No entanto, acho que nunca pensou que eu estivesse à altura, por isso, nunca me aproximei tanto dele como os outros. O Steve estava acostumado a trabalhar com bateristas excelentes, músicos profissionais. Eu tinha 18 anos quando gravamos Boy e não tinha muita confiança na minha forma de tocar. O meu desempenho era dificultado pela minha inexperiência e pela minha incapacidade de descontração. Eu tinha boas idéias, só não era capaz de tocar como os outros faziam. Eu estava sempre muito concentrado e consciencioso, mas não sabia se era boa idéia usar coisas como um metrônomo. A idéia de gravar a parte da bateria nas escadas foi do Steve. No início foi estranho. Estávamos acostumados fazer as gravações todos juntos, e sem mais nem menos, estou eu sozinho nas escadarias. E depois vieram os overdubs. Eu perguntei: “Mas que raio é isso?” E o Steve pacientemente explicava: “É quando toca por cima de uma coisa já gravada.” Eu não fazia idéia de como é que aquelas coisas funcionavam, estava em outro mundo. Mas o Steve era um excelente produtor, tinha os seus truques e sabia como usá-los. O som estrondoso da bateria foi obra dele.
EDGE: Não tínhamos muito tempo, por isso, gravamos o mais depressa possível todas as músicas que tínhamos composto. Ainda tínhamos algumas horas para fazer overdubs em todas as músicas e depois avançávamos para outra coisa. O Bono estava terminando algumas letras enquanto arrumávamos as guitarras e o instrumento de percussão.
Passou tudo muito rápido, pois teve mesmo que ser assim.
BONO: Eu acho que eu realmente não gostava de escrever letras. Eu não escutava canções pelas letras delas, particularmente. Eu estava interessado em idéias e eu não pude me concentrar nos detalhes. Isso era sempre aborrecedor para as pessoas, porque elas sempre diziam: 'Por que a letra mudou de ontem? E por que você não pode gravar isto? Porque você quer mudar isto novamente!'. Ser conceitualmente tão bom e tão pobre em termos de finalização, eu nunca irei entender.
EDGE: Quando nós estávamos trabalhando, vendo como o álbum estava caminhando, ocasionalmente nós perguntávamos ao Bono como as letras estavam indo e ele dizia: "Sem problemas, basicamente eu as terminei, você sabe.". Mas era o minuto final, como de costume com o Bono - só resolve as coisas quando tem certeza de que está pronto, então demorava demais para começarmos a gravação.
Mas aquele foi um período quando muitas das letras estavam fugindo completamente do sentido, letras que eram tão pretensiosas com pouca experiência real para transmitir. Então eu não teria interesse, ao menos que elas soassem bem, que estivessem boas. Bono obviamente queria que elas estivessem boas ainda mais que ele cantava essas músicas inacabadas há um bom tempo, ele sentava e lia para clarear o que ele estava tentando transmitir.
Algumas delas foram aprovadas, outras não. Mas foi o começo, eu acho, do compositor que ele é agora. Foi a primeira incursão dele. Eu acho que as letras escritas influenciaram na escolha do título, Boy. Foi escolha do Bono, sem oferecer uma explicação. Boy tinha força e pureza.
BONO: Eu e o Guggi, quando garotos, fizemos uma promessa de que nunca iríamos crescer. Não queríamos ser como os adultos, o que é algo bastante comum na infância. Mas nós estávamos falando sério e, de certa forma, conseguimos cumprir a promessa.
Muitas vezes conseguimos ser muito fortes para fazer coisas que nunca imaginávamos ser capazes. Na época, eu devia pensar que podíamos perder algumas coisas das nossas qualidades e o primeiro álbum era uma forma de reivindicar o poder dessa ingenuidade.
Sabia exatamente como deveria ser a capa, a cara de uma criança num fundo branco, como fotografia antes de estar completamente revelada, o que é uma excelente metáfora. Achei que este era um assunto que nunca tinha sido explorado por ninguém ligado ao rock - o fim da angústia de adolescente, o caráter elusivo de se ser um homem, a sexualidade, a espiritualidade, a amizade. Esse álbum teve enorme aceitação por parte do público homossexual. Na época, não me dei conta, mas agora olho para trás e vejo que está repleto de erotismo homossexual: In the shadows, boy meets man....(na sombra o rapaz encontra o homem). Tentei apenas uma aproximação temática e uma visão do momento do nosso desenvolvimento, voltando à metáfora da fotografia. É o U2 em desenvolvimento.
EDGE: Quando surgiu ‘I Will Follow’, reconheci que tínhamos produzido algo especial.
BONO: ‘I Will Follow’ surgiu após uma discussão na sala de ensaios. Lembro de tentar reproduzir o que tinha ouvido na minha cabeça. Peguei a guitarra do Edge e comecei a tocar. O som estava, literalmente, surgindo de um estado de fúria, o som de um prego sendo cravado no lóbulo frontal.
É uma música sobre o amor incondicional, como o que uma mãe sente por um filho. Se me abandonar, irei atrás de você. Faço o que fizer, não pode se separar do meu amor. Dando eco as Sagradas Escrituras: “Nem o tempo, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus”. É algo incrível, mas provoca uma sensação de arrepio. Canto do ponto de vista materno. Eu sei que é maluquice, mas já o fiz muitas vezes. Faço-o muitas vezes. Mas, se nos abstivermos disso por um momento, e pensarmos que é uma música sobre a minha mãe, então passa ser uma nota de suicídio – ‘If you leave me, I’m coming after you’ ( se você me deixar, estou indo depois de você). Fico espantado ao lembrar disso. O que é que andamos tomando? Nada!
Muitas das músicas faziam parte do repertório que íamos criando ao longo dos anos e são tocadas de forma bastante segura. A seqüência que mais gosto é de An Cat Dubh, o gato preto para Into the Heart. É espantoso. A violência do som da guitarra do Edge, a imagem de tentação, um gato dormindo junto com um pássaro morto nos subúrbios de Dublin, depois brinca com ele, como eles fazem: o gato segue o pássaro, mata-o e depois o abandona. Conseguimos de certo modo perceber o lado sexual da situação, o desejo e a inocência, e a forma de isso mexer conosco. E o harmonioso som lírico da guitarra, o Edge quebra todas as regras do punk rock tocando um tema de guitarra, quase um solo, que durou uma eternidade. É fantástico.
E, depois, a cômica megalomania de ‘The Ocean’. I felt the world could go far
If they listened to what I said (Eu senti que o mundo podia se distanciar,
se eles ouvissem o que eu disse). O futuro está traçado nesse álbum. Tem composições muito bonitas, mais musicalmente do que propriamente em relação ao aspecto lírico. Está cheio de melodias semelhantes e tristes. Acho que é um dos melhores primeiros albúns de todos os tempos.
LARRY: O albúm Boy foi gravado em um mês. Foi o único álbum a ser gravado tão depressa.
BONO: Eu adorava apresentar no norte da Inglaterra. Adorava estar em Manchester, Liverpool, Newcastle, na Escócia. As pessoas começavam a nos seguir para todo o lado. Tínhamos um repertório um pouco curto, por isso, repetiamos algumas músicas. Começávamos e terminávamos os shows com 11 O’Clock Tick Tock e I Will Follow. Eu não costumava falar muito. Só comecei a falar mais, porque eles estavam sempre afinando os intrumentos, agora já temos alguém para afinar por nós.
EDGE: Fiquei viciado no Space Invaders. Parávamos em um posto de serviços na estrada para comer alguma coisa, ficávamos dez minutos comendo um sanduiche e, depois, passávamos o resto do tempo jogando o Space Invaders. Éramos crianças e tínhamos sofrido a severidade do fim do conforto das casas no Reino Unido. Nos instalamos em um lugar em Leeds no meio da noite e, com os olhos meios turvos, reparei que o jardim estava todo florido, em pleno inverno. Achei que era bem estranho, mas só pela manhã reparei que eram plantas artificiais.
PAUL: Não estávamos propriamente abonados, mas tínhamos algum dinheiro e estávamos trabalhando com uma equipe de estrada profissional.Pelo menos, podíamos tomar decisões sobre se deveríamos ou não comprar uma guitarra. Tínhamos uma boa relação com o pessoal da Island. O Rob Partridge e o Neil Storey, os acessores de imprensa, costumavam ir em vários shows nossos, e nos ajudaram desde cedo a conseguir apoio por parte de jornais de música de Londres. Decidimos tentar conquistar Londres apresentando durante quatro segundas-feiras seguidas, por isso, foi fácil arranjar lugar.
BONO: As segundas à noite no Marquee Club eram o máximo. Aquele era o chão que o The Who tinha pisado antes de nós. Estávamos finalmente conquistando um público: nos apresentamos em quatro segundas-ferias à noite: na primeira noite, o lugar estava meio cheio, na segunda noite, estava cheio, na terceira, o público fazia fila no quarteirão, e na quarta a rua estava congestionada. Nos saímos muito bem.
PAUL: Foi uma forma de conquistar o público, mas de uma maneira visível, para que as pessoas percebessem que faziam parte de algo que estava crescendo. Foi a mesma coisa que fizemos no Dandelion, porque achei óbvio que se alguém aparecesse em um show onde estão 50 pessoas e uma semana depois aparecesse em um que só tivessem 25, essa pessoa iria ficar desiludida. E, certamente, nunca mais voltaria.
O público gosta de se sentir apoiado quando faz determinada escolha em relação à uma banda, quer ter a comprovação de outras pessoas.
Existe uma mentalidade que é essencial na conquista de partidos. As pessoas começam perceber que esta acontecendo alguma coisa. E nós dávamos algo apresentando ao vivo e não apenas tendo discos que eram um sucesso.
(Continua...)
Créditos: Juliana Oliveira (JulianaSP) e colaboração de Suelen (Su Scout) e Thais (Violet U2).
Bonolocks
14/05/2007, 19h44
(Continuação...)
Páginas 102, (103 e 104 – fotos) e 105
EDGE: Fomos para a Europa pela primeira vez durante essa turnê. Fizemos uma apresentação no Milkway, Amsterdam em outubro de 1980. Foi um show fabuloso. Foi uma sensação ótima descobrir que a barreira da língua, afinal, não era barreira nenhuma e percebemos que a música fazia tudo aquilo que nós imaginávamos que faria. Ultrapassava fronteiras e estabelecia uma ligação de uma forma que transcendia qualquer diferença cultural ou lingüística. Houve alguns lugares que a loucura foi total pela banda nas primeiras vezes. Com exceção da Irlanda e Reino Unido, a Holanda foi o primeiro país onde tivemos um sucesso inacreditável.
PAUL: A idéia de fazer uma turnê preliminar na América surgiu mesmo antes do álbum ter saído, só para todos irem pensando na América e viver isso antes de ter qualquer pressão. Durante a gravação de Boy fui à Nova York pela primeira vez para encontrar com Frank Barsalona. O maior e mais importante agente na América nos anos 70. Foi uma aventura um tanto esperançosa da minha parte. No entanto, meu pai morreu repentinamente, no dia após a minha chegada. Por isso, tive que dar meia volta e voltar à Dublin sem completar a minha missão. A perda de um pai é sem duvida algo comovedor e que transforma com completo a vida de uma pessoa. Todos da banda estiveram presentes no funeral e eu fiquei muito agradecido pelo apoio deles. O Bono e o Larry já tinham passado por uma situação de perda idêntica. A mortalidade parece ser um dos elementos que sustenta o U2 e talvez tenha ajudado a cimentar a relação entre todos. Algumas semanas depois, quando voltei para Nova York, o Frank Barsalona não teve outra opção senão me encontrar, devido às circunstâncias trágicas que cancelaram o nosso último encontro. Na verdade, nos tornamos bons amigos e a relação profissional com ele e com a Bárbara Skydel, o seu braço direito, foi a base da erupção do U2 na América como banda ao vivo. O mesmo se aplica ao nosso agente, Ian Flooks, no resto do mundo.
ADAM: O Frank Barsalona era um caso exemplar. Nos contava histórias sobre os Beatles, The Who e o Led Zeppelin, pois já tinha sido agente deles. Nós achávamos que ele era o grande conhecedor da América.
PAUL: Nos anos 60, ele tinha sido agente dos Beatles na GAC (General Artists Corporation) e mais tarde, formou a sua própria agência, a Premier Talent. Foi o agente da invasão britânica e lançou todas as grandes bandas de rock. Estabeleceu uma rede de promotores por toda a América: Bill Graham em São Francisco, Don Law em Boston, Barry Fey em Denver, Michael Cohl em Toronto, Arnie Granat e Jerry Michaelson em Chicago. Essa rede de promotores teria que arrumar shows para as bandas do Frank.
O Frank ligava e dizia: “Tenho uma nova banda chamada U2. Quero que você Don, arrume um show para eles no Paradise” – que era um lugar pequeno, um clube em Boston - e os promotores acompanhavam a banda à medida que ela ia alcançando diferentes níveis de capacidade. E foi exatamente isso que fizemos desde 1980 até a turnê Zoo Tv, nos anos 90. E tudo começou com uma pequena turnê pelo nordeste em uma van.
BONO: O Paul enchia nossas cabeças com a América. Ele já tinha percebido que as bandas de rock, no seu sentido comum – Os Beatles, os Stones e The Who já tinham passado de moda na Europa, mas continuavam sendo adoradas na América.
Nós não criamos singles virados para o pop e o Paul acreditava que haveria maior probabilidade de passarem a nossa música na rádio da universidade nos Estados Unidos do que na rádio 1 do Reino Unido. Daí enviou algumas cópias do nosso álbum para estações de rádio universitárias americanas e eles gostaram do trabalho. Foi graças a isso que nos apresentamos na América.
EDGE: Os irlandeses estão na orla da Europa e há uma ligação sentimental muito forte com a América por ter servido de abrigo às inúmeras ondas de imigração saídas da Irlanda. Era como a terra prometida. Por isso, indo lá era uma forma de explorar esse lugar mítico. Mas é também a cultura dominante da comunicação social mundial, com todos os programas de televisão, filmes e música, e a minha primeira impressão foi de que é tudo exatamente como vemos na televisão. Cheguei a suspeitar que a América dos programas e filmes era uma espécie de exagero. Mas, ao andar pelas ruas, é como se estivéssemos andando por entre inúmeros programas de televisão. Esta tudo lá. Fiquei fascinado com os diferentes sotaques, com a arquitetura e até mesmo com coisas banais como o café.
BONO: Escrevi uma música sobre isso: ‘Angel Of Harlem’. Aterrissamos no aeroporto JFK e foram nos buscar de limusine. Nunca tínhamos entrado em uma e com o ruído ainda do punk rock presente nos nossos ouvidos, sentíamos uma espécie de satisfação comprometida ao chegar. E íamos sempre com um sorriso nos lábios, por achar tudo aquilo tão divertido. Atravessamos a ponte Triborough e observamos o perfil de Manhattan. O motorista da limusine era negro e tinha sintonizado a WBLS, uma estação de negros. Estava tocando uma música do Billie Holiday.
E ali estava ela, a cidade das luzes ofuscantes e corações de néon. No céu passavam propagandas de bandas como nós, tal como em Londres no ano anterior. E estava nevando. Paramos na porta do Gramercy Park Hotel e entramos todos.
EDGE: Saímos da limusine e fomos para a entrada. Eu olhei pela janela e vi as duas guitarras, nos estojos, ali no lugar onde tínhamos deixado, e vi dois caras atravessando a rua prestes a pegarem elas. Saí correndo e cheguei lá primeiro. Mas estivemos muito perto de ter nosso nome ridicularizado: “Grupo de garotos de Dublin chegam a Nova York e suas guitarras são roubadas.” Teria sido deprimente.
BONO: Não consegui me fartar de Nova York. Não queria entrar no hotel, porque ia deixar de ver a cidade, por isso, caminhei até a esquina e continuei olhando ao meu redor. O meu casaco preto de imitação de pele estava ficando branco de tanta neve, entretanto, parou um carro ao meu lado e o homem que estava dentro se ofereceu para fazer sexo comigo. Fui correndo para o hotel e contei para os outros o que tinha acontecido. Eles olharam para mim como quem diz: “estava esperando que? anda por aí com um casaco de pele, seu boiola!”
Nova York, não consigo esquecê-la. Sempre que vou lá, respiro bem fundo. Ninguém fala com um volume normal. Os taxistas, as pessoas nos restaurantes, todos falam 20 por cento mais alto do que o restante das pessoas do mundo. Têm uma energia incomparável.
LARRY: Nunca tinha me sentido tão desorientado por estar em um lugar diferente. Estava completamente desnorteado. Quer dizer, ir para Londres foi estranho, mas Nova York foi diferente, me senti dominado. Eram muitas coisas para absorver ao mesmo tempo. Gostaria de ter me divertido mais quando estive lá pela primeira vez.
ADAM: Eu já tinha estado em Nova York com a minha família. Andei no ferry-boat de Staten Island e aprendi tudo o que há para se aprender sobre chocolate quente com chantili, panquecas e essas coisas que experimentamos quando vamos pela primeira vez – a televisão americana, a eletricidade estática dos tapetes – sentia que já conhecia a América.
BONO: Michael Deeny, que tinha sido agente do Horslips e que ensinou ao Paul tudo o que ele sabia, encontrou com a gente em Nova York e tentou nos colocar em um bar onde Basquiat e todos os grandes artistas americanos da época costumavam ir com todos os grandes músicos. Acho que chamava Mud Club. O Michael era um caótico do norte da Irlanda. Tinha se formado em Oxford, tinha um sotaque distinto e era gago. Estava vestido com um bonito casco de casimira e estava batendo na porta de um edifício em Nova York – o bar era no segundo andar – e dizia: “Já tratei de...de tudo. Não se...preocupem, vão poder entrar.” Claro que ninguém nos deixou entrar. Devem ter olhado para nós pela fechadura. Não éramos suficientemente maneiros. E o Michael disse: “Houve um mal....mal....entendido. Fiquem aqui, v....venho já.” E foi embora. Ficamos lá fora na porta durante 20 minutos, sem saber aonde ele tinha ido. Até que ouvimos barulho de alguém caindo pelas escadas lá dentro. Uma porta enorme se abriu e o Michael Deeny, todo despenteado e sangrando pelo nariz, estava tentando afastar os seguranças e gritando: “Já lhes mostrei como é!” Ele tinha subido pelas escadas de incêndio, pela parte de trás do edifício, entrou pela cozinha e ia descer atrás dos seguranças para tentar nos colocar lá dentro.
Esse foi o homem que se acorrentou ao pneu de um ônibus da equipe de rugby da África do sul durante o apartheid. E claro, todos aqueles jogadores sul-africanos brancos lhe deram uma lição quando o ônibus começou a descer até Piccadilly aos solavancos – era mesmo uma pessoa extraordinária. Acho que o fato do Paul ser muito otimista e ter uma força descarada de lidar com o pessoal ligado ao rock ‘n’ roll deve muito ao Michael. Do gênero: “Importa de não falar comigo durante o solo do Edge, faz favor?” Esse tipo de coisa. Boas maneiras, mas mais perigosos do que um tiro na cabeça.
LARRY: A nossa primeira atuação na América foi no centro de Nova York em um lugar chamado Ritz. Infelizmente, a apresentação não foi particularmente boa. Estávamos todos muito nervosos e não estávamos com a vibração certa. O Bono ficava sempre muito ansioso antes de um grande show e essa ansiedade era contagiosa.
EDGE: Demos alguns shows na costa leste. Fazíamos o de sempre: de um lado para o outro nas auto-estradas da América, numa van pequena com duas filas de bancos e o motor traseiro, pernoitando nos hotéis mais baratos que encontrássemos. O engenheiro de som ia dirigindo, o das luzes ia sentado ao lado dele e os membros da banda iam atrás. Era simples.
ADAM: Nós podíamos apenas dirigir e dirigir e digirir. Era no meio do inverno, não havia muita coisa acontecendo, mas nós ainda éramos jovens o suficiente para ficar horas e horas sentados no banco de um carro ou de uma van, olhando pra fora da janela, parando em paradas de caminhões e se divertindo experimentando botas de cowboys. Tudo era construindo em grande escala, era como se nós estivessemos digirindo em um filme. Eu gosto dos americanos desde o começo. Eles podiam ser barulhentos e ousados mas eram essencialmente pessoas muito amigáveis. Uma coisa que me marcou é que no momento em que você falava que era músico, as pessoas ficavam muito interessadas em você, o que certamente não era o caso na Ingleterra ou na Europa. Você é mais aceito na América.
EDGE: O nosso show em Boston foi uma verdadeira surpresa para todos, pois fizemos a abertura de uma banda chamada Barroga Bandit num clube pequeno abarrotado de gente e reparamos que estávamos tendo uma reação bastante positiva por parte do público. Tocamos ‘I Will Follow’ três vezes, pois abrimos e fechamos o show com ela e ainda repetimos a pedidos da platéia. Saímos do palco e nos sentimos incríveis devido ao entusiasmo do público. Depois, fomos ver um pouco da apresentação da outra banda, mas não havia mais ninguém, todo mundo tinha ido embora. Foi aí que percebemos que as pessoas tinham ido lá somente para nos ver. Descobrimos que uma das estações de rádio local passava as músicas do nosso álbum e como resultado disso, já éramos uma banda conhecida em Boston. Foi outro momento de verdadeiro encorajamento.
LARRY: Havia um cara chamado Carter Allen de uma estação de rádio rock de Boston, a WBCN e desde o início, ele apoiava o U2. Por isso, quando fomos a Boston, foi como uma espécie de retorno à casa. Foi muito importante para nós. Pode-se dizer que conquistamos Boston.
BONO: Todas as noites tinham que ser as melhores. Se não fossem, tinha que haver um motivo e nós tínhamos de descobrir qual era. Em palco, éramos tudo menos descontraídos. Era tudo bastante arrebatado, por vezes com o público e por vezes entre nós. Uma vez, fizemos uma apresentação num clube pequeno em New Haven e resolvi atirar o Kit do Larry para o público.
LARRY: Foi uma daquelas apresentações em que as coisas não estavam correndo muito bem. O Bono estava preparado para começar a música, mas eu estava tendo problemas com a bateria. Existem dois espigões na frente do kit que servem para prendê-lo no chão, mas, como a bateria estava em cima de um tapete, durante o show começou a escorregar. Quando o Edge começou a tocar 11 O’Clock Tick Tock’, eu estava tentando arrastar a bateria para perto de mim. E ainda nem sequer tinha as baquetas na mão.
BONO: Marquei o tempo para dar início a música e o Larry não começou a tocar. Marquei novamente e nada. Olhei para trás e aos meus olhos psicóticos, parecia que ele estava se escondendo atrás da bateria. Tirei a bateria da frente para que o público o visse e a atirei para a platéia. Foi uma confusão total no palco – acho que o Edge tentou me acertar.
LARRY: Ele começou correr atrás de mim em volta da bateria, queria me matar com o suporte do microfone. Eu fui correndo a todo gás para o camarim. O Edge se enfiou na confusão e ainda levou um tapa ao tentar me proteger.
EDGE: Eu estava pendurado nas costas do Bono tentando impedi-lo de acertar o Larry e ele acabou acertando em mim. Então, eu acabei em uma briga com o Bono.
BONO: O Edge me acertou em cheio. Foi uma verdadeira briga com todos os membros da banda. Eles me batendo e eu batendo neles. Foi uma autentica pantomima, Laurel e Hardy. Mas o Edge sabe brigar. Aprendi uma lição nesse dia: Nunca devemos nos meter com um cara que ganha à vida através da coordenação visual-manual.
LARRY: Eu sempre tive consciência do perigo. De certa forma, até fiquei surpreso por não ter acontecido mais cedo. Com toda a tensão e agitação crescente que sentia, ele achava que eu não estava tocando só para provocar.
Mas eu expliquei o que aconteceu, e ele disse: “Ah, tudo bem.” O Bono conseguia ser imprevisível. Naquele tempo, estava sempre preparado para o estouro. Era um caçador e não tinha medo de nada. Nunca nos esquecíamos disso. Independentemente de quanto chateados pudéssemos estar com ele, a única forma de resolver a situação era fugindo.
BONO: Tal como tento explicar às pessoas, ninguém retira mais das músicas do que o próprio cantor. Tento sempre dar o meu melhor.
PAUL: Fizemos as primeiras apresentações na Alemanha, que na época era um país dividido, com Berlim isolado da parte ocidental. Para chegar a Berlim, era preciso atravessar o corredor, que era uma espécie de estrada vedada até a Alemanha oriental. Na noite seguinte íamos nos apresentar em Munique, por isso, fizemos a viagem durante a noite e fomos até a fronteira. Quando chegamos lá, eram só cães, armas, holofotes e gritos. Os membros da banda estavam em sacos de dormir na parte de trás e os guardas alemães pensaram que estávamos tentando ajudar pessoas a sair do país. Foi uma discussão horrível.
BONO: Os nossos sacos de dormir estavam molhados por causa da condensação. Como estava muito frio lá fora, a van estava úmido por dentro. Estávamos todos dormindo. Havia muito barulho e gritos: “Abra a porta da van! Abra a porta!” O Paul estava tentando explicar em inglês o que estava acontecendo e eles continuavam apontando as armas. “O que estão contrabandeando? Abra a van!” Depois de abrirem a porta, viram os membros de uma banda de rock dormindo. Os oficiais nos obrigaram a sair, coisa que não nos agradou. Lembro de ter olhado para eles e reparar que tinham a mesma idade que nós, mas tinham um cabelo mais curto – está tudo na música ‘Stranger In a Stranger Land’. É uma música sobre a nossa própria alienação. Éramos uma banda de rock, mas não vivíamos como uma banda de rock. Éramos como peixes fora d’água.
PAUL: Essa foi a turnê mais simples. Pouco depois, nos mudamos para um ônibus escolar ridículo. Não tinha beliches, só tinha mesas de piquenique. Às vezes eu ficava no meu carro. Tinha um Lancia que só dava problemas.
EDGE: O Lancia do Paul era de uma série especial característica por estar sempre dando problemas, e pifou na Periphérique que circunda Paris, numa explosão de vapor. O Paul tirou a tampa do radiador antes de ferver, o que provocou uma explosão de seis metros de altura. O Paul ficou nervoso e começou a dar pontapés no carro. Depois abriu a tampa da gasolina. De repente, reparamos que ele estava pegando um isqueiro e tivemos que ir nós quatro agarrá-lo, pois ele ia mesmo tentar por fogo no carro naquele momento. Tivemos que tiraá-lo dali e fomos tomar um café. Ele era membro da Associação do Automóvel, por isso, eles apareceram e rebocaram o carro até o ferryboat.
(Continua...)
Créditos: Juliana Oliveira (JulianaSP).
Bonolocks
14/05/2007, 19h48
(Continuação)
Páginas (106 a 108 – fotos), 109 e 110.
ADAM: Voltamos para a América por três meses, março, abril e maio de 1980. O Paul passou bastante tempo com o Frank Barsalona e o Chris Blackwell, para saber o que era necessário fazer entre as gravadoras, agentes e promotores, de forma a obter o maior impacto possível por todo o país. Na América, cada cidade possui um mercado diferente e vasto. É como estar em países diferentes. A rádio, a comunicação social, televisão e a imprensa, tudo isso é diferente. Existe um processo muito diferente daquele que é usado para conseguirmos que passem as nossas músicas nas rádios. É preciso ir lá e criar uma boa impressão para conseguir parcerias. É por isso, que a forma tradicional e eficaz de avançar na América é fazendo turnês. Demora apenas três ou quatro meses para percorrer todo o país. É só dirigir, dirigir, dirigir...Acho que a partir de determinado tempo na nossa vida já não é possível fazê-lo. Mas nós estávamos com 20 e poucos anos e estávamos preparados para ficar sentados em uma van durante horas seguidas, olhando pela janela. A nossa distração era nas paradas, andar na farra e comprar botas de cowboy – na época era simples assim. Na turnê Boy, alugamos um ônibus adequado e fizemos shows em clubes bastante decentes.
EDGE: A diferença entre a nossa afirmação e a de muitas bandas do Reino Unido, era que nós estávamos mesmo determinados a conquistar a América numa frente comercial e isso implicava com que o Paul fizesse os contratos necessários. Tínhamos de nos apressar para conseguir o dinheiro da gravadora para podermos avançar.
PAUL: A Warner Brothers Records era uma famosa organização californiana naquele tempo, que defendia os interesses do artista, e era através dela que os discos do U2 estavam sendo lançados na América. Havia lá um jovem gestor chamado Tim Devine, que foi o primeiro que apoiou de uma forma significativa e não poupou esforços para lançar o U2 na América. Bob Regehr era o diretor da Artist Development. Era um velho cowboy de Wyoming ou de outro lugar, mas o que todos sabem é que conseguiu um contrato no Prince com a Warners. Era através dele que se conseguia dinheiro para financiar as turnês. Acabei conhecendo ele e disse que queria pôr a banda na estrada durante três meses, queria percorrer a América e ir a todos os lados duas vezes.
Nas cidades mais importantes, fazíamos apresentações e depois de percorrermos os outros lugares, voltávamos lá para mais uma apresentação. E ele disse: “O acordo com a Island Records é só no próximo ano, há milhões de dólares de prejuízo, e você quer 150 mil dólares. Como é que vou arranjar? Como pode me pedir tanto dinheiro?” E eu disse: “Não sabia para quem mais pedir.” E ele nos deu o dinheiro. Outros aliados importantes na Warners eram George Gerrity, na propaganda de rádio; Carol Scott, do departamento de desenvolvimento do artista; e Donna Russo, da imprensa. O Mo Ostin era como um presidente de uma espécie de universidade de música. Costumávamos pensar na Warner Brothers como sendo a nossa Harvard. O Mo foi sempre generoso com a gente e nos ofereceu o empurrão inicial, da qual outras gravadoras acabaram nos beneficiando.
Nos primeiros anos, 81,82 e 83, fazíamos cerca de três meses de shows na América por ano e isso só passou a ser rentável a partir de 83 ou 84, e foi o Regehr que ofereceu esse dinheiro. Tristemente ele teve câncer e morreu, mas foi o primeiro executivo americano realmente empenhado e que tinha um orçamento adequado. Aprendemos muito com as pessoas da Warner Brothers.
Ellen Darst trabalhou para Bob Regehr no escritório da Artist Development e tinha experiência em promoção radiofônica e vendas. Tinha vasto conhecimento nessa área e era muito inteligente. Nessa época, durante a primeira turnê, me pediu trabalho. E eu disse: “Que condições eu tenho para te pagar?” E ela respondeu: “Não, ainda não tem condições para me contratar. Mas, quando tiver, gostaria que me contratassem.” Entretanto, ficou gerenciando os escritórios em Nova York, sendo responsável pela organização das atividades do U2 na América e de outros clientes até 1997.
BONO: Regressamos ao Ritz em Nova York e as coisas começaram a melhorar. Num dos balcões as mesas estavam todas ocupados por pessoas ligadas a indústria da música. Estavam sentados, enquanto os fãs estavam todos pulando. Interrompi o show e os obriguei a levantar. Mais tarde o Paul McGuinness me disse: “Você teve sorte deles fazerem o que você pediu. Senão, a conversa ia ser outra.”
LARRY: Tivemos uma relação bastante calorosa na América, mesmo quando os shows não eram excelentes. Senti uma verdadeira generosidade, não só por parte do público, mas também por parte do pessoal da área e de alguns jornalistas. Em todo lugar, éramos recebidos de forma bastante positiva.
BONO: Em Chicago havia mesas em frente ao palco e queríamos que as tirassem. Dissemos: “Nós não fazemos shows com mesas em frente ao palco.” Eles olharam para nós e responderam: “Não, nós não fazemos shows sem mesas em frente ao palco, entenderam?” E nós dissemos: “Entendemos.” Depois, durante o show, avancei por cima das mesas, e pulei de uma para a outra, como se fizessem parte do palco. Foi um momento grandioso.
LARRY: O Bono costumava dançar com garotas do público. Nos apresentamos diversas vezes em um lugar chamado J.B Scott, em Albany, New York. Em uma das vezes, ele escolheu uma moça e dançou com ela. No show seguinte, a mesma moça estava lá e resolveu levar a mãe, que insistiu para o Bono colocar um anel de noivado na mão da filha e fizesse dela uma mulher honrada.
BONO: Nos apresentamos em Portland, Oregon. Entraram duas garotas no camarim. Nunca tínhamos conhecido verdadeiras groupies* – só ouvíamos falar delas. Sentíamos um pouco tristes por não termos nenhuma, só para podermos conhecer de perto. Não estávamos interessados em relações sexuais, era tudo pura curiosidade. Estávamos lisonjeados pela atenção delas. Ficamos conversando com elas e queríamos olhar nos olhos e pedir para preencher alguns questionários. Quando elas foram embora, fiquei como um doido procurando uma pasta com as letras que tinha preparado para o segundo álbum, que iria ser gravado assim que voltássemos da turnê. Acho que também estavam 300 dólares junto com as letras, o nosso orgulho foi brutalmente ferido. Rapazes deixam se enganar por garotas! Isso foi verdade e é uma história que conto há muitos anos. Na verdade, nem tenho certeza de que elas fossem realmente fãs. Eu até posso ter perdido a pasta com as letras, coisas que não seria de se estranhar, e coloquei a culpa nelas. Vinte e cinco anos depois, duas moças honestas (devo deixar bem claro que não eram as mesmas do camarim) me devolveram o conteúdo da pasta em Portland sem sequer pedir recompensa. A dignidade está viva e de boa saúde em Portland. Detesto ter que admitir isso perante os meus tão pacientes colegas da banda, que tiveram que ouvir as minhas queixas por ter perdido o meu tesouro com as letras e me ver usar isso como desculpa por não ter terminado nenhuma das músicas, mas aquele caderno de rascunho tinha um pouco mais do que hieróglifos obscuros.
EDGE: O Bono tinha ficado sem a pasta onde tinha inúmeras estrofes e idéias que ia anotando. E pensei: “Isso é ruim!” Pois estávamos começando a trabalhar no álbum seguinte. Mas a verdade seja dita, nós também não tínhamos nenhuma música. Estávamos prestes a arrumar um grande problema, mas na época estava tudo correndo a nosso favor que nem se quer demos a devida importância. Como uma banda que de repente se vê em Nova York, Boston, Chicago e depois na costa ocidental, Los Angeles, São Francisco, isso era muita coisa para digerir. Era tudo um acontecimento surpreendente e uma verdadeira emoção para quatro rapazes de Dublin.
LARRY: A costa oriental tem um quê de europeu. Há uma ligação irlandesa, o tempo não é muito diferente do tempo em casa, por isso, é bastante fácil uma pessoa se adaptar. A costa ocidental parecia um mundo à parte. Era extremamente quente e as pessoas que conhecemos ligadas a indústria da música pareciam diferentes. Todos andavam bronzeados e provavelmente pouco saudáveis. Falam muito de piscinas e garotas.
BONO: Lembro de uma grande tempestade na Flórida e de ter pensado: “Aqui tudo tem uma dimensão maior. O céu é maior, o tempo é mais selvagem.” Tiramos alguns dias de férias e fomos para a praia. E ficamos lá sem bronzeado e sem prancha de surf.
LARRY: Comecei a reparar que havia cada vez mais moças bonitas por perto. Drogas sendo consumidas em público, linhas de cocaína nos espelhos dos nossos camarins. Eu nunca tinha experimentado drogas e, ver pelas pessoas que me ofereciam, era algo que se passava bem sem experimentar.
Quanto às garotas, não parecia certo que nosso pessoal tirasse vantagem das fãs do U2. De fato, muitas delas eram groupies e não necessariamente fãs do U2 de maneira nenhuma. O objetivo de sair com elas era tirar vantagem disso.
De qualquer forma, sentia que eram as nossas groupies e aqueles selvagens não deviam se meter com elas. Como banda, tínhamos uma política que nos permitia despedir qualquer membro da equipe que oferecesse “passes” em troca de favores sexuais. Uma regra talvez pouco rígida, mas a vida do U2 é assim.
ADAM: Não acho, de forma alguma, que tenham sido momentos insensatos e loucos. É obvio que havia uma certa fadiga de estar sempre dormindo num ônibus, e estar sempre viajando, dando shows e lidando com a imprensa em todos os lugares. Acordávamos cedo e estávamos sempre em movimento. Algumas vezes ficávamos até altas horas da noite e convivíamos com pessoas que pensávamos serem groupies, provavelmente fumando uma erva qualquer e bebendo vinho. De vez em quando, íamos para umas festas esquisitas. Eu costumava andar muito com o Paul. Ele arranjava sempre alguma coisa para fazer depois dos shows. Creio que nessa época os membros da banda começaram a ter reuniões para preces em comum no ônibus ou nos camarins. Eu e o Paul costumávamos ir à frente, geralmente com as músicas nas alturas, com pessoal usando drogas e bebendo umas cervejas. O Bono, Edge, Larry e o Pod, que tinha sido baterista do Virgin Prunes, mas que agora fazia parte da nossa equipe de estrada, ficavam na parte de trás do ônibus. Não sei ao certo o que eles faziam lá, pois não costumava ir lá atrás muitas vezes.
EDGE: Adam provavelmente sentia um pouco como se os outros três tivessem perdido isto. De repente, de estar em uma banda de rock, ele está com um grupo de rapazes que têm religião e estão levando Bíblias nas suas bagagens e ocasionalmente se reúnem para rezar. Deve ter sido na verdade muito aflitivo para ele. Paul provavelmente estava um pouco confuso também. Mas não havia tensão, só um pouco de decepção. Não é certamente o que você teria esperado quando você pensava em uma banda de rock durante aquele tempo. Nós éramos, eu suponho, únicos.
LARRY: As reuniões para rezar eram um porto seguro, servia para nos aproximar durante os altos e baixos da turnê. Sem contar com o Adam, esse estava sempre se divertindo em um lugar qualquer. Havia muitas coisas que não achávamos certo fazer. Olhando para trás, acho que foi uma posição extrema e fez com que eu interpretasse mal algumas situações. Estávamos aprendendo a nos distanciar, estávamos treinando para sermos separatistas.
ADAM: Houve certa controvérsia com a capa do álbum na América. Eu nem sequer sabia o significado da palavra “pedófilo”. Deve ter sido a primeira vez que ouvi.
E também não entendia o conceito de erotismo homossexual. Explicaram-me então que havia pessoas que gostavam de fazer sexo com crianças e a imagem do Peter Rowan (irmão do Guggi) na capa do álbum podia ser interpretada como tendo um caráter sexual. Obviamente, colocada as coisas daquela forma, se tornou um ponto de vista aceitável. Pegamos então, uma fotografia abstrata de nós quatro e ampliamos em uma copiadora.
LARRY: Em São Francisco, havia um jornalista ativista homossexual, que trabalhava para uma revista chamada Mother Goose, e ele era um grande fã do U2. Acho que foi ele que mencionou que muitas pessoas da comunidade homossexual acreditavam que o garoto na capa do álbum tinha uma conotação homossexual e, além disso, pensavam que o garoto era eu. Por isso, quando fomos para São Francisco, houve uma certa polêmica em torno de mim, o que me irritou profundamente. Foi complicado me sentir à vontade com aquele tipo de atenção. A minha primeira reação foi ficar puto da vida. Eu estava sendo descrito como um ícone homossexual. “Mas o que é isso?” Até que acordei e pensei: “Mas isso é fantástico. Sinto-me lisonjeado.”
*O termo groupie quem inventou foram Keith Richards e Bill Wyman, lá nos anos 60 pra designar as menininhas que faziam de tudo pra chegar perto (bem perto mesmo, do jeito que você está imaginando :assobio: ) de seus ídolos. Elas não queriam saber muito da música dos caras, queriam mesmo é eles.:lol:
(Continua...)
Créditos: Juliana Oliveira (JulianaSP) e colaboração de Suelen (Su scout).
Bonolocks
14/05/2007, 19h53
(Continuação)
Páginas 111,112,113, (114 e 115 – fotos) e 116.
ADAM: Em uma parte dessa turnê, fizemos uma pausa no Caribe e ficamos na casa do Chris Blackwell. Aparentemente era um “feriado de trabalho”, embora não soubesse ao certo que trabalho é que foi feito. Gravamos um single, ‘Fire’ com o Steve Lillywhite. Era uma música nova que tinha uma boa aceitação ao vivo, embora, como de costume, a letra só tivesse ficado pronta na gravação final. Acho que só passamos um dia no estúdio. O tempo estava muito bom para estarmos em estúdio gravando! De certo modo, foram as primeiras férias de verão. Me fazia lembrar aquelas fotografias de quando os Beatles estiveram no Caribe, do tipo “rapazes fazem esqui aquático pela primeira vez”. Era essa a idéia, mas acabou não se concretizando. Acho que o Bono quase afundou o barco. Sei que esteve envolvido em um incidente qualquer com um barco – acho que ficou preso em um banco de areia.
BONO: Já peguei emprestado muitos barcos e gosto de pensar que sempre os devolvi. Mas os barcos com isolamento térmico são uma especialidade. Nunca tinha estado em uma água sem que ela estivesse com a temperatura abaixo de zero. Lembro do azul turquesa do céu e do mar. Estávamos lá com as nossas namoradas e parecíamos crianças brincando na areia e correndo de um lado para o outro. Parecia que não havia mais ninguém no mundo que nos interessasse. Éramos uma comunidade pequena, mas muito unida. Foi mesmo muito divertido.
LARRY: Foi um lugar muito especial. Estava lá a Ali, cara-metade do Bono, a Alislinn O’Sullivan, namorada do Edge, que mais tarde se tornou esposa dele, e a minha namorada Ann. Conheci a Ann no primeiro ano na Mount Temple. Ela era a garota popular da turma e eu o garoto carrancudo que ficava encostado nas paredes. Foi uma daquelas situações estranhas. Éramos o oposto um do outro, mas, mesmo assim, nos demos bem. Tornamo-nos amigos. Era tudo muito inocente. Os meus pais costumavam me dizer: “Não acha que é muito novo para ter uma namorada?” Para mim era perfeitamente normal.
Viajar com a banda era uma faca de dois gumes. Por um lado eu estava vivendo um sonho de qualquer músico. Mas por outro, tinha saudades da Ann e do que restava da minha família. O que é estranho, porque depois que minha mãe morreu, eu e meu pai nunca nos falamos muito. Já tínhamos passado por muita coisa e muitas coisas ficaram por dizer. Foi cada um para o seu mundo e só muitos anos mais tarde é que restabelecemos contato. Apesar de tudo, sentia falta dele e dos ocasionais debates, acessos e discussões.
BONO: ‘Fire’ não foi uma música muito boa. Sempre tive esperança de que a poderíamos compensar à medida que fossemos avançando, mas, por vezes, não conseguimos, e ela acabou sendo um exemplo disso. Quando se está em um lugar como Nassau, não há muita vontade para trabalhar. Percebemos então, porque é que os grandes grupos fazem discos que não valem nada quando vão gravar lá – quem é que quer ir para Bahamas e ficar fechado em um estúdio?
EDGE: Não me recordo muito bem das sessões. Mas lembro bem de Bahamas, por isso, deve estar tudo explicado. ‘Fire’ foi uma daquelas músicas que depositamos muita esperança, pois pensávamos que era inovadora e diferente, com efeitos de eco sendo usados de uma forma nova. O problema é que era grande no potencial, mas pouco grandiosa de conteúdo. Entretanto, conseguiu nos colocar no Top Of The Pops no Reino Unido pela primeira vez. Esse era o programa que assistíamos religiosamente durante anos. E finalmente chegar ao estúdio para poder ver o resultado foi tipo: “É só isso?” Foi tudo muito bem organizado, mas não tinha nada de sagrado. Estava um ponto acima do Youngline em termos de produção. Mas as bandas davam todas o seu máximo. Era como se aquilo fosse um Coliseu e nós fossemos os gladiadores. Vamos lá e temos que dar o nosso melhor. E nós fomos terrivelmente maus. Fomos a única banda que tocou no Top Of the Pops e cujo o single baixou de posição na semana seguinte.
BONO: Nós não nos misturávamos muito com as estrelas da América. Talvez tivesse ido alguém dos Blondie e do Talking Heads no Ritz em Nova York. O Joey Ramone também deve ter ido lá. Mas depois, em um show no Hammersmith Palais em Londres, conhecemos o Bruce Springsteen e o Pete Townshend. Foi um momento memorável. O Springsteen encheu minha cabeça com imagens sobre a América, sobre tudo de New Jersey, a linha da costa, Atlantic City, a América de diversões e das ruas. O meu irmão tinha trazido para casa The Wild, The Innocent and The E. Street Shuffle e colocou para eu ouvir quando tinha 15 anos. Nessa época, eu não me interessava por esse tipo de bandas, não me interessava mesmo, mas acabaram me cativando. E depois, claro, achávamos que o Pete Townshend tinha escrito o livro, porque o U2 queria ser o The Who. Nós não queríamos ser os Beatles nem os Stones. Não queríamos ser nenhuma outra banda. Mas se tivéssemos escolhido uma banda, teria sido o The Who. Por isso, nós estarmos com esses dois super heróis, sem nenhuma pressa, foi muito bom. O Bruce Springsteen é uma lição de modéstia em relação à forma como se comporta em público.
EDGE: Não conseguíamos acreditar que esses dois tivessem entrado no nosso camarim. Foi fascinante. Foram as primeiras estrelas de verdade que conhecemos. O Pete Townshed era uma pessoa muito especial para nós. Lembro de ter feito um comentário estúpido tipo: “Se um dia conseguisse escrever uma música tão poderosa como ‘My Generation’, me daria por feliz. É essa minha ambição na vida. Isso ia significar muito para mim!” Ele virou e me disse: “E olha que também ganharia uma fortuna com isso colega.” Essa era a faceta de humor sarcástico do Pete. Ele era muito amável. Fazia sempre tudo o que podia para nos sentirmos bem. Sempre lembro bem disso – ele não precisava dizer nada. Estava entusiasmado com a nossa banda e só queria que soubéssemos que ele reconhecia que éramos um grupo especial. Depois disso, andamos triunfantes durante algumas semanas.
LARRY: O Bruce se tornou uma pessoa muito importante para nós. Quando tínhamos que tomar decisões sobre os espaços que iríamos nos apresentar, recorríamos sempre a ele, para saber o que tinha feito na mesma situação. O Bruce tinha conquistado a América, com uma boa dose de estilo e classe. Embora musicalmente fossemos de tradições diferentes, havia uma ligação especial entre nós. Nós tínhamos a ambição de conseguir fazer o que ele fazia em palco. Os shows dele eram lendários. Aprendemos muito com ele.
PAUL: Voltamos para a Irlanda no verão para começar a trabalhar no segundo álbum. Há uma frase muito conhecida no mundo da música que é: Leva-se uma vida inteira para compor o primeiro álbum e três ou quatro semanas para compor o segundo. Estávamos sob muita pressão.
LARRY: Tínhamos acabado de chegar da turnê pelos Estados Unidos. Tudo corria sobre rodas e, de repente, era tempo de preparar o novo álbum. Estávamos começando mal. O dinheiro não era muito e não tínhamos lugar para ensaiar. Acabamos no local onde tudo começou, na Mount Temple. O Don Moxham nos ajudou e deixou usarmos uma sala da escola por um preço simbólico. Todos os dias encomendávamos comida chinesa para o almoço – desde essa época que não como comida chinesa. Toda essa experiência foi bastante contida, depois da euforia da turnê.
ADAM: Pensava que era só ir lá e fazer que as coisas dessem resultados. A nossa forma de compor era trabalhosa e dispendiosa em termos de tempo, pois tocamos durante horas e depois passamos mais tempo ainda discutindo pormenores. Em seguida colocávamos a gravação para verificar se aquilo que tinha sido discutido afinal estava certo. Depois, aquele que tivesse o melhor argumento, era seguido por nós, e logo depois tocávamos durante mais meia hora até conseguir fazer igual. As coisas eram feitas um pouco com sorte, era tudo muito cansativo e não tínhamos tempo para fazer de forma adequada. Por isso, pegamos todas as idéias que tínhamos e as juntamos.
EDGE: Com a confiança própria da juventude, acabamos a turnê, fomos para um local de ensaios e presumimos que as músicas fossem surgir por si. Trabalhamos inúmeras idéias muito rápido. Grande parte era improvisada. Pegamos um riff de guitarra ou uma parte da bateria e compúnhamos uma música em torno disso. Acabamos por ter muitas partes e o Bono ficou encarregado de encontrar melodias que lhes servisse de suporte. Entretanto, instalou-se o pânico quando percebemos que a data da gravação do álbum estava se aproximando e não havia letras para música nenhuma. Acho que só ficamos verdadeiramente conscientes da dimensão do problema quando entramos no estúdio. O Bono estava em pânico e, geralmente, lá em cima, em outra parte do prédio tentando desesperadamente organizar as idéias. Foram momentos bastante complicados. A Island Records estava por detrás da banda, mas, nessa fase, não vendemos muitos discos. Boy não chegou ao top 50 nem no Reino Unido nem nos Estados Unidos. Tínhamos feito um bom trabalho, mas não foi um grande fenômeno. Todos sabiam que o segundo álbum tinha que ser melhor. As sessões eram bastante penosas, sobretudo para o Bono. E em um momento de desespero, surgiu a letra de ‘Gloria’ – era mesmo isso que ele estava vivendo. Foi quase jornalístico, estávamos todos na mesma situação, completamente desesperados e só conseguíamos ver tudo desmoronando em nossa volta.
BONO: Estávamos ficando sem energia e sem entusiasmo pelo mundo. O Steve Lillywhite sempre estava dizendo: “Vai lá. Que duração tem a música, Bono? Tem três minutos, três minutos e meio? Você consegue escrever palavras suficientes para preencher esses três minutos e meio. Não é tanto assim, né? De quantas músicas precisamos? Só precisamos de onze.” Ele tinha razão. Mas eu estava sempre ali rabiscando.
Acreditava – e ainda acredito - que a melhor forma de nos desprendermos, de forma criativa, espiritual e de todas as outras formas, é sendo verdadeiros. É algo muito difícil, sermos verdadeiros com a gente mesmo. E se não temos nada a dizer, essa deve ser a primeira frase da música: I’ve nothing to say (Eu não tenho nada prá dizer). Comecei então escrevendo sobre isso. A música Gloria é sobre essa luta e a transformei num salmo: I try to stand up but I can’t find my feet. I try to speak up but only in you I’m complete: Gloria in te domine.Bastante louco para alguém de 22 anos. Canto gregoriano misturado com esse salmo. Era uma música espiritual.
Mas isso não são músicas. Carl Jung fala de uma espécie de consciência partilhada, a inconsciência coletiva, imagens que todos temos de sonhos e que fazem de nós quem somos. E, quando não escrevemos, essas imagens vêm à superfície. E são coisas estranhas. Há uma música chamada ‘Rejoice ‘, que tem exatamente a mesma imagem que ‘I Will Follow’ – uma casa desmoronando. Considero bizarro ter escrito duas músicas usando essa mesma imagem. Tínhamos tocado ela duas vezes por noite e aqui está ela outra vez. It's falling, it's falling, the buildings are tumbling down. Inside a child on the ground says he'll do it again. É como um sonho que se repete. Analisando agora essas primeiras canções, onde a linguagem não é tão importante como estas imagens inconscientes, vejo que isso pode estar relacionado com uma certa falta de prudência. É o tipo de situação com a qual muita gente se identifica, mas não é algo intelectual.
Tomorrow foi inconsciente. Anos mais tarde percebi que era uma narrativa sobre o funeral da minha mãe. Don’t go to the door, there’s a black car outside. Devia estar me referindo ao carro fúnebre. São tudo divagações. Estou tentando simplesmente dizer a mim mesmo: “Ultrapasse isso!” Mas essas coisas que acontecem em nossas vidas, senão lidarmos com elas de forma adequada no momento, acabam arrumando um jeito de vir à superfície, encontrando fendas por onde possam emergir.
‘I Threw A Brick Through A Window’ é uma música sobre não gostarmos de nós. E vermos o nosso reflexo em uma janela e ter vontade de quebrá-la. Não sei de onde veio essa idéia. Tento não me dedicar a auto-repugnância, mas, de vez em quando, ela acaba vindo à tona. Para mim, a culpa é uma emoção completamente inútil. Cometemos um erro, tentamos retificá-lo, pedimos desculpas e seguimos em frente.
LARRY: Tive grandes dificuldades na música ‘I Threw a Brick a Window’ por causa do tempo. Muitas vezes, depois de passarmos dias compondo e recompondo, gravando e regravando, era difícil manter o ritmo, e o fato de não usar um metrônomo não ajuda nada. As peças da bateria é que sofriam quando eu tocava com toda minha energia para tentar manter o ritmo. O meu despertar deu depois de um dia inteiro sem conseguir progredir na ‘I Threw A Brick’. Quando voltei ao estúdio no dia seguinte, o Edge tinha feito um arranjo de uma parte da bateria excelente. Fiquei puto por ele ter composto uma parte da bateria melhor do que eu. Era o empurrão que eu estava precisando.
ADAM: Conseguimos tratar da parte musical, mas a pressão estava toda no Bono, pois tinha que pensar em alguma coisa para ensaiarmos. As suas capacidades estavam se esgotando. E nós não éramos suficientemente maduros nem sensatos para dizer: “Esperem, vamos parar um pouco. Fazemos uma pausa e depois tentamos fazer tudo como dever ser.” Estávamos todos enganados. Acreditamos que tínhamos todos que cumprir rigorosamente aquele plano de trabalho, com grande esforço da nossa parte.
BONO: Ainda não tínhamos acabado de fazer o álbum quando nos apresentamos no Slane Castle com o Thin Lizzy, o maior show ao ar livre na Irlanda. Decidimos então tocar pela primeira vez as canções novas que estávamos trabalhando. Mais ainda, decidimos que seriam as primeiras do show. Começamos tocando ‘Tomorrow’, acompanhada por uillen pipes (espécie de uma gaita de fole) – e fomos um desastre. Foi um verdadeiro fracasso.
EDGE: Foi um dos nossos piores shows. Saímos do estúdio, de uma das experiências de gravação mais traumática das nossas vidas, e fomos direto ao show, sem tempo para ensaiar. Algumas músicas nunca tinham sido apresentadas ao vivo. Fomos mesmo um desastre. Para piorar ainda mais as coisas, tivemos alguns problemas técnicos com as guitarras e outros equipamentos. Chegamos a um momento em que tivemos que parar e depois começar tudo de novo.
(Continua...)
Créditos: Juliana Oliveira (JulianaSP).
Bonolocks
14/05/2007, 19h56
(Continuação)
Páginas 117, 118, 119, 120, (121 a 123 - fotos).
ADAM: Acho que foi uma tentativa de recriação do ambiente em que o Bono cantaria. De forma que para ajudá-lo a ultrapassar o bloqueio de escritor, achamos que ele iria se sentir melhor estando em frente a uma platéia. Desastre total. Mas nós éramos ingênuos e destemidos. Para nós tudo merecia uma tentativa e acho que, no final, isso será digno de elogio.
BONO: É um tema que se repete ao longo de toda a vida da banda. Estávamos constantemente em situações complicadas, para podermos descobrir uma forma de ultrapassá-las.
LARRY: A gravação foi um trabalho duro. Também ocorreram algumas distrações provocadas pelas reuniões cristãs ao mesmo tempo. Algumas pessoas desses encontros diziam que devíamos desistir da banda e investir em algo que fosse espiritualmente mais instrutivo. O Edge, sobretudo, começou a questionar sobre o que andávamos fazendo. Eu achava que as reuniões estavam se tornando assustadoras, as pessoas estavam tornando-se muito radicais. Eu e meu pai entramos em conflito por causa dessa história. Ele tinha estudado teologia e achava que estávamos simplificando algo que era extremamente complicado. Ficamos discutindo esse assunto durante horas. Optamos, então, por deixar de tocar no assunto. A comunidade Shalom estava tornando-se cada vez mais intensa, havia reuniões freqüentes de preces e alguma pressão para todos que estivessem presentes. Era como se ganhássemos divisas por estarmos lá e quando não aparecíamos, começavam logo fazendo perguntas. Começou a deixar de fazer sentido.
EDGE: Foi complicado tentar conciliar dois pontos indispensáveis e completamente opostos. Por um lado, tentamos ser os mais verdadeiros possíveis espiritualmente, e por outro lado fazemos parte da melhor banda de rock’n’roll que alguma vez existiu. Havia um elemento de incerteza ganhando terreno.
LARRY: O objetivo era criar uma comunidade cristã, onde as pessoas vivessem e trabalhassem segundo padrões bastante rígidos. Quando se é novo e ingênuo, tudo isso parece fantástico. No entanto, havia algo de totalmente errado com o conceito. Era como se quanto maior fosse a obrigação que tivéssemos proposto, mais perto estaríamos do céu. Era uma visão muito alterada do mundo e não tinha nada a ver com o que agora entendo ser a fé cristã. Havia certa pressão para que seguíssemos aquele caminho e o mais estranho era que essa pressão não vinha da parte dos líderes da igreja, mas sim da parte de nossos amigos. Apesar de tudo, aprendi muito e adquiri uma fé que não possuía antes, e que consigo manter até hoje.
BONO: O Edge abandonou a banda. Mas não disse nada aos outros, só disse a mim e eu não estava interessado em continuar na banda se ele não estivesse lá. Ele me disse: “O que fazemos é fantástico, mas existe outro mundo lá fora e é dele que quero fazer parte. E a verdadeira cura para as doenças do mundo não reside em uma banda de rock post-punk, mas sim em nos desenvolvermos espiritualmente de forma a encontrar o nosso lugar e o objetivo de Deus para a nossa vida.” Nessa etapa, ele sentia que não podia servir simultaneamente a Deus a ao homem. Eu decidi que também não podia, por isso desistimos os dois.
EDGE: Era uma bifurcação bastante clara na estrada. Eu queria examinar todo pormenor, queria descobrir se o que estávamos fazendo era ou não o caminho errado. Ouvíamos comentários negativos de pessoas que deviam ser nossas amigas, e nos dizendo que não podíamos continuar na banda, que não estava certo. E eu disse ao Bono: “Olha, eu renuncio disso com agrado se não for a escolha certa para nós, mas tenho que descobrir. Será que estas pessoas estão doidas ou sabem de alguma coisa que eu não tenha percebido?” O Bono compreendeu minha posição e achou que essa era a melhor forma de lidar com a situação, a encarou de frente. Ele também não estava interessado em ir em frente se não fosse a atitude mais sensata. Por isso, tirei um tempo para organizar as idéias na minha cabeça, que era de confiança. Achei que a resposta ia tornar-se clara, e isso aconteceu.
LARRY: O Edge deixou a banda e eu deixei as reuniões.
ADAM: O Bono e o Edge apareceram e disseram que estavam tendo certa dificuldade em chegar a um consenso sobre o que estava acontecendo com eles espiritualmente e sobre o que significava fazer parte de uma banda de rock’n’roll. Isso foi uma espécie de choque para mim, para o Steve Lillywhite e para o Paul, e então fizemos o que sempre fazemos em situações de crise: uma reunião. Ninguém tentou convencê-los a desistirem da idéia, mas o Paul fez uma interpretação pessoal do que eles estavam dizendo e falou: “É mesmo isso que vocês querem? Acreditam mesmo que vão se tornar mais eficientes se voltarem as suas vidas ditas normais? Ou acham que aproveitar essa oportunidade de fazer parte de uma grande banda de rock’n’roll vai, em longo prazo, ter mais valor?” O que quer que tenha acontecido depois, deu ao Bono, Edge e ao Larry determinação para sentirem que podiam terminar o disco.
PAUL: Assumi uma posição de respeito perante as crenças de todos e esperava que eles também respeitassem as minhas, mesmo que não fossem as mesmas. E tem sido nessa base que temos trabalhado desde então. Fiquei verdadeiramente chocado quando eles me disseram que não ia ter turnê e que iam ficar em Dublin para fazer o trabalho de Deus. Eu disse: “Me dão um tempo para eu poder pensar nisso.” Sai do Windmill Lane Studios e dei uma volta no quarteirão. Quando voltei disse: “Sinceramente, se Deus tivesse alguma coisa a dizer sobre essa turnê, deveria ter erguido a mão bem mais cedo, pois já contratamos uma equipe de estrada e assumimos compromissos com as pessoas, no meu ponto de vista vocês têm a obrigação de cumprir.” E foi o final da discussão. Eles concordaram e a situação não se repetiu.
BONO: Foi difícil renunciar a banda, pois ambos adorávamos aquilo que fazíamos. Mas algo bastante forte aconteceu. Por vezes, temos que renunciar as coisas que gostamos para que as possamos ter. Sem querer parecer muito melodramático, é como Abraão que espera toda a vida por um filho e depois Deus diz que sacrifique Isaac. É das passagens mais cruéis da Bíblia. Mas, quando retornamos ao trabalho, parecia que ia ser ainda mais intenso. As idéias espirituais que pairavam no ar naquele momento eram muito profundas, muito pesadas. Cristo dizendo: “Quem achar a sua vida perdê-la-á.” É muito extremo.
Sugere que se realmente queremos viver, não podemos nos agarrar à vida com muita força. Temos de renunciar, temos de nos render. Acho que não entendi muito bem na época, no meu zelo. Não queria que nada na minha vida interferisse entre mim e Deus, incluindo a música. Porque, como é obvio, podemos fazer de qualquer coisa um ídolo, não tem de ser o dinheiro, não tem de ser a fama – qualquer coisa pode se meter no caminho. A presunção, por exemplo. Alguns anos mais tarde compreendi de melhor forma tudo isso. Quando nos agarramos a algo com muita força, é como se já a tivéssemos perdido. Essa foi uma daquelas profundas verdades espirituais que levei muitos anos para descobrir. Ficamos fracos quando queremos muito alguma coisa. Quando renunciamos dela, nos tornamos muito mais fortes. E aconteceu algo durante esse momento em que renunciamos aquilo que quisemos toda a vida, aquilo que me mostrou o caminho para enfrentar o mundo novamente. Para mim, fazia sentido. Foi de certa forma, nesse álbum que o U2 disse: “Vamos onde for preciso. Quebraremos todas as regras da moda. Seremos emocionalmente crus, de forma a sermos honestos.” Mesmo após isso, íamos desistir da banda. Queríamos provar a todo custo que não poderíamos ser subornados pela nossa ambição. Acho que isso é algo incrível. Estivemos perto de desmoronar a banda, mas, ao mesmo tempo a recuperamos e ainda mais unida.
EDGE: Era bastante claro que essa banda tinha algo de único e especial, era absolutamente falso sugerir que uma pessoa não possa ter uma vida espiritual legítima e estar no mundo do rock’n’roll ao mesmo tempo. Era algo completamente absurdo. Não digo que as pessoas envolvidas na comunidade Shalom fossem más, mas em uma dinâmica de grupo, as idéias às vezes ganham credibilidade quando não devem. Foi algo que era preciso enfrentar. Foi o começo do nosso desprendimento daquele sistema. De certa forma foi um enorme alívio para o Adam quando começamos nos afastar daquele grupo unido e passamos a confiar no nosso próprio parecer.
BONO: Desde cedo, sabíamos que não queríamos ser a banda que fala sobre Deus, mas depois fizemos um álbum que falou sobre pouco mais do que isso. A Patti Smith também lidava com esse assunto, assim como Bob Marley, Marvin Gaye e o Bob Dylan. Mas não havia muita gente querendo levantar essa pedra e ver os bichos rastejantes que estavam por baixo. A nossa vida espiritual pode ser tão desordenada como qualquer outra coisa das nossas vidas. Por isso, se é sobre ela que vamos cantar, o melhor é confessar as nossas fraquezas e vulnerabilidades.
ADAM: Não tive grandes dificuldades com o aspecto da letra da música. Percebia que o rock’n’roll tinha uma base sentimental e uma base espiritual. Só não tinha certeza se isso era aceitável em uma banda New Wave, que é o que éramos. Nós fazíamos parte desse grupo. E não tinha certeza se daria resultado. Mas eu era um entusiasta da música. Esse era um disco rock e composto por um material muito interessante.
EDGE: Fosse qual fosse o som que conseguíamos inventar que se aproximasse do espírito da música, o Bono só tinha que aceitar que era o melhor que conseguíamos fazer. Na época ele não tinha ilusões de nada. Sentia-se despedaçado, em diversos aspectos, por termos que terminar o álbum naquelas circunstâncias. Mas, dito isso, há algo de muito poderoso acontecendo. Acho que é a honestidade absoluta vindo por cima, pois são pessoas em uma situação de desespero.
É algo que tem o poder de pedir intervenção divina, de pedir ajuda, qualquer coisa que nos ajudasse a lidar com a situação que nos encontrávamos.
BONO: Quis dar o nome de October ao álbum. O título veio antes da música. Era a idéia de que tínhamos nascido nos anos 60, na época em que o materialismo atingia seu ponto máximo. Tínhamos frigoríficos e carros, colocamos gente na lua e todos pensavam que a humanidade era o máximo. Mas os anos 80 foi um período mais frio. Materialismo sem qualquer idealismo, o sol sem calor, inverno. Foi após o outono, após as colheitas. Eu tinha a frase: October and the trees are stripped bare of all they wear. Aqui estou eu, com 22 anos, com a cabeça cheia de termos góticos, olhando para um mundo onde há milhões de desempregados e pessoas passando fome. E nós só usamos a tecnologia com a qual fomos abençoados para construir bombas maiores, para que ninguém desafie as nossas idéias fúteis. A cristandade nos diz que Deus está morto, mas eu penso que a cristandade é que morreu e nós fomos contratados para tocar no funeral. Pensamentos loucos. Os álbuns do Joy Division afetaram mesmo as nossas idéias. October é um título nefasto. A música em si é um trabalho meditativo e suave. O Edge ao piano, tocando umas notas gélidas, e a imagem da perda da inocência, o outono, as folhas caindo das árvores, e a pessoa fica exposta. Fiquei maravilhado durante essas sessões em que o Edge tocava piano. Nem sabia que ele era capaz. E ele também não!
EDGE: Já não tocava piano desde criança. Desisti do piano quando tinha 12 anos para me dedicar à guitarra, mas ainda me lembrava de alguma coisa. Não sei onde surgiu o trabalho October, mas estava sentado ao piano. Foi para aí que fui transportado, para um rígido e cinzento, mas também bonito lugar europeu. Depois da turnê pela Europa, de ver Paris, Amsterdam, Berlim e Hamburgo durante o inverno, nunca me senti tão europeu. Teve um impacto bem forte em mim, tal quando vi Nova York pela primeira vez.
LARRY: O álbum ficou bem melhor do que eu imaginava. Eu achava que as músicas eram boas, mas nós não sabíamos como terminá-las.
PAUL: Este foi provavelmente o trabalho mais duro para a gravadora, pois não gostaram muito do disco. E também não gostaram muito da capa.
BONO: A capa foi culpa minha. Eu tinha uma ligação muito forte com Docklands em Dublin. O Windmill Lane ficava nas docas, e havia lá uma parte em particular que eu ia durante as gravações para tentar me inspirar. Era um lugar muito especial, tinha uma espécie de estética industrial. Havia alguma coisa naquela água. Agora é onde ficam os estúdios Hanover Quay, os nossos estúdios, e é também o centro da nova Dublin. Mas, na época, não havia qualquer sinal de vida. Apenas um cachorro chamado Skipper e um cara chamado George, que era o guarda. Creio que o instinto de fazer a sessão fotográfica lá estava certo, mas não teve o resultado esperado.
LARRY: Embora não seja uma capa particularmente engenhosa nem inteligente, não tem qualquer pretensão. São apenas quatro caras com uns cortes de cabelo engraçados.
ADAM: Não fazíamos idéia do que era sermos dirigidos ou estilizados para algo do gênero. Foi tudo muito básico, juntamos os quatro e tiramos uma fotografia. Na época o Bono gostava daquelas apresentações estilo anos 60, com uma margem em volta da fotografia e as listagens das músicas na frente. Muitas pessoas tentaram que mudássemos de idéia. Alguns representantes da Island Records falaram: “A capa é horrível.” Mas nós estávamos tão iludidos, que nem ligamos.
EDGE: Foi então que o controle artístico do U2 veio em cima da gente e nos fez acordar. Realmente não é uma boa capa. Mas quando o cara do departamento de arte da Island foi tentar nos convencer a desistir, falamos que para nós o problema não era a capa, era o controle artístico. Estávamos desesperadamente tentando evitar que todos os controles criativos da Island nos dominassem. Mandamos o cara de volta para Londres e lhe dissemos que estava no contrato que a capa seria escolha nossa. Devo dizer que ele tinha toda a razão e teria sido melhor se o tivéssemos escutado. Mas, por outro lado, não teríamos usufruído do controle que possuíamos, por isso, no final das contas, talvez estivéssemos certos.
PAUL: Nessa época, aconteceu uma mudança muito importante na dinâmica entre eu e a banda. Eu e o Adam operávamos quase como uma equipe de revezamento e colocávamos o restante dos membros da banda para fazerem outras coisas. Éramos de certa forma pessoas práticas e havia momentos que precisávamos chamar atenção dos outros três por motivos profissionais. Tentei explorar essa relação diversas vezes, pedindo ao Adam para os fazerem sentir alguma coisa, mas não me lembro o que era. E um dia o Adam me disse: “Não, e não me peça mais para fazer essas coisas. Eu sou um membro da banda e você o agente. Não vamos esquecer isso.” Era a pura verdade e também a coisa mais apropriada a dizer. Então eu parei.
ADAM: Foi um período de muita incerteza em vários aspectos. O disco não estava tendo muita saída. O contrato que a Island Records tinha feito com os estúdios Warner Brothers na América estava prestes a acabar e por isso não havia grande força da parte deles e era complicado conseguir apoio para as turnês. As músicas não passavam nas rádios e por isso dependíamos apenas do “boca a boca”, coisa que também não estava acontecendo.
EDGE: É, em vários aspectos esse foi o álbum mais estranho, mais confuso, e originou diferentes críticas. Teve uma boa saída no Reino Unido, mas em outros países não teve tanta aceitação como o Boy. Foi uma contrariedade. Naquele momento, acho que a Island colocou a hipótese de desistir de nós. O instinto do Chris Blackwell defendia que ainda havia mais coisas para acontecer, e que se fosse dada mais oportunidade à banda, poderíamos ir longe e que não tinha sido o nosso fim. Em relação a esse instinto, eles disseram: “Vamos tentar de novo.” É algo que provavelmente não teria acontecido em uma empresa maior e certamente não teria acontecido hoje, onde as bandas são abandonadas no primeiro sinal de perigo.
PAUL: Se tivéssemos trabalhado com outra gravadora, creio que, certamente, teriam desistido de nós. Isso não aconteceu, mas nós sabíamos que tínhamos que melhorar se quiséssemos sobreviver.
Créditos: Juliana Oliveira (JulianaSP).
Violet U2
14/05/2007, 21h08
*O termo groupie quem inventou foram Keith Richards e Bill Wyman, lá nos anos 60 pra designar as menininhas que faziam de tudo pra chegar perto (bem perto mesmo, do jeito que você está imaginando :assobio: ) de seus ídolos. Elas não queriam saber muito da música dos caras, queriam mesmo é eles.:lol:
:ROTFLOL: :ROTFLOL: :ROTFLOL: só vc mesmo pra me fazer rir uma hora dessas :lol:
Bonolocks
14/05/2007, 23h09
:ROTFLOL: :ROTFLOL: :ROTFLOL: só vc mesmo pra me fazer rir uma hora dessas :lol:
Sabe aquela pessoinha que colaborou com essa parte do livro?:assobio: Pois é. Foi ela!:lol:
Nossa, vocês estão a todo vapor! Parabéns!!! :aprovado:
Marcinha nr 1
15/05/2007, 10h27
Uau!!! Que rapidez pessoal. Obrigada sempre!!! :D Vcs são uns :hipcrt:s.
Bonolocks
15/05/2007, 11h13
Nossa, vocês estão a todo vapor! Parabéns!!! :aprovado:
Originalmente Escrito por Marcinha nr 1 http://www.ultraviolet-u2.com/foruns/images/uv/buttons/viewpost.gif (http://www.ultraviolet-u2.com/foruns/showthread.php?p=233205#post233205)
Uau!!! Que rapidez pessoal. Obrigada sempre!!! :D Vcs são uns :hipcrt:s.
;) :aprovado: :aprovado:
Bonolocks
15/05/2007, 11h19
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Página 124
SING A NEW
SONG
1982-1983
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Páginas 125 e (126 - foto).
BONO
FINALMENTE O NOSSO PRIMEIRO VÍDEO ‘GLORIA’ NUMA BARCAÇA NAS DOCAS DE DUBLIN. ACABOU SE TORNANDO UM VÍDEO MUITO IMPORTANTE.
PAUL: Como eu já tinha experiência em filmagens, acredito que a banda ficou um pouco com um pé atrás pensando que eu ia dirigi-los. Mas eles eram meus clientes e não uma oportunidade para eu fazer experiências como diretor. Usamos sempre os melhores produtores que encontrávamos.
LARRY: Eu não tinha nenhuma noção sobre vídeos, nenhum de nós tinha. Havia acabado de comprar uma bota vermelha Doc Martens que tinha custado 15 libras (cerca de 19 euros). Era muito dinheiro naquela época. Havia uma cena em que o diretor, Meiert Avis, queria que eu pulasse em cima de uma poça de água suja. Disse: “Mas assim vou molhar as minhas botas.” E ele disse: “Claro, é isso que nós queremos nessa cena.” E eu disse: “Nem pensar!” Não ia molhar as minhas botas novas.
BONO: Quando iniciamos a turnê pela América, aconteceu uma coisa muito estranha. Em algumas cidades os shows continuavam sendo em clubes. ‘Gloria’ não passava na rádio e as coisas estavam ficando um pouco inseguras. Mas, nas outras cidades, tínhamos shows com mil ou duas mil pessoas assistindo. Tínhamos shows agendados em grandes anfiteatros para podermos satisfazer a procura. Apresentamos no Hollywood Palladium em Los Angeles para mais de quatro mil pessoas. Essas cidades eram palco de estudo de mercado para um novo conceito que era a televisão da música, a MTV. Ainda não havia muitos vídeos na época, mas um deles era ‘Gloria’ e eles estavam sempre passando o vídeo. Tornamos a primeira banda da MTV e eles nos ajudaram a sermos lançados.
PAUL: Conhecíamos muito bem as pessoas que tinham criado a MTV. Era um negócio bastante inocente e muito diferente do que é agora. A pessoa fazia um vídeo, o levava lá, mostrava para um dos responsáveis e três horas depois, se tivessem gostado, já estava no ar.
BONO: Em LA, ficamos em um hotel chamado Sunset Marquis. Para nós, vindos do norte de Dublin, parecia um sonho estarmos ali, sentados junto a piscina e vendo as pessoas famosas passando.
EDGE: O Paul conheceu uma pessoa no hotel e depois fomos todos convidados para uma festa na casa de um grande produtor de gravadora. Lembro de ter entrado e de reparar que tinha muita gente doida. Para um rapaz de 19 anos, vindo de Dublin, ir naquela festa, foi como ir para Marte. O piano de concerto em plexiglass me deixou deslumbrado, e depois começou a tocar sozinho. A decoração era totalmente anos 70 e a vasta área da sala de estar, era composta por um extenso tapete branco, sofás brancos, com convidados brancos, que certamente teriam estado entretidos com pó branco. Pelo que eu percebia o produtor tinha uma amiga e uma esposa, que mais tarde se apresentou como sendo sua agente, o que me deixou completamente confuso.
A mulher dele se “apaixonou” por mim e se ofereceu para me mostrar os ‘discos de ouro’. Eu era um pouco inexperiente, tenho que admitir, não percebi muito bem o que estava acontecendo e aceitei ir. Ela me levou para o jardim e começou a dizer coisas como: “O Yoji costuma vir arrumar o jardim Zen às quintas-feiras.” E também : “Aquela é a casa do Elton John e a da esquerda é a do Dudley Moore.” Eu estava maravilhado. Não só por ter sido transportado para um filme de Hollywood, mas também porque nenhuma mulher me dava a mão desde que eu tinha cerca de quatro anos. Eu não sabia mesmo se ela estava só sendo simpática ou se tinha medo que eu caísse no lago Koi. Cai finalmente em mim, quando entramos em um estúdio sombrio com discos pendurados nas paredes e ela continuava segurando a minha mão. Apresentei minhas desculpas e sai.
Ela era uma mulher muito bonita, mas eu era como uma presa prestes a ser caçada. Parecia que estava perto de experimentar tudo aquilo que já me tinham dito que acontece às bandas de rock ‘n’roll quando tudo acaba mal. Acabamos indo novamente para dentro da casa. A primeira coisa que vi assim que entrei foi uma mulher se aproximar da Dusty Springfield e dar um tapa na cara dela e ir embora. A dona da casa começou a chorar e falou: “Meu Deus! Meu Deus!” Pelo visto, a mulher era a “outra” da Dusty e tinha terminado tudo, porque a Dusty estava dando em cima do Paul McGuinness. Depois dos ânimos terem se acalmado, a dona da casa disse ao Paul: “Oh, Paul, desculpa, a Dusty fica com um feitio heterossexual quando toma calmantes.”
(Continua...)
Créditos: Juliana Oliveira (JulianaSP).
Bonolocks
15/05/2007, 11h21
(Continuação)
Páginas 127, (128, 129 - fotos) e 130.
BONO: A sociedade ocidental era muito conservadora naqueles tempos, mas nós adorávamos. Ficamos em um hotel de rock’n’roll muito famoso na periferia de Detroit. Eu tinha umas calças axadrezadas e o meu cabelo era uma espécie de texugo e um molusco. Teve uma hora que passou por mim um cara dirigindo e me chamou de boiola. Sem pensar, enfiei minha cabeça dentro do carro e estava a ponto de pegar no pescoço dele, quando eu percebi que ele era um gorila de trezentos quilos, com dois cachorros enormes e uma espingarda no banco de trás. Ela era um monstro de um homem, ele abriu a porta e saiu correndo atrás de mim. Foi aí que um cara da equipe que estava acompanhando a gente, viu o que estava acontecendo e começou a filmar aquilo: Morte de estrela do rock irlandês ao vivo na TV! Aquele cara dizia, ‘Não me importo em arrancar sua cabeça em frente à câmera, filho. Eu não me importo em arrancar sua cabeça com os policiais olhando. Eu não me importo em voltar para a cadeia pelo simples prazer de arrancar sua cabecinha de bicha’. Eu tentei conversar com o cara, e explicar que calças xadrez não necessariamente eram uma indicação de homossexualismo, mas sim, puro mau gosto. Veja você, o visual ainda era um problema para nós, porque as pessoas às vezes não conseguiam ouvir nossas idéias musicais, nem ver a inteligência da banda, porque a gente se vestia muito mal. Daí conhecemos um homem que nos ajudaria a mudar isso.
LARRY: Em Nova Orleans, nós fizemos um show, enquanto navegávamos no Mississipi, em um barco chamado President. A NME (revista inglesa de música) estava lá junto a um fotógrafo Holandês chamado Anton Corbijn. Ele nos impressionou muito, e não somente pela sua altura imponente. Ele havia feito umas fotos muito legais para o Joy Division e outros, então a gente tinha um leve respeito por ele. Houve uma ligação forte e instantânea entre a gente, e essa relação dura todos esses anos. Ele é um dos melhores fotógrafos que existe.
BONO: Nós ficamos impressionados com ele, porque ele pagou para nós e para a equipe da gravadora uma rodada de bebidas. Anton tornou-se um dos meus melhores amigos e uma pessoa cuja visão teria um forte impacto na banda. Anton identificou o espírito da banda e deu-nos habilidade de assumir riscos nas sessões de fotos. Nós fizemos de tudo para o Anton, nós fomos fotografados nus, nós vestimos vestidos e usamos maquiagem. Mas, de alguma forma, o prazer e diversão que sempre tivemos com o Anton, raramente foram capturados por suas lentes porque ele tem uma visão diferente de tudo. Ele não tenta capturar você como você é, ele está tentando retratar o que você pode vir a ser. As fotos muitas vezes são magníficas, visto que a banda certamente não é. Essa é a dele – ele acha as imagens certas para aquelas músicas. Nós éramos muito sérios, era uma época muito estética. Anton tirou fotos que se pareciam com as músicas e não com os músicos.
EDGE: De volta à Dublin, nós gravamos ‘A Celebration’. Ela não era ruim, mas também não era boa o bastante para livrar-nos de encrenca. Nós ainda estávamos inseguros em relação a impasses do álbum, gravar sem ter músicas prontas. Naquele momento a gente precisava de um sucesso. ‘A Celebration’ não era um.
PAUL: Nós voltamos para a América para abrir para a J. Geils Band. Parecia ser uma boa forma de tocar em lugares do país onde nós não havíamos causado um grande impacto e também uma boa forma de ver como uma banda trabalhava em shows grandes de estádios. Eles costumavam tocar para cinco mil a dez mil pessoas. A Geils Band estava no seu auge, com o sucesso ‘Centerfold’ e foram muito hospitaleiros com a gente. Eles ensinaram pra gente nossa conduta em estádios.
BONO: Uma boa banda de blues parece não ser a mais óbvia combinação para uma banda pós-punk de rock. Eu acho que o Paul estava testando a sua teoria de que Irlandeses são “salgados” (have salt) o suficiente para se preservarem no país dos caipiras. E ele tinha um respeito enorme, assim como eu, pelo Peter Wolf, o principal homem da J. Geils Band. Ele era um DJ extraordinário, um talentoso comentarista da música pop, que também era cantor.
LARRY: Peter Wolf foi muito gentil conosco. Ele era amigável, muito incentivador, qualquer coisa que a gente precisasse, ele fazia questão que a gente conseguisse, mas os shows em si, eram muito árduos. A J. Geils Band tinha um público muito diferente do nosso e nós tivemos que trabalhar duro para conseguir a atenção deles. Bono tinha uma tarefa muito difícil a fazer, apesar de que não demorou muito pra que ele achasse uma maneira de ser ouvido.
BONO: Nós fomos avisados pelo promotor que, a última banda que havia aberto o show para eles, levou garrafadas, Tom Petty levou uma garrafa de cerveja na testa, corte profundo, muito sangue, porque a platéia não queria nada de punk que rolava no meio-oeste. Então tivemos uma idéia, acho que foi minha, de dar um jeito de chegar ao coração dos fãs deles. Nós vimos eles tocarem, e eu percebi que quando a cortina que cercava o palco levantava, as pessoas naturalmente achavam que a J. Geils Band ia começar a tocar, então elas paravam e começavam a aplaudir. Mas na verdade, a banda de apoio entrava e levava garrafadas. Eu pensei que aquilo era errado. Se a banda de apoio já estivesse lá quando as pessoas estivessem animadas e aplaudindo, havia uma chance de aceitarem os aplausos como sendo seus – então foi o que a gente fez. Nós nos escondemos atrás dos nossos amplificadores. A cortina subiu, as pessoas pararam, começaram a aplaudir, e eu saí de trás do amplificador, com as mãos para cima dizendo ‘Obrigado!’ O público continuou aplaudindo, e nós começamos o nosso show, com cara de experientes e de heróis locais – e nos livramos dessa. Foi um momento ótimo.
LARRY: Mesmo não tendo sido fácil, foi uma grande oportunidade para a gente tocar em cidades que teria sido difícil para nós, se tivéssemos que tocar sozinhos. Então, desse ponto de vista, foi um ótimo exercício.
ADAM: Houve pouquíssimo apoio da gravadora e no final da turnê na América, nós estávamos sem dinheiro. Acho que a gente só tinha dinheiro pra comprar a passagem de avião pras pessoas poderem voltar pra casa. Aquilo foi duro para a gente, perceber que a gente tinha chegado até ali, que já havíamos gravado dois discos, nós havíamos trabalhado muito por isso, e não tínhamos nem como pagar nossa equipe. No final daquela época, havia uma firme resolução de sairmos pro mundo com o próximo disco.
PAUL: Na verdade, a gente havia esgotado o dinheiro. Nós terminamos aquela turnê no meu cartão American Express, e quando voltamos pra casa, eu não podia pagar a minha conta e eles tiraram o cartão de mim. Esse foi um ponto baixo. Claro, todo mundo em Dublin pensava que eu era algum tipo de inglês rico que tinha um monte de dinheiro para subsidiar as atividades do U2. A verdade era que não havia dinheiro algum e eu nem tinha meu cartão de crédito mais.
EDGE: Nós deixamos as coisas fugirem do controle um pouco e era tempo de recuperarmos a idéia original que tínhamos para a banda. Nós estávamos decididos que o próximo álbum seria mais direto ao ponto, consistente e mais certeiro.
BONO: Algumas coisas estavam acontecendo durante a turnê de October. Bobby Sands estavam morrendo, numa greve de fome na Irlanda, e as pessoas estavam gritando o seu nome para nós enquanto estávamos no palco. Havia alguns poucos contingentes de ‘Viva o IRA’, que achavam que éramos irlandeses na América, havia um tipo de IRA provisório acontecendo. Eu estava comovido com a coragem do Bobby Sands, e nós entendíamos como as pessoas estavam encorajadas a defendê-las, mesmo que não achássemos que aquela era a coisa certa a fazer. Mas estava claro que o Movimento Republicano estava se tornando um monstro a fim de derrotar outro monstro. Aqueles foram tempos muito perigosos na Irlanda – o nacionalismo estava ficando feio. Então preferimos ficar contra a ‘tricolor’ (a bandeira Irlandesa), e quando ela era jogada no palco, eu “desmontava” ela. Eu tirava a parte verde, e a parte laranja e só restava a parte branca do meio, e ela se tornava a bandeira branca. Um gesto simples, mas poderoso naquele tempo. Então, quando estávamos nos preparando para o álbum War, nós começamos a pensar em como era ser um irlandês. Nós tínhamos que examinar algumas dessas questões. Você realmente acredita em não-violência? Em que ponto você protegeria a si mesmo? Essas não são questões fáceis de resolver.
EDGE: Nós alugamos um local na praia de Howth, ao norte de Dublin. Assim que saímos da turnê, nós começamos a ir até lá e trabalhar em algumas idéias. A banda basicamente estava patrocinando uma casinha para o Bono e para a Ali, que podíamos usar como um lugar para ensaiar. Ninguém se importou, porque eles estavam duros e, assim como todos nós, ou morando na casa dos pais, ou em algum hotelzinho horrível.
BONO: Era uma casa de praia velha, pode ter sido um estábulo algum dia. Tinha três cômodos, a banda ficou com a sala, eu e a Ali com o quarto e todos dividíamos a cozinha. Era um lugar idílico com as ondas batendo nas paredes da casa. Eu lembro que foi um momento muito legal, escrevendo música e simplesmente sendo uma banda.
ADAM: O que não deve ter sido para a Ali ter a gente lá? Incrível como ela agüentou.
BONO: Só por interesse. Eu gostaria de salientar que eu e a Ali só nos mudamos para lá quando estávamos legalmente casados. Você sabe, eu sou uma ovelha desgarrada. Eu não teria me casado se eu não tivesse conhecido alguém tão maravilhosa como a Ali. Eu sempre me senti mais eu mesmo com ela do que com ninguém. Eu conheci um casal maravilhoso naquela turnê e eu estava falando com eles sobre o amor da minha vida, e eles estavam dizendo, ‘Você vai se casar?’ Eu disse, ‘Bem, eu nunca pensei sobre isso.’ E eles me disseram, ‘Se você se decidir por esse tipo de coisa, nunca deixe que isso lhe escape.’E eu segui o conselho deles.
O Adam foi o meu padrinho. Por tudo o que aconteceu na sua vida, o Adam sempre teve uma forma de sabedoria. Ele era o cavalheiro perfeito, que acreditava em amor, mas naquele momento ele parecia acreditar em amor por diversas pessoas. Mas eu havia tido conversas com ele sobre isso e ele sempre dizia que se você acha tudo em uma só pessoa, você deve aproveitar isso. Eu também pedi a ele pra ser o meu padrinho, porque talvez eu não me sentisse tão próximo dele como eu era com os outros.
(Continua...)
Créditos: Huanita.
Bonolocks
15/05/2007, 11h23
(Continuação)
Páginas (131 a 134 – fotos), 135 e 136
ADAM: Eu achei que era uma coisa incrivelmente corajosa para se fazer. Não havia muito dinheiro naquela época, e nós estávamos fora constantemente, então eu realmente não sabia como ele ia fazer para conciliar as duas coisas. Mas eu conhecia a Alison por tanto tempo quanto eu conhecia o Bono. È uma união muito proveitosa. Acho que o Bono sem a Ali liberaria sobre o mundo uma energia que teria efeito mais negativo do que ele tem de positivo.
BONO: Nós não tivemos uma despedida de solteiro, o que foi bom de certa forma. Com 22 anos de idade, eu era um tanto sério, não estava realmente interessado em beber e tinha brigado com o Village. Os Virgin Prunes agiam artisticamente como guerrilheiros. Nós estávamos no mesmo festival certa vez na França e alguém no programa escreveu: ‘Se o U2 é Deus, os Virgin Prunes são o demônio.’ Nós realmente nos tornamos uma antítese um do outro e nossa amizade tão íntima começou a demonstrar sinais de tensão. Eu provavelmente voltava da turnê falando sobre a América e o que estava acontecendo conosco e como estávamos nos tornando uma grande banda de rock, o que eles achavam um pouco desagradável. Em uma atitude artística, eles usaram gesso para fazer um pacote do lado de fora do meu carro e embrulharam tudo com papel e ovos.
E então, quando eu acordei no meio da noite e descobri que eles estavam jogando ovos na janela do meu quarto, começamos uma briga...eu acho que houve alguma violência envolvida. Tudo ficou um pouco descontrolado por alguns anos, e só voltou a ser como antes quando eu redescobri meu senso de humor.
ADAM: Eu não tinha a menor idéia do que um padrinho fazia. Mas eu estava feliz por levá-lo à igreja, basicamente a tempo.
LARRY: Mesmo que Bono tivesse deixado os encontros cristãos, ele ainda tinha muitos amigos envolvidos, que foram convidados para o casamento. Houve uma mistura entre um casamento Protestante tradicional e a nova cerimônia batista de Plymouth Brethen, então você podia dizer que tudo foi um pouco fora dos padrões. Nossos pais foram convidados e estavam vendo e ouvindo pela primeira vez algumas coisas que eram debatidas nos encontros cristãos. Eu acho que isso confirmou o que meu pai pensava. Mas foi um dia ótimo, e isso significava que teríamos duas semanas de descanso enquanto o casal feliz estava em lua de mel.
BONO: Foi uma união muito excêntrica. Nos casamos em uma pequena capela em Raheny. Eu cheguei atrasado, e havia tanta gente do lado de fora que eu não conseguia entrar na igreja. Havia um coro cantando e vários apitos de estanho sendo tocados fora de sintonia. Era uma situação para a qual nós não estávamos muito preparados, nem eu nem a Ali, mas nós prosseguimos com isto. Depois fomos para o Sutton House Hotel, onde Van Morrison foi fotografado para a capa da Veedon Fleece, e foi maravilhoso. A banda subiu no palco e queimou todos os fusíveis do prédio de forma que passamos a nossa noite de casamento no escuro, rastejando pelo chão do quarto, procurando um pelo outro. Nós éramos crianças, muito jovens mentalmente e emocionalmente.
Nós fomos para a Jamaica na nossa lua de mel, para uma casa chamada Goldeneye, que pertencia a Chris Blackwell. Ali ainda acha graça de como, na nossa lua de mel, eu estava escrevendo um álbum chamado War. Eu estava trabalhando nas letras, Edge estava em casa trabalhando nas melodias.
EDGE: Eu estava sozinho no quarto trabalhando com quatro faixas em um toca-fitas gravador. Aquelas duas semanas foram um avanço para mim como um escritor. Eu progredi bastante em ‘New Year’s Day’, trabalhando com uma ótima linha de baixo do Adam, e consegui montar demos grosseiros de ‘Seconds’ e ‘Drowning Man’. O primeiro esboço de ‘Sunday Bloody Sunday’ foi feito durante um dia particularmente depressivo, naquela pequena casa à beira do mar. Eu estava sozinho, nada estava dando certo e eu tinha brigado com a minha namorada porque eu estava trabalhando enquanto todo mundo estava de férias, então talvez eu devesse tirar férias também, ao invés de desperdiçar meu tempo tentando me tornar um compositor, já que, obviamente, eu não era bom nisso. Eu fiz a única coisa na qual podia pensar, que foi transferir todo meu medo, frustração e pena de mim mesmo para um pedaço de música. Eu peguei minha guitarra e deixei tudo isso se manifestar. Era apenas um esboço, um contorno, eu não tinha um título, um refrão ou uma melodia, mas eu tinha um estilo de composição e um tema. Se eu me lembro bem, minha linha de abertura era Don’t talk to me about the rights of IRA, UDA ... Era uma canção completamente antiterrorista.
BONO: Eu tive a idéia de contrastar um acontecimento real conhecido na Irlanda como Domingo Sangrento (Bloody Sunday) – quando uma tropa de pára-quedistas do Exército Britânico atirou contra protestantes inocentes - com o Domingo de Páscoa, o evento central das duas religiões - Católica e Protestante - que estavam em guerra no nosso país. É provocativo, mas eu acho que nós não fomos bem sucedidos. Muitas das nossas músicas eram grandes idéias, mas nós ainda não tínhamos maturidade para desenvolvê-las com toda a sua complexidade, então nós apenas nos insinuávamos para elas. É uma música cuja eloqüência está mais no seu poder harmônico do que na sua força verbal.
LARRY: As músicas deixaram de ser vagas e pareciam estar um pouco mais concisas. Edge tinha realmente assumido o papel de diretor musical e Steve Lillywhite entendeu a proposta e parecia mais seguro como produtor, o que não quer dizer que tenha sido fácil. Em ‘Sunday Bloody Sunday’, Edge tinha alguns acordes de guitarra, Bono tinha composto algo, então nós fomos para Windmill. Sempre parecíamos começar as gravações antes de terminar de escrever, então nós ensaiávamos até que a luz vermelha se acendia e podíamos começar a gravar. Não dava certo, então nós voltávamos e ensaiávamos um pouco mais. ‘Ok, estamos prontos agora.’ E aí continuávamos.
Eu me lembro de estar fazendo um solo de bateria quando Bono disse, ‘Não, isso não é o que você fez agora à pouco.’ Então eu disse, ‘Não, não, é a mesma coisa.’ E ele insistiu, ‘Não, não é,’ e começou uma briga sobre se a parte da bateria era a mesma que eu tinha feito três vezes antes. Isto me lembrava das famosas fitas Troggs. Bono achava que o som lembrava uma coisa e eu achava que o som parecia uma outra coisa, e é lógico que não havia uma maneira de sabermos porque nós não tínhamos gravado. Mas gastamos horas discutindo sobre isso. Depois disso tudo passou a ser gravado.
BONO: Em uma música do U2, o gancho não é necessariamente a guitarra, nem mesmo a melodia. Deve ser a bateria. E em ‘Sunday Bloody Sunday’, foi definitivamente a bateria do Larry que trouxe a harmonia para a música.
LARRY: É a influência da banda marcial. O ritmo da bateria militar. Meu ano na Post Office Workers Band finalmente foi recompensado.
EDGE: Eu peguei emprestado um amplificador Fender que nos forneceu alguns sons glaciais e rígidos. Nós queríamos que as músicas fossem mais cruas, queríamos trazê-las de volta à Terra , então foi uma decisão consciente abandonarmos o eco.
ADAM: Nós queríamos algo que fosse mais abrasivo, que estivesse mais na cara, mais rua ao invés de estádio. Eu acho que por causa do modo como estávamos nos apresentando no palco, as pessoas começaram a associar a banda aos estádios, àqueles gestos grandiosos. Eu acho que tentamos minimizar isto.
LARRY: Steve realmente queria que eu usasse um click track. Eu definitivamente não estava com vontade. Eu tinha tomado a posição ingênua de que qualquer baterista que valesse o seu suor devia ser capaz de tocar no tempo perfeito. Eu tive sorte de encontrar Andy Newmark, um baterista que eu gostava muito, em uma viagem para Londres. Eu contei a ele sobre minha situação e sobre como eu me sentia por estarem pedindo que eu traísse a ‘minha arte’. Ele sorriu largamente e disse que nunca tocava sem um click track. Era isto. Eu voltei para Dublin com a minha recente descoberta. E de repente gravar ficou muito mais fácil.
EDGE: Uma manhã, no meu caminho para o ensaio, eu estava parado no ponto de ônibus com a minha guitarra. Um cara apareceu trazendo um porta-violino. Ele provavelmente tinha uns dezenove anos. Ele disse, ‘Você é do U2. Você já pensou em ter violino no seu álbum?’ Três dias depois Steve Wickham estava em Windmill Lane com seu violino. Eu acho que era a primeira sessão de gravação dele, mas a sua presença era absolutamente fantástica porque ele tinha uma energia muito positiva. Ele ficou no estúdio apenas durante a metade de um dia, mas nós gravamos ‘Sunday, Bloody Sunday’ e ‘Drowning Man’.
BONO: ‘Drowning Man’ é uma faixa do Edge e uma parte do baixo do Adam. Ela tem um ritmo meio obscuro, como um 5/8, e eu improvisando à la Van Morrison, gemendo conforme as Escrituras. As letras das músicas ainda eram uma luta. Eu realmente não estava gostando de escrever em um caderno. Eu acordava na cama em posição fetal, e Ali dizia: ‘O que está errado?’ Eu respondia para ela, ‘Eu não quero levantar da cama.’ E ela falava, ‘Você não quer escrever, é o que você quer dizer.’ Eu ainda não tinha me apaixonado pela palavra escrita. Eu estava me forçando a escrever, mas não estava fazendo um trabalho muito bom, porque eu meio que me rebelava contra isso. Ali estava literalmente me botando para fora da cama de manhã, colocando a caneta na minha mão.
Era muito solitário compor músicas. Eu sempre encorajava o Edge a escrever, mas ele não estava realmente interessado. Mesmo assim ele compôs uma parte de ‘Seconds’, foi ele quem escreveu a linha It takes a second to say good bye. ‘Seconds’ é particularmente pertinente hoje em dia porque ela apresenta a idéia de que em determinado ponto, alguém, em algum lugar, colocaria as mãos em material nuclear e construiria uma bomba em um apartamento em uma capital do ocidente. Isto foi a vinte anos atrás, mas eu não chamo isso de profecia, eu acho que era óbvio.
EDGE: Eu canto o primeiro verso, provavelmente porque eu compus a letra para aquela sessão. Na verdade eu sempre imaginei que o Bono ia cantar. Mas ele disse, ‘Você canta este, eu vou fazer um outro verso.’ Então ele escreveu o segundo verso e cantou.
BONO: Eu amo quando o Edge canta. As pessoas confundem nossas duas vozes.
ADAM: ‘New Year’s Day’ começou como uma sessão de checagem de som. Eu basicamente estava tentando tocar ‘Fade To Grey’ do Visage, e tentando encontrar o intervalo correto. Algumas vezes nossos erros são nossos melhores trunfos. Nós gastamos muito tempo tentando conectar o baixo com a parte do piano e depois combinando as mudanças nos acordes com a melodia. Em termos de composição, é como se o som do baixo ainda estivesse procurando uma melodia.
BONO: É apenas uma linha de baixo assassina, e o corte de cabelo do Adam é a prova real disso. Ele estava em Londres e se considerava vagamente favorável ao movimento New Romantic. Então ouça ‘Fade To Grey’, a faixa de Steve Strange, e você vai ter um pequeno vislumbre de ‘New Year’s Day’. Mas era uma parte de baixo muito melhor do que qualquer coisa que estava sendo apresentada na época.
LARRY: Quando eu ouço ‘New Year’s Day’ no rádio, não posso deixar de pensar, ‘Que música maravilhosa. O que aconteceu com a parte da bateria?’ É tão tranqüila e linear. Com um pouco mais de tempo gasto nessa música, eu teria conseguido algo mais criativo. Eu me lembro uma vez, eu estava sentado em algum lugar, a música começou a tocar e eu ouvi dois caras (bateristas obviamente), dizendo, ‘Essa bateria é tão chata, Duh-duh-duh-duh.’
BONO: A letra da música circula em torno de imagens. Eu estou pensando em Lech Walesa, o líder da Solidariedade Polonesa. A imagem dele, em pé sobre a neve, um sentimento de que tendo abandonado a banda por Deus, nós queríamos começar de novo. E nós começaríamos mais uma vez, de um modo diferente, repetindo um lema que nós continuaríamos pelo resto das nossas vidas. ‘I will begin again. I will begin again’. A neve como uma imagem de rendição e cobertura e esses pequenos vislumbres de narrativa, na verdade, eram apenas desculpas para o tema que era Lech Walesa sendo preso e sua mulher sendo impedida de vê-lo. Depois, quando nós tínhamos gravado a música, eles anunciaram que a lei marcial seria suspensa na Polônia no Dia de Ano Novo – incrível. Eu fiz cinco ou seis versos para aquela música sem escrever a letra, diferentes faixas foram combinadas com versos distintos e Steve Lilywhite escolheu os que estão na música. Mas eles foram compostos completamente ao microfone. Tudo o que importava era falar oralmente, ‘Abram meus lábios, e minha boca cantará teus louvores daí em diante’. Era onde estávamos naquela época. Nós éramos como os Quacres (membros de uma seita protestante), esperávamos sentados até que um espírito nos movia. Nós éramos um bando de lunáticos – mas não estávamos errados.
ADAM: Kid Creole e os Coconuts eram músicos novaiorquinos que estavam na cidade. Nós convidamos um tocador de trompete para trabalhar em uma música chamada ‘Red Light’. Achamos que isso ia dar nova vida ao som da banda.
BONO: As cantoras vieram também. Três Coconuts. Elas eram tão quentes. Todos começaram a transpirar, a temperatura no estúdio ficou alta por todo o tempo. O estúdio foi iluminado de vermelho como fonte de inspiração, e uma Coconut tirou a blusa e cantou vestida com o que parecia ser um sutiã de bailarina. Os garotos da Irlanda quase ficaram sem fôlego.
EDGE: No último dia da nossa sessão, trabalhamos por toda a noite, eram seis da manhã, mas ainda sentíamos que faltava uma música. E então, para o nosso horror, a próxima sessão chegou. Era uma banda chamada Minor Detail que estava agendada no estúdio para as oito horas. Eles chegaram cedo só para checar o ambiente e se prepararem para seu início às oito. E nós ficávamos dizendo: ‘Mas nós não terminamos o nosso álbum. Vocês sabem, nós estivemos aqui durante as últimas oito semanas. Esta é a nossa última manhã. Vocês começam às oito? Vocês estão brincando! Podem nos dar mais algum tempo?’ Eles não estavam nos ouvindo. Nós tínhamos duas horas e isso era tudo. Então dissemos: ‘Ok, temos que fazer mais uma música. Como vai ser?’
Havia outra música que nós tínhamos trabalhado e eventualmente abandonado. Ela tinha um baixo muito forte, tinha uns arranjos um pouco pesados com muitas sessões estranhas e trocas de tempo, mas nós falhamos em colocar isso tudo junto em uma música coerente. Alguém disse, “Vamos trabalhar naquela melodia, e ver o que nós podemos fazer com ela.” Decidimos retirar as batidas que não estavam funcionando – literalmente, então o Steve fez rapidamente algumas edições múltiplas e tirou qualquer sessão que parecia não fazer parte da idéia principal. Então no final nós tínhamos um pequeno pedaço de música pouco comum e dissemos, “Ok, o que nós iremos fazer com isso?”, o Bono disse, “Vamos fazer uma passagem do salmo”. Abriu a Bíblia e achou o salmo 40. “É isso. Vamos fazer isso.” E em quatorze minutos nós trabalhamos os últimos elementos da melodia, o Bono cantou e mixamos. E literalmente, após terminar a mixagem, nós saímos pela porta e a próxima banda entrou.
(Continua...)
Créditos: Mila Hewson.
SIMONE BIANCHINI
15/05/2007, 19h49
agradeço por ter dado essa oportunidade de saber mais sobre essa banda maravilhosa,pois meu inglês não é dos melhores.OBRIGADA
Mysterious girl
15/05/2007, 21h50
LARRY: Em São Francisco, havia um jornalista ativista homossexual, que trabalhava para uma revista chamada Mother Goose, e ele era um grande fã do U2. Acho que foi ele que mencionou que muitas pessoas da comunidade homossexual acreditavam que o garoto na capa do álbum tinha uma conotação homossexual e, além disso, pensavam que o garoto era eu. Por isso, quando fomos para São Francisco, houve uma certa polêmica em torno de mim, o que me irritou profundamente. Foi complicado me sentir à vontade com aquele tipo de atenção. A minha primeira reação foi ficar puto da vida. Eu estava sendo descrito como um ícone homossexual. “Mas o que é isso?” Até que acordei e pensei: “Mas isso é fantástico. Sinto-me lisonjeado.”
Fico só imaginando como o Larry ficou puto... :lol: Imagina a cara dele... :lol:
*O termo groupie quem inventou foram Keith Richards e Bill Wyman, lá nos anos 60 pra designar as menininhas que faziam de tudo pra chegar perto (bem perto mesmo, do jeito que você está imaginando :assobio: ) de seus ídolos. Elas não queriam saber muito da música dos caras, queriam mesmo é eles.:lol:
Muito esclarecedora a sua explicação... :lol:
*O termo groupie quem inventou foram Keith Richards e Bill Wyman, lá nos anos 60 pra designar as menininhas que faziam de tudo pra chegar perto (bem perto mesmo, do jeito que você está imaginando :assobio: ) de seus ídolos. Elas não queriam saber muito da música dos caras, queriam mesmo é eles.:lol:
Muito esclarecedora a sua explicação... :lol:
Mais didática, impossível... :lol: :lol: :lol:
Bonolocks
15/05/2007, 22h15
Muito esclarecedora a sua explicação... :lol:
Originalmente Escrito por Kite http://www.ultraviolet-u2.com/foruns/images/uv/buttons/viewpost.gif (http://www.ultraviolet-u2.com/foruns/showthread.php?p=233544#post233544)
Mais didática, impossível... :lol: :lol: :lol:
:lol: :lol: Essa foi uma contribuição da nossa amiga Su Scout. Minha reação foi a mesma quando ela me enviou essa definição. Dezzz!!!:aprovado: :lol:
:lol: :lol: Essa foi uma contribuição da nossa amiga Su Scout. Minha reação foi a mesma quando ela me enviou essa definição. Dezzz!!!:aprovado: :lol:
Muito boa mesmo! :lol:
Devo parabenizar e agradecer a equipe que tem disponibilizado este conteúdo. Não vou citar os nomes para não esquecer de ninguém e ficar me sentindo injusta, mas vcs todos têm uma enorme admiração minha.
Eu tenho o u2 by u2 em inglês, e apesar de meus conhecimentos nessa língua terem melhorado bastante no ultimo ano, a ponto de já ter conseguido ler dois livros, este é particularmente difícil, por isso levaria muito tempo para terminá-lo, além do que nada comparado com a leitura numa língua que se domina.
Obrigada!!! A todos vcs.
PAUL: ... Planejamos turnês em todos os detalhes, discutíamos como seriam os shows, os espaços, para quantas pessoas íamos apresentar. Tínhamos uma política de shows bastante conservadora. Queríamos ter a casa cheia, por isso, apresentávamos em lugares que fossem pequenos para a banda e não agendaríamos um segundo dia se achássemos que iria ter metade da audiência. Foi algo que fizemos sistematicamente ao longo dos anos. Queria sair de cada show sabendo que muita gente não tinha conseguido assistir, pois estava esgotado.
Escomungado!!! <_<
Sem palavras!!:oh:
Muito bom!!:aprovado:
Su Scout
16/05/2007, 00h23
:lol: :lol: Essa foi uma contribuição da nossa amiga Su Scout. Minha reação foi a mesma quando ela me enviou essa definição. Dezzz!!!:aprovado: :lol:
Pois é, fã é uma coisa, groupie é outra.:D
JulianaSP
16/05/2007, 08h43
Devo parabenizar e agradecer a equipe que tem disponibilizado este conteúdo. Não vou citar os nomes para não esquecer de ninguém e ficar me sentindo injusta, mas vcs todos têm uma enorme admiração minha.
Eu tenho o u2 by u2 em inglês, e apesar de meus conhecimentos nessa língua terem melhorado bastante no ultimo ano, a ponto de já ter conseguido ler dois livros, este é particularmente difícil, por isso levaria muito tempo para terminá-lo, além do que nada comparado com a leitura numa língua que se domina.
Obrigada!!! A todos vcs.
:aprovado: :aprovado: :D
Galera, essa tarefa que tem sido tão bem feita pela equipe tem dado uma grande satisfação.
E tem sido demais acompanhar o trabalho de gravação e de como cada música surgiu no início de suas carreiras. Quero dizer, não tenho palavras prá expressar a emoção que é acompanhar toda essa trajetória.
;)
Faz um tempinho que queria comentar esse post: bom, primeiro eu nem tenho palavras pra falar sobre a grandeza do gesto de vcs ao traduzirem essa "bíblia". Vcs são absolutamente demais! :aprovado:
Bonolocks: lendo sobre como foi difícil o começo da banda, eu me peguei imaginando: o que será que passa na cabeça deles nos dias atuais, quando eles fazem shows para 70 mil pessoas?? Eu não consigo nem mensurar o tamanho da satisfação que eles devem ter ao ver o quanto eles foram longe!
Bendito o dia em que o pai do Bono, do Edge e do Adam deram as 500 libras. O pai do Larry está perdoado por não ter tido o dinheiro, pq foi ele quem sugeriu ao loiro gelado que o ensaio da banda fosse na cozinha da casa dele.:assobio:
Ana Vitti
Bonolocks
16/05/2007, 12h29
Faz um tempinho que queria comentar esse post: bom, primeiro eu nem tenho palavras pra falar sobre a grandeza do gesto de vcs ao traduzirem essa "bíblia". Vcs são absolutamente demais! :aprovado:
Bonolocks: lendo sobre como foi difícil o começo da banda, eu me peguei imaginando: o que será que passa na cabeça deles nos dias atuais, quando eles fazem shows para 70 mil pessoas?? Eu não consigo nem mensurar o tamanho da satisfação que eles devem ter ao ver o quanto eles foram longe!
Bendito o dia em que o pai do Bono, do Edge e do Adam deram as 500 libras. O pai do Larry está perdoado por não ter tido o dinheiro, pq foi ele quem sugeriu ao loiro gelado que o ensaio da banda fosse na cozinha da casa dele.:assobio:
Ana VittiOi Ana!!!
Suas palavras me arrepiaram. Também fico imaginando como deve ser para eles ver o resultado de um começo tão difícil. Exemplo incrível de persistência.
Você comentou sobre o pai do Larry e eu vou aproveitar o gancho prá vir em defesa do Paul McGuinness. Sei que muitos torcem o nariz prá ele, mas eu o admiro bastante. Afinal o U2 chegou onde chegou devido à sua maneira de trabalhar. Exemplo, dessa vez de profissionalismo. Ganhou e ganha muito dinheiro em cima disso? Bom prá ele, que anteviu o que o U2 poderia se tornar, confiou na capacidade deles e não desistiu deles só porque ninguém (nenhuma gravadora de renome) botava fé no som deles. Mas agora estão aí, graças ao esforço conjunto dos 4 mais o 5º elemento. Tiro meu chapéu prá ele.http://thelarrymullenband.com/style_emoticons/default/hi.gif
E tiro meu chapéu também prá essa equipe de digitadores e tradutores que têm nos possibilitado ler com toda a emoção acompanhante essa história magnífica.
Mysterious girl
16/05/2007, 12h47
E continua a todo o vapor.... :avião:
Parabéns para todos os envolvidos nesse MEGA projeto!!! :aprovado:
Bonolocks
16/05/2007, 14h10
E continua a todo o vapor.... :avião:
Parabéns para todos os envolvidos nesse MEGA projeto!!! :aprovado:
Se tudo correr bem até o fim de semana teremos disponível o restante do capítulo SING A NEW SONG e mais o capítulo inteiro IN THE NAME OF LOVE.;)
BETY VOX
16/05/2007, 23h46
Eu não sei mais de que formas expressar meus agradecimentos a tudo isto o que vocês estão fazendo por nós.
A solidariedade é uma dádiva,
Que torna o ser humano especial,
Vocês: todos os UVs,
São seres humanos um pouco
Mais completos, um exemplo,
De disprendimento em um mundo
Cada vez mais frio e material.
Continuem com este lindo trabalho.
Beijos pra todos.
Bonolocks
17/05/2007, 09h04
Eu não sei mais de que formas expressar meus agradecimentos a tudo isto o que vocês estão fazendo por nós.
A solidariedade é uma dádiva,
Que torna o ser humano especial,
Vocês: todos os UVs,
São seres humanos um pouco
Mais completos, um exemplo,
De disprendimento em um mundo
Cada vez mais frio e material.
Continuem com este lindo trabalho.
Beijos pra todos.
:abraço: http://thelarrymullenband.com/style_emoticons/default/give_heart2.gif http://thelarrymullenband.com/style_emoticons/default/give_rose.gif
Se tudo correr bem até o fim de semana teremos disponível o restante do capítulo SING A NEW SONG e mais o capítulo inteiro IN THE NAME OF LOVE.;)
Uau, mal posso esperar! :aprovado:
Bonolocks
18/05/2007, 09h23
Uau, mal posso esperar! :aprovado:
:) Daqui a pouquinho vai o restante de SING A NEW SONG!;)
Bonolocks
18/05/2007, 09h33
(Continuação)
Páginas 137, (138 – foto),139 e 140.
BONO: Um lindo baixo, e outra idéia poderosa. Naquele momento eu não estava ciente que as passagens dos salmos eram o real blues e que nós estávamos nos conectando com boas idéias muito profundas. Mas o canto de How long, how long must we sing this song? foi cantado por multidões por todo o mundo, alcançando um tipo de ápice no Live Aid. Durante todo o dia, depois do Queen ou do David Bowie terem tocado, você podia ouvir a multidão cantando “how long, how long”. Eu tenho certeza que algumas pessoas pensam: “Quanto tempo até eles acabarem essa maldita de música?” Mas isso simplesmente se tornou um tema de exasperação do mundo. “How long must we sing this song?”
LARRY: Nós sabíamos que tinha alguma coisa especial lá. Nós sentimos que tínhamos acabado as músicas e feito o máximo possível que podíamos fazer com o albúm. Havia uma sensação de que tínhamos alcançado tudo que tínhamos previsto.
BONO: Eu comprei um carro enquanto estávamos gravando War. Meu primeiro carro, um Fiat Uno 127 usado. Esse foi um grande passo na minha vida – Eu não precisava mais de ônibus! Uma noite eu estava dirigindo na rodovia Cedarwood, estava chovendo. Eu estava indo pra uma festa, tinha uma garrafa de vinho no banco de trás, e estava usando um casaco de pele falso e botas de cowboy com salto cubano. Eu virei a esquina e lembrei que não estava usando o cinto de segurança e resolvi começar a prendê-lo. Foi uma péssima idéia. Quando levantei os olhos, estava indo em direção a um poste telefônico e tentava frear, mas meus sapatos estavam molhados e meus pés escorregavam e eu acertei o acelerador em vez do freio. Cheguei à conclusão, naquele momento, que saltos altos não são ideais para dirigir. Bati de encontro ao poste, exatamente quando consegui colocar o cinto. Obviamente houve um enorme estrondo, porque eu o derrubei.
O poste jazia na rua, e era tanto um poste de eletricidade quanto telefônico, então todos os telefones foram cortados. Saí do carro. Não estava machucado, nem mesmo tonto. Foi estranho. Mas eu tinha sido atingido pela garrafa de vinho, que se chocou contra a parte de trás da minha cabeça, e o vinho escorria pelo meu casaco. Então, todos os prezados cavalheiros que tinham estado ao telefone e ouviram a batida apareceram às suas portas e começaram a se aglomerar em volta do carro com o popstar no casaco de pele, exalando cheiro do vinho - uma história muito simples do ponto de vista deles. Percebi que deveria ir a uma delegacia. Então fui à casa do meu amigo Reggie Manuel e pedi a ele que me levasse à delegacia. Quando Reg me levou de volta, algo medonho estava se desenrolando; havia uma multidão em volta agora, polícia, ambulâncias, e estavam erguendo o poste. E lá estava um casal, Sr. e Sra. Corless. Oh Deus! Não me lembrava de tê-los visto lá.Talvez eu estivesse sofrendo de um abalo emocional.
Acontece que eles não estavam lá quando eu acertei o poste. Na verdade, dez minutos após o acidente, eles tinham estado em volta do carro, conversando sobre o que aconteceu, com o poste caído e todos os fios espalhados pela rua. Um outro veículo passou, um cara dirigindo muito devagar, olhando a cena, e suas rodas ficaram presas nos cabos. Ele terminou por ressuscitar o poste e jogá-lo sobre os pobres e velhos Sr. e Sra. Corless. Você ficará feliz em saber que eles sobreviveram.
ADAM: Fizemos um vídeo para 'New Year's Day'. Precisávamos de neve, então o diretor sugeriu o norte da Suécia. Era básico, nós nos apresentando na neve, um pouco encobertos, de modo que você não podia nos ver muito bem. Acho que Bono pensava que para estar em um vídeo, você tinha que parecer-se com você mesmo, então ele não estava usando nem mesmo roupas térmicas, apenas as mesmas roupas que ele vestia quando desceu do avião vindo de Dublin.
EDGE: A boca do Bono quase congelou. Mas o vídeo tem uma qualidade épica, havia algo sobre aquela música que parecia conjurar imagens do Dr. Zhivago. As pessoas sempre me perguntam: 'Foi difícil cavalgar, na filmagem do vídeo?' E eu tenho que contar a elas que aquilo foi feito no dia depois que partimos. Aparentemente as quatro formas eram todas mulheres, vestidas de forma semelhante a nós.
PAUL: 'New Year's Day' foi um hit que esteve no 'Top 10' no Reino Unido em janeiro de 1983. Então em março, War ficou conhecido e tornou-se rapidamente o número 1 nos gráficos ingleses. E nós estávamos nas nuvens.
BONO: Não há nada melhor do que estar no lugar de número um, não há nada mesmo. É apenas melhor que o número dois. Estávamos no Hotel Portobello em Londres. Eu amava aquele lugar. Foi depois de um dos nossos shows de Londres; as pessoas bebiam vinho, a voz do Paul McGuinness retumbava no meio da algazarra, ele estava ligando para a América. E estava anunciando às estações de rádio que tinham adicionado 'New Year's Day' às suas playlists que nós tínhamos um hit nos Estados Unidos! Tínhamos o 1° lugar na Inglaterra. Tudo de terrível que tinha acontecido de terrível antes não era mais terrível, naquele momento.
EDGE: Quando começamos a conversar sobre o que faríamos para a turnê War, sentimos que tínhamos que tentar fazer um pouco melhor do que as turnês anteriores, que tinham sido privadas de qualquer coisa perto do que podemos chamar de design ou coerência visual.
Então encontramos um designer de palcos e esboçamos algumas de nossas idéias. Ele voltou com um simples, porém muito distinto projeto dando destaque a três bandeiras brancas.
ADAM: Eu não conseguia entender muito bem o conceito da bandeira branca - pacifismo militante. Talvez dissesse mais sobre nós do que pensávamos: somos os 'fazedores do bem' do mundo da música, e acreditamos tanto no que estamos fazendo que ficaremos de pé em frente a uma bandeira branca. Eu apenas gostava da bandeira como uma peça do teatro e do fato que ela se agitaria ao vento.
EDGE: Eu tenho que assumir algumas responsabilidades pelas bandeiras. Estávamos nos apresentando em alguns festivais europeus na turnê October como artistas juniors, e Bono praticava essa coisa freqüente de se jogar no meio da multidão e tudo o mais que apavorava Paul McGuinness. Em certa ocasião ele se apossou da bandeira e começou a acenar. Mais tarde eu disse a ele 'Aquilo foi realmente interessante. É como algo visualmente forte'. A bandeira branca parecia um belo símbolo com uma conexão com o álbum, 'Surrender' sendo uma das músicas, e elas se tornaram uma grande característica da turnê.
BONO: O set tinha bandeiras e o vídeo tinha bandeiras. Eram valores baratos de produção, mas com um certo efeito. Não podíamos pagar muito, então estávamos sempre procurando descrever-nos de jeitos um pouco diferentes, e as bandeiras eram um bom gancho visual.
EDGE: Tocamos em Belfast não muito tempo depois de termos terminado o álbum, e estávamos um pouco tensos sobre cantar ‘Sunday Bloody Sunday’ lá. Bono, sem dizer uma palavra previamente, disse ‘Cantaremos uma música para vocês agora. Se não gostarem, nunca mais a tocaremos de novo. Chama-se ‘Sunday Bloody Sunday’. E nós realmente não sabíamos o que ia acontecer.
ADAM: Acho que foi assim que ele se sentiu. Ele era o cantor, ele estava à frente.
EDGE: A platéia foi à loucura; houve uma reação totalmente positiva. Aquele foi um momento importante. Quando tocamos aquelas músicas ao vivo, houve um tipo de reação tangível, física, de cada um ali presente, inclusive minha. Era como: ‘Oh merda!’ percebendo que tínhamos algo muito denso em nossas mãos. Precisei de alguns instantes para me recuperar disso. Tivemos alguns shows realmente poderosos na turnê. Bono estava realmente presente a maioria do tempo, jogando-se no meio da platéia.
LARRY: O pensamento do Bono era: ‘A menos que eu vá atrás, não posso esperar que o público se desperte. Se tiver que ir lá e levá-los à submissão, eu irei. Vou deixar essa multidão de joelhos e vou fazê-los me responderem, e farei o que quer que eu tenha que fazer’. De algum modo, eu teria preferido tê-lo no palco, indo fundo nas músicas, tentando deixar a música falar por si só. A verdade é que a banda não era boa o suficiente para isso, precisávamos do Bono para fazer isso.
ADAM: Ninguém pediu a ele que passeasse de um jeito legal, mas quando ele o fazia, podia-se sentir o efeito disso. Era muito poderoso. Mas ele não era o melhor competidor do mundo em escalar andaimes. Seu senso de direção e equilíbrio não era o de um atleta.
BONO: O divertido é que tenho medo de altura, mas quando a música está tocando não tenho mais, e fiz coisas realmente estúpidas. ‘Electric Co’ era o grande número em que improvisávamos, eu cantava pedaços de músicas de outras pessoas e desaparecia em algum lugar. Era uma maneira de chamar a atenção do fundo da multidão, que estaria provavelmente apenas bebendo cerveja, comendo cachorro-quente, conversando com suas namoradas, tentando ver algumas formigas no palco. ‘Olhe, ele escalou o palco, e agora está correndo pelo teto. Olhe!’.
ADAM: Havia esse suspense: ‘Ele sumiu; vai fazer aquilo?’ Nós não queríamos que nada acontecesse com ele. Não queríamos que caísse, se machucasse ou ficasse paralisado. Não precisávamos que ele corresse esse risco pela banda, mas não havia conversa com ele.
BONO: Eu amava aqueles ônibus azuis. Amava sair do show e passar a noite no ônibus, movendo-me rapidamente pelas estradas da América, parando no meio da noite para um café, a proximidade com nossa tripulação.
EDGE: A cultura da Rota 66 é viva e, bem, tivemos bons tempos. Entrando em territórios secos, sem álcool – ‘Uau, ainda há partes da América em que há Proibição!’. Há coisas que sabemos; por exemplo, você entra em outro país e em cada curva da estrada há um anúncio de fogos de artifício. Em muitos lugares, fogos são ilegais, então existem esses locais onde são vendidos. Quando você começa a excursionar, descobre quão diversificado é o país dos Estados Unidos. A idéia de que é uma cultura homogênea é muito imprecisa. São centenas de culturas. O tipo de homogeneização da América que os europeus sempre desdenham é, de um modo estranho, na verdade um tipo de celebração do oposto. É o triunfo de encontrar um mesmo povo entre tantas diversas entidades étnicas, religiosas e geográficas, que forma essa coisa chamada Estados Unidos da América. É mais diverso até do que a Europa, eu acho, porque engloba da Flórida tropical aos desertos do oeste e as áreas geladas do norte.
Uma das coisas boas de que Paul McGuinness fazia uma boa idéia era que para penetrar a América você precisava, mais do que qualquer coisa, apenas estar lá e ir a esses lugares. E nós o fizemos. Fomos a partes da América que nunca tinham visto bandas européias. Nós começamos da base. A primeira vez que tocamos no Texas, abrimos para um concurso em Houston. Foi um grande aprendizado. Aprendemos mais sobre tocar ao vivo, e descobrimos que a América é um lugar com muitas visões diferentes do mundo.
PAUL: Nos tempos antes do telefone celular, a vida de ônibus era completamente diferente. Horas e horas passavam-se em mais ou menos um silêncio total. Não havia conversas intermináveis com os amigos e amados, negociações progressivas; os negócios deveriam esperar até que fizéssemos uma parada e, enquanto o ônibus estava sendo reabastecido, faríamos as duas ou três ligações telefônicas que tivéssemos que fazer e então voltaríamos ao ônibus. Ligações telefônicas eram preciosas.
BONO: Estávamos no ônibus certa noite, acho que era aniversário de alguém, talvez do Adam, e todos tínhamos caído no sono, exceto Adam, porque ele tinha comido o bolo e qualquer coisa. No meio da noite, fui acordado pelos gritos do motorista do ônibus. Adam estava parado lá, nu, tentando sair do ônibus a 70 mph. Ele queria apenas urinar, sem perceber onde estava.
LARRY: Eu acho que essas histórias das festas do Adam são um pouco exageradas. A verdade é que qualquer indulgência naquela época poderia parecer exagerada comparada com o resto de nós. Em uma escala de um a dez, o que ele era capaz de fazer estava fora de escala. Se havia um problema, era que o Adam não tinha nenhum parceiro de farra na banda, então as pessoas com quem ele acabava saindo eram desertores, guerreiros de rua que estavam por aí pelas esquinas. Mas o Adam não tinha mais ninguém. Eu quero dizer que a banda não estava sempre bebendo. Você pode imaginar? Você está numa loja de doces e esses caras não deixam você nem cheirar as balas. Dias estranhos aqueles.
BONO: Estávamos numa órbita muito diferente. Drogas, sexo, havia uma sensação ocasionalmente de que eles estavam lá, mas não eram partes do nosso mundo. Nós conhecemos, de verdade, as melhores pessoas. E o pior que podia ser dito sobre elas era que vestiam blusas de seda com números de estações de rádio nas costas.
EDGE: Àquela altura, comecei a pensar sobre toda a coisa de rockstar, e havia uma parte de mim que pensava ‘Não, não acho que vou entrar nessa’. Não confiava naquele jeito de ver a mim mesmo ou ao mundo, a adoração da celebridade ou como queria chamar isso. Eu amava o que eu fazia, mas não gostava daquela etiqueta particular de ser um astro. Estava feliz em apenas escrever e tocar músicas, e pensar mais no trabalho do que em outras coisas.
LARRY: Para mim, o sucesso era não ter mais que carregar ou ajeitar a minha bateria.
PAUL: Queríamos ser fortes em todo lugar, não apenas em uns poucos. Não tínhamos receio de tocar para grandes multidões se pudéssemos consegui-las. Era apenas uma questão de chegar lá o mais rápido possível. Red Rocks em Denver,Colorado seria o nosso maior concerto.
ADAM: Denver está no meio do país. Uma vez que você está lá, se o rádio está ao seu lado, a platéia pode ser bem entusiasmada. Tivemos uma apresentação realmente boa lá na turnê Boy, em 1981, e um organizador chamado Chuck Morris disse que nos levaria a esse lugar chamado Red Rocks, situado nas montanhas. Era um bom anfiteatro natural. A partir do momento em que o conhecemos, pensávamos ‘Algum dia tocaremos aqui.’ Era muito fotogênico. Então agora que iríamos finalmente tocar em Red Rocks, em 1983, decidimos aplicar todo o dinheiro que tínhamos em uma gravação, não que houvesse muito dinheiro.
PAUL: Trouxemos um time de produção britânico liderado por Malcolm Gerrie, que produzia The Tube, um show musical feito em Newcastle que havia dado incentivo para o U2. Era crucial ter um diretor real de rock and roll e um cameraman porque essas espécies não existiam na América. Se você quisesse um vídeo ao vivo, conseguiria um cara que filmava futebol, e o filme se pareceria com isso.
LARRY: Somente na América você poderia encontrar um lugar lindo desses no topo de uma montanha onde a gente pode fazer um show de rock. Tinha muito dinheiro envolvido nisso, todo o dinheiro que tínhamos ganhado na turnê, basicamente tudo que estava no banco. Nós achamos que estávamos bem organizados, equipes de filmagem prontas por todo lugar. Nós tínhamos trazido de Hollywood equipamentos de iluminação extra, holofotes, todo tipo de coisa. Então, no dia, começou a chuver.
ADAM: Red Rocks está a uma milha de altura, então é freqüente estar no meio de uma nuvem de chuva, o que nenhum de nós tinha levado em conta. Mas o tempo podia mudar lá, e esse era um dos períodos em que apenas chovia e chovia. Gastamos o dinheiro, tínhamos a turma da filmagem lá, e todas as luzes e câmeras e equipamentos. As pessoas de nossa produção diziam que haveria muita chuva para a aparelhagem de luz ao vivo. Nosso produtor iria à rádio anunciar ‘O concerto está cancelado, agendaremos para outra data’, mas aquilo não era na verdade uma opção. Não tínhamos o dinheiro para mudar a data. Então concedemos as entrevistas às rádios, dizendo ‘Sabemos que está chovendo agora, mas temos certeza que não estará quando o show começar, então venham, por favor’.
(Continua...)
Créditos: Nonata (ntrevia) e João Filardi.
Bonolocks
18/05/2007, 09h36
(Continuação)
Páginas (141 – foto) e 142
LARRY: Aqueles eram momentos de rachar os nervos, de roer as unhas; a maioria da equipe tava sugerindo que a gente cancelasse o show, mas no verdadeiro estilo U2, nós continuamos sem nos preocupar.
EDGE: A nossa única concessão era que faríamos uma segunda apresentação em um lugar fechado, no Boulder, pra qualquer um que não quisesse enfrentar todos esses problemas, mas nós iríamos continuar com o show independente do que acontecesse. O nosso promotor, Barry Frey, não podia acreditar no que tava acontecendo. Eu acho que ele nunca tinha ouvido falar em nada tão louco assim na vida dele, dar continuidade com um show em um lugar aberto com o tempo horrível daquele jeito, chuva e vento nas montanhas. Ele achou que nós tínhamos perdido a cabeça completamente. Mas, com a maior sorte, a chuva parou duas horas antes de entrarmos no palco, e ao invés daquele aguaceiro tinha um tipo de garoa, névoa, alguma coisa confusa no ar. Era como gelo seco de Deus. A atmosfera tava incrível.
LARRY: No final, a chuva realmente ajudou a gente. Fez tudo parecer extraordinário.
BONO: Tava um frio congelante. Tinha fumaça saindo das nossas bocas. O Edge estava achando difícil tocar guitarra porque suas mãos estavam duras do frio.
EDGE: Você pode perceber se assistir ao vídeo do Red Rocks, existem poucas cenas da platéia. A razão pra isso, é que o lugar tava só um terço cheio. Mas aqueles que estavam lá eram verdadeiros fãs e estavam tão aliviados por nós estarmos tocando, e nós estávamos tão gratos por poder tocar, e tudo isso ajudou a fazer um show realmente maravilhoso.
BONO: Após o Red Rocks, a banda foi super divulgada, porque todo mundo viu a gente tocando nesses grandes concertos na América. Na realidade tinha apenas umas duzentas e cinquenta pessoas lá. Estava uma chuva torrencial, tinha uma enorme nuvem sobre as montanhas, as pessoas não tinham certeza se o show tinha sido cancelado e então não apareceram, o lugar estava com menos da metade da capacidade. Mas do jeito que foi filmado, pareceu como se tivesse um público enorme. Onde nós estaríamos sem uma lente com uma grande angular?
No final das apresentações da turnê do War, quando a banda saia do palco, acontecia esse fenômeno das pessoas cantarem o refrão de ´Forty´: How long to sing this song? How long to sing this song? Isso era muito comovente e marcou o final de todos os melhores shows dessa turnê. Mas ninguém estava cantando naquela noite. Eles estavam todos com muito frio e não havia pessoas suficientes. Nós estávamos nos bastidores e ficamos um pouco desapontados. Tínhamos conseguido fazer esse show quando ninguém achava que conseguiríamos, teria sido bem legal ouvir a multidão cantando. E no momento que estávamos tendo essa discussão, me lembro de ter escutado uma voz aguda, baixinho começando a cantar: ´How long to sing this song?´ Eu pensei: ´O que é isso?´ ´How long...´
Dennis Sheehan, o nosso diretor de turnê, tinha pego o microfone e estava escondido atrás da barreira, tentando fazer a multidão cantar, sem ter sido pedido pra ele fazer isso. E lentamente eles começaram a cantar. Foi um momento muito divertido. A edição fez isso parecer um pouco menos organizado. Eu acho que é isso que eu realmente amo no rock´n´roll, a espontaneidade e o espírito disso, mas eu também amo a estratégia, a ilusão, a fumaça e os espelhos, o aspecto xamanístico. É uma grande sacola com todos os tipos de motivações, e no final você acaba com mágica. Contando essa história, pode parecer despojo pra outras pessoas, mas se não fosse no disco do Under a Blood Red Sky ninguém teria ficado sabendo, porque esse era o disco dessa turnê, e a multidão cantando era o seu ponto alto.
Filmar o Red Rocks custou pra gente trinta mil dólares. Esse era todo o dinheiro que nós iríamos ganhar. Era a primeira turnê que iríamos conseguir algum dinheiro, e foi nisso que nós colocamos a grana, então havia muitas apostas naquela noite.
ADAM: Aquilo foi um divisor de águas. Nós agora podemos dizer: ‘Certo, nós chegamos em um ponto onde nós somos competidores. Nós estamos no portão de entrada’.
(Continua...)
Créditos: Nonata (ntrevia).
Bonolocks
18/05/2007, 09h37
(Continuação)
Páginas 143 e 144.
EDGE: O show no Los Angeles Sports Arena podia ter sido o maior show que já tínhamos feito até aquele momento, e ele ficou um pouco fora do controle. Eu acho que um dos problemas que tivemos, foi ter que lidar repentinamente com a idéia de sermos uma grande banda e tocarmos em lugares maiores. E eu acho que, como intérprete, Bono tinha um leve senso pouco realista, no qual de alguma forma assegurava a todos que, apesar de estarmos tocando em lugares maiores, nada havia mudado. Uma das maneiras nas quais ele conseguia isso era se jogar no meio da platéia ainda mais, marcando referência acerca do contato físico com as pessoas na pista, tentando quebrar a barreira entre o palco e o auditório.
Naquela noite, tal ato consistiu em escalar parte da PA e subir a sacada que ficava em volta de todo o auditório. Então ele subiu ali, ainda cantando, e chegou até o topo, e percebeu que não havia mais aonde ir. Ele fez essa completa jornada dramática e não havia fim para essa pequena viagem no meio da audiência. Bono pode ser impulsivo no melhor momento, ele nunca consegue ser mais imprevisível do que quando ele está se apresentando em um show; e todo e qualquer bom senso sai pela porta, e ele é capaz de coisas realmente malucas. A única coisa que ele pôde fazer naquele momento foi pular da sacada e esperar que as pessoas embaixo pudessem segurá-lo. E foi uma longa queda, praticamente de um andar de altura – não estamos falando de um “mergulho” do palco até a platéia. Foi mais ou menos 6 metros de altura entre ele e a sacada. Eu não podia acreditar naquilo. Ele simplesmente pulou.
BONO: Havia fotos da minha descida de 6 metros de altura no Los Angeles Times. Robert Hilburn escreveu uma crítica na qual disse ter sido a coisa mais empolgante que ele já tinha visto – e a mais estúpida.
EDGE: Tal e qual, ele foi segurado pelas pessoas lá embaixo. Aquela fora uma visão completamente impressionante. Um momento memorável, eu tenho certeza, em ver um cantor fazendo algo obviamente perigoso, mas envolvendo tanta confiança. O único problema é que havia outras duas ou três pessoas atrás dele que decidiram fazer a mesma coisa, e eu não tenho certeza se a descida deles foi tão boa quanto à do Bono.
Felizmente, eu acho que ninguém ficou seriamente machucado. Mas isso pareceu enfatizar algo que eu creio que sempre foi verdadeiro, que é o fato de que Bono fará qualquer coisa para fazer o evento vir à tona. Tal instinto interpretativo é tão forte nele, que até o faria parar do nada. A ligação física com nossa platéia é em grande parte o que faz de nossos shows especiais. Isso é pessoal, não é simplesmente nós aparecermos e tocarmos para qualquer um que aparecesse. Há um profundo entendimento entre a banda e os fãs do U2, e estar no meio de nossas platéias sempre têm sido algo grandioso para o Bono. Nós éramos assim, mas de repente achamos que é preciso ter certo nível de senso sobre isso, certo instinto de auto-preservação, o que às vezes ele parecia não ter. O que eu quero dizer é que ele não é uma pessoa naturalmente atlética, mas devo dizer que, quando ele se apresenta você não dá crédito para as besteiras que ele faz. Claro que ficamos apavorados pelo Bono se matar em uma queda estúpida, mas a idéia de que mais alguém pudesse se machucar tornou-se imprescindível na cabeça das pessoas. Enquanto nosso público estava preocupado, ele estava fora de controle. Então houve ali uma franca troca de olhares, como se diz.
BONO: Momentos como esse, eram sempre relatados à polícia e a banda, bem como a assessoria, se sentavam e sugeriam que aquele não era o caminho a ser seguido. Mas eu sou muito “físico” e nada passivo, e nem me sentiria confortável ficando atrás do microfone em meu lugar apropriado. Eu estava interessado em um tipo diferente de cabaré, então eu iria me fingir de culpado – ‘Não faça mais isso – Sura Honra’
PAUL: Ele prometeu que não o faria mais. Mas temo eu que ele não desistiu disso completamente.
EDGE: Nós tivemos um mês de recesso em julho de 83, e assim Aislinn e eu decidimos aproveitar a oportunidade a fim de marcarmos nosso casamento. Nós não tínhamos dinheiro, então o pai de Aislinn custeou a recepção. Nós seguimos a tradição e optamos pela igreja da noiva, a Igreja Católica de Blackrock. Tal escolha envolveu uma série de sessões com nosso padre, pois eu era protestante, para que estivéssemos cientes acerca dos fundamentos: todos os filhos seriam criados mediante à fé católica, e se Aislinn começasse a gastar mais do que o necessário em mantimentos, eu não poderia ficar bravo com ela. No entanto, equipados para a vida juntos, nós nos casamos devidamente em 12 de Julho. Viajamos em lua-de-mel para o Sri Lanka. Foi maravilhoso no começo, mas daí a Guerra Civil estourou. Nós passamos alguns dias nervosos tentando voltar para o hotel em uma longa viagem na estrada, forçados a dirigir por estradas desertas após o toque de recolher do meio-dia, só para descobrir que a mesma havia sido evacuada de visitantes estrangeiros. Tivemos que esperar alguns dias para conseguir um vôo de volta pra casa. Tudo isso infelizmente foi uma previsão do rumo que o casamento iria tomar.
No meu aniversário de 22 anos, em Agosto, nós tocamos no Phoenix Park Race Course em Dublin, vinte mil pessoas, com a participação de Simple Minds e Eurythmics, um projeto maravilhoso. Aquele foi realmente um show de “retorno de heróis”, voltando para casa após ter conquistado o mundo. Nós nunca havíamos tocado em nenhum lugar maior do que aquele. Aquela fora simplesmente uma daquelas noites fantásticas, tocando para o público de casa e você não podia fazer nada errado. Todos aqueles que conhecíamos estavam lá. Jimmy Reilly, o baterista do Stiff Little Fingers, estava nos bastidores, ainda abatido pela morte de seu irmão, baleado por um soldado pára-quedista enquanto fugia de uma patrulha no oeste católico de Belfast.
Nosso diretor da turnê naquela época era outro norte-irlandês, um protestante chamado Tim Nicholson, cujo irmão estava no Exército Britânico. Dei-me conta de que no nosso camarim Tim e Jimmy estavam batendo papo sobre música, mas se seus irmãos tivessem se conhecido, eles iriam se jurar inimigos. A música une as pessoas como nada mais o faz.
BONO: Esses shows de retorno à casa são como grandes cerimônias de casamento onde você sempre irá se esquecer de convidar alguma tia ou tio, e eles nunca mais irão falar com você. Alguém sempre terá uma fileira, alguém sempre irá beber além da conta, uma criança será concebida – e eu só estou falando a respeito dos bastidores, não do grandioso lado de fora. Esses são grandes eventos tribais. Eu puxei meu pai para o palco, e ele estava sorrindo radiante. Acho que ele estava orgulhoso. Eu estava fazendo o que ele não fez. Tenho tido sorte o suficiente para viver do meu talento, mais do que apenas fazendo-o com o suor do meu rosto. Aquele foi realmente um momento de muito, muito orgulho para mim.
ADAM: Nós fizemos nossa primeira turnê no Japão, no qual foi o lugar mais alienado em que já estive. O Japão é o lugar mais próximo de se saber como a Beatlemania deve ter sido. A empolgação que os japoneses exibiam parecia incompreensível; nós estávamos sendo seguidos pelas estações de trem e em lobbies de hotel por adolescentes japoneses. Aquilo se deslocou de toda a proporção mediante a música. Mas o Japão é um país estrangeiro. Às vezes eu acho que eles vêem a cultura e a música ocidental como se fosse um desenho animado.
(Continua...)
Créditos: Cris Flor.
Bonolocks
18/05/2007, 09h41
(Continuação)
Página 145
BONO: Eu não podia acreditar no que meus olhos estavam vendo. Nós não éramos uma banda de homens, mas uma “boy-band” no Japão. Quando a gente saiu do aeroporto, havia fãs aos berros, e aonde quer que a gente fosse havia garotas soltando seus agudos: no hotel, esperando atrás dos elevadores, quando fomos andar de trem bala em Tókio. Nós estávamos neste extraordinário e veloz super-trem cromado e de plástico do futuro, nós fomos a Tókio e todas as luzes se apagaram. Nós não conseguíamos ver nada e o barulho das rodas era inacreditável. E foi aí que eu percebi que não eram as rodas que estavam fazendo barulho, mas sim os milhares e milhares de fãs que esperavam pelo trem e que agora tinham a suas caras pressionadas contra o vidro, e aí não conseguimos olhar lá fora. E eu me lembro de ter escutado um som, alguma coisa como ‘Rarry’. Digo, eu escutei ‘Bono’ e eu escutei ‘Edge’ e eu escutei ‘Adam’ mas eu escutava mais era ‘Rarry’. Quando nós saímos do trem, eu e o Larry levamos um susto e saímos correndo, com todas essas garotas adolescentes correndo atrás de nós. Nós descemos correndo as escadas da estação de trem e elas vieram rolando as escadas abaixo atrás de nós. Algumas delas estavam tropeçando em outras garotas, uma cena terrível. Nós corremos para fora, vimos um táxi e nos jogamos nele. O táxi logo estava cercado de garotas, batendo no capô do táxi, e o taxista olhava chocado para aquilo tudo. Larry se virou e começou a gritar para ele: ‘Vai, vai, vai!’ O táxi arrancou; cerca de dois quilômetros adiante, o taxista começou a falar com a gente em Japonês, e eu olhei para o Larry e ele olhou para mim. ‘Você sabe onde a gente está indo?’ ‘Eu não sei onde a gente está indo. Você sabe onde a gente está indo?’ Éramos O Gordo e O Magro. Daí o taxista começou a esticar a sua mão, pedindo dinheiro, mas nós não tínhamos nada. Então ele começou a ficar muito irritado e tentou parar o carro e jogar a gente para fora. Mas de alguma forma, depois de prometermos uma grande quantia de dinheiro, e que de alguma forma ele pareceu entender isso (ou talvez foi a ameaça de violência), ele levou a gente de volta para a estação de trem.
LARRY: Ok, houve um pouco de gritaria. Pode ser que tinha vinte meninas do lado de fora do hotel. Dificilmente do time das “boy-bands”. Mas havia alguma euforia por parte das meninas, que causou uma grande impressão nos outros três. Eu fiquei um pouco envergonhado, embora lisonjeado ao mesmo tempo. Só de estar no Japão já era uma super experiência. Parecia que nós tínhamos pousado no set de filmagem do filme Bladerunner. Era tão caro, nós não podíamos nos dar ao luxo de comer nos hotéis ou nos restaurantes. Nós tínhamos que pegar comida dos camarins para sobreviver. Nossas namoradas e esposas estavam na viagem, e eu me lembro das crianças pararem a Ann e eu nas ruas para tirarem uma foto com a gente. Não tinha nada a ver com o U2, era só porque nós dois éramos loiros. Eu acho que a gente era parte de um estudo antropológico.
BONO: Nós fomos para o Havaí na mesma viagem e fizemos um show lá. Eu nunca havia estado em um lugar tão exótico. Era muito longe de casa. No hotel Kahala Hilton havia garrafas de vinho no menu por dez mil dólares. O Ronald Reagan havia estado lá. Eu lembro de ter pensado, ‘Por que há golfinhos pulando perto da minha janela?’ O hotel foi arranjado com golfinhos nadando em canais. Como um Calvinista* reconstruído, para mim era o fim do mundo. Isso era o mais perto do errado que você poderia ir, e eu estava tentando buscar dentro de mim, me perguntando, ‘Por que eu não estou gostando disso? Por que eu me sinto tão mal? Isso deveria ser divertido’. Eu supunha que eram apenas barreiras culturais, não sendo acostumado com quão ridiculo é o sucesso e procurando achar minhas respostas para isso, que era ficar no caminho e escrever uma música sobre o Martin Luther King, coisa que fizemos.‘Pride in the Name of Love’ saiu de uma passagem de som no Havaí, a melodia e os acordes. Mais ou menos naquela época, eu conheci um jornalista da revista Rolling Stone, que havia sido muito fundamental na explosão da banda na América. Seu nome era Jim Henke; ele havia me dado um livro chamado Let the Trumpet Sound (Deixa o Trompete Soar), uma biografia do Dr. King, e outra sobre o Malcom X. Eles estavam cobrindo diferentes lados das discussões sobre os direitos civis, o violento e o não-violento. Eles foram livros importantes para mim. O álbum seguinte começou ali no Havaí, com pensamentos sobre a crueldade do homem para consigo mesmo nos meus pensamentos, e golfinhos passando pela minha janela.
__________________________________________________ ___________________
*O Calvinista é, no extremo um profundo conhecedor da Bíblia, um moralista, um puritano, que pondera todas as suas ações pela sua relação individual com a moral cristã.
Créditos: Huanita e colaboração de Suelen (Su Scout).
Mysterious girl
18/05/2007, 13h35
:avião: :aprovado:
hawkmoon269
18/05/2007, 18h14
Ótimo!Otimo!Ótimo!!
:aprovado::D
Adri Soul Love
18/05/2007, 23h09
(Continuação)
Página 145
BONO: E eu me lembro de ter escutado um som, alguma coisa como ‘Rarry’. Digo, eu escutei ‘Bono’ e eu escutei ‘Edge’ e eu escutei ‘Adam’ mas eu escutava mais era ‘Rarry’. Quando nós saímos do trem, eu e o Larry levamos um susto e saímos correndo, com todas essas garotas adolescentes correndo atrás de nós. Nós descemos correndo as escadas da estação de trem e elas vieram rolando as escadas abaixo atrás de nós. Algumas delas estavam tropeçando em outras garotas, uma cena terrível. Nós corremos para fora, vimos um táxi e nos jogamos nele. O táxi logo estava cercado de garotas, batendo no capô do táxi, e o taxista olhava chocado para aquilo tudo. Larry se virou e começou a gritar para ele: ‘Vai, vai, vai!’ O táxi arrancou; cerca de dois quilômetros adiante, o taxista começou a falar com a gente em Japonês, e eu olhei para o Larry e ele olhou para mim. ‘Você sabe onde a gente está indo?’ ‘Eu não sei onde a gente está indo. Você sabe onde a gente está indo?’ Éramos O Gordo e O Magro. Daí o taxista começou a esticar a sua mão, pedindo dinheiro, mas nós não tínhamos nada. Então ele começou a ficar muito irritado e tentou parar o carro e jogar a gente para fora. Mas de alguma forma, depois de prometermos uma grande quantia de dinheiro, e que de alguma forma ele pareceu entender isso (ou talvez foi a ameaça de violência), ele levou a gente de volta para a estação de trem.
LARRY: Nossas namoradas e esposas estavam na viagem, e eu me lembro das crianças pararem a Ann e eu nas ruas para tirarem uma foto com a gente. Não tinha nada a ver com o U2, era só porque nós dois éramos loiros. Eu acho que a gente era parte de um estudo antropológico.
Créditos: Huanita e colaboração de Suelen (Su Scout).
Muito obrigado gente:aprovado: Dei boas risadas com essas partes:lol:
followerU2
18/05/2007, 23h20
Falamos desse mutirão no último podcast também :sim:
Muito legal galera! Solidariedade e amor à camiseta. Fã do U2 é mesmo muuuuuuuito especial :aprovado:
MT
mais uma vez: parabéns a todos que estão trabalhando na tradução!:lol:
hawkmoon269
19/05/2007, 04h57
Falamos desse mutirão no último podcast também :sim:
Muito legal galera! Solidariedade e amor à camiseta. Fã do U2 é mesmo muuuuuuuito especial :aprovado:
MT
exatamente!palavras corretas follower!!:aprovado:
UAU! Até fico admirada com a nossa rapidez! Já digitei a primeira pagina do capitulo sobre a tour da Joshua Tree... e isso já vai a sensivelmente metade do livro!
Obrigada pelo apoio e força para que continuemos a este ritmo! Rapidamente iremos terminar esta jornada e esperemos que apreoveitem ao máximo! :) Tem sido gratificante para todos! E acredito que depois disto iremos continuar digitando e traduzindo outras obras para que todos possamos ter acesso!
Beijos
JO//
Bonolocks
19/05/2007, 10h21
UAU! Até fico admirada com a nossa rapidez! Já digitei a primeira pagina do capitulo sobre a tour da Joshua Tree... e isso já vai a sensivelmente metade do livro!
Obrigada pelo apoio e força para que continuemos a este ritmo! Rapidamente iremos terminar esta jornada e esperemos que apreoveitem ao máximo! :) Tem sido gratificante para todos! E acredito que depois disto iremos continuar digitando e traduzindo outras obras para que todos possamos ter acesso!
Beijos
JO//
:aprovado: :aprovado: :aprovado:
JulianaSP
19/05/2007, 12h48
Eu não sei mais de que formas expressar meus agradecimentos a tudo isto o que vocês estão fazendo por nós.
A solidariedade é uma dádiva,
Que torna o ser humano especial,
Vocês: todos os UVs,
São seres humanos um pouco
Mais completos, um exemplo,
De disprendimento em um mundo
Cada vez mais frio e material.
Continuem com este lindo trabalho.
Beijos pra todos.
Nós que agradecemos......é maravilhosoooo saber que estão gostando, e poder compartilhar esse livro com vcs faz toda a diferença:D
É mtooo gratificante fazer parte dessa equipe incrível!!:aprovado:
Bjuuus
Bonolocks
19/05/2007, 22h00
__________________________________________________ _________________
Página 146
1984-1985
IN THENAME
OFLOVE
__________________________________________________ _______________
Páginas 147 e 148.
ADAM
ESTÁVAMOS COMPRANDO NOSSAS PRIMEIRAS CASAS. EU COMPREI UMA PEQUENA CASA EM RATHGAR, ONDE VIVI COM MINHA NAMORADA SHEILA ROCHE, DURANTE UNS DOIS ANOS.
A SHEILA COMEÇOU A TRABALHAR NA PRINCIPLE E TORNOU-SE BRAÇO DIREITO DO PAUL. ERA UMA CASA COMUM, MAS ERA ÓTIMO TER UM LUGAR SÓ MEU, ONDE PODIA DORMIR ATÉ TARDE SEM TER OS PAIS RESMUNGANDO.
EDGE: A minha vida era realmente diferente da dos outros. Eu e a Aislinn tínhamos uma casa em Monkstown. Entretanto ela engravidou. Lembro que contei à banda sobre esse importante acontecimento. Não foi fácil, e a novidade agitou um pouco os relacionamentos durante uns tempos. Não fazia partes dos planos e os membros da banda devem ter pensado que o futuro deles estava comprometido. Entretanto ultrapassaram essa fase e a banda seguiu em frente sem qualquer problema, mas criar uma família me obrigou, sem duvida, ter os pés bastante firmes na terra. Durante aqueles dias de ascensão à fama, foi muito bom que um de nós tivesse os pés no chão.
LARRY: Eu continuava vivendo na casa dos meus pais. Não queria uma casa, pagar uma hipoteca e ficar em uma situação onde o banco pudesse me tirar tudo. No fundo achava que tudo isso podia não durar para sempre. Além disso, eu não estava em condições de ir morar com a Ann. Achava que por enquanto podia continuar vivendo com meu pai, era feliz assim e, de qualquer maneira, ficava pouco tempo lá. Era só eu e ele, sem muita coisa para dizer um ao outro, cada um seguindo a sua vida. Era, provavelmente, um relacionamento irlandês bastante comum. Decidi que ia esperar, e assim fiz até o meu pai casar novamente. Comprei a minha própria casa no lado norte de Dublin e desde então moro lá. Foi nessa época que fiquei conhecido como Larry Mullen Junior. O meu pai recebeu uma notificação fiscal informando que devia 600 libras (cerca de 870 euros) em um período de três meses por rendimentos obtidos. Foi complicado para ele convencê-los de que ele não era o Larry Mullen em questão. Depois me disse: “Tem que haver uma mudança. Tem que mudar o seu nome para Larry J Mullen ou Laurence J Mullen ou outra coisa qualquer.” E então, decidi acrescentar o Junior, para que o meu pai não continuasse recebendo minhas notificações fiscais.
BONO: Eu e a Ali compramos uma casa no centro balneário de Bray, no sul de Dublin. Mas não é bem uma casa, é aquilo que chamamos Martello Tower, um pequeno forte circular construído para a defesa da costa no inicio do século XIX. As paredes são de granito com dois metros de espessura. O quarto fica no alto da torre, em uma estrutura de vidro semelhante a um farol, a cozinha é no piso térreo. É um local extraordinário para se viver. E a banda até chegou a ensaiar lá, tal como antes naquela casinha à beira-mar.
Foi onde criamos algumas músicas: ‘Pride’, ‘Unforgettable Fire’ e a ‘Sort of Homecoming’. Sabíamos que o mundo estava preparado para receber os herdeiros do “The Who”. Só tínhamos que continuar fazendo o que fazíamos e nos tornaríamos, sem dúvida, na maior banda desde o Led Zeppelin. Mas havia alguma coisa que não estava bem. Nós achávamos que a nossa dimensão estava acima de sermos meros seguidores de alguém, tínhamos algo único para oferecer. A inovação que iria sofrer se decidíssemos trilhar o caminho tradicional do rock. Nós procurávamos outra dimensão.
EDGE: Tínhamos feito três álbuns com o Steve Lillywhite e tanto ele como nós chegamos à conclusão de que era hora de avançar. Estávamos absolutamente convencidos de que não iríamos repetir a mesma fórmula. Era muito previsível. Por isso, começamos a conversar sobre quem iríamos contratar para trabalhar conosco.
ADAM: Procurávamos algo mais verdadeiro, mais artístico. O nome Roxy Music estava sempre vindo à cabeça, no sentido de que esse era o território sônico da música pop européia em contraste com o rock americano. Rhett Davies tinha produzido os Roxy e nós marcamos uma reunião com ele, que acabou não dando em nada. Entretanto, começamos pensar no Brian Eno, que tinha sido tecladista dos Roxy Music e que depois tinha produzido o Bowie e os Talking Heads.
EDGE: É evidente que o Bowie era uma grande influência para todos nós, mas eu também tinha ouvido os discos de solo do Eno, a sua música ambiental e outros trabalhos estranhos. ‘Before and After Science’ era um dos preferidos.
LARRY: Achei que era uma excelente idéia contratar alguém que nos ajudasse desenvolver de uma forma diferente. Tínhamos feito um bom trabalho com músicas de três acordes, mas precisávamos de alguém que encaminhasse as nossas músicas em outra direção, que acrescentasse novas texturas e explorasse novas formas de utilização no estúdio.
PAUL: Steve tinha a teoria de que as bandas deviam mudar de produtor com freqüência, o que realmente não abonava a seu favor. Pediram que eu contratasse o Brian Eno, que era uma pessoa muito reservada. Ele disse que já não era mais produtor, era um artista de vídeo e não estava interessado em produzir discos. Lembro que o Bono ficou muito irritado e disse: “Ponham-no ao telefone. Eu falo com ele.”
BONO: Eu falei com ele ao telefone. Ele me disse: “Desculpe, mas não estou mais interessado em produção. Estou prestes a me aposentar.” E eu disse: “Você não esta percebendo. Nós queremos produzir discos como nunca ninguém fez antes. Não queremos fazer em estúdio. Queremos fazer longe dos lugares onde vivemos como na Martello Tower em Bray.” Ele retorquiu: “Esta brincando com isso. Eu estou tão farto dos estúdios, que ando a procura de uma nova forma de produzir discos.” E eu disse: “Então, produza conosco.” E ele disse: “Não, não posso. Estou prestes a me aposentar. Sou um artista visual e tenho outras ambições para a minha vida.” E eu insisti: “Não pode recusar sem nos conhecer primeiro.”
PAUL: O Eno concordou em vir à Dublin, houve uma enorme discussão amigável no almoço. O Brian tinha trazido seu colega engenheiro de som, o Daniel Lanois, com a clara intenção de lhe passar a pasta.
EDGE: Mais tarde, o Brian nos disse que já havia decidido que não ia aceitar, e que só tinha vindo à Dublin, porque se sentiu na obrigação. Mas o Danny Lanois estava interessado, por isso, o Brian ia ajudá-lo a organizar as coisas e depois ia embora.
BONO: Descrevemos a nossa idéia. Mostramos ‘Under A Blood Red Sky’ do show de Red Rocks, e os olhos deles ficaram arregalados de espanto. Agora compreendo como deve ter sido assustador para ele ver a imagem de uma banda de rock em ascensão. Mas houve alguma coisa no espírito da banda que lhe despertou interesse.
EDGE: Falamos de diversas abordagens de gravação, nomeadamente sobre o ambiente, no sentido de tentar captar não apenas a exibição, mas também a interação sônica das pessoas na sala.
Acho que o Brian ficou muito interessado nisso. Também discutimos a possibilidade de arrumar um espaço com uma boa acústica, da qual nos serviria como característica natural da gravação.
(Continua...)
Créditos: Juliana Oliveira (JulianaSP).
Bonolocks
19/05/2007, 22h02
(Continuação)
Páginas 149, (150 – foto) e 151.
PAUL: No final do almoço, o Brian e o Danny concordaram em trabalhar juntos no álbum. A namorada do Brian, com quem mais tarde se casou, Anthea Norman Taylor, representava ambos e nessa época determinamos que não deveríamos pagar o dobro por termos dois produtores. Assim, eles trabalhariam em conjunto, representados por ela, e dividiriam o dinheiro conforme entendessem. Naquela época, o Chris Blackwell, que se mantinha sempre silencioso nesses assuntos, entrou em contato conosco e tentou fazer com que mudássemos de idéia.
EDGE: O Chris Blackwell nos falou: “Tem certeza que querem trabalhar com o Brian Eno?” Constava que ele tinha ido a Island Records com um dos projetos artísticos. Acho que era uma música chamada ‘Bird List’, na qual o Brian recitava nomes de pássaros: “Águia-pesqueira....Gaivota...Tordo”. O Chris temia que o Brian pegasse nessa banda, que estava destinada a conquistar o mundo, e a enterrasse sob uma camada de absurdos vanguardistas.
PAUL: O Chris se deixou arrebatar pelo entusiasmo da banda e nós decidimos ir em frente e fizemos o álbum com o Brian e o Danny. Eles vieram para Dublin e moraram num barracão no fundo do meu jardim em Monkstown, durante algumas semanas.
O Windmill Lane Studios, onde tínhamos gravado os primeiros álbuns, era um lugar complicado para a banda trabalhar, porque, embora houvesse bastante espaço para os instrumentos, as pessoas mal cabiam lá dentro. Entretanto andei procurando um espaço para a banda ensaiar, e o melhor que encontrei foi o salão da igreja em Ranelagh. Era bastante caro, e um dia mencionei esse fato a Lord Henry Mountcharles, que me disse: “Esqueçam isso. Eu arranjo um lugar para ensaiarem e não cobrarei nem a metade.” Lord Henry morava no castelo de Slane, onde a banda já havia feito show com os Thin Lizzy e ele tinha ficado amigo do Adam. Colocou o castelo a nossa disposição para os ensaios e também nos fornecia refeições no restaurante do castelo. Ainda nos disponibilizou camas para se quiséssemos passar a noite lá.
Havia uma espécie de compromisso; contávamos as pessoas que passavam lá a noite e pagávamos cinco libras (cerca de 7 euros) por cada uma. Os elementos da banda chegaram à conclusão de que era extraordinário trabalhar naquele ambiente, e levaram para lá os equipamentos de gravação para o álbum. O salão de dança gótico do castelo foi originalmente construído como sala de música e revelou-se um excelente local para fazer as gravações. Mandamos vir algum equipamento portátil de Nova York e foi assim que fizemos o álbum
BONO: O som é magnífico. Se Phil Spector ficasse em câmara ardente, seria lá. E nós tínhamos uma idéia bem clara na nossa cabeça: a nossa música será marcante. Nós somos assim. Não somos comuns, não somos infelizes, estamos repletos de alegria e vamos começar onde Phil Spector ficou. Grandes idéias, grandes temas, grande som. Vamos correr riscos e provar até que ponto uma banda rock pode ser polivalente. E temos o Brian Eno como nosso produtor. O Brian chega com aquele ar de um arquiteto dos anos 80, gravata de couro, casaco de couro, careca brilhante, olhar penetrante, e uma coisa que não se via muito, mas que estava lá: humildade. Colocou-se à nossa disposição. Um grande artista e fabuloso estrategista que veio trabalhar com uns desajeitados garotos irlandeses. Ele estava sempre acompanhado pelo seu amigo, Daniel Lanois, que tinha mais música no dedo mindinho do que o Brian no corpo todo. Um verdadeiro irmão do soul, o tipo branco e frágil de todas as bandas rítmicas, um cara que exala música.
A combinação era perfeita. O Larry e o Adam, embora se sentissem inseguros em estúdio, começaram de repente a se entusiasmarem com esse canadense, esse Danny Boy, que conseguiu realçar o que eles tinham de melhor. Eu e o Edge, que éramos mais dados ao intelecto, sentíamos atraídos pelas idéias brilhantes do Brian. Todas as grandes bandas de rock da época da invasão britânica freqüentaram escolas de arte. Nós não, nós tínhamos o Brian. E a sua atitude foi de uma grande generosidade. As seqüências de arpejo que se ouve em ‘Bad’ e mais tarde no ‘Joshua Tree são dele. Ele catalisou a nossa composição musical, permitiu que passássemos das cores primarias do rock para outro mundo onde podíamos, de fato, descrever aquilo que se passava à nossa volta. Foi monumental.
EDGE: Acho que fomos generosos com o Brian, uma vez que não o impedimos de dispor daquilo que já tínhamos conseguido até aquela altura. Estávamos com muita vontade de aprender e não tínhamos qualquer vaidade em relação ao nosso som ou a forma como trabalhávamos. Nos entregamos de corpo, alma e coração a essa nova abordagem. Já tínhamos algumas músicas boas que preparamos antecipadamente, por isso encaramos o futuro próximo com confiança.
Um dia chegamos ao estúdio e o Brian e o Dan tinham diminuído a velocidade da faixa ‘A Sort of Homecoming’ e a apresentaram como um ponto de partida. O Bono foi para o microfone e começou improvisar a letra e a melodia. ‘A Sort Of Homecoming’ devia ter uma duração normal de quatro minutos e quarenta. Isso a meia velocidade, pois a faixa completa tinha cerca de nove minutos. Foi extraordinário, o Bono fez aparecer, como que por encanto, alguns momentos fantásticos, mas ficou extenso. Por isso, editei a música e a cortei até ter um tamanho razoável para passarmos para a fase seguinte. O Brian a ouviu e disse: “Sabem o que mais? Esta pronta. Não precisa de mais nada. Eu sei que não tem uma letra certa. É uma torrente improvisada do consciente, mas é puro desempenho e devemos aceita-lá como um momento que foi captado.” E essa passou sendo ‘Elvis Presley in América’.
BONO: Isso é mais uma obra-prima ou talvez apenas pretensa arte. Ali estava aquele belíssimo retrato harmônico. Uma canção tão arrastada que parecia o som do cérebro de alguém cheio de valium, que não consegue tocar nas coisas que estão mesmo à sua frente. Alguém tão embriagado de analgésicos, alguém muito parecido com o Elvis Presley. Por isso, é uma névoa, um murmúrio, mas como é que alguém se atreve a dar o nome Elvis Presley in América a uma música sem explicação? Concordo com o Dave Marsh, o grande crítico de rock, disse que essa era a melhor canção alguma vez desperdiçada.
O álbum ficou muito bom, mas irregular, as letras não eram grande coisa, porque o Brian, Danny e o Edge não estavam muito interessados nas letras. Queriam conservar meu “Bongolês”. E me perguntaram: “Pra que escrever letras? Para que se dar a esse trabalho? Isso tem que vir com o sentimento. Imagina que você é japonês, que é italiano, que é galês, que é do ocidente da Irlanda, você ouve a música com o coração, não é com a cabeça.” E eu, feito idiota, acreditei naquilo e não cheguei a terminar as grandes músicas como ‘Bad’. Clássicos como ‘Pride in the name of love’ não passaram de esboços.
EDGE: O Brian não estava de modo algum limitado pelo pensamento que prevalecia na música daquele tempo. Os seus pontos de referência eram muito diversificados. Incluíam arte e filosofia contemporâneas, pensamentos e idéias que estavam realmente fora do âmbito do rock’n’roll. Gostávamos disso, porque as discussões eram muito interessantes, mas também tivemos os nossos desentendimentos. Quanto mais convencional fosse a música, menos interessado o Brian ficava. Não mostrava muito interesse em ‘Pride’ ou ‘Unforgetable Fire’, mas o Danny estava lá para substituí-lo, por isso os dois se completavam muito bem.
O Brian era de longe, menos exigente do que eu imaginava, mas resmungava muito, sobretudo da comida. A cebola era uma espécie de um tema secundário durante as nossas sessões no castelo. O Brian estava sempre dizendo: “Não quero cebola na minha salada, por favor.”
Acho que o pessoal da cozinha ficou irritado com ele após a 14º reclamação, porque de um momento para o outro havia cebolas em tudo, até nos cereais do café da manhã.
Regra número um quando se faz as gravações num estúdio “residencial”: não irritar o pessoal da cozinha.
Se o Brian era um resmungão de primeira ordem, o Danny trouxe uma intensidade ao álbum que talvez tenha até ultrapassado a nossa. Ele queria desesperadamente se envolver em algo grandioso, e reagia de forma explosiva a qualquer interrupção técnica da corrente criadora. Várias partes do Castelo de Slane sentiram a agressividade do bico de suas botas nessas ocasiões. Houve momentos em que tememos que algum equipamento de gravação atravessasse os vidros dos séculos XVI do castelo. Era bom ter alguém tão determinado e empenhado como nós trabalhando conosco. Além disso, era um alívio, pois ele parecia gostar de cebolas.
Os estúdios conseguem ser muito técnicos e assépticos, mas com o Danny podíamos ficar descansados quanto aos aspectos técnicos e nos concentrar na captação de alguma coisa grandiosa no desempenho – um momento, um som, uma parte, algum tipo de acontecimento único e especial. Com o Danny era assim.
LARRY: Durante as primeiras sessões de gravações me senti bastante frustrado. Achava que não estava tendo tempo suficiente para ensaiar as partes da bateria. A forma do Adam tocar baixo era sempre inovadora, sobretudo devido ao seu ritmo de jazz. Para mim, a pior parte era ter que me concentrar em manter o ritmo em vez de poder experimentar partes novas. Quando começamos a trabalhar com o Brian e o Danny, as coisas mudaram para meu lado. O Danny gostava de trabalhar desde a base, por isso, dedicou-se muito tempo a bateria e trabalhávamos juntos desenvolvendo a minha forma de tocar. Tecnicamente, não sou um perito, por isso, o Danny me encorajou arranjar novas abordagens e deu o tempo que eu precisava. Além disso, fez com que eu estivesse mais envolvido no que o resto do pessoal estava fazendo. Eu gostava muita da forma que ele fazia música. O Brian era impaciente, queria fazer as coisas com pressa e tinha pouco tempo para a procura persistente da música que nos iria colocar nas rádios. Perdia muito tempo inventando texturas e sons de teclados geniais, acrescentando à nossa música e encaminhando as canções em novas direções. Sendo assim, com os membros da banda, o Brian e o Danny passaram dias inspiradores no estúdio. O único problema é que eu achava que estávamos criando música interessante, mas tínhamos dificuldades em encontrar singles que fossem um sucesso.
ADAM: Gerou algum pânico porque achávamos que não estávamos preparados. O Steve Lillywhite estava de passagem por Dublin e veio encontrar com a gente. Tocamos algumas coisas para ele, e ele disse: “Desde que tenham orgulho (Pride) não há problema.”
BONO: O orgulho é de fato uma das características humanas menos dignas. É estranho chamar ‘Pride’ (orgulho) uma música. E é um brilhante hino à não violência. Early morning, April four, shot rings out in the Memphis sky é uma distorção de fatos, pois Martin Luther King foi morto no fim da tarde.
EDGE: Uma das inspirações para o álbum foi o museu da Paz em Chicago, onde havia uma exposição denominada The Unforgettable Fire (o fogo inesquecível), uma mostra de quadros e desenhos por partes dos sobreviventes de Hiroshima e Nagasaki. A pintura era uma forma de terapia destinada a ajudar essas pessoas a classificarem emoções interiorizadas. A imagem dessa purificação, juntamente com a compreensão que dava o horror do holocausto nuclear, não saia da cabeça do Bono. Era apenas um dos fios condutores do disco. Mais tarde tornou-se o titulo, quando tentávamos descobrir qual seria o tema dele.
(Continua...)
Créditos: Juliana Oliveira (JulianaSP).
Bonolocks
19/05/2007, 22h04
(Continuação)
Páginas 152, (153, 154 – fotos) e 155.
BONO: O tema do álbum era um namoro com a morte, a cisão nuclear, a matéria-prima de uma central elétrica ou das armas de destruição em massa. O titulo tem uma harmonia muito rica e muito evocativa de uma cidade, nesse caso, de Tóquio. Conhecemos um cara que foi editor no Japão. Chamava-se Tatsui Nagashima. Lembrava dos bombardeios sobre Tóquio e nos falou do calor daquele inferno, de amigos e familiares correndo para fugir das bolas de fogo que engoliam a cidade feita essencialmente de papel e madeira. Ele e sua mulher conseguiram escapar, mas o resto da família dele morreu queimada. Mais tarde trabalhou como intérprete numa base americana. Perguntei: “Como conseguiu fazer isso, quando foram os americanos que mataram a sua família?” E ele respondeu: “Não faz parte da nossa cultura pensar no passado, nós pensamos no futuro.” Eu julgava que o perdão era um conceito judaico-cristão, mas ele sentiu o que disse. Ele tinha levado os Beatles para o Japão. Abraçava tudo o que fosse americano e europeu. Mas vale a pena lembrar que os japoneses são o único povo da terra que compreendeu verdadeiramente o feitiço E=mc2 e que sabe o que é ver cidades inteiras evaporarem. Vale mesmo à pena louvar Tóquio, renascida das cinzas, como Fênix. Vale à pena lembrar também que no código dos Samurais, o vencido toma as cores do vencedor. Adota-se a filosofia da pessoa que nos rebaixou. E se não foi o Japão que derrotou a América na área do comercio e do mercado livre, não sei quem terá sido. Não sei se há muito sobre esse tema, mas não nos contam nada.
EDGE: O Adam estava tocando uns acordes no baixo durante uma pausa. Eu comecei a tocar com ele, sem perceber que o Brian estava ouvindo na sala ao lado. Ele tinha à mão alguns arranjos que havia ensaiado para uma linha vocal do Bono e os aplicou na guitarra. Gravou diretamente na fita e ficou como um instrumento ao vivo. Chamamos de ‘4th of July’ para comemorar o nascimento da minha filha Hollie, a afilhada do Bono, que nasceu durante a fase de criação desse álbum. Assistir ao parto foi uma experiência fabulosa e profunda: ver uma vida nova, sangue do meu sangue, vir ao mundo, mas foi milagroso e assustador ao mesmo tempo. Lembro de rezar para que eu e a Aislinn fossemos bons pais. Foram também tempos estranhos. Sentia me muito sozinho, não porque os outros quisessem que eu me sentisse assim, mas porque não faziam idéia daquilo que eu estava passando. Em vez de tentar explicar, tentei lidar com meus sentimentos sem incomodar ninguém, porque, de qualquer forma, eles não iriam me compreender. Foi muito difícil.
ADAM: O Brian se aborrecia facilmente. Ele é fantástico se está fazendo alguma coisa, mas, se não tem nada para fazer, perde o interesse.
LARRY: a impaciência do Brian era muito fácil de notar. Mas, verdade seja dita, podia ser bastante tenebroso ver o U2 trabalhando.
ADAM: Quando voltamos ao Windmill, supostamente para fazer a mixagem, gerou muita tensão entre a equipe de produção e a banda, pois na verdade a gente estava em uma fase em que não conseguíamos terminar nada. ‘Bad’ tinha sido trabalhada com o Brian como uma espécie de improviso e ele não nos deixou gravar novamente ou alterar fosse o que fosse, por isso, a improvisação é o que ficou gravado.
BONO: ‘Bad’ é apenas uma enorme promessa de uma música. Um amigo meu, amigo muito íntimo, arruinou sua inteligência e as suas qualidade com a heroína. No final dos anos 70, inicio dos 80, Dublin era a capital da heroína. O Xá do Iran tinha sido deposto e as pessoas retiravam o dinheiro do país sob forma de ouro branco e pérolas, quero dizer com isso, a heroína. Era mais barato do que a marijuana, era mais barato que fumar maconha, e para uma turma de adolescentes inocentes, que só queria fumar um pouco de marijuana, era lhes oferecido algo mais barato, que ia muito além da imaginação deles. Por isso usavam heroína. Usavam uma vez por mês, depois uma vez por semana e depois ficavam escravos dela. Renunciaram a tudo o que era sagrado por essa droga. Tentei descrever isso na música ‘Bad’. Descrever como era sentir aquela ansiedade, aquela exaltação, e depois aquele desalento, aquele sono terrível que a droga provoca e o grito: I'm wide awake, I'm wide awake, I'm not sleeping! Percebo bem o que está se passando. Seria uma canção com um grande potencial...se eu a tivesse terminado. E de certo modo a termino todas as noites ao vivo. Mudo a letra. Os poetas não se importam de rever o seu trabalho. As canções não devem ser escritas em pedras. Se são boas, são organismos vivos e respiram.
LARRY: O Bono se encontrava agora na mesma situação em que eu tinha estado. Tinha cada vez menos tempo para se dedicar às letras. Durantes as gravações, todos parecíamos dar o nosso melhor juntos. Dependíamos muito do Bono, durante o tempo todo. Ele tinha que cantar alguma coisa, para terminarmos a música. Quando o Bono aparecia, pegava em uma guitarra e começava a cantar, a banda respondia. Ele dava a forma, abanava os braços no ar, polegares para cima quando a coisa era boa, sobrancelhas franzidas quando estava mais ou menos, e um olhar deprimido quando estava uma droga. Era ele quem dirigia a orquestra. Uma música gravada com o Bono na sala, e uma gravada sem ele, dava resultados bastante diferentes. Quando acabávamos as músicas, ele ficava atrapalhado tentando juntar todas as palavras.
BONO: ‘MLK’ era a última música do álbum, uma canção de embalar. Nas sagradas escrituras falam-se do sangue que clama da terra. E na ‘MLK’ há isso mesmo, o sangue que clama da terra – mas não por vingança, por compreensão.
Nessa época, tive uma conversa com o Bob Dylan. Ele me disse: “Associamos três reis a Memphis. Elvis, o rei claro. O grande B.B. King, e depois temos o Martin Luther King.’ E acrescentou: “Onde fica a Graceland, onde fica o seu monumento?”. A cidade estava querendo demolir o motel fora o lugar que ele tinha sido assassinado. Isso me marcou.
Conheci o Bob Dylan enquanto estávamos gravando ‘The Unforgettable Fire’. Ele deu um show no castelo de Slane em julho de 1984. A revista Hot Press ouviu que o Dylan tinha falado muito bem do U2 e por isso me perguntaram se eu gostaria de entrevistá-lo. Fomos todos para o castelo de Slane, onde fui apresentado ao grande poeta. Foi muito importante para mim. O que eu não esperava é que fosse significar alguma coisa para ele. Por isso, quando ele me perguntou se podia tirar uma foto comigo, fiquei bastante surpreso. Essas eram as características daquele grande homem: a sua humildade e o seu humor.
Eu, Van Morrison e o Dylan sentamos no camarim e ficamos conversando sobre música irlandesa. Ele recitou os onze versos completos do ‘Banks of the Royal Canal’, de Brendan Behan. Foi um momento fantástico. Eu estava fascinado pela companhia dele e do Van. Eles eram os mestres e eu o aluno. Contudo, aluno ou não, eu continuava espantado com a banda do Dylan e eu disse: “Com exceção do Carlos Santana, o restante são todos sobras dos anos 70”, creio que foi essa a frase que falei. Satisfez a curiosidade ao jovem aspirante e de uma forma engraçada, nos tornamos um tipo de amigos que estão sempre tomando conta um do outro, não que o Bob Dylan precisasse de mim para isso. Mas, anos mais tarde, tentei e facilitei sua vida de gravações o apresentando ao Daniel Lanois. Facilitar talvez não fosse o termo que o Bob utilizaria, mas dos dois melhores álbuns que ele fez na década de 90 foram graças ao Daniel. O Bob era meu preferido naquilo que se considera música pop. Ele é o cara quem eu carregaria a mala, para quem chamaria um táxi, cuja contas de bebidas pagaria e cavaria a sepultura. Para mim é o Picasso da música pop. Ele é Dickens, Shakespeare, Thackery...com uma pequena porção de Charlie Chaplin misturada.
Aprendi muito em pouco tempo que estive com ele, sinto-me grato por ter tido essa oportunidade. Ele tem sido muito generoso comigo, com a minha educação, algo irregular.
Tudo começou em Boyne Valley, do outro lado do castelo onde tínhamos feito ‘The Unforgettable Fire’. Ele me pediu para cantar ‘Blowin in the wind’ com ele. Partiu do princípio que eu, como grande admirador, conhecia a letra. Mas ele sabia que eu nem sabia as letras do U2 de cor, quanto mais as do Bob Dylan, e tinha a mania de ir completando as músicas à medida que ia cantando, para grande desgosto de todo o público que se pudesse, teriam me escorraçado do palco.
Às vezes tenho sorte, naquele dia não tive. Disse: “Desculpa por ter inventado partes da letra de ‘Blowin in the wind’. A sua versão com certeza é melhor.” E ele disse: “Eu passo a vida fazendo isso. Também nunca lembro das letras.”
EDGE: O Brian foi embora antes de terminarmos o álbum, mas o Danny ficou para organizar tudo e fazer a mistura.
LARRY: Eu esperava que esse álbum mudasse a percepção que as pessoas tinham da banda. Isso era o U2 em desenvolvimento, aberto a novas idéias, acrescentando luz, sombra e experiências à música. Correndo riscos, creio eu.
EDGE: Passamos alguns dias viajando pela costa ocidental da Irlanda com o Anton Corbijn e descobrimos locais muito interessantes. Havia um livro que o Steve Averill tinha descoberto, e que achava ser um bom ponto de partida, e tiramos fotos na frente de alguns castelos em ruínas. Era apropriadamente ambíguo e tinha certo misticismo irlandês que nos aguardava. Algo relacionado com a decadência, a história, maus construtores, questões sobre onde tínhamos estado, o fim de uma coisa e o início de outra. Estava tudo lá, na fotografia do castelo. Infelizmente as pessoas partiram do princípio que as ruínas da capa do álbum eram do Castelo de Slane. Ouvi dizer que o Henry perdeu muitas recepções de casamento nesse ano.
PAUL: A fotografia do Anton era basicamente um aproveitamento da fotografia de uma outra pessoa (uma fotografia do castelo de Moydrum, no condado de Westmeath, que é a capa do livro In Ruins: The Once Great Houses of Irland de Simon Marsden). O Anton colocou a máquina exatamente no mesmo local e usou a mesma técnica de filtragem solar, a única diferença é que os quatro membros do U2 estão na foto. Aquilo nos custou caro – o Anton prometeu não voltar mais fazer isso.
O meu trabalho com o U2 estava começando a mudar, sobretudo porque começamos a ser capazes de renegociar o que começou a ser um fraco acordo de gravação. O nosso contrato com a Island estava terminando, felizmente para eles, e outras empresas importantes começavam a fazerem ofertas melhores para nós. Mas o que a Island nos oferecia, que mais ninguém oferecia, eram os lucros sobre os nossos direitos autorais. Assim, a primeira renegociação se resumiu a eles rasgarem o acordo de publicação e nos devolverem as nossas músicas, prorrogando o contrato de gravação, aumentando os direitos autorais, melhorando globalmente os termos do contrato.
Acho que fizemos muito bem em aceitar aquele acordo. A banda colocou muitos obstáculos, pois uma das outras empresas maiores poderia ter passado um cheque de um valor bem alto. Mas, naquela época, a banda já sabia a importância de sermos donos das nossas próprias músicas e foi isso que orientou as nossas negociações.
Embarcamos em uma turnê pela Austrália antes de ter saído o The Unforgettable Fire. Foi uma espécie de deslumbre do que estava por vir.
Foi a primeira vez que fomos a um país como uma grande banda, nos beneficiando de tudo que tínhamos conseguido anteriormente. Éramos muito mais populares do que pensávamos e tivemos que prolongar a turnê. Esgotamos as arenas e demos cinco shows no Sidney Entertainment Centre, nos apresentando para 60.000 pessoas no total.
Não se pode apresentar perante 10.000 espectadores o mesmo espetáculo que se apresente em um teatro.
Foi entusiasmante e interessante, não somente para a banda, mas também para toda a equipe de estrada. Naquele tempo, o nosso designer de luz era o Willie Williams e ele começava agora abrir seus horizontes e se envolver mais no desing de palco. Creio que é justo dizer que nessa época houve uma alteração em todo o negócio da música ao vivo e as pessoas exigiam padrões mais elevados de iluminação, som e produção. O tradicional ajudante de estrada dos desenhos animados, com uma grande barriga e tendo como principal característica o fato de conseguir levantar pesos pesados, deixou de ter importância. Os elementos da equipe eram cada vez mais inteligentes, profissionais e cada vez menos brutos.
(Continua...)
Créditos: Juliana Oliveira (JulianaSP).
Bonolocks
19/05/2007, 22h08
(Continuação)
Páginas (156 – foto), 157 e 158
BONO: Aquela turnê foi o princípio de uma relação amorosa com a Austrália e com a Nova Zelândia. Fizemos um vôo de quase 24 horas até Auckland. Cheguei ao hotel, deitei na cama e às duas da manhã já estava outra vez acordado. Desci para o saguão e vi umas pessoas sentadas no bar que pareciam interessantes. Sentei perto delas e me apresentei. Reconheceram-me como sendo do U2. Disse que não conhecia ninguém em Auckland e então eles me levaram para dar uma volta. Passeamos durante a noite inteira, me levaram ao cume de um lugar chamado One Tree Hill, onde existia uma única árvore no cume de uma montanha, como uma sóbria pintura japonesa. Observamos aquela cidade que era coberta por crateras de vulcões. Tenho essa memória muito viva e creio que é porque me fez reconhecer a minha liberdade. Gostei de estar sozinho. Gostei de estar longe de casa naquele momento e de certa forma também gostei de estar longe da banda. Ninguém sabia que eu tinha saído do hotel. Sentia que tudo podia acontecer. Toda minha vida fiz isso – desaparecia durante alguns dias e estava com outras pessoas, e elas deixavam. Me levavam às suas casas e me convidavam para comer. Conheci muitas pessoas especiais dessa forma.
No dia seguinte fomos para o show e reparei em um rapaz muito prestativo que andava sempre correndo de um lado para o outro, um Maori admirável. Ágil, ativo, atento e com um brilho inteligente nos olhos. Chamava-se Greg Caroll e estava ali na qualidade de responsável pelo palco. Ficamos grandes amigos. Começou a andar com a gente e ficou como assistente da banda. Dava-se muito bem com a Ali.
Costumava sair com ela quando nós não estávamos. Era um verdadeiro cavalheiro. Levava as garotas para dançar e tomava realmente conta delas, as estragava com mimos e todas gostavam muito dele, incluindo a Katy, a irmã do Paul McGuiness, que se tornou muito especial para o Greg. Quando ele morreu, alguns anos depois pensei na noite em que o conheci e na nossa jornada. Aquela foi uma relação amorosa com a Nova Zelândia, com o povo Maori, com o Greg e com a Austrália. Adoro estar em turnês, andar na estrada. Agora, me custa muito abandonar a família e os amigos, mas eu sou um viajante nato.
PAUL: Foram tempos interessantes. A banda tinha que resolver o problema de recriar ao vivo a abrangente perceptiva sônica do Eno. Lembro de uma vez ter entrado no estúdio durante a gravação de The Unforgettable Fire e falar: “Isso quer dizer que vamos ter um tecladista e uma parte de saxofone?” Estava claro que ninguém queria que isso levasse à expansão da banda.
ADAM: Já tínhamos marcado a data da turnê e pensamos em começar pela Austrália. Assim quando chegássemos a Europa e à América já teríamos a turnê bem rodada. Mas foi um desastre, o material não funcionou, por isso, antes dos shows na Europa tivemos alguns ensaios de emergência.
EDGE: Foi aí que descobri os seqüenciadores. Eu programava partes das teclas e deixava seguir a sua ordem. Depois tocava guitarra por cima. Colocamos um metrônomo à parte do seqüenciador para o Larry, e de repente tínhamos um tecladista numa pequena caixa preta. Mágica!
BONO: Conhecei o Mick Jones há pouco tempo e ele me falou da primeira vez que sua banda, os Big Áudio Dynamite, tocou com o U2 naquela turnê. Fizeram a abertura do nosso show em Nantes, na França, e ele viu nosso ensaio de som e disse: “Nunca vi uma banda tocar tão repetidamente e sem parar a mesma música. O que esta acontecendo?” Era a ‘Bad’. Era muito difícil, quase uma colisão impossível de culturas para nós. Era uma composição diferente, como o Philip Grass com Astral Weeks e o Van Morrison com a eletrônica alemã. Há seqüências rígidas e metronômicas, depois há uma linha de baixo que esta constantemente improvisando, assim como a linha de voz. Nos esforçamos muito para encontrar essa música. O Larry detestava metrônomos, pois achava que interferiam com o lado espontâneo da banda. Agora detesta tocar sem um.
Um dos meus singles preferidos era ‘I Feel Love’, da Donna Summer com o Georgio Moroder. O que me espantava era que a voz dela tinha um som mais emotivo sobre a eletrônica do que acompanhada por uma banda ao vivo. Achei muito interessante. A voz humana funciona por contraste. Torna-se mais humana em comparação com a eletrônica. Eu achava que o Kraftwerk era o melhor grupo de soul da Europa. Não tinham grandes vozes, mas conseguia me comover, eu reagia com emoção à música deles. Estávamos iniciando uma relação amorosa com a música eletrônica, que eu julgo ter atingido seu auge com ‘Pop’.
ADAM: ‘Pride’ era o nosso maior êxito até aquele momento e o álbum tinha sido muito bem revisado. Tínhamos apresentações em arenas na América, com 15 ou 20 mil pessoas, sendo que na Europa ainda não tínhamos chegado a tanto. No início dessa turnê tocamos muito em tendas na Europa, que eram espaços temporários, onde cabiam umas 8 mil pessoas. Eram horríveis. Havia muita condensação no interior, o que afetava o equipamento, e nós estávamos começando a usar seqüenciadores e computadores, tocando com metrônomos e tentando trabalhar com essas novas estruturas. Essa abordagem era mais importante agora do que em qualquer outro momento, mas dava sempre algo errado. O inicio da turnê foi complicado.
BONO: Nessa época, estava trabalhando com a gente um cara chamado Ian Flooks. Era o nosso agente, mas era muito mais importante do que isso. Um excelente guia, tanto no Reino Unido como na Europa, sabia onde devíamos nos apresentar e com quem apresentar. Era um dos melhores amigos do Paul McGuinness. Eram cúmplices no que se dizia respeito à comida e bebida. Lembro que em uma das turnês pensei: “Por que motivo nos apresentamos três noites em Lyon e apenas uma em Marselha?” Afinal, era porque em Lyons havia um restaurante excelente e em Marselha não. Uma das facetas mais bizarra dessa banda é que sempre comemorávamos os sucessos que tivemos, indo a restaurantes e abrindo algumas garrafas de vinho.
Se o Paul McGuinness e o Ian estivessem, o vinho era sempre o mais caro e eles começavam com longas dissertações, falavam do paladar e aroma do vinho. Entretanto aconteceu uma coisa estranha.Começamos a perceber que o vinho não tinha o mesmo sabor quando era oferecido a nós por qualquer outra pessoa. Na verdade, tornou-se difícil beber um vinho ruim, de má qualidade, e compreendemos finalmente que este pretensiosismo, talvez, não seja completamente sem propósito.
PAUL: Fazer shows em lugares melhores e para mais pessoas, ficar hospedado em um hotel de luxo, ir talvez a um restaurante requintado, tudo isso fazia parte do prazer de uma turnê. Ao longo da carreira da banda, fui quase sempre a todos os shows deles. Às vezes voltava à base, por assim dizer, ir a New York tratar de algum assunto, mas no geral, íamos sempre juntos para todos os lugares. Parecia absurdo ser o agente do U2 e não ver os shows deles. Não encarava isso como um fardo, mas sim como um privilégio. Fazia as minhas próprias críticas dos shows e participava das reuniões que tínhamos todas as noites. Pode parecer algo calvinista, mas devo dizer que é isso que os mantêm perspicazes.
EDGE: As turnês pouco mudaram. Há pequenas coisas que podem melhorar a experiência, como ter um quarto para cada um em um hotel, um ônibus de turnê melhor e talvez até uma limusine para nos levar ao aeroporto. Mas o fundamental são os shows. Tentar chegar ao local e fazer uma apresentação que faça jus ao material e crie um acontecimento muito especial. É realmente tudo isso que nos faz ir em turnês, pois não conseguimos explorar todas as mudanças como banda, não está nas nossas mãos. Eu diria que isso se aplica sobretudo ao Bono, mas também a toda a equipe de uma forma geral. Ou porque não podemos nos dar ao luxo de não nos empenharmos, pois seria obvio, ou apenas porque a banda só consegue funcionar quando existe empenho total. Não sei. Mas seja qual for o motivo, há sempre uma noção de perigo nos nossos shows – no bom sentido, e em certa medida, no mau sentido. É algo intenso, mas que nós adoramos, pois quando é perfeito, consegue ser realmente perfeito. Para mim a maior mudança foi criar uma família, pois ninguém fazia idéia do que isso implicava, nem os nossos responsáveis de turnê. Muitas vezes foi muito frustrante reparar que reservavam os hotéis sem ter consideração que tínhamos um bebê e uma babá, e que por isso precisávamos estar em quartos próximos. Coisas pequenas, mas que serviam para que todos aprendessem, inclusive eu. Deixei de ser apenas um dos membros, passei também a ser pai e tentar manter a minha família sem perder a ligação com o grupo. Foi complicado tentar conciliar tudo.
BONO: Estávamos em alguma parte da Alemanha e Bob Geldof me telefonou. A princípio fiquei sem saber o que pensar daquele telefonema, pois o Bob era irlandês e nós o admirávamos muito, mas eu só me lembrava das discussões que tínhamos por ele achar que o rock ‘n’ roll devia manter-se afastado da política e da demagogia e ser atrativo, divertido e picante. Os Boomtown Rats estavam muito longe dos Clash. Por isso foi estranho receber um telefonema do Geldof para falar sobre a África. Mas ele falou tão bem, de uma forma incomparável, que quando desliguei o telefone, pensei: “Como vou conseguir que a banda concorde com isso?” Eles sabiam que a tragédia da Etiópia precisava de uma resposta, mas conheciam o plano de trabalho e sabiam que ia ser muito difícil. Por isso eu concordei e a banda não. O Edge não podia, tinha família, o Larry tinha coisas para fazer e o Adam disse: “Está bem. Eu te dou uma ajuda.”
ADAM: Fomos para o Basing Street Studios, na parte ocidental de Londres. Quando chegamos, percebemos que a tenda de comunicação social estava montada: jornais, câmeras de televisão e fotógrafos. Estavam todas as pessoas lá sendo empurradas por aquele mundo de estrelas pop londrinas, era esmagador. Eu me senti um intruso. Todas aquelas pessoas pareciam conhecer umas as outras e sentiam-se à vontade naquela situação bizarra. Eu não sabia o que fazer e nem para onde ir. Lembro-me de ouvir o George Michael conversando com o Boy George e lhe dizer que passava a vida toda perdendo os cartões de crédito e que isso era maçante. Eu não sabia o que estava acontecendo. Sentia sempre um pouco intimidado pelo Geldof, pois ele era grande, rude e de Dublin, por isso, tentei passar despercebido. Eu tinha consciência que estava ali para acompanhar o Bono e para contribuir de todas as formas possíveis. O Bono, que tinha sido convidado para cantar e eu sabia que ele não queria ir sozinho a uma coisa daquelas.
BONO: Fiquei pouco à vontade, estava muito inseguro. Aquela era a nata londrina do pop na era dos maus penteados. Parecia um congresso de cabelereiros. E nós éramos uma banda irlandesa de rock que tinha conquistado a América. As pessoas nem sabiam o que pensar de nós, limitavam-se a nos olhar como quem diz: “Vocês nem se quer parecem estrelas de pop.” Era o que parecia. Diga-se de passagem, ninguém também se esforçou para me fazer sentir melhor, exceto uma pessoa: Simon Lê Bom. Ele percebeu que eu me sentia deslocado e veio conversar comigo: “Quer beber alguma coisa? Você está bem?” Nessa fase o Duran Duran era super estrela do pop, e eu achei que ele era engraçado e divertido. É que eu era tudo, menos divertido. Depois, li a letra de ‘Do They Know it’s Christmas’ e achei que era uma letra boa, mas me recusei a cantar o verso que dizia: Tonight thank God it’s them instead of you. É um verso mordaz e revela que no fundo, todos somos egoístas. Acho que o Bob estava tentando ser honesto, autêntico e auto-acusador. Em vez de cantar: We’re lucky it’s not us dizia: Well, when you say that, you mean lucky it’s them. Now look at it. Now look at yourself. Então fui falar com Bob e ele me disse: “Quero que cante esta frase aqui.” Eu retorqui: “Não me diga que é aquele verso?” Ele disse: “É esse mesmo.” “Não posso cantar Bob.” “Não pode cantar esse verso? Por que?”. Disse que eu não queria cantar aquilo e ele disse: “Não se trata do que você quer, entende? O importante é o que estas pessoas precisam.”
Eu era muito novo para dizer: “O importante é o que você quer, não é?”. Mas era o show dele e eu me sentia feliz por participar. Sabia que aquele verso precisava de força. Fiz uma espécie de imitação do Bruce Springsteen, foi o que me veio na cabeça.
ADAM: Não sou cantor. Mas cantava no refrão. Há uma fotografia de todos no estúdio cantando o refrão e foi bom particularmente. A música alcançou o primeiro lugar. Foi uma época incrível. Talvez tenha sido uma reação aos anos em que Tatcher governou, quando se sabia que um governo conservador não iria provavelmente se interessar pelos problemas africanos - não sei. Mas parecia que quando Geldof apareceu, o poder daquela geração, conseguia realmente fazer alguma coisa. Talvez sentíssemos que éramos capazes de resolver os problemas mundiais – hoje em dia acho que já não acontece a mesma coisa. É interessante que, no trabalho do Bono, ele é capaz de alcançar mais introduzindo no mundo político do que incentivando as pessoas a fazerem marchas e protestos pelas ruas, o que não parece ter dado muito resultado nos últimos anos.
PAUL: Fomos para a América onde conseguimos pela primeira vez, e por próprio mérito nos apresentar em arenas. Foi a primeira vez que tivemos um avião, o que foi muito divertido. Era um velho Vickers Voscount. Mesmo em 1984 já devia ser muito antigo. Costumávamos viajar muito devagar pela América naquele avião chiadeiro, espiando por aquelas janelas enormes.
(Continua...)
Créditos: Juliana Oliveira (JulianaSP).
Bonolocks
19/05/2007, 22h10
(Continuação)
Páginas (159, 160 – fotos), 161 e 162.
EDGE: Fomos capa da Rolling Stone como a “Banda dos Anos 80”. Foi bastante importante para nós.
BONO: A Rolling Stone teve um grande impacto nas nossas vidas, tanto os jornalistas como a própria cultura da revista. Levavam a música muito a sério. Confirmavam tudo, discursos e fatos. Não estávamos acostumados que alguém confirmasse as nossas citações, estávamos acostumados que as inventassem. A Hot Press, na Irlanda, também tinha costume de levar a música muito a sério. A revista era seguida por idealismo e por uma espécie de mentalidade guerrilheira, tipo “vamos tentar manter à tona, custe o que custar”, nós adorávamos. E o meu afeto pela Hot Press passou para a Rolling Stone. Por isso, sermos a capa da revista teve um grande significado para nós, mas lembro que não gostei muito da foto.
Chegamos a sessão fotográfica e estavam cerca de 30 pessoas. Nós estávamos acostumados com o Anton, que nem sequer tem um assistente. Aquilo parecia um cenário de filme, estávamos nos anos 80 e o dinheiro era para esbanjar. Sentíamos lisonjeados por a Rolling Stone estar gastando todo aquele dinheiro conosco, mas a idéia para a sessão fotográfica foi uma droga. Estilo anos 70, Led Zeppelin, Houses of the Holy, e nós não queríamos fazer parte disso. Tínhamos idéias diferentes sobre o aspecto que devíamos ter e sentimos um pouco pressionados com a escala daquela operação. Acho que reclamei e sou capaz de ter insultado algumas pessoas. Não acho que a capa tenha ficado boa.
EDGE: Mas não deixava de ser a capa da Rolling Stone e cavalo dado não se olha os dentes.
BONO: O U2 teve realmente duas fases desagradáveis. Uma delas foi a turnê October, em que meu cabelo era parecido com uma “doninha”. Parecia mesmo um texugo. Foram as primeiras experiências com água oxigenada e que não deram certo. Estávamos tão ocupados discutindo se queríamos mesmo ser uma banda ou não, que nem nos preocupamos muito com a nossa aparência. A segunda foi o período do Unforgettable Fire. Foi uma fase em que eu teimava a andar com botas militares que iam até o joelho. Não se deve chamar a atenção para as nossas pernas quando não a temos. E nem vale à pena falar do cabelo, toda a minha vida tinha sido ruim nesse aspecto. Uma pessoa nunca deve andar como se tivesse passado o cabelo a ferro. Vejo as fotos dessa época e acho que pareço o príncipe Mullet. A única coisa que impediu esse penteado de entrar para a história do pop foi um chapéu feito para homens mais altos. Ainda tem pessoas que não conseguem gostar de nós por causa daquele penteado.
EDGE: Ao ver as fotos antigas, acho que realmente não contribuímos em nada. A falta de estilo é surpreendente.
ADAM: Estávamos tentando ter um ar mais descontraído e não andarmos sempre de colarinho apertado e com um aspecto militar. Era mais do estilo europeu do leste, algo desse gênero – refugiados chiques.
BONO: Fizemos um show pela primeira vez no Madison Square Garden ,em New York, e sentimos que foi uma espécie de marco. Ouvíamos falar do Led Zeppelin e do The Who apresentando lá. Nos sentimos em casa pela primeira vez que nos apresentamos lá e continuamos nos sentindo. É o lugar mais caro para fazer show, mas não há mais nenhum lugar assim.
EDGE: A primeira apresentação no Garden foi algo especial. Todos os grandes nomes da música se apresentam lá, por isso, se apresentássemos lá e não fôssemos como a Barbra Streisand, o pessoal logo começa: “Mas quem é que são vocês?” Por essa razão era bastante assustador, mas ao mesmo tempo uma sensação fantástica nos apresentar naquele que deve ter sido um dos grandes espetáculos de rock ‘n’roll, certamente em termos da sua história. Lembro de assistirmos os Stones lá em 1981, mas o som estava péssimo. Não sei se era por causa da localização dos nossos lugares, mas não dava para distinguir nada. Quase que desistimos de tocar lá. Tínhamos acabado de chegar de Dublin e estávamos sentindo a diferença do fuso horário, e o Bono dormiu no meio do show deles.
Ele estava sentado ao meu lado e uns 20 minutos depois eles começaram a tocar ‘Jumpin Jack Flash’. Dei uma cotovelada nele para acordar. Ele acordou ouviu cerca de 1 minuto a música. Depois olhou para mim e disse: “Já tocaram Jumpin Jack Flash”?
BONO: Passei momentos fantásticos com meu velho nessa turnê. O levei para os Estados Unidos para ver nosso show. Era a primeira vez que ele estava na América. Fui buscá-lo no aeroporto de limusine, mas ele se recusou a entrar, por isso, tivemos que pegar um táxi. Era em Atlanta e durante o ensaio do show pedi aos caras das luzes para o iluminar com um grande holofote quando eu falasse. Eu disse: “Quero apresentar uma pessoa. É a primeira vez que vem à América”. Gritos! “Este é o homem que deu a minha voz, Bob Hewson!” mais gritos ainda. A luz acendeu-se e 12 mil sulistas começaram gritar. Ele levantou, colocou o braço no ar e murmurou alguma coisa terminada em lixar.
Depois do espetáculo todos costumavam me deixar um minuto sozinho para me acalmar. Mas dessa vez ouvi passos atrás de mim, olhei e vi meu pai com os olhos cheios de lágrimas e pensei: “É agora! Chegou o momento! Finalmente ele vai me dizer qualquer coisa!” Toda minha vida esperei por aquele momento!
O meu pai ia dizer que gostava de mim. Aproximou-se, estendeu-me a mão um pouco tremula, já tinha bebido um pouco, olhou-me nos olhos e disse: “Filho....você é um grande profissional!”
Há em Atlanta uma banda da qual o u2 se tornou muito amigo, os REM. Naquele tempo eles eram o máximo e mais conhecidos do que nós no Reino Unido pelos seus álbuns. Nessa turnê, tentamos ir vê-los em Los Angeles. Havia um cara chamado Charlie McNally, um promotor alto, magro e de Dublin, que em tempo se encarregou do U2. O Charlie tinha saído da Irlanda com uma espécie de nuvem negra sobre ele e disse que não voltaria enquanto não ganhasse o seu primeiro milhão. Assim, alguns observadores mais duros disseram: “Parece que tão cedo não vamos tornar a vê-lo.” De um momento para o outro, gerenciava um negócio de limusines na América e o Paul McGuinness estava ansioso para usá-las, pois ele tinha sido muito bom com a gente.
Ele estava então nos levando para o show do REM e aconteceu uma coisa inacreditável no caminho. A razão pela qual só muito, mas mesmo muito mais tarde é que vi os REM...ficamos sem gasolina. Tivemos que sair da limusine e empurrá-la. Empurramos durante bastante tempo só para poder tirá-la da estrada. Foi um momento fantástico. Há sempre alguma coisa que nos faz lembrar da nossa terra.
Acabamos vendo os REM quando o Ian Flooks organizou o fabuloso show The Longest Day Concert, em Milton Keynes, na Inglaterra. Era um festival que seria o nosso show e com algumas das melhores bandas de sempre reunidas num único dia. U2, REM e Ramones. A banda que nos transformou em uma banda – e era nossa convidada. Como é que isso aconteceu? Talvez Deus não exista. Lembro de ir ao camarim e de ver um cara baixinho, de aparência estranha com o cabelo cheio de trancinhas escrevendo em um pedaço de papel. Parecia o Lucky de ‘A espera de Godot’, com uma expressão impressionante, tragicômica. Aproximei dele com timidez e o cumprimentei. Ele tinha uma bonita e harmoniosa voz fanhosa, com sotaque do sul e modos perfeitos. Foi nesse momento que conheci Michael Stipe. Ele estava lendo alguma coisa e eu também (não lembro o quê), mas foi um momento tipo “o meu é mais interessante do que o seu” e houve aquela dança de dois contemporâneos em torno um do outro. E assim começou uma relação que é das mais importantes da minha vida. A amizade de Michael Stipe significa mais do que eu posso dizer. Ele é das pessoas mais coerentes que se possa ter como amigo. Eu me considero muito leal, mas inconstante. Ele é muito leal.
Foi um grande dia, o anfiteatro Milton Keynes Bowl, 50 mil pessoas espalhadas ao longo da encosta. Sempre adorei aquele show. Não gosto de apresentar em locais planos, porque as pessoas que ficam no fundo não conseguem ver.
ADAM: Depois, voltamos à Irlanda para fazer uma apresentação pela primeira vez no Croke Park, em Dublin, um grande show ao ar livre, com 57 mil pessoas. Foi um momento muito especial. Foi uma daquelas celebrações de espírito irlandês com muita gente bêbada, pessoas vomitando e esses tipos de coisas. Fazer show em casa é muitas vezes, desesperador, mas aquele dia correu tudo maravilhosamente, foi um bom show. Os meus pais estavam presentes, as coisas tinham melhorado entre nós. Seria exagerado dizer que me apoiavam, mas estavam na multidão, tinham noção do que estava acontecendo e podiam ver e sentir. Já não era tão importante provar a eles alguma coisa.
EDGE: Aquele foi provavelmente o ponto alto da turnê, pois tínhamos sido um sucesso. A nossa banda já não era mais uma banda mais ou menos. Estava no topo das listas e tinha conquistado a América e o mundo, e regressava agora para atuar em sua terra natal, no centro da cidade. Havia um estádio inteiro aos pulos ao som de Pride. Foi um show com um impacto enorme. Foi incrível!
PAUL: O Live Aid foi no final da turnê The Unforgettable Fire.O Geldof telefonou e falou: “Eu sei que disse que não ia haver o concerto, mas agora vai”. E eu disse “Fale a hora e o local, Bob, e nós estaremos lá”. Acabou sendo um dia muito especial para o U2.
LARRY: Eu estava nervoso, era um show muito importante. Todas as bandas queriam participar, devido à exposição que iam ter. Fala-se da enorme cobertura da televisão que ia ter e tudo mais. Eu sei que estávamos lá pelas razões certas.
ADAM: O Live Aid foi absolutamente assustador, mas ao mesmo tempo muito excitante. Assustador porque cada grupo só tinha 15 minutos, e tudo tinha que dar certo, não havia ensaios de qualquer ordem. O ambiente estava um pouco descontrolado. Havia imensas câmeras e muita gente na área dos bastidores. Estávamos constantemente expostos e vulneráveis. A apresentação era de dia, o que não era o melhor dos cenários, mas naquele palco éramos apenas mais um grupo e só tínhamos 15 minutos para mostrar o que valíamos. Estávamos rodeados de enormes talentos e não queríamos passar despercebidos.
EDGE: Era fantástico ver aquele ambiente. Estava lá todo mundo. Antes da apresentação vimos o Mohammed Ali sendo fotografado pelo David Bailey. Eram nomes de pessoas influentes.
BONO: Lembro de estar junto ao Pete Townshen antes da apresentação do The Who e perguntar: “Não fica nervoso antes de entrar no palco?” Ele me olhou de cima pra baixo e disse: “Nervoso? Nervoso por tocar ao vivo, em frente ao público? Ficarei nervoso quando me encontrar com Deus. Mas ficar nervoso por estar na sua frente ou daquelas pessoas? Nunca.” Caramba! É por isso que nunca deixarei de ser um aprendiz. Estamos sempre aprendendo.
As pessoas foram bondosas comigo. Eu estava andando com a Ali e o Freddy Mercury me puxou para o lado e disse: “Oh, Bo-No....é Bo-NO ou Bon-O?” Eu disse: “É Bon-O. E ele disse: “ Vem aqui comigo. Estive conversando com o Roger, o Peter e o David e chegamos à conclusão que hoje já não há mais cantores, hoje em dia todos gritam, mas você é um cantor”. Eu estava encostado na parede e ele tinha a mão apoiada na parede e conversava comigo como se estivesse cantando uma garota. Me fez rir, mas eu estava muito nervoso e ia trocando olhares com a Ali. Pensei: “Epa, esse cara é mesmo exagerado”. Mais tarde, comentei o acontecido com alguém e me falaram: “E está espantado com o que?” Eles o chamam de Queen!” Mas eu estava admiradíssimo. Não tinha percebido. O David Bowie veio conversar comigo. E eu só pensava: “O David esta falando comigo”. Entretanto começamos a caminhar lado a lado e eu me virei para perguntar alguma coisa. Como eu estava com um chapéu ridículo com uma aba enorme, ao me virar quase lhe tirei um olho. Conseguir estar com esse deus gênio e quase lhe tirar um olho com a aba do meu chapéu não foi um momento lá muito feliz.
O Paul McCartney veio falar com a gente e também nos elogiou. Eu nem conseguia acreditar. Por isso era muito importante participar e fazer o melhor possível. Mas houve momentos de pânico, sempre mudando o cenário de cinco em cinco minutos.
LARRY: O Jack Nicholson apresentou. Eu conseguia ver uma bandeira irlandesa esvoaçando e disse orgulhoso: “Incrível, somos a única banda irlandesa se apresentando hoje aqui.” O Geldof estava atrás de mim e começou logo a falar apressado. O Boomtown Rats já tinha se apresentado.
ADAM: Nós devíamos tocar três músicas: ‘Sunday Bloody Sunday’, ‘Bad’ e ‘Pride’, que era a mais conhecida. Mas, o Bono desapareceu.
LARRY: No meio de ‘Bad’, o Bono resolveu ir escolher uma garota para dançar com ele. O tempo que esteve ausente pareceu uma eternidade. Nós já estávamos nervosos, mas quando ele desapareceu, instalou certo pânico entre nós.
EDGE O mergulho do Bono na multidão foi uma grande besteira, pois ele ainda tinha que passar por vários obstáculos para chegar desde o palco até o público. Era um show em um estádio completamente lotado, com duas ou três barreiras para acomodar as câmeras e a segurança, com uma altura cerca de seis metros desde o palco até o chão. O perdemos completamente de vista. Esteve ausente tanto tempo, que eu cheguei a pensar que ele tinha decidido ficar por aquela música e que já estava a caminho do camarim. Fiquei sem saber o que fazer. Olhava para o Adam e para o Larry para ver se eles sabiam o que estava acontecendo e eles olhavam para mim com o pânico estampado nos rostos. Quando dei por conta, estava ele lá embaixo trepado na última barreira para chegar ao público. E nós continuamos tocando sem parar. Entretanto depois de abraçar uma das garotas das primeiras filas, começou a fazer o caminho de volta ao palco, que demorou mais cinco minutos. Ainda bem que as câmeras não filmaram o resto da banda durante esse momento dramático, pois nós devíamos parecer os “três patetas”: o Curly, o Larry e o Moe.
PAUL: Eu estava em um dos lados do palco com o coração na mão, porque julguei que ele tinha estragado tudo. Não conseguia vê-lo, não fazia idéia para onde ele tinha ido. A única coisa que eu sabia é que não íamos mais tocar as músicas que tínhamos combinado. Ficamos naquela versão de ‘Bad’ e nunca chegamos à terceira música que ia ser ‘Pride’. Os membros da banda que estavam no palco se sentiam perdidos, pois também não sabiam para onde ele tinha ido. E ele estava lá na frente, agindo de acordo com o que era aquilo, um espetáculo de televisão, coisa que ele, de uma forma inspiradora, percebeu. Mas aquele dia eu não sabia, e todos achamos que ele tinha estragado tudo.
BONO: Não tocamos a música mais conhecida, porque eu tinha desaparecido sem avisar, para tentar aproveitar uma oportunidade televisiva, e acabei esquecendo da música. Os outros membros da banda ficaram bastante chateados – quase fui despedido!
(Continua...)
Créditos: Juliana Oliveira (JulianaSP).
Bonolocks
19/05/2007, 22h16
(Continuação)
Páginas (163 – foto), 164, (165 – foto).
PAUL: Pode-se dizer que depois do incidente, houve alguma discussão.
BONO: Houve todo um misto de emoções. Foi um dia fantástico, mas eu achei que tinha estragado tudo. Cheguei em casa e liguei a televisão em tempo de assistir o Bob Dylan, Ronnie Wood e o Keith Richards subindo no palco na Filadélfia. Eram três pessoas que eu admirava muito. O Bob Dylan foi o meu modelo na minha busca espiritual enquanto músico. Eles pareciam todos deslocados, todos eles. Todos resmungavam sobre várias coisas. Era o fim de um dia muito cansativo e eu vi o meu herói como um simples homem, um cara frágil e vulnerável que obviamente, tinha ido além do que devia algumas horas que precederam o show. Sentia-me um pouco triste por causa de todas as suas expressões proféticas, todas as referências bíblicas dos seus versos, da sua capacidade de encarar os críticos, de enfrentar tudo com coragem e dizer coisas simples, admiráveis e certas. E ali estava ele, com um ar confuso e alienado.
Pensei: “Espero que ele esteja bem.” Estava preocupado com a saúde dele. Não sabia o que ele estava fazendo, mas percebi que estava chegando a um ponto de ruptura. Ele não desmoronou. Na verdade após alguns comentários fora do contexto sobre agricultores americanos, ele mencionou o Farm Aid. Mas teve algo que me perturbou. Eu estava sozinho com a Ali no quarto, sai da cama e fiquei de joelhos. Foi um momento muito real, o final de um dia muito longo.
Continuei deprimido durante alguns dias. Voltamos para a casa dos pais da Ali, que moravam em Wexford. Eu estava muito abatido e chateado comigo mesmo. Entretanto conheci um escultor chamado Seamus Furelong, que era amigo da família da Ali. Era um homem de idade, com sessenta e poucos anos. Fui à sua pequena oficina e ele estava trabalhando em uma peça. Estava meio aéreo. Perguntei:
‘O que é isso?’
‘Chama-se “O Salto”.’
E eu disse: ‘O que é o salto?’
‘É o salto de fé. É sobre você.’
‘O que?’ ‘Este é você.’
‘O que quer dizer com isso?’– eu perguntei
‘Nós vimos você noLive Aid.’ - ele disse.
‘Você deu um salto.’ ‘Como assim?’
‘Lembra de quando desceu para junto do público?’
‘Lembro-me muito bem até.
Há dias que não penso em outra coisa’
“Você estava se reafirmando”, disse ele. “Não se sentia feliz no palco. Queria mais. Deu um salto de fé, alcançou alguma coisa e a tocou. E eu fiz isso porque também me senti inspirado.”
Não passou de uma mera coincidência, mas me encorajou muito. Dois dias depois recebi um recado para telefonar para o Paul. Telefonei e ele disse: “Não vai acreditar, mas andam todos excitadíssimos com a sua atuação do U2 no Live Aid. As estações de rádio e de televisão andam perguntando às pessoas qual foi o melhor grupo e muita gente escolheu o U2.”
Eu disse: “Isso é fantástico.”
E ele disse: “Acho que estão todos doidos.” Pois ele também achou que tínhamos sido um desastre.
PAUL: Isso foi no fim da turnê e eu fui para o sul da França no dia seguinte com meu amigo Michael Hamlyn, que costuma produzir nossos vídeos. Só conseguia pensar que tinha sido uma ótima oportunidade e que o Bono a tinha desperdiçado. No dia seguinte fomos às Antibes comprar jornais ingleses e vinha uma história formidável, parecia ter sido popularmente decretado que o Bono e o Freddy Mercury foram os destaques do show. Fui percebendo aos pouco o que tinha acontecido. Todos os álbuns do U2 entraram para as paradas e o status deles deu um enorme salto. A partir daí as coisas nunca mais foram as mesmas, pois agora todos sabiam quem era o Bono.
EDGE: Ficamos realmente muito surpreendidos quando as pessoas começaram a falar do U2 como uma das melhores apresentações do dia. Achei que estavam tirando uma da nossa cara, pois acreditava que tínhamos ido muito mal. Mas olhando para trás, como fiz uma semana depois do show, comecei ver o que tinha acontecido. Era a sensação do real, do perigo absoluto, que é sempre muito excitante em um show ao vivo, e a total determinação do Bono em estabelecer um contato físico com a multidão depois de se debater alguns minutos com as barreiras. Acho que aconteceu alguma coisa ali, na tentativa que fez para conseguir o que queria tornando aquele momento ainda mais intenso.
ADAM: A atitude do Bono teve realmente algum significado, levou a emoção aquele dia até as pessoas. O seu instinto artístico estava certo. Mais uma vez.
Créditos: Juliana oliveira (JulianaSP).
Bonolocks
20/05/2007, 15h30
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Página 166
1986 – 1987
LUMINOUS
TIMES
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Página 167.
BONO
Eu recebi uma chamada do Steven Reynolds, ele era de um grupo chamado World Vision. Ele disse: ‘Você gostaria de ver em primeira mão o que está acontecendo na Etiópia?’
Eu achei que seria alguma coisa de Relações Públicas, mas ele disse: ‘Não, se você quiser ver, eu dou um jeito, só isso.’ Ele não pediu nada em troca. Aquilo me atraiu, poder colocar a mão na massa, trabalhar como meros voluntários. A Ali concordou, então partimos para uma aventura que mudaria as nossas vidas.
Nós fomos colocados no comando de um orfanato na Etiópia, em uma estação de alimentos em Ajibar. Eu era conhecido como a garota de barba, acho que porque eu tinha barba e usava brinco. Depois de um tempo, parecia para a Ali e para mim que havia uma sensação de espera muito grande no acampamento, não só pelas crianças, mas pelos adultos. Então nós desenvolvemos um programa educacional repetitivo com várias pequenas encenações e músicas para difundir informações sobre higiene, saúde e outras coisas, afetando os locais de uma forma interessante. Um era chamado de A Canção do Parto, era sobre dar a luz e nós trabalhamos nela com uma enfermeira. Era um programa que se repetia a cada três semanas. Nós ensinávamos a música às crianças e elas ficavam andando pelo acampamento cantando a música e educavam seus pais em algumas coisas. Eu aprendi um pouco a língua deles e escrevi músicas bem simples. Por exemplo, as pessoas estavam comendo as sementes que eram trazidas para serem usadas na próxima plantação. Então as crianças cantavam Nós não podemos comer as sementes porque elas são para o próximo ano / Se nós plantarmos elas de modo certo, não haverão mais lágrimas. Não era poético, mas passava a mensagem. Eu ainda me lembro da melodia. Eu ouvi falar que algumas das idéias sobreviveram depois que nós saímos de lá. Espero que seja verdade.
É uma visão muito chocante, acordar de manhã e olhar no horizonte, com a cerração da manhã ainda muito forte, e ver, milhares e milhares de pessoas vestindo trapos e que haviam andado a noite inteira para chegar na nossa estação de alimentos, apenas para esperar do lado de fora, sendo proibidas de entrar, e apenas assistir outros etíopes comendo sua comida, ainda assim sem maldade alguma. Eu achava que eles deveriam estar enfurecidos, não com os outros etíopes, mas com o mundo. Eles deveriam ter ficado com raiva, no entanto, para mim, eles nunca pareciam estar. Eu fiquei muito tocado por eles.
Em certo ponto, um homem veio até mim, com seu filho e disse que eu deveria levar seu filho comigo. Eu disse que não podia. Ele perguntou aonde eu vivia e eu disse que vivia na Irlanda, perto do Reino Unido. Ele disse, ‘Você tem condições de levar esse menino. Você pode cuidar dele’. ‘Eu não posso’, eu disse, ‘Eu não posso levar ele comigo’. Ele me disse, ‘Se você não o levar, certamente que ele vai morrer’. E eu não levei.
Eu não sei se ele sobreviveu ou não; mas de alguma forma, eu sempre levei aquele menino comigo, e se a raiva cresce dentro de mim, e isso acontece às vezes, é geralmente nele que estou pensando.
Eu me lembro de uma criança sendo colocada em minhas mãos, não maior que algumas polegadas e branca como a neve. Má nutrição em um recém nascido deixa a pele completamente branca. Eu estava com esse bebê muito pequeno em minhas mãos e eu me lembro de fazer uma oração e pensar, ‘Bem, aqui está, só isso’. Eu achei que não havia restado nenhuma esperança, mas a enfermeira disse, ‘Não, não, essa criança pode conseguir’. Eu ouvi anos depois que ela realmente conseguiu, o que é emocionante. É algo para se pensar, quando você está assistindo TV e alguém vem lhe pedir dinheiro e você pensa: ‘Oh, eu não posso fazer tudo’. Claro que você não pode, mas é aí que a sua contribuição faz a diferença. Está muito além do ‘valor do dinheiro’.
O que resultou em mim, disso tudo, foi que havia um lado estruturado dessa pobreza. Houve uma guerra civil na Etiópia bem como uma calamidade natural que causaram essa crise particular, mas a história de fome e pobreza na África não é sempre guerra e desastres naturais. Muito disso é corrupção, que eu vim a descobrir depois, e não somente deles,mas da nossa relação deturpada com a África – acordos de trocas e as dívidas antigas que nós continuamos forçando-os a pagá-las. Minha preocupação com tudo isso começou nessa viagem.
(Continua...)
Créditos: Huanita.
Bonolocks
20/05/2007, 15h34
(Continuação)
Páginas (168 – foto), 169, (170, 171 – fotos) e 172.
BONO (Continuação): Eu tinha levado uma câmera e queria gravar tudo o que estava vendo, mas eu não podia fotografar pessoas no estado em que elas estavam, isto não parecia certo. Então, nos últimos dias, eu comecei a fotografar as pessoas que estavam bem, aquelas que tinham se recuperado. Foi muito agradável olhar para os rostos bastante reais dos etíopes em uma perspectiva diferente. Dizem que a Etiópia foi o Jardim do Éden, e certamente você pode ver a Rainha de Sabá naqueles rostos. Eu publiquei isto em um livro chamado String of Pearls.
Quando eu cheguei da África, o material para o The Joshua Tree estava em desenvolvimento, os germes emocionais, um tipo de aproximação lírica, grandes idéias e grandes questões. Então eu fui chamado para participar do single anti-apartheid de Steven Van Zandt’s, ‘Sun City’. Esta era uma daquelas coisas das quais a banda não podia participar, então eu tinha que ir sozinho. Eu sempre odiei fazer isto. As pessoas recordam e dizem: ‘Bono está à frente de todas essas coisas. Ele não deveria trazer a banda com ele?’ Mas Edge, Adam e Larry, naturalmente, queriam uma vida. Para mim esta era a minha vida, esta era a maneira como eu podia justificar o fato de estar em uma banda, de certo modo. A vida que isto estava me dando trouxe responsabilidades que eram a minha devoção, e que na verdade, me distraíam.
Depois eu parti para Nova York onde, ao mesmo tempo, Steve Lillywhite estava gravando com os Rolling Stones e me convidou para as sessões. Ele disse que Mick e Keith não estavam se dando muito bem e que, talvez, fosse bom ter uma distração. Então eu passei por lá e eles foram muito bons comigo, todos eles. Até que Keith começou a tocar piano e Mick estava cantando músicas country. Eles pareciam se entusiasmar um com o outro, e também comigo. Eu percebi que eles tinham um longo catálogo de músicas de outras pessoas com as quais lhe eram familiares. Então eles pediram que eu cantasse uma música. Eu respondi: ‘Eu não conheço músicas de outras pessoas.’ Eles riram e perguntaram, ‘O que você quer dizer?’ Eu disse: ‘Eu não conheço nenhuma música de nenhuma outra pessoa. E então, como crianças, tentamos tocar algumas das músicas deles e você realmente não ia querer ouvir aquilo.’ Eles disseram, ‘Você deve saber algo!’ Eu perguntei para eles, ‘Vocês conhecem “Glad To See You Go”, dos Ramones ?’ Não estávamos indo a lugar algum. Foi então que eu percebi que o U2 não tinha tradição, tínhamos surgido do espaço sideral. Não havia raízes para a nossa música, nem blues, nem gospel, nem country – éramos pós-punk. Nossos pontos de partida foram NME, Joy Division, Kraftwerk, Penetration e The Buzzcocks. Era uma situação estranha. Keith perguntou, ‘Você não conhece o blues?’ Eu respondi, ‘Desconheço e repudio.’ Ele foi pego de surpresa. ‘O que você quer dizer com isto?’ Eu contei a ele, ‘De onde eu venho, qualquer um que toque blues, o faz em um ritmo lento de doze compassos, o que significa que eles não têm idéias originais’. Ele respondeu, ‘Então você não ouviu o blues. Quando você ouvir blues não vai ficar entediado, vai ficar assustado’.
Durante as próximas horas, Keith escolheu alguns vinis e pôs alguns de John Lee Hooker e Robert Johnson. Eu ainda estava tão impressionado com Keith como compositor e figura do rock, que o fato de ele estar gastando o seu tempo para me apresentar ao blues era algo que eu nunca iria esquecer. Ele me fez ouvir esses discos, e eles soavam como o fim do mundo – mais punk rock do que qualquer coisa que eu já tinha escutado. Eu estava ouvindo uma faixa de John Lee Hooker e perguntei, ‘Quem está tocando bateria?’ ‘Isso é o pé dele’, disse Keith. ‘Ele só estava chutando a tábua do assoalho’. Eu fiquei sem palavras. Fui embora com minha cabeça zonza, voltei sozinho para o meu quarto de hotel, escrevi ‘Silver and Gold’ e tentei aplicar o que eu tinha acabado de ouvir ao projeto, que era montar um álbum anti-apartheid. Eu telefonei para Keith no dia seguinte e disse, ‘Posso ir aí? Eu tenho uma música e gostaria de tocar para vocês. Talvez vocês queiram trabalhar nela’. Keith respondeu, ‘Com certeza’. Então eu gravei uma versão acústica da minha primeira canção de blues com Keith Richards e Ronnie Wood. Ronnie tocou slide batendo levemente com uma faca, ele é realmente um dos melhores tocadores de slide que já existiram. Um jornalista chamado Robert Palmer, um dos meus escritores favoritos, que já faleceu, tocou clarinete. Aquilo era ‘Silver and Gold’. No dia seguinte nós tocamos ‘Ain’t Gonna Play Sun City’. Eu cortei a ponta da minha barba africana. Parecia um Abraham Linconln pirado, pós-punk. Quando fizemos nossa pequena apresentação em Washington Square, no centro de Nova York, Bruce Sprigsteen, o rei de Nova York estava lá; mas eu me lembro de ter visto muitos fãs do U2 também. Eles eram realmente ativos, foi então que eu percebi que o nosso público é muito mais consciente do que vários outros. Existe uma diferença entre uma agitação rebelde, em prol de um movimento antitudo e o conceito de protesto construtivo que eu acredito que nosso público estava abraçando com tanta vontade. Havia uma grande quantidade de fãs do U2 no Live Aid. Eles estavam na América, eles estavam em todo lugar. Quando, mais tarde, começamos a Amnesty International tour, o número de membros dobrou com o nosso público. Eu acho que uma nova vontade de causar uma mudança efetiva no mundo estava crescendo entre os fãs de música, e o nosso público estava na liderança. Fosse no Live Aid, no movimento antiapartheid ou na Amnesty International, a música agora era vista como uma força unificadora, uma espécie de cola que estava construindo um novo eleitorado político. E realmente valeu a pena apostar nisso, porque isto era algo que nunca tinha acontecido fora do punk. Nós estávamos reunindo forças para atingir um objetivo bastante claro e alcançável – alguns diriam alvos fáceis. Diriam que estávamos evitando as lutas pesadas. Mas em 1985, quem poderia dizer que a apartheid cairia? Quem poderia predizer que a Anistia Internacional seria tão efetiva? A verdade é que nós não éramos pequenos, éramos grandes, este era o nosso poder, e ainda é.
EDGE: Eu tive algum tempo antes que todos voltassem ao trabalho e decidi procurar um projeto que me envolvesse em novas áreas da composição musical. Paul nos recomendou e conseguimos uma oferta para montarmos a trilha sonora de um pequeno filme inglês chamado Captive. O roteiro era muito bom, mas o filme não correspondeu às expectativas. Eu pedi que Michael Brook, um guru técnico canadense que eu conheci através de Eno e Lanois, colaborasse comigo. Eu trabalhei com alguns demos em casa e depois Michael e eu passamos algumas semanas em Windmill Lane gravando, mixando e combinando as músicas com as imagens. Nós gravamos uma música com uma cantora bastante jovem chamada Sinead O’Connor. Foi uma mudança muito bem vinda do trabalho com a banda, e eu fiz algumas descobertas que trouxe comigo, uma delas foi na verdade uma invenção de Michael Brook, a guitarra Infinite, que foi uma parte muito importante do próximo álbum do U2.
BONO: Eu gravei uma colaboração com Clannad, ‘In A Lifetime’. Eu sou o homem que não sabe dizer não, mas eu amava Maire Ni Bhraonain. Eu acho que ela tem uma das maiores vozes que o ouvido humano já experimentou. Eu me diverti muito fazendo o vídeo. Eu dirigia um Humber Super Snipe naquela época, que era um ônibus grande e velho ou algo parecido, e eu tinha comprado uma versão fúnebre para repor algumas peças, então, antes de talharmos, eu resolvi dar um passeio com ele no vídeo.
Eu costumava encontrar meu pai aos domingos para uma bebida e ele me puxava para um canto e dizia, ‘Eu tenho um corvo para escarafunchar com você’. Ele sempre tinha um corvo para escarafunchar. Eu odiava essa expressão. Um corvo para escarafunchar – Eu não sei o que isso quer dizer. Um corvo para depenar? Eu não faço idéia. Tudo o que isso significava era problema. Ele disse, ‘Aparentemente, você foi à Grafton Street para comprar alguns discos e pediu o álbum de alguém – eu não sei quem eles são, algum novo grupo de selvagens – e eles disseram que não tinham. E você disse, “Vocês não sabem quem eu sou? Arranjem o disco!” Agora, você não pode sair por aí fazendo isso’. Eu falei, ‘Você realmente acha que eu iria agir dessa forma?’ Ele respondeu, ‘Foi o que alguns colegas disseram no escritório. Saiu nos jornais’. Eu tive que explicar para ele: só porque saiu nos jornais não quer dizer que é verdade, e depois de algum tempo ele começou a aceitar isso. Até que um dia nós fizemos o vídeo de Clannad, e ele falou em tom conciliatório, ‘Você está sempre me dizendo para não acreditar no que eu leio nos jornais. Eu ouvi que tinha uma boa notícia lá outro dia. Aparentemente, você foi visto dirigindo um carro fúnebre pelas redondezas. O que mais eles vão inventar?’ Eu não tive coragem de ser franco com ele.
ADAM: Quando uma turnê termina, você tem um período para avaliar a turnê, marcar encontros de negócios, fazer um balanço de tudo e ficar por perto para várias coisas. Então você permanece um mês ou seis semanas sem atender ao telefone. Depois disso é realmente hora de começar a escrever; este é o processo. Quando há quatro de você tentando fazer a coisa funcionar, tudo pode ficar difícil e consumir muito tempo.
EDGE: Minha filha Arran nasceu em 15 de outubro de 1985. Foi uma época maravilhosa, mas nós já estávamos começando a trabalhar nos primeiros estágios do novo álbum, por isso havia pouco tempo para refletir. Eu só precisava correr bem rápido para conciliar tudo. Larry tinha comprado uma casa bem próxima ao nosso antigo chalé de ensaios. Nos mudamos para lá por algumas semanas para organizar algumas idéias geradas durante a Unforgettable Fire tour. Havia algumas versões muito brutas do que depois se tornou ‘With Or Without You’, ‘Red Minning Town’; uma música do Bono chamada ‘Trip Through Your Wires’ e uma canção chamada ‘Woman Fish’ que, felizmente, nunca viu a luz do dia, exceto em um programa de TV irlandês, do qual concordamos em participar em um momento de loucura. Tinha algum tempo que nós não aparecíamos em público, então, com duas músicas escritas pela metade, decidimos que era a hora perfeita de mostrarmos para a nação a nossa ‘nova direção’. Foi horrível, a pior de uma longa fila de aparições televisivas arriscadas. A idéia, se é que havia alguma, era testar o novo material ao vivo, para uma platéia. Percebemos instantaneamente que ainda tínhamos um longo caminho para percorrer. Mais tarde tentamos subornar a equipe da RTE para que nos dessem as fitas, mas parece que eles compartilharam da nossa opinião sobre a performance e acharam que não valia a pena guardá-las.
Foi um período difícil, como geralmente acontece no começo. Parecia que não estávamos indo a lugar algum com a música. Bono, pelo menos, tinha um sentimento muito forte sobre a tonalidade e a cor das composições. Ele queria explorar a América. Quando estávamos começando, eu classifiquei as raízes da música americana como uma área que eu precisava explorar, porque tudo o que eu conhecia sobre o assunto eram as versões das finadas rádios FM dos anos 70. Eu tinha ficado meio que vacinado contra o blues branco. Mas, durante a Unforgettable Fire tour, eu descobri uma instituição americana maravilhosa: ‘Public Radio.’ Pela primeira vez eu ouvi músicas de Robert Johnson, Howling Wolf, Hank Williams, Lefty Frizzell e outros cantores e bandas de blues e country. De repente eu descobri que era hora de considerarmos novas idéias.
ADAM: Nós realmente estávamos tentando fazer músicas novas e energéticas inspiradas no antigo rock ‘n’ roll. De certo modo estávamos retornando à base, só que essa não era a nossa base.
BONO: Começamos a ter contato com The Waterboys e Hothouse Flowers. Combinar músicas indígenas irlandesas com canções folclóricas americanas estava na moda. Os Hothouse Flowers foram uma grande influência para nós porque, na verdade, eles eram a primeira banda irlandesa de dance. Eles eram sensuais, falavam irlandês e o vocalista cantava através dos olhos azuis da alma. Depois começamos a escutar os Waterboys, que traziam consigo a inspiração de uma musa mítica. Mike Scott era o melhor compositor do mundo naquela época, mas, você sabe, a música irlandesa geralmente acaba no pub, o que realmente debilita a potência das novas forças. A musa fica bêbada, as roupas rasgam e os cabelos ficam muito, muito longos. Mas nós fomos afetados por isto, isto nos empurrou em direção às raízes. Minha conversa com Bob Dylan, Van Morrison e Keith Richards estava me apontando para o passado.
EDGE: Trabalhando apenas com alguns esboços grosseiros, fomos para o STS, um pequeno estúdio com um time realmente bom, liderado por Paul Barret, um tecladista, produtor e engenheiro muito talentoso. Havia muito pouco para se entusiasmar naquele ponto. ‘With Or Without You’ era apenas um conjunto de acordes, não tínhamos uma melodia ou trechos de guitarra. Nós tentávamos todos os tipos de permutação, mas não chegávamos perto de algo que desse para gravar. A primeira idéia musical realmente interessante surgiu de um ensaio mágico no STS. Eu estava tocando um trecho na guitarra e Adam e Larry começaram a tocar qualquer coisa. Primeiro eu pensei: ‘Que droga é essa que eles estão fazendo?’ Eles estavam tocando em um ângulo bizarro. Eu estava quase parando o ensaio e começando tudo outra vez. Finalmente terminamos aquela tomada e eu expliquei que eles estavam tocando no ritmo errado, mas quando ouvimos de novo na sala de controle, percebemos que era absolutamente brilhante. Aí estava o começo de ‘Bullet The Blue Sky’ e o exemplo perfeito de como as bandas são um conceito criativo. Não conseguiríamos alcançar este ponto sozinhos, de modo algum.
BONO: Iniciamos com um riff e depois Adam começou a tocar o baixo de um modo diferente, como só o homem do jazz pode fazer. Um riff é um riff – baixo é só para gênios.
ADAM: Tudo naquele ensaio estava em ritmos diferentes, mas funcionou quando unimos os pedaços desiguais. A partir daquele momento, conseguimos desenvolver os contornos da música.
EDGE: ‘With Or Without You’ ainda soava horrível. ‘Red Minning Town’ estava um pouco melhor. Provavelmente este era o somatório de tudo o que tínhamos naquele ponto. Brian e Danny ouviram os demos e concordaram em gravar mais um álbum conosco. Foi somente neste ponto que soubemos da turnê da Anistia Internacional.
PAUL: Jack Healey era o diretor da divisão da Anistia Americana. Ele era um cara impressionante, tinha sido monge franciscano e padre católico e simpatizava muito com o U2. Ele foi nos ver na Radio City Hall em 1984 e pediu que fizéssemos uma turnê em favor da Anistia. Bono e eu demos a ele carta branca para usar uma semana da banda quando ele precisasse, com isso ele poderia envolver mais pessoas no projeto.
EDGE: O momento não poderia ter sido pior. Estávamos nos preparando para ir para o estúdio e eu fiquei preocupado porque poderíamos perder o foco e a concentração. Ao mesmo tempo, não havia como negar, isto parecia ser muito importante. Adiamos a chegada de Brian e Danny e decidimos ir para a turnê.
PAUL: Eu disse para Jack Healey: ‘A primeira coisa que você precisa para montar esta turnê é um promoter, e o único promoter com autoridade para fazer isto com sucesso é Bill Graham.’ (O Bill Graham americano, lógico.) Então eu apresentei Jack para Bill. Próximo passo, eu recebi uma ligação de Bill dizendo, ‘Você precisa entrar em um avião e vir trabalhar comigo para conseguirmos outros artistas’. Telefonamos para todos os artistas do mundo e nenhum podia participar. Na verdade, isto me ensinou a lição de que nestas situações o contato deve ser realmente de artista para artista. Então Bono assumiu o telefone. Anne-Louise Kelly, que trabalhava para mim na época e Ellen Darst também se envolveram muito. Nossa pequena infra-estrutura particular provou ser efetiva.
BONO: Anne-Louise Kelly e eu ficávamos acordados até tarde da noite tentando convencer mais pessoas a participarem da turnê, telefonamos para todos que conhecíamos, Paul McCartney, Mick Jagger, Prince. Prince estava no auge de sua popularidade e seu empresário disse, ‘Bem, é só você ligar para este número entre sete e oito horas’. Eu falei, ‘Oh, ótimo, esse é o número da casa dele?’ Ele respondeu, ‘Não, é do estúdio’. ‘Alguém vai atender?’, eu perguntei. Ele disse, ‘Bem, nós não sabemos, mas algumas vezes ele passa por lá entre sete e oito horas’. Eu disse, ‘Posso marcar uma reunião para falar com ele?’ Ele respondeu, ‘Não, ele não agenda reuniões. Mas se ele estiver passando e o telefone tocar, ele atende’. Eu me lembro de ter pensado: O sucesso não é pesado, é imponderável. Sem gravidade você fica flutuando. Eu acho que todo mundo flutua por um tempo. Muitas pessoas foram simpáticas, mas Peter Gabriel foi o primeiro a se comprometer. Foi minha primeira prova da luta nas trincheiras, o tipo de trabalho árduo com o qual eu estou tão acostumado agora. Era emocionante quando algumas pessoas diziam que iriam participar depois de algumas ligações telefônicas.
No final, eram apenas U2, Peter Gabriel, Sting, algumas vezes com o The Police, Lou Reed e alguns outros, Jackson Browne, Bryan Adams, The Neville Brothers e Joan Baez. E a turnê Conspiracy Of Hope estava formada.
Lou Reed nos ajudou de verdade. Houve um momento estranho com ele na primeira conferência da imprensa. Toda vez que eu me virava para falar com ele, ele olhava em outra direção. Eu não estava esperando este temperamento distante e frio. A esposa dele na época, Sylvia, uma linda garota, estava lá. Eu disse para ela, ‘Lou tem algum problema comigo?’ Ela respondeu, ‘Um problema com você? Não, de jeito nenhum. Na verdade ele só está um pouco tímido. Significou muito para ele quando você cantou a música dele no Live Aid.’ Aparentemente ninguém tinha o convidado para fazer o Live Aid e ele ficou sentado em casa como todo mundo, assistindo, e de repente eu comecei a cantar ‘Satellite Of Love’ e um pequeno trecho de ‘Walk On The Wild Side’ no meio de ‘Bad’. Sylvia disse, ‘Ele não joga conversa fora sobre assuntos sérios, e ele te leva muito a sério’. Nos tornamos bons amigos, Lou Reed e eu. Ele é para Nova York o que James Joyce foi para Dublin.
(Continua...)
Créditos: Camila (Mila Hewson).
Rosean Vox
20/05/2007, 17h08
.... "Quando nos agarramos a algo com muita força, é como se já a tivéssemos perdido.Ficamos fracos quando queremos muito alguma coisa. Quando renunciamos dela, nos tornamos muito mais fortes......"
ESTAS PALAVRAS DO BONO........, sem comentários.......
Mysterious girl
20/05/2007, 19h04
.... "Quando nos agarramos a algo com muita força, é como se já a tivéssemos perdido.Ficamos fracos quando queremos muito alguma coisa. Quando renunciamos dela, nos tornamos muito mais fortes......"
ESTAS PALAVRAS DO BONO........, sem comentários.......
Putz sabe que eu tb pensei a mesma coisa sobre essas palavras? ;) Até mandei por e-mail pra uma amiga que está passando por uma situação onde essas palavras se encaixam perfeitamente! :P
Adri Soul Love
20/05/2007, 19h06
Não vou cansar de agradecer! Valeu novamente gente!:aprovado:
EDGE: Minha filha Arran nasceu em 15 de outubro de 1985, meu filho nasceu dia 15 de Outubro tbm!
Parabéns pessoal, daqui a pouco vocês terminam de traduzir o livro todo....:aprovado:
Mysterious girl
20/05/2007, 20h00
(Continuação)
Eu estava andando com a Ali e o Freddy Mercury me puxou para o lado e disse: “Oh, Bo-No....é Bo-NO ou Bon-O?” Eu disse: “É Bon-O. E ele disse: “ Vem aqui comigo. Estive conversando com o Roger, o Peter e o David e chegamos à conclusão que hoje já não há mais cantores, hoje em dia todos gritam, mas você é um cantor”. Eu estava encostado na parede e ele tinha a mão apoiada na parede e conversava comigo como se estivesse cantando uma garota. Me fez rir, mas eu estava muito nervoso e ia trocando olhares com a Ali. Pensei: “Epa, esse cara é mesmo exagerado”. Mais tarde, comentei o acontecido com alguém e me falaram: “E está espantado com o que?” Eles o chamam de Queen!”
Essa parte é muito engraçada.... :lol: Bono cantado pelo Freddy Mercury...:lol:
hawkmoon269
20/05/2007, 20h15
nossa gente,parabéns mais uma vez
por esse trabalho maravilhoso que vcs estão fazendo!!
muito bom mesmo,e muito solidário tbm!!:aprovado:
parabéns!!
se eu pudesse,dava um abraço e um beijo em todos vcs que estão
envolvidos,mas como a distancia não permite,e o pc tbm não:lol:
deixo meus agradecimentos:)
Gente, vcs n devem aguentar mais ler agradecimentos aqui! hahaha mas n tem como deixar de dizer mto obrigada por esse mega trabalho! Ultimamente mal tenho tempo de entrar aqui no UV e qdo consigo vir aqui dar uma olhadinha nas novidades me deparo com um projeto lindo desses ... fiquei realmente emocionada! Vcs são mto especiais! :abraço:
followerU2
20/05/2007, 22h05
Essa parte é muito engraçada.... :lol: Bono cantado pelo Freddy Mercury...:lol:
Yep...nem o Freddy Mercury resistiu ao Bono e seu glorioso mullet :P E pelo que ele conta ele era bem inocente quanto às intenções do Freddy lobo mau...que nem a Chapéuzinho....tadinho do rapaz :lol: :assobio:
Mais uma parabéns à equipe do projeto U2 By U2 em "brasileiro" :sim:
MT
Bonolocks
20/05/2007, 23h04
Poxa turma, vocês nem imaginam como essas palavras animam a gente a continuar!:aprovado: Dá uma alegria enorme saber que todos estão apreciando e se emocionando como nós ao acompanhar a história da banda. Vez por outra comentando sobre o que estamos digitando, traduzindo ou revisando entre alguns membros da equipe, nos faltam palavras para a empolgação e emoção por detrás de momentos agradáveis, engraçados, tristes e comoventes que nos são descritas pelas próprias palavras dos 4 irlandeses.
Valeu mais uma vez pelo incentivo e apoio.;) :aprovado:
Parabéns pela iniciativa, pessoal. Está sendo uma incrível viagem mergulhar nessa parda...
Durante a leitura, eu fui extraindo alguns vídeos de ocasiões citadas no texto até agora...
Pra quem estiver interessado, entra no Chat Oficial U2 Brasil... nesse link aqui http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=16381393&tid=2530709436500901955&start=1
ainda não estou muito familiarizado por aqui, mas se quiseram posso postar em algum lugar por aqui tbm...
abraços, e parabéns novamente pela iniciativa!
:aprovado:
Bonolocks
21/05/2007, 15h53
Parabéns pela iniciativa, pessoal. Está sendo uma incrível viagem mergulhar nessa parda...
Durante a leitura, eu fui extraindo alguns vídeos de ocasiões citadas no texto até agora...
Pra quem estiver interessado, entra no Chat Oficial U2 Brasil... nesse link aqui http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=16381393&tid=2530709436500901955&start=1
ainda não estou muito familiarizado por aqui, mas se quiseram posso postar em algum lugar por aqui tbm...
abraços, e parabéns novamente pela iniciativa!
:aprovado:
Que ótima idéia Duff!!!:aprovado:
Você pode entrar no U2 Mart, nesse link: http://www.ultraviolet-u2.com/foruns/forumdisplay.php?f=7
Lá tem uma caixinha intitulada Novo Tópico. Clicando nela você poderá dar um tema, talvez nesse caso "Vídeos relacionados ao U2 By U2" (só uma sugestão) e colocar os links dos vídeos que queira, talvez nos dando uma pequena explicação do que se trata e até colocando em que página do U2 By U2 encontramos a referência ao vídeo. Que acha?
Brigadão também pelo apoio e seja bem vindo ao UV!!!:aprovado:
Que ótima idéia Duff!!!:aprovado:
Você pode entrar no U2 Mart, nesse link: http://www.ultraviolet-u2.com/foruns/forumdisplay.php?f=7
Lá tem uma caixinha intitulada Novo Tópico. Clicando nela você poderá dar um tema, talvez nesse caso "Vídeos relacionados ao U2 By U2" (só uma sugestão) e colocar os links dos vídeos que queira, talvez nos dando uma pequena explicação do que se trata e até colocando em que página do U2 By U2 encontramos a referência ao vídeo. Que acha?
Brigadão também pelo apoio e seja bem vindo ao UV!!!:aprovado:
Valeu! Farei isso mesmo!!
abraço
Bonolocks
21/05/2007, 16h18
Valeu! Farei isso mesmo!!
abraço
;) :aprovado:
WOW!!!
Da última vez que entrei nesse tópico, o Cris e a Joanne estavam discutindo a possibilidade dela digitar os textos da versão portuguesa...hoje entro aqui e vejo que o projeto virou realidade e com um excelente trabalho de equipe, isso é que é "Força-Tarefa".
PARABÉNS à todos vocês envolvidos nesse projeto!!!:aprovado:
Se eu tivesse tempo, adoraria ajudar. É sempre bom ver textos dos nossos fabulous 4 traduzidos por aqui..."Spreading the Gospel" como eu costumo dizer.:P
Pela falta de tempo, confesso que não li os trechos postados (ainda nem acabei de ler o original:( ), mas sei do espirito que move quem se predispõe a fazer um trabalho como esse, e um elogio é sempre bem vindo e motivador!
Keep Going!:)
BETY VOX
21/05/2007, 18h11
Se eu pudesse voar,
Andar com o vento,
Me propagar com o som,
Ou com a velocidade da luz,
Me transportaria para junto
De cada um de vocês.
Daria um beijo e um abraço,
De carinho e gratidão.
Mas sou mortal,
Sou normal,
Sou humana.
Com uma alma e energia
Mística e divina
E toda esta energia,
Toda parte positiva
Eu transfiro pra vocês.
Para aquecer suas mentes e corações
Dando-lhes inspiração
Nesta valorosa cruzada
De disprendemento.
Bem ao estilo daquela banda irlandesa.
Que eu sei que os inspiram,
A partilhar com todos nós
O prazer desta emoção.
Bonolocks
21/05/2007, 18h17
Se eu pudesse voar,
Andar com o vento,
Me propagar com o som,
Ou com a velocidade da luz,
Me transportaria para junto
De cada um de vocês.
Daria um beijo e um abraço,
De carinho e gratidão.
Mas sou mortal,
Sou normal,
Sou humana.
Com uma alma e energia
Mística e divina
E toda esta energia,
Toda parte positiva
Eu transfiro pra vocês.
Para aquecer suas mentes e corações
Dando-lhes inspiração
Nesta valorosa cruzada
De disprendemento.
Bem ao estilo daquela banda irlandesa.
Que eu sei que os inspiram,
A partilhar com todos nós
O prazer desta emoção.
Que linnndooo Bety!!! Brigadão!!!:abraço:
JulianaSP
21/05/2007, 18h27
Se eu pudesse voar,
Andar com o vento,
Me propagar com o som,
Ou com a velocidade da luz,
Me transportaria para junto
De cada um de vocês.
Daria um beijo e um abraço,
De carinho e gratidão.
Mas sou mortal,
Sou normal,
Sou humana.
Com uma alma e energia
Mística e divina
E toda esta energia,
Toda parte positiva
Eu transfiro pra vocês.
Para aquecer suas mentes e corações
Dando-lhes inspiração
Nesta valorosa cruzada
De disprendemento.
Bem ao estilo daquela banda irlandesa.
Que eu sei que os inspiram,
A partilhar com todos nós
O prazer desta emoção.
Bety mtoooo lindooooo! Fiquei até arrepiada!!:abraço:
Bjuuuus
Sô Hewson
23/05/2007, 23h16
Parabéns pela iniciativa, pessoal. Está sendo uma incrível viagem mergulhar nessa parda...
Durante a leitura, eu fui extraindo alguns vídeos de ocasiões citadas no texto até agora...
Pra quem estiver interessado, entra no Chat Oficial U2 Brasil... nesse link aqui http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=16381393&tid=2530709436500901955&start=1
ainda não estou muito familiarizado por aqui, mas se quiseram posso postar em algum lugar por aqui tbm...
abraços, e parabéns novamente pela iniciativa!
:aprovado:
Que ótima idéia Duff!!!:aprovado:
Você pode entrar no U2 Mart, nesse link: http://www.ultraviolet-u2.com/foruns/forumdisplay.php?f=7
Lá tem uma caixinha intitulada Novo Tópico. Clicando nela você poderá dar um tema, talvez nesse caso "Vídeos relacionados ao U2 By U2" (só uma sugestão) e colocar os links dos vídeos que queira, talvez nos dando uma pequena explicação do que se trata e até colocando em que página do U2 By U2 encontramos a referência ao vídeo. Que acha?
Brigadão também pelo apoio e seja bem vindo ao UV!!!:aprovado:
Achei a idéia ótima!!!!! :aprovado:
E acho que agradecimentos nunca são demais para todo mundo que disponibiliza seu precioso tempo para alegrar nossos dias com a tradução desse livro (uma bíblia da história do U2, hein?)
Valeu mesmo á todos! :feliz:
Fico muito orgulhoso por ver os fãs dos U2 a fazerem tudo por tudo por alargar os horizontes dos restantes. Parabéns e força com a iniciativa! :aprovado:
Fico muito orgulhoso por ver os fãs dos U2 a fazerem tudo por tudo por alargar os horizontes dos restantes. Parabéns e força com a iniciativa! :aprovado:
Temos bons exemplos sempre, né gente??! :P
Bonolocks
26/05/2007, 18h38
(Continuação)
Páginas (173 – foto), 174, (175, 176 – fotos) e 177.
EDGE: Para conseguir grandes artistas como esses, todos viajando juntos no mesmo avião, fazendo conferências de imprensa e concertos em todas as grandes cidades dos Estados Unidos, era simplesmente fantástico. Não havia muitas brigas de ego, a atmosfera não podia ser mais positiva. Toda conferência de imprensa começava com o Aaron Neville cantando ‘Amazing Grace’ a cappella. Ver o Aaron, que é um grande cavalheiro, mas que tem uma cara que parece que vai arrancar tua cabeça fora, cantando aquela melodia em falsete, geralmente acalmava até o jornalista mais cínico. Aí vinha o Jack Healey, que poderia acertá-los bem no meio da testa com um dos seus sermões. Quando ele falou sobre o sofrimento dos prisioneiros objetores de consciência, ele estimulou um intenso escândalo moral, que apenas uma pessoa realmente crente poderia alcançar. Depois de tudo isso, estava tudo acabado, eles simplesmente desmoronavam.
Nós terminávamos os shows na maioria das ocasiões, o Sting tocava antes da gente. Em Nova York, o The Police deveria terminar o show, mas no último minuto eles disseram que queriam que a gente acabasse o show. Então teve um tipo de cerimonial para trocar as guitarras. Nós tocamos com os instrumentos deles.
BONO: Quando o The Police tocou, você podia ter certeza que essa era uma das melhores bandas da história. Quando eles nos deram os seus instrumentos, eu interpretei isso como um grande ato de generosidade da parte deles, porque nós éramos os moleques mais novos, teimosos, com aquele horrível desrespeito que se tem com pessoas mais velhas. Quando eles entregaram seus instrumentos, foi muito emocionante pra eles. Eu acho que estava muito claro nos olhos do Sting que ele não iria nunca mais tocar em uma banda. Eles se reuniram pra essa turnê e foi só isso. Esse foi um grande momento, como a passagem de uma tocha.
EDGE: Encontrar o Bob Dylan pela primeira vez foi uma ocasião muito importante pra mim. Ele tocou no show de Los Angeles, e me procurou no corredor dos bastidores do Forum e disse: ‘Eu adoro o seu trabalho, é incrível. É maravilhoso tocar com você, cara’. Eu passei o resto da semana flutuando.
BONO: Na minha opinião, a pessoa que levantava o espírito do local toda a noite era o Peter Gabriel. Sua generosidade como homem, seu humor, seu espírito como um cantor. Ele estava logo ali. Sua canção ‘Biko’ era a mais enfática no assunto da Anistia. Steve Biko era um manifestante anti-apartheid que foi espancado até a morte em uma prisão. A música se tornou um hino durante a turnê.
ADAM: Tinha um grupo de mais ou menos oito artistas que viajavam juntos em um avião fretado e se hospedava nos mesmos hotéis. Isso parecia como uma coisa que tinha acontecido nos anos sessenta. Era como um romance bem sossegado; eu acho que um dia teve uma guerra de travesseiros, mas era só isso. As pessoas apareciam e faziam seu trabalho. Eu acho que eles eram muito transparentes sobre porque eles estavam na turnê. É difícil você manter o seu ego quando você está lidando com o assunto dos prisioneiros objetores de consciência.
LARRY: Após os shows nós voltávamos pro hotel e às vezes alguém sentava ao piano e nós ficávamos cantando, mas tudo isso era muito contido. Estrelas de rock loucos e selvagens.
EDGE: Um dos triunfos da turnê foi que nós conseguimos, através de toda influência e pressão da mídia, a libertação da prisão do grande líder e cantor nigeriano Fela Kuti. Ele foi preso pelas autoridades nigerianas em alguma armação sobre uma suposta evasão de impostos. Na verdade, eles estavam tentando silenciá-lo e antes do final da turnê, eles o libertaram e ele tocou com a gente. Esse foi o ponto de partida para a nossa associação com a Anistia Internacional e esse foi o primeiro de vários prisioneiros objetores de consciência que foram bem sucedidos em obter a sua liberdade após a grande bagunça que os nossos fãs fizeram a respeito tudo isso.
Tinha alguma coisa, sobre estar na estrada com todas essas pessoas fazendo isso para a Anistia, que nos deixava focados. Então quando nós voltamos para Dublin, as sessões para gravação do álbum ganharam uma intensidade e um poder extra. Eu acho que a turnê, muito mais do que parar as gravações, ajudou enormemente a gente a dizer o que realmente importava pra gente.
ADAM: Eu acho que a turnê nos mostrou que nós estávamos certos em perseguir esse tipo de crueldade e contentamento, tentando fazer músicas que descreviam a cegueira e a ambição da América de Ronald Reagan.
BONO: Eu tive uma folga em Los Angeles com a Ali. Eu estava interessado sobre o que estava acontecendo na Nicarágua e em El Salvador, que eram as grandes questões políticas da época. Havia um grupo chamado Sanctuary, que apoiava camponeses que eram capturados no fogo cruzado do que era uma verdadeira guerra civil em El Salvador. Havia tropas guerrilheiras e do governo que torturavam essas pessoas, e que eram apoiadas pelas forças armadas dos EUA, que temiam uma revolução socialista. De alguma maneira, nós estávamos envolvidos na ajuda ao Sanctuary através de um amigo nosso chamado David Badstone, que agora é professor de filosofia na Universidade de Oakland. Em algum momento ele disse, “Por que você não vai lá e vê com seus próprios olhos?” Então eu e a Ali fomos passar uma semana de férias na tumultuada América Central. O avião era um porão de barganhas, se não houvesse galinhas e cabras no banco ao lado, então você poderia certamente escutar elas cacarejando e balindo em algum lugar próximo. Havia um certo medo quando nós nos sentamos.
Eu tive momentos extraordinários na Nicarágua, e me apaixonei por esse lugar muito cultural e musical. As idéias de revolução eram, no meu ponto de vista, uma união de vários dos meus interesses. Cristianismo, justiça social, artistas no poder. O poder que foi experimentado durante a revolução Sandinista tinha que ser sufocado, porque ele era potencialmente perigoso, e como tinha acontecido no México, os Estados Unidos se sentiram muito inseguros.
Nós fomos conhecer os camponeses, que estavam presos nesse fogo cruzado e nós mesmos acabamos no meio do fogo. Eu nunca fui baleado antes. Eu me lembro do som entorpecente das balas cruzando os céus sobre as nossas cabeças. Isso era de alguma forma vergonhoso, nem um pouco do que eu estava esperando. Um grupo de soldados tinha nos visto indo até uma área dominada pelos rebeldes e tinham a intenção de nos intimidar. Eles certamente foram bem sucedidos – nós simplesmente congelamos e eu fiquei me perguntando: ‘O que nós estamos fazendo aqui? Por que eu trouxe a minha mulher para esse país perigoso?’ O David me manteve com a cabeça fria. Ele disse ‘Apenas continue andando, não olhe para nada, não faça nada’. Eles deram mais algumas voltas pela gente e nós continuamos andando, e isso foi tudo. Nós atravessamos as colinas e lá havia morteiros sendo disparados que faziam o chão tremer. As tropas do governo tinha informado à uma vila de simpatizantes do movimento rebelde que eles iriam destruir a vila e que todos deveriam ir embora, mas como as pessoas não queriam deixar as suas casas, houve muitas fatalidades. Ouvíamos disparos de bombas seguidos de morteiros. Eu me lembro de assistir esse horror acontecer em uma colina próxima, em um outro mundo, ao lado da porta onde nós estávamos mas não tão longe que nós não pudéssemos sentir. E então depois conhecer essas lindas comunidades de camponeses, que eram muito gratos pela ajuda que eles estavam recebendo do grupo local da Anistia, o Sanctuary. Isso era El Salvador.
Quando eu retornei pra Dublin, reatei minha amizade com o Gavin e o Guggi. Nós pintávamos juntos, escutávamos música e saíamos para beber até altas horas como um bando de tolos. Eu tinha acabado de deixar pra trás todas essas bobagens e agora sabia que eu precisava de um pouco disso tudo de volta. Eu lembro da Ali me dizendo: ‘Eu não me apaixonei por essa pessoa correta. Eu me apaixonei por alguém que tinha muito mais maldade em si’. Nós tivemos grandes alegrias na África e em El Savador. Eu devo ter feito essas viagens para me livrar um pouco desse status de pop star. Eles lugares distantes, as pessoas não tinham idéia de quem eu era e isso era maravilhoso. Nos anos oitenta, eu era um pop star auto-consciente. Isso acontece com pessoas empolgadas com o início da fama e agora eu estou no caminho oposto, mas ao relembrar, isso parecia opressivo. Então eu adorava viajar e, é claro, em aumentar o medo e a ansiedade da ignorância. Nós podíamos fazer as coisas mais estúpidas, podíamos nos comportar como crianças. Dávamos muitas risadas. Voltando pra Dublin eu queria as mesmas coisas, eu precisava readquirir esse senso de diversão e reencontrei isso com o Gavin e o Guggi. Era maravilhoso estar de volta com essas pessoas com quem eu tinha crescido – eu me sentia vivo.
EDGE: Após a turnê Conspiracy of Hope, nós ainda tínhamos apenas algumas músicas. Nós passamos muito tempo conversando sobre o que esse álbum iria se tornar. O Bono estava lendo Flannery O´Connor e Truman Capote. Eu estava lendo Norman Mailer e Raymond Carver. Nós estávamos mergulhados no encanto americano, não na realidade da TV, mas no sonho, a versão da América sobre a qual Martin Luther King falava. A linguagem dos escritores americanos mexeu principalmente com o Bono, o tipo de imaginário e a qualidade cinematográfica da paisagem americana se tornou o ponto de partida.
BONO: Eu estava viajando muito, e então viagens se tornaram um grande tema. Eu tava escutando blues, e mergulhando nos escritores americanos, desde escritores americanos nativos até os escritores negros como James Baldwin, Ralph Ellison e poetas e dramaturgos como Tennessee Williams, Allen Gisnberg, Sam Shepherd, Charles Bukowski. Eu tinha esse caso de amor com a literatura americana ao mesmo tempo que comecei a perceber o quanto a polícia estrangeira norte-americana era perigosa em vários países pelo planeta, com o esmagamento brutal dos Sandinistas. Eu comecei a ver duas Américas, a América mítica e a América real. Era um tempo de ambição, Wall Street, ganhar, ganhar, ganhar, sem tempo para perdedores. Nova York estava falida. Era uma realidade muito dura para a América, assim como o seu sonho. Então eu comecei a trabalhar em alguma coisa que na minha cabeça ia ser chamada de The Two Americas (As Duas Américas). Eu queria descrever essa era de prosperidade e os escândalos de Saving e Loans. Eu comecei a pensar sobre o deserto, e o que vinha em minha mente eram imagens de onde eu estava, uma pessoa um pouco fora de equilíbrio na minha vida emocional mas muito mais alerta como um escritor e comentarista do que eu via ao meu redor, meu amor pela América e meu medo do que a América poderia se tornar.
EDGE: A idéia de fazer um ‘disco cinematográfico’, onde cada música remeteria à uma locação física específica, surgiu durante as primeiras conversas que tivemos com o Brian. A paisagem do sudoeste e do deserto norte-americanos se tornou um assunto recorrente nas nossas letras. Nós tínhamos apenas algumas idéias da textura e da sensação de cada música, alguns começos aqui e ali, e uma grande determinação para chegar em algum lugar, mas nenhuma música acabada. Começamos a trabalhar as nossas idéias, tentando dar uma forma à elas, na maioria das vezes pela experimentação. O progresso era repentino e tinha começado, e nós contamos mais com os nossos instintos do que com a arte. Parecia que não tinha nenhuma razão para sermos metódicos, o que era difícil para todos nós, mas essa incerteza, e, de alguma forma, não tão profunda, criou uma tensão e uma sensação de perigo que nos manteve focados.
LAARY: Em julho, Greg Carroll morreu num acidente de motocicleta em Dublin. Ele era um cara muito especial, um Maori da Nova Zelândia. Nós nos juntamos à ele em Auckland durante a nossa turnê. Ele trabalhava como ajudante de palco e nos deixou uma grande impressão. Ele nunca tinha saído do país antes, nós conseguimos um passaporte pra ele e ele foi para a Austrália, e depois, para a América com a gente. Então ele veio para Dublin para trabalhar diariamente nos trabalhos com a gente. Ele construiu uma vida nova e era muito popular na cidade. A sua morte realmente balançou a gente – era a primeira vez que alguém do nosso círculo de trabalho que tinha morrido.
EDGE: Isso foi uma grande tragédia, porque ele era um cara muito novo e as circunstâncias da sua morte eram totalmente evitáveis, apenas um desses caprichos da vida. O Greg era uma pessoa muito bonita, um pouco ingênuo, mas com uma grande alma, e fisicamente um grande atleta. Ele sempre queria saber o que estava acontecendo e corria atrás de novas tecnologias, novas idéias, qualquer coisa que tivesse acontecendo e que fosse interessante pra gente. O seu trabalho na estrada era cuidar do Bono enquanto ele estivesse no palco; ele era o cara com protetores nos joelhos e nos cotovelos saltando pelo palco para assegurar que o Bono alcançaria seu microfone mesmo quando resolvesse escalar algum andaime. Se o Bono fosse se jogar pra cima da platéia, o Greg estaria lá para ter certeza que o Bono não quebraria seu pescoço. Você pode vê-lo como uma sombra do Bono durante o Live Aid, em cada passo que ele dava no meio do público.
Sua morte foi resultado de um terrível acidente de moto, do seu instinto de sempre levar as coisas ao extremo. O Greg era como um membro da família, mas o fato dele ter ficado sobre as nossas asas e ter viajado pra tão longe de casa pra poder ficar em Dublin e trabalhar com a gente, fez com que a sua morte fosse muito mais difícil.
(Continua...)
Créditos: Nonata (ntrevia).
Bonolocks
26/05/2007, 18h40
(Continuação)
Páginas 178, 179 e (180 – foto).
ADAM: Foi um momento de muita sobriedade. Seu corpo foi levado de volta pra Nova Zelândia. O Bono, a Ali, o Larry, a Ann e a irmã do Paul, Katy McGuinness, com a qual o Greg sempre foi muito próximo, viajaram e viram seu ritual de passagem tradicional da cultura Maori. Foi um momento muito triste.
BONO: Eu acho que o problema de se lidar com a morte, pra mim, é que sempre é a mesma morte. É sempre a minha mãe morrendo. É sempre o centro do universo desaparecendo e eu tendo que achar outro. Sempre me trás à tona esse momento, todas as vezes. Foi um grande evento na vida de uma pequena comunidade. Os grandes sujeitos parecem ser coisas que nós sempre temos que ser lembrados. É o que a nossa banda parecia ser, e isso simplesmente se desfez, trouxe seriedade às gravações do The Joshua Tree. Nós tínhamos que preencher o vazio nos nossos corações com alguma coisa muito, muito grande, nós realmente o amávamos muito.
EDGE: A minha família estava crescendo e tínhamos acabado de comprar uma nova casa. Enquanto eu e Aisliin estávamos caçando casas, nós vimos uma propriedade maravilhosa nas montanhas. Decidimos que não era pra gente, no entanto mais tarde tive a idéia que o dono deveria alugar pra gente gravar lá. A casa era chamada de Danesmoate. Então nós nos instalamos nessa grande velha casa georgiana nós pés da montanha Wicklow, cerca de uma milha do Columbia´s College, de onde o Adam tinha sido expulso incorretamente. O Adam acabou comprando a casa, talvez pra ficar xeretando o estabelecimento vizinho, apesar de nunca ter admitido isso. Nós montamos um estúdio tendo o Flood como engenheiro. O Flood se envolveu com algumas das nossas gravações prediletas daquele período, com o New Order, The Associates, Nick Cave & The Bad Seeds. Então era uma grande aquisição para a equipe.
ADAM: Nós queríamos fazer as gravações dos instrumentais das músicas ao vivo, como uma banda. Danesmoate era uma casa com estilo georgiano no campo, mas já tinha sido feita uma reforma no grande salão principal e este ficou com o teto com o dobro da altura, ficando com uma grande sonoridade. Quando você escuta esse grande som da bateria no The Joshua Tree, é o som daquela sala.
EDGE: Danesmoate tinha uma grande atmosfera criativa, mas nos deu alguns problemas com a sonoridade. A bateria estava no volume máximo, mas nós simplesmente não conseguíamos acertá-la. Pra fazer as coisas ficarem pior, o projeto de som do Captive ficou distorcido e eu fiquei no telefone conversando com os técnicos em Londres, tentando consertar isso. Bem no meio de tudo isso, aparece o Robbie Robertson. O Daniel Lanois já tinha concordado em produzir o seu primeiro disco solo e o Robbie estava procurando por alguns sinais e decidiu que Dublin era um bom lugar pra se procurar. Nós éramos grandes fãs do The Band e ficamos honrados com a ajuda. Durante vários dias, o Danny e o Robbie gravaram duas músicas com a gente. Nós queríamos que as nossas próprias sessões fossem boas. As coisas começaram a entrar em foco quando o Bono conseguiu captar a letra de ´Bullet the Blue Sky´ - isso foi como a pedra fundamental. O som da guitarra é guiado de alguma forma pela letra; o demo de STS era muito mais pobre, como um funk pesado, mas eventualmente se tornou mais um blues provocado.
BONO: Eu queria alguma coisa bíblica. O meu entendimento das escrituras eram os salmos de David e a poesia do King James Bible e eu tentei captar isso, dar uma religiosidade. Então eu tive a imagem desse rosto, vermelho como uma rosa em um arbusto espinhoso. Isso era o Ronald Reagan, o que eu nunca falei pra ninguém naquela época. O Brian Eno disse, ´Você vai destruir isso pras pessoas, se lhes der as imagens.´ Então isso falava sobre dinheiro versus idealismo. O Reagan agora é endeusado como o homem que acabou a guerra fria, jogando um jogo de medrosos com a União Soviética, e ganhando. Dou todo crédito à isso, mas eu queria que nós tivéssemos encontrado um jeito de reconciliação sem jogar esse jogo nuclear medroso.
Eu estava com raiva do que eu tinha visto, como as ameaças aos fazendeiros por grandes aviões, apoiada pela polícia estrangeira norte-americana e pelos dólares. Na Nicarágua, dezessete famílias fugiram do país antes da revolução; toda a riqueza estava nas mãos dessas dezessete famílias. Em Salvador foi parecido. No Chile, uma eleição democrática foi cancelada por um golpe apoiado pela CIA, que impôs a máquina mortal chamada General Pinochet. Havia muito desprezo com a América naquela época, havia uma conduta desprezível em defesa de seus interesses. E, por outro lado, o comunismo apareceu como uma das piores idéias que o mundo poderia ter tido, o idealismo transformado em si mesmo; suportar qualquer coisa que fosse anti-comunista, realmente era uma idéia muito ruim. Isso arruinou a África. Eles estavam passando por maus tempos. Eu descrevi o que eu vivi, o que eu vi, algumas das histórias das pessoas que eu conheci, e eu disse pro Edge: ‘Você poderia por isso através do seu amplificador?’ Eu tinha fotos deles e as preguei pelas paredes. Tinha trazido um filme desses horrores e coloquei pra assistirmos e disse: ‘Agora, faça isso!’ Isso era mais, mais e mais. Ele perguntava:´O quanto mais ainda?´ Eu queria que isso parecesse como o inferno na terra, porque das sementes do demônio surgem as flores de fogo. Todas essas imagens de bombas de fogo, é uma música louca. E lá fora é a América. Quem está bombardeando essas vilas? Os idiotas nem mesmo culpam seu próprio povo. ‘Quem está fazendo a gente se sentir desse jeito? Quem está destruindo as nossas vidas? Quem está sacudindo as paredes dessa casa? São os americanos’.
Foi aí que comecei a perceber que as letras das músicas dos quatro primeiros álbuns não eram letras de verdade, eram apenas esboços. Eu não era um verdadeiro escritor, eu era um pintor, ou um sentimentalista ou um gritalhão. Parecia que eu tinha quase que um medo de escrever; era uma forma de adiamento. Eu poderia ver isso em meus trabalhos de escola. Você poderia fazer qualquer coisa, mas o que você tinha que fazer era aquilo que o levaria ao julgamento – medo ou fracasso, provavelmente. Então apenas não tente. Viva sem sua sagacidade, o que eu seria bem sucedido. Sente, crie pinturas e depois justifique isso como a primeira pancada do pincel. Após´Pride (In The Name of Love)´, eu percebi o quão gloriosa essa música era e pensei: ´Sobre o que é tudo isso?´ É só um monte de sons em movimento conspirando contra um grande homem. É emocionalmente muito articulado – se você não fala inglês. Com Joshua Tree, eu decidi que escreveria melhor algumas músicas. Eu estava lendo mais, então eu estava mais esperto com o que estava acontecendo no mundo. Eu descobri um amor por escritores e decidi começar a me sentir como se fosse um.
EDGE: Bem a tempo, nós conseguimos a base para ´One Tree Hill´, uma música para Greg Carroll, mas após esse progresso, as coisas ficaram difíceis. Eram apenas vários pedaços, que podíamos vislumbrar como deveriam ser e que lentamente eram sendo colocados nos seus devidos lugares. Nós continuamos gravando e toda vez que sentíamos que tínhamos desviado do curso, fazíamos uma parada e começávamos um novo caminho. Alguns eram totalmente acidentais. Um momento muito importante foi a mudança para ´With or Without You´.
ADAM: Foi o Bono que criou a seqüência de acordes mas, nas primeiras versões, a música soava muito tradicional porque os acordes simplesmente eram circulares. Foi difícil encontrar uma tomada diferente ou uma nova forma de começá-la, era apenas uma promessa de música. Nós começamos a tocar com uma drum machine e a construímos em cima de um maduro e bom baixo.
EDGE: Eu recebi do Michael Brook um protótipo de uma guitarra Infinite. Ela chegou durante as sessões e veio com instruções bem detalhadas de como usá-la com toda a potência: uma corda colocada errada e tudo que você conseguiria seriam ruídos sujos de eletricidade. Esse pedaço de engrenagens teria falhado até mesmo nas regulagens básicas mais seguras.
Quando nós a levamos para a estrada conosco, o meu pobre técnico de guitarra se eletrocutava regularmente. Era uma tecnologia bem simples, mas muito eficiente, e que me deu sustenidos infindáveis, como num violino. Eu tinha acabado de receber essa guitarra e estava tocando-a em uma sala enquanto o Gavin Friday e o Bono estavam na sala de controles escutando as gravações de ‘With or Without You’. Nós realmente estávamos num impasse à procura do arranjo certo para essa música, e já estávamos a ponto de desistir. Então, através da porta aberta, eles escutaram o som da guitarra Infinite combinando com a bateria e o baixo e disseram: ‘É isso! Mas que merda é essa?’
(Continua...)
Créditos: Nonata (ntrevia).
followerU2
27/05/2007, 15h28
EDGE: ...Quando ele falou sobre o sofrimento dos prisioneiros objetores de consciência, ele estimulou um intenso escândalo moral, que apenas uma pessoa realmente crente poderia alcançar.
Amigos, sugiro utilizar "presos políticos" ou "prisioneiros políticos" como tradução para "prisoners of conscience", que é como chamamos (ou chamávamos) no Brasil. Acho que facilita o entendimento. Essa tradução literal ficou estranha.
No mais, está muito legal, parabéns.
MT
Bonolocks
27/05/2007, 22h40
Amigos, sugiro utilizar "presos políticos" ou "prisioneiros políticos" como tradução para "prisoners of conscience", que é como chamamos (ou chamávamos) no Brasil. Acho que facilita o entendimento. Essa tradução literal ficou estranha.
No mais, está muito legal, parabéns.
MT
Obrigado MT!:aprovado: Infelizmente já não posso mais editar. Então fica a dica prá quem está copiando o artigo.;)
Bonolocks
27/05/2007, 23h58
(Continuação)
Páginas 181 e 182.
BONO: O envolvimento do Gavin no The Joshua Tree não pode ser subestimado. Ele próprio salvou ‘With or Without You’. Ele a tirou de dentro do lixo de papel, organizou-a, estruturou-a e foi a única pessoa que acreditou que essa música poderia ser um grande hit, enquanto que o Brian e o Danny já tinham passado ela adiante. É a minha seqüência de acordes, mas o que a torna especial é o seqüenciador do Brian Eno; ele fez por ‘With or Without You’ o que ele tinha feito por ‘Bad’, que foi criar o arpejo nos teclados. Então ele esboçou e improvisou. O Edge estava em uma sala trabalhando na sua guitarra Infinite, que fazia sons fantasmagóricos assombrosos, enquanto que os acordes do baixo estavam sendo feitos em outra sala e eu os escutava trabalhando juntos. Nós então chamamos o Edge e começamos a gravar imediatamente.
A letra é puro tormento. Uma das coisas que estava acontecendo na minha cabeça naquela época era uma colisão entre ser fiel à sua arte ou ao seu amor. E se os dois tiverem as mesmas chances? Seu dom versus responsabilidades domésticas? Eu sempre tinha sido aquele tipo de pessoa que dormia no chão da casa de alguém, os olhos de um rato viajante, uma pessoa naturalmente desleixada. Eu poderia simplesmente ficar vagabundeando e ser muito feliz. Mas agora eu tenho essa pessoa na minha vida, que eu amo mais que a mim mesmo, e então eu fico me perguntando se o motivo pra eu não escrever mais é que agora eu sou uma besta domesticada. Eu fico me perguntando se eu não fui domesticado. Se eu conhecer alguém e quiser sair com ele para conhecer como é seu mundo, eu não posso porque eu sou um homem casado. Isso nem é sobre infidelidade sexual, eu sempre me lembro de pensar: ‘Essa é a vida de um artista? Será que eu vou ter filhos e me acalmar e trair meu dom ou eu vou trair meu casamento?’ Era um tempo muito difícil na minha cabeça. Eu tinha conhecido umas pessoas que tomaram vantagem dessa minha ingenuidade, esse é o melhor jeito que eu posso explicar isso, e então percebi que eu sabia tão pouco sobre o mundo deles, e agora o futuro me mostrou que eu vou saber cada vez menos. Você pode aprender sobre política, cultura, mas a sua vida emocional também tem que se desenvolver. Eu acho que em alguns sentidos a minha não estava se desenvolvendo, e eu estava atravessando todo tipo de incertezas. Eu era pelo menos duas pessoas: a pessoa que é extremamente responsável, protetora e leal e o meu eu vagabundo e preguiçoso queria apenas fugir dessa responsabilidade. Eu achava que essas tensões iam me destruir, mas atualmente, verdadeiramente falando, esse sou eu. Essa tensão foi embora, e foi o que me fez um verdadeiro artista. O lugar que se deve estar é bem no meio de toda essa contradição. E era onde eu estava. Leal, mas na minha imaginação cheio de vontade de viajar, um coração para conhecer Deus, uma cabeça para conhecer o mundo, uma estrela do rock que gosta de loucuras e um pecador que tem consciência que precisa se arrepender. Todas essas coisas estavam acontecendo ao mesmo tempo, mas eu não conseguia entender isso
Se eu tivesse me libertado, o que teria acontecido comigo? Eu me lembro de olhar para Shane MacGowan com medo, não só por seu talento, mas por sua resoluta perseguição pela verdade, não importa onde isso fosse levá-lo. Ele era um dos meus cantores e compositores preferidos, e lá estava ele perseguindo sua inspiração sem nenhuma barreira. Todas as pessoas que eu admirava como compositores sempre faziam as mesmas coisas. Nada durava muito tempo, eles tinham que lidar com o abandono, com seus casamentos perdidos, bandas, amizades, tudo em troca da sua inspiração. Mas essa inspiração é silenciosa e pode abandonar você, deixá-lo sem nada. Se eu tivesse seguido essa estrada, muitas de nossas músicas não teriam sido escritas. Ou se eu tivesse escolhido o outro caminho, aquele que estava bem a minha frente, me entregar ao lado doméstico da vida, as músicas poderiam ter se perdido. É a tensão entre as duas estradas que me mantém no caminho certo. Você não tem que escolher entre uma ou outra, apenas não vá para muito longe de nenhum dos dois caminhos.
Essa música então é sobre tormentas, sexual, mas também psicológica, sobre como os seus desejos se tornam mais fortes quando são expressados. A linha mais importante é provavelmente, ‘And you give yourself away’. Isso simplesmente enlouquece e libera toda a tensão mental, que vem à tona no ´Aah-Aah´. Isso é que é se entregar musicalmente.
ADAM: ‘I Still Haven´t Found What I´m Looking For’ começou como uma coisa completamente diferente, uma sessão chamada, por alguma razão misteriosa de ‘Under The Weather Girls’. Era um tipo de coisa com uma única nota, mas com uma grande bateria. Resolvemos então manter a bateria e toda uma nova melodia surgiu, e toda a música foi modificada para se encaixar nessa nova melodia. Era um tipo de blues e ritmo bem tradicional, um lugar onde nós nunca tínhamos ido antes, mas isso era extremamente regozijante.
LARRY: Essa música não era tão difícil, mesmo achando que ela tinha seus momentos, nós sabíamos que ela ia ser o nosso troféu. O Danny estava muito concentrado na parte da ritimicidade da música e estava disposto a dar um significado ao meu estilo misterioso de tocar a bateria. Ao invés de mudar a bateria, o que eu teria feito no passado, ele me encorajou a continuar trabalhando daquela forma. No final, ele mixou um pouco do estilo da bateria e deixou a base, e tudo se tornou cada vez mais pouco comum e menos confuso do que era originalmente. O gênio musical do Danny pode ser encontrado em todo o disco.
EDGE: Era uma sessão muito interessante, uma batida muito diferente do Adam e do Larry. No começo eu não estava muito convencido. Ela soava pra mim um pouco como ‘Eye of the Tiger’ tocada por uma banda de reggae. Então o Danny e o Flood fizeram essa incrível mixagem e a música ficou pronta para o Bono tentar e achar uma grande melodia. Durante a criação desse álbum, eu me lembro que havia poucos momentos super criativos, cheios de eletricidade no ar, mas o nascimento de ‘I Still Haven’t Found What I’m Looking For’ foi um desses momentos. O Bono começou a cantar, e como sempre, havia muitos sinais e poucas sugestões úteis, mas então ele veio com essa melodia fantástica da velha tradição soul. E enquanto eu escutava essa música incrível emergindo das trevas eu me lembrei de uma coisa que tinha escrito no meu bloco de anotações, um possível título de uma música que eu tinha pensado durante aquela manhã. Eu imaginava isso na minha cabeça enquanto o Bono cantava e tudo soava tão perfeito que eu escrevi em um pedaço de papel entreguei pra ele enquanto ele cantava. Era perfeito como uma luva. A partir de então, quando alguém vinha nos visitar, era a primeira coisa que nós tocávamos. É assim que você encontra as melhores músicas. É um pouco de gosto pessoal, mas quando a gravadora ou nossos amigos iam nos ver, nós queríamos impressioná-los e instintivamente escolhíamos a melhor música de todos os tempos. Eu ainda não tinha compreendido sobre o que era o título, a não ser pela idéia que o Dylon expressa em ‘Idiot Wind’ que ‘Você vai descobrir quando você chegar ao topo’. O Bono a interpretou de uma forma diferente, mais gospel.
Eu tenho que dar o crédito ao Bono por ter captado a essencia dessa guitarra. Um dia, entre todas as outras coisas que eu estava tentando fazer, ele escutou algumas anotações que funcionaram para ele. Ele estava certo, sem os cintos cromados não haveria um contrabalanço para os seus sapatos lamacentos. De fato, a música só ganhou a sua versão final na última mixagem. Todos ajudaram a esculpir, mas a mixagem final foi feita no estúdio da minha casa junto com o Danny, trabalhando em cima de uma mixagem prévia do Steve Lillywhite. Nós tínhamos um hábito muito pouco ortodoxo de mixar em cima de outra mixagem prévia, adicionando um pouco dos mesmos ingredientes uma segunda vez à mesma mixagem. É isso que dá aquele som estranho.
Se ‘I Still Haven’t Found What I’m Looking For’ levou um tempão pra ficar pronta, com outras músicas isso era diferente. ‘Running To Stand Still’ foi uma dessas. Eu estava esperando pra fazer a parte do piano de uma outra música e comecei a tocar alguns acordes. O Daniel Lanois escutou alguma coisa, pegou a guitarra e começou a tocar junto. Logo o Adam, o Larry e o Bono estavam na sala com a gente. A primeira versão improvisada de uma canção já tem praticamente toda a idéia musical, melodias vocais e estrutura. Eu acho que nós a tocamos apenas uma ou duas vezes. Tinha uma identidade tão forte, nós tínhamos que fazer desse jeito.
ADAM: ‘Running To Stand Still’ era ‘Bad Part II’, uma versão de acampamento, o Bono cantando sobre o problema crônico da heroína que estava acontecendo em Dublin naquela época, e personalizado nas suas experiências nas sete torres em Ballymun. Phil Lynott tinha morrido em janeiro de 1986, o que foi uma grande tragédia. Eu escutei rumores sobre o que tinha acontecido com ele, mas eu acho que eu não acredito muito nisso. É muito difícil equacionar essas duas imagens, de quando você vê alguém no palco, com uma grande vibração e depois reduzido à um hospital com insuficiência renal. Acho que essa foi uma grande perda para a música. Eu já tinha entrado em contato com o Phil bem antes de nós termos um contrato assinado, costumava encontrá-lo pela rua e já tinha ido algumas vezes à festas em sua casa, mas era difícil se sentir relaxado com ele. Havia sempre uma atmosfera escura, essa é a única forma como eu posso descrever aquilo. Era a heroína.
BONO: O meu irmão estava correndo atrás de um trabalho e as coisas não estavam indo muito bem. Eu perguntei à ele como estavam as coisas e ele respondeu, ‘It’s like to running stand still’ (‘É como correr sem sair do lugar’). Uma frase que eu nunca tinha escutado antes, e pareceu se encaixar perfeitamente nas experiências que eu tinha escutado sobre as pessoas que usavam heroína. O Guggi tinha morado nas sete torres durante seus piores anos; era uma tentativa de modernizar a Irlanda com prédios habitacionais – justo quanto todo o resto da Europa estava achando que blocos de prédios não eram uma boa idéia, nós começamos a construí-los. Eu tinha tocado nas fundações quando eles estavam sendo construídos. Nós estávamos acostumados a correr pelo campo e escalá-los, mas aí depois nós ficávamos subindo e descendo nos elevadores, porque nós não tínhamos elevadores antes. Aí eles começaram a quebrar e as escadas começaram a feder a urina. Comunidades foram remanejadas do centro da cidade para esses experimentos sociais; pessoas que tinham sido vizinhos durante toda a vida, de repente perdiam contato. Havia pessoas maravilhosas vivendo nas sete torres, mas também havia muitas vidas disfuncionais presas naquele lugar. Tinha um casal que morava lá, dois viciados. O cara costumava pagar pelo seu vício fazendo o que era chamado de corrida para Amsterdã, onde ele pegava a heroína, escondia no seu corpo e voltava pra cá. Se ele fosse pego, iria para a cadeia por uns dez anos, mas se ele fizesse isso, ele podia manter o vício dele e da sua esposa.
A tragédia é que ele era um homem decente e bem no meio disso tudo, se tornou um escravo da sua escolha pelas drogas. A sua esposa estava bem no fundo da minha cabeça. She walks throught the streets with her eyes painted red / under a black belly of cloud in the rain / in through a doorway she brings me white golden pearls. (Ela corre pelas ruas com seus olhos pintados de vermelho / debaixo do ventre escuro da nuvem da chuva / por uma entrada ela me leva ouro branco e pérolas roubadas do mar). Ouro branco do Irã, para Amsterdã, para Holyhead, para Dublin e para dentro das veias e do esquecimento. Eles costumavam fazer isso de barco, tudo isso ou nada funcionava.
ADAM: ‘In God’s Country’ foi uma música difícil de gravar, apesar dela ser relativamente simples. Eu acho que como nós não éramos músicos treinados, era quase ridículo o esforço que fazíamos algumas vezes para tocar juntos e fazer alguma coisa que soasse bom enquanto tocávamos no mesmo tempo. Fazer isso funcionar e depois fazer isso ser interessante eram dois trabalhos distintos naquela época – algumas vezes fazíamos funcionar outras interessantes. Essa música apareceu entre dois lixos. Na verdade, eu nunca consegui entender porque os acordes de dois refrões eram tão diferentes, mas ta aí. Os refrões eram diferentes, então eu acho que isso significa que eles realmente não eram refrões!
EDGE: Eu não achava que ‘In God’s Country’ iria ser uma das nossas melhores gravações, mas nós precisávamos de algumas músicas para preencher o tempo, e ele foi útil naquele momento. Simplesmente algumas músicas são melhores do que outras.
BONO: Eu estava frustrado tentando tirar um pouco de rock ‘n’ roll do The Edge, e a única forma que eu tinha pra conseguir isso dele, era se eu mesmo tocasse a guitarra. Era muito perturbador pra ele me ver tocando guitarra e daí ele começava a tocar. Então eu escrevi a música tão rapidamente apenas pra mostrar o quão rápido você pode escrever um rock. Eu dizia, ‘Olha Edge, eu não sou um guitarrista, certo? Eu não sei todos os acordes, mas apenas tente esse. A-menor para D. Desse jeito’. E ele dizia, ‘Isso não é muito bom’. Ele me dizia que era muito ruim. Agora eu tenho que ter certeza que é bom! O que eu realmente queria que ele fizesse é que ele surgisse com alguma coisa melhor, eu não quero ser dependente disso. A letra era realmente boa, a melodia era muito boa e a força entre elas estava na média – graças ao The Edge.
LARRY: Surpreendentemente, o Edge é extremamente competitivo, sempre foi. Ele pode ficar escutando outros guitarristas por um tempão e ficar até que ele descubra como é que eles conseguem fazer aquilo. Algumas vezes ele fica perdido nas suas questões musicais. A sua fascinação por componentes que formam uma música e por sons de guitarras, o mais frustrante que pode ser ficar escutando-os, é obviamente uma peça vital do que é o U2. Entretanto, quando se trata de apenas um truque com três cordas ou colocar alguma ênfase de rock ‘n’ roll nas coisas, ele sempre fica muito desconfiado. Ele sempre achava que essa era a alternativa mais fácil e não ficava confortável com isso, e a única forma de fazer o Edge detonar era perturbando ele com o Bono tocando guitarra pavorosamente. O Bono poderia provocar e o Edge, sendo competitivo, diria, ‘Bom, eficaz isso, eu posso fazer isso’. Então o Bono insistia que ele tocava guitarra melhor que o Edge, e então ele ia. Sendo o único que normalmente se metia em confusão, esses momentos me davam um prazer particular.
ADAM: ‘Trip Through Your Wires’ era parte daquele amável relaxado e medíocre lado da banda que conseguíamos captar algumas vezes. O Bono tocando gaita é muito expressivo, com um som indecente e agressivo. Essa gaita surgiu quando nós estávamos tentando fazer um cover de ‘Heart of God’ do Neil Young nos nossos tempos de escola.
LARRY: O Bono sempre aparecia com a gaita, desde o início o Bono usava a gaita pra ver se a gente conseguia imaginar alguma segunda voz ou novas melodias, qualquer coisa pra fazer a música melhor. Ele de fato não é um tocador de gaita muito ruim.
(Continua...)
Créditos: Nonata (ntrevia).
Bonolocks
28/05/2007, 00h00
(Continuação)
Páginas (183 – foto), 184 e 185.
BONO: Eu nunca havia praticado gaita na minha vida, nunca. As únicas vezes em que toquei gaita foram quando estávamos gravando ou ao vivo, no palco. Eu até gosto de tocar – não sou muito bom nisso, mas, a meu ver, não estou na lista dos maus tocadores de gaita. Trip Through Your Wires foi outra demonstração de como é fácil compor uma canção... Ou não, mas nesse caso pode ser sim. Eu a escrevi em poucos minutos. Tinha uma sensação alegre muito agradável na qual pensei que pudesse equilibrar alguns outros aspectos da música. Fora inspirada em uma série de conversas telefônicas que eu tive com alguém que se encaixou na situação muito bem, que era fascinante a seu próprio modo, porém, ela estava fingindo ser outra pessoa.
LARRY: Red Hill Mining Town é uma daquelas músicas perdidas. Foi super produzida e mal escrita; era uma daquelas grandes idéias que nunca chegaram lá. Bono tinha uma idéia muito clara de como ele queria que a música soasse, mas eu não acho que alguém ali tinha a plena certeza de onde ele queria chegar com ela, o que acabou não sendo uma coisa nem outra. Durante as improvisações aconteceram coisas maravilhosas, mas devido à falta de confiança em nossa habilidade de repetir a idéia, nós tendemos a limitá-la muito e talvez não lhes demos a importância que deveríamos ter dado. Então, às vezes nós acabamos tendo uma porção de idéias ao invés de uma música totalmente desenvolvida. No meu ponto de vista, isso é parte da genialidade do U2, mas também pode ser parte do problema em relação à nossa composição.
ADAM: Se você tentar dissecar uma jam session e depois reconstruí-la, você pode chegar ao ponto exato onde você a havia matado. Mas se você capturar o momento e o editar em um formato na qual as pessoas não percebem qualquer discrepância de tempo ou afinação, você perde a inspiração e o impulso e você consegue localizar a essência. Exit surgiu de uma sessão (jamming) da banda. Originalmente, ela era bem longa, e nós só a tocamos uma vez, então Eno a editou e a moldou daquela forma. O problema é que quando se está em turnê, é preciso aprender as performances que na verdade nunca foram escritas tão bem quanto foram criadas espontaneamente.
BONO: Eu havia lido “The Executioner’s Song” (A canção do Carrasco) de Norman Mailer e “In Cold Blood” (A sangue frio) de Truman Capote. Essa foi a minha tentativa de escrever uma história através da mente de um assassino. Retrata muito bem a América e a violência, que é uma política externa agressiva, mas, sobretudo para entender realmente o que você tem embaixo da pele de sua própria escuridão, a violência contida em todos nós. A violência é algo que eu conheço bastante. Eu tenho um lado em mim, na beirada, que pode ser muito violento. É a característica menos atraente em qualquer pessoa e eu gostaria de admiti-la.
ADAM: Mothers of the Disappeared surgiu de uma viagem de Bono a El Salvador. Larry fez uma virada (loop) na bateria e Eno a tratou de tal forma que ficou muito estranha, distinta e assustadora. Eu acho que a melodia no violão surgiu de uma música que Bono usava nos campos da Etiópia para ensinar as crianças africanas algumas noções básicas de higiene. O entusiasmo com que ele faz isso é de certa forma pré-histórico, é ligado a algo muito primitivo. Ele estava inspirado nesse protesto estranho, quase silencioso de mães cujos filhos desapareceram sem deixar rastro, mas que presumem serem vítimas de tortura, seqüestro e assassinato. Bono se encontrou com elas, entendeu suas causas, e quis realmente prestar-lhes uma homenagem.
BONO: Ao dirigir pela auto-estrada em El Salvador, vimos um corpo na pista, que teria sido atirado de um carro. As pessoas simplesmente desapareciam. Se você fosse parte da oposição, provavelmente você encontraria um carro esportivo utilitário com os vidros escuros, estacionado do lado de fora da sua casa, só para que você soubesse que eles estavam te vigiando. Se isso não te fazia parar, eles ocasionalmente viriam para te matar. Não havia julgamento. As mães queriam saber onde seus filhos estavam enterrados. O mesmo aconteceu no Chile; exatamente o mesmo plano para espalhar o terror e tendo o mesmo apoio: os Estados Unidos da América. Essa música significa para mim tanto quanto todas as outras do álbum, e está ali para mim. Eu a escrevi usando o violão da minha sogra para essas lindas mulheres portando as fotos de seus filhos e filhas desaparecidos.
Essa música nos deu um lindo final para o álbum e “The Streets Have No Name” foi a introdução perfeita. Foi uma das idéias mais extraordinárias, somente alcançada por “Break Through to The Other Side” do The Doors como um estouro para platéia. Você quer ir até lá? Porque se você quiser, eu estou pronto para ir com você, para aquele outro lugar. Chame-o como quiser; um lugar da alma, um lugar de imaginação, onde não há limites.
EDGE: “Where the streets have no name” surgiu de um momento de pressa, uma noite antes de voltarmos às gravações. Estávamos começando a nos aproximar do final, e nos demos conta de que nos faltava certa música. Sabíamos que tínhamos grandes idéias, mas algo acontece quando você começa a pensar em tocar suas músicas ao vivo, de uma forma na qual essa é a última prova que te fará acreditar no seu material. Não há nada que se possa esconder atrás do palco. Isso é óbvio quando você não tem o material. Você não vai querer subir no palco tocando algo que te surgiu quase no mesmo instante.
Bono estava de recesso viajando com Ali a fim de compor algumas letras, então eu tive algum tempo disponível para me dedicar à música. Naquela época nós havíamos saído de Danesmoate e nos instalamos em minha casa recém adquirida em Melbeach, onde a família ainda não havia se mudado. Fui para um quarto no andar de cima e instalei alguns teclados, um baixo, uma guitarra e uma bateria eletrônica. A princípio, nada de novo apareceu. Eu estava gravando tudo em uma mesa de áudio de quatro canais, trabalhando sozinho, pondo em seqüência os teclados à bateria eletrônica. Eu me imaginei estar em um show do U2 e tentei idealizar aquilo que eu gostaria de ouvir. Essa foi minha tentativa de criar forma a mais nova música do U2. Senti-me estranho ao terminar a mixagem complicada, porque eu achei que havia acabado de criar a parte da guitarra e a música mais fantástica da minha vida, mas eu estava completamente sozinho em uma casa enorme, sem ninguém com quem compartilhar aquilo. Eu me lembro de ouvir o silêncio total da casa por alguns segundos após a música ter parado e em seguida comecei a dançar, dando socos no ar. Então eu fui pra casa.
LARRY: Nós levamos muito tempo para acertarmos tocar a música. Foi difícil para aquilo nos fazer algum sentindo. Só se tornou realmente uma grande canção quando a tocamos ao vivo. Na gravação, musicalmente falando, não é nem metade do que ela é ao vivo.
ADAM: O demo sempre nos soou ótima, mas nós nunca conseguíamos tocá-la como uma canção. Na época, parecia-se quase como uma língua estrangeira, que agora entendemos como funciona. Eu suponho que tenha sido algo completamente novo para nós. Era muito complexa, com mudanças freqüentes de acordes e de tempo. Nós poderíamos tocar e ensaiar, tocar e ensaiar infinitas vezes, mas nunca conseguíamos uma versão definitiva. No fim, a versão que conseguimos foi improvisada de vários “takes” diferentes. A terceira versão é provavelmente a melhor, que realmente funciona. Foi tão difícil de fazer que o Brian, em certa altura do campeonato, tentou apagá-la.
EDGE: Estava muito difícil fazermos uma performance que gostássemos. Estava levando tanto tempo que Brian tentou apagar a multi-faixa. Ele estava cansado de tentar trabalhar nessa performance. A idéia dele era que era melhor que economizássemos tempo, se tivéssemos que começar de novo. Pat McCarthy (que até então produziu REM e Madonna) era o operador de fita na sessão, e procurou convencer o Brian a não apagá-la. Eu acho que poderia ter havido certa restrição física ali. Nós insistimos naquele playback, e na verdade, com a ajuda de Steve Lillywhite, conseguimos fazer uma ótima mixagem, mesmo naqueles dias em que estávamos intratáveis. Nós poderíamos continuar fazendo algo e nossos produtores poderiam ficar exaustos com aquele processo. Desde o início havia certa elevação na música com a qual estávamos nos apegando e que finalmente essa elevação veio à tona.
PAUL: No momento em que a banda estava chegando ao final das gravações, eles não estavam conseguindo sair daquele impasse. Então eu sugeri que trouxéssemos Steve Lillywhite para ver no que ele poderia ajudar. Acho que Eno e Lanois não ficaram muito contentes com isso. Steve veio, e basicamente pegou os singles e os mixou, tornando-se assim um participante de honra na gravação. Houve certo desconforto acerca de ele vir no final somente para dar um polimento. Pessoalmente falando, eu acho que ele fez até mais do que isso, e assim tem feito desde aquela época com quase todos os CDs, sempre surgindo como um cavaleiro para salvar o dia.
LARRY: Danny e Brian trouxeram muitas coisas diferentes para o U2. Danny trouxe seu conhecimento musical e sua habilidade em pegar algo ordinário e transformá-lo em algo extraordinário. Brian era ótimo nos teclados, no humor, nos esboços e nos conceitos, mas nenhum deles entendia realmente o rock’n’roll, ou mais importante, como colocar o rock’n’roll no rádio. Nós precisávamos estar no rádio, nós sempre quisemos isso. O Steve tem “ouvidos pop” e entende a respeito do que é necessário para que você tenha suas músicas no rádio.
EDGE: Steve trouxe sua mulher, Kirsty MacColl, e foi ela quem criou a ordem das músicas para o CD. Nós estávamos todos trabalhando intensamente, tentando terminar as mixagens e Kirsty disse: “Dêem-me algo para fazer, pelo amor de Deus. Eu posso criar a ordem das músicas.” É preciso dizer que Kirsty não era uma grande fã do U2. Nós pedimos para ela colocar “Streets” no começo e “Mothers” no final, mas foram só essas instruções que a demos. Então ela começou a ouvir as músicas e a dizer: “OK, essa está boa, gostei dessa, vou colocá-la como segunda música... Mmm, não tenho certeza dessa aqui... Sim, eu gosto dela. Gosto mesmo.” Quando ela terminou de ouvir, ela anotou a seqüência cerca de dez minutos, baseando-se puramente em colocá-la na ordem das que mais que gostou. Nós achamos que aquilo era brincadeira, mas quando ouvimos, realmente pareceu-nos ser uma ótima seqüência; então nós a mantivemos.
A idéia da capa do álbum veio do imaginário, e da locação cinemática das gravações. Seria correto seguir a música e as letras para o espaço no qual nós tentávamos idealizar e tirar as fotos da nossa capa no deserto. Então nós conversamos com Anton acerca de vários desertos diferentes e nos pareceu óbvia a idéia de que deveria ser em algum deserto dos Estados Unidos. Então o Anton foi para lá, a fim de procurar por locações.
ADAM: O álbum não estava terminado, e estávamos um pouco pressionados diante disso. Nós viajamos para Los Angeles e nos dirigimos até o Deserto Mojave em um ônibus com Anton, Steve Averill e dois membros de nossa equipe. Nós fomos ao deserto algumas vezes, ficando em pequenos motéis*, e Anton tirando fotos. Aqueles foram dias longos.
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*Vale ressaltar que os motéis, citados pelo Adam, nos Estados Unidos não tem a mesma função que os motéis no Brasil. São hotéis de beira de estrada utilizados por viajantes que passam muito tempo viajando de carro de um estado para o outro.
(Continua...)
Créditos: Cris Flor.
Adri Soul Love
28/05/2007, 00h42
Gostei muito dessas partes do livro, valeu gente:aprovado:
Violet U2
28/05/2007, 01h40
(Continuação)
Páginas (173 – foto), 174, (175, 176 – fotos) e 177.
EDGE: Para conseguir grandes artistas como esses, todos viajando juntos no mesmo avião, fazendo conferências de imprensa e concertos em todas as grandes cidades dos Estados Unidos, era simplesmente fantástico. Não havia muitas brigas de ego, a atmosfera não podia ser mais positiva. Toda conferência de imprensa começava com o Aaron Neville cantando ‘Amazing Grace’ a cappella.
ao invé de conferência, acho que deveria ser coletiva de imprensa Cris, pelo menos é o que sempre se ouve :)
Bonolocks
28/05/2007, 08h54
ao invé de conferência, acho que deveria ser coletiva de imprensa Cris, pelo menos é o que sempre se ouve :)
Obrigado também pela dica, Violet!;)
Bonolocks
28/05/2007, 13h20
(Continuação)
Páginas 186 e 187.
LARRY: Aquela fora uma verdadeira viagem pela estrada – certamente, foi uma aula para mim. A América que eu conhecia antes disso era aquela que eu via através dos ônibus, viajando de concerto a concerto, de cidade em cidade. Eu gostava disso, mas eu sabia que havia outra América ali, a América dos filmes antigos, do deserto, dos cowboys e de todas aquelas coisas legais. Então, ali estávamos nós, viajando pelo Deserto Mojave, passando pelas velhas cidades das minas de ouro que foram abandonadas por centenas de anos, parando em frente ao Zabriskie Point e descobrindo a magnitude e a grandeza da América. Havia somente espaços abertos, nenhuma placa de restaurante fast-food. Foi maravilhoso.
EDGE: Nós dirigimos até o norte perto de São Francisco, onde encontramos uma cidade fantasma chamada Bodie, e ao sul em direção a Death Valley (Vale da Morte), encontramos Zabriskie Point, e muitos outros lugares menores pelo caminho. Durante uma caminhada entre duas locações nós começamos a conversar sobre diversas plantas e perguntamos ao motorista: “O que são aqueles cactos estranhos que estamos vendo o tempo todo?” Ele disse: “Elas são Joshua Trees (árvores de Josué). Acho que foi Bono quem disse: “É um nome muito interessante. “Vamos tirar algumas fotos com a Joshua Tree.” Foi tudo muito espontâneo. Nós continuamos andando pela estrada até que vimos uma grande encosta aberta com essas plantas de aparência pré-histórica. Nós saímos do ônibus, descemos até lá, Anton encontrou uma árvore boa e “click”,“click”. Nós tiramos fotos por cerca de 20 minutos, voltamos ao ônibus e prosseguimos caminho.
LARRY: Eu me lembro do Anton dizer: “Oh, ali está a Yoshua Tree.” Ele não conseguia pronunciar o “J”. Então nós ficamos lá tirando fotos perto da Yoshua Tree. Nós queríamos rir, mas Anton ficaria muito irritado se as pessoas rissem, ou se até sorrissem. Foi tudo muito engraçado, ao contrário do que se nota através das expressões faciais na capa do álbum.
EDGE: As pessoas ainda se lembram claramente da nossa imagem com aquela Joshua Tree, mas não foi, como muita gente pensou, uma alusão ao Gram Parsons e ao Joshua Tree Monument Park, que é bem próximo a Los Angeles. Foi somente uma referência a todo aquele deserto no sudoeste e à experiência de se estar lá. O deserto é um lugar de transição. Não tem certo ou errado, nem qualquer outro tipo de personalidade forte. Para nós, foi como uma grande jornada por aquele solo neutro para chegarmos onde estávamos indo. Os nomes desses lugares foram dados por pessoas dentro de carroças cobertas literalmente se dirigindo ao oeste, passando pelo Death Valley, suportando o verdadeiro inferno para chegar à terra prometida. Truth or Consequence, Hawkmoon, Telluride, o que seria “passeio ao inferno”, Yank Blade, Death Valley, Junction, ou até o engraçado “Whisky Town”. Você podia sentir a história e a luta que esses lugares testemunharam.
ADAM: A aparência que a banda estava optando ter era a de um imigrante europeu deslocado chegando ao deserto. Quando você chega ao Death Valley, você imagina o que foi aquilo que levou pessoas a viajarem do leste ao oeste sem ter a real certeza do que eles iriam encontrar do outro lado. Não havia garantia de que eles fossem encontrar terra habitável, mas eles continuaram e finalmente encontraram a Califórnia.
LARRY: Havia um relacionamento de amor e ódio com a América. Grande parte desse álbum refletiu os sentimentos de Bono ao voltar de El Salvador e da turnê Conspiracy of Hope, e ver a face brutal da política externa dos Estados Unidos. Mas dar ao álbum o nome de “The Joshua Tree” foi de certa forma um reconhecimento da influência que a cultura americana exerceu no U2. A América estava nos causando um impacto maior do que pensávamos que fosse causar. Vindo da Irlanda, o único show na cidade era aquele que estava acontecendo na América. Lá não era somente o maior mercado de vendas de discos, mas também o maior mercado turístico. A América era o centro do mundo e nós estávamos sendo bem sucedidos lá, e isso era o que queríamos mais do que qualquer outra coisa. A América nos abraçou de uma forma que nós nunca esperávamos. Então o título honrou isso, de certo modo. Para mim, isso representou o outro lado da América – o espaço aberto, a liberdade, o que a América representava. Não é uma metáfora, tão pouco um conceito. É um tipo de tributo. Não foi como se a gente tivesse ido procurar pela Joshua Tree. A Joshua Tree veio nos procurar.
EDGE: Eu acho que nós sabíamos que tínhamos algo muito especial. Houve um determinado momento em que tudo estava fazendo sentido, quando a música pareceu vir do nada. Não tinha referência alguma com nada que estava acontecendo nos Anos 80. Parecia estar surgindo do chão. A banda também aparentava diferente de tudo o que estava acontecendo. Nós não chegamos a projetar nosso estilo, nós só estávamos tentando encontrar roupas que fossem sutilmente neutras e que fossem apropriadas ao álbum e à imagem daquilo que estávamos tocando – não era um look. Havia certa simplicidade no estilo. Eu comecei a usar um chapéu a partir daí, o que também cobriu cabeças de uma multidão.
ADAM: Nós definitivamente pensamos que tínhamos feito um álbum que foi para um lugar onde os outros não foram. Foi uma época empolgante.
PAUL: A Island Records ainda era um selo independente, e eu acho que havia um total de 19 licenças diferentes ao redor do mundo, o que significava que cada uma delas tinha que ser negociada individualmente. Na América era a Atlantic, mas no Canadá era a MCA; Sonet na Escandinávia, Ariola na Alemanha, Phonogram na França, Dischi Records na Itália, Festival na Austrália. Phil Cooper, que era certo gênio, era o chefe do departamento internacional próprio da Island, e eu e ele costumávamos viajar ao mundo juntos para vermos essas diversas licenças. Eu creio que parte do processo era cobrar o dinheiro que eles deviam à Island em função do ano anterior, antes de ele permitir que as companhias tivessem o novo álbum do U2. Foi dessa maneira que eu realmente aprendi sobre o mercado fonográfico internacional, indo a cada país e encontrando as pessoas lá. Foi um alívio dois anos depois, quando a Island foi comprada pela Polygram e havia um sistema internacional extenso a fim de sermos inseridos, mas eu não deixaria de viver a experiência anterior. Foi muito proveitosa. Eu me lembro de ter reunido todas aquelas licenças em Midem (uma feira de comércio industrial de música) em Cannes, no começo de 1987 e de ter-lhes mostrado a música, e todos eles se entusiasmaram. Eles puderam ver que eles teriam um grande ano. Quando “The Joshua Tree” foi lançado em nove de março de 1987, nós estávamos em Dublin ensaiando. Durante o curso daquela semana, já estávamos tendo retorno nas paradas de todo o mundo, e The Joshua Tree foi número 1 na maioria dos países. Nós estávamos no nosso caminho.
LARRY: Do meu ponto de vista, tudo estava correndo muito bem. Nós estávamos progredindo devagar, às vezes nosso aumento era pouco, mas estávamos sempre seguindo na direção certa. De repente, The Joshua Tree foi número 1 na América por nove semanas. Depois, With or Without You se tornou número 1. Nós fomos capa da revista Time. Nós não estávamos mais tentando conquistar a América. Em um momento você está de um lado da cerca, e no outro você é atirado para o outro lado. Isso é algo com o qual a maioria das bandas sonha. Nós éramos a banda.
BONO: Eu me lembro de irmos à Las Vegas. Nós estávamos filmando um clipe para “I still haven’t found” e havia uma grande disputa de luta livre no Ceasar’s Palace, Marvin Hagler e Sugar Ray Leonard, e nós tínhamos lugares reservados. Depois nos levaram para ver Frank Sinatra, que estava fazendo um grande show em prol da caridade. Todos estavam lá, a classe “A” da velha Hollywood. A mesa custava cerca de 25 mil dólares. Fomos levados até lá dentro e nos deram uma mesa de graça; nós esperávamos que os lugares fossem no fundo, mas nos levaram logo à frente do palco. Os melhores lugares da casa, quase cinco metros de distância do pé de Frank Sinatra. Foi espetacular. Sinatra entrou, o anfitrião da festa, essa lenda musical do século XX, cantando todas aquelas músicas incríveis. E ele parou o show, apontou para a nossa mesa e disse: “Hei, eu só quero citar algumas pessoas que vieram aqui essa noite. Eles percorreram um longo caminho. Eles vieram da Irlanda. Eles são número 1. Eles estão na capa da revista Time. Eles são o U2. E nós tivemos que nos levantar e fazer aquele gesto de celebridade perante as luzes. Frank olhou pra baixo, em nossa direção, chocado. Ele se vestia impecavelmente. Nós parecíamos um bando de ciganos. Ele disse: “Uau, vocês podem ser o número 1, mas vocês não gastaram um centavo em suas roupas”.
Depois, ele nos convidou para irmos ao seu camarim. Nós ficamos lá por horas. Larry e Frank conversavam sobre Buddy Rich, o baterista que havia acabado de falecer. Frank e Buddy eram colegas de quarto durante a turnê, grandes amigos que de vez em quando se pegavam na pancadaria. Larry e eu éramos companheiros de quarto quando começamos a banda, então nós todos ríamos juntos, era algo que entediamos a respeito. As pessoas insistiam em bater na porta dizendo “Gregory Peck está aqui pra te ver”. “Joan Collins está aqui pra te ver”. Ele não saia do camarim e não nos deixava sair. A maioria dos amigos dele eram atores, mas, eu percebi que ele queria muito conversar sobre música. Aquilo tinha importância pra ele. Claro que todos estavam murmurando: “Por que o Frank não sai do camarim?” “Ele está com o U2.” Então nós saímos de lá nos sentindo como U2, como Dublin, como Irlanda e nós saímos nos sentindo como o grupo número 1 do planeta.
Créditos: Cris Flor e colaboração de Thiago (ethanhawk).
Bonolocks
28/05/2007, 19h26
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Página 188
1987-1989
OUTSIDE
IT’SAMERICA
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Páginas 189 e 190
Paul
A TURNÊ THE JOSHUA TREE TEVE INÍCIO NOS ESTADOS UNIDOS COM DIVERSAS APRESENTAÇÕES EM ARENAS E, ÀS VEZES, EM ALGUNS ESTÁDIOS, E COM ALGUNS ESPETÁCULOS AO AR LIVRE NA EUROPA.
A turnê decorreu em 1987, fomos capa da revista TIME, ganhamos o prêmio de Álbum do Ano nos Grammys no primeiro lugar dos tops da América.
LARRY: As coisas mudaram muito depressa. A reação dos fãs deu um salto enorme e a atenção da comunicação social arrebentou a escala. Antes do The Joshua Tree, havia um certo nível de planejamento e, se houvesse caos, era, pelo menos, um caos organizado. Depois do lançamento do The Joshua Tree, a dimensão do que estava por vir mandou a dita organização pro ar.
EDGE: Já foi há muito tempo. Acho que naquela ocasião ficamos um pouco passados. Mesmo antes de terminarmos o álbum, já andávamos em frenesi. A atmosfera em que trabalhávamos era muito carregada e muitas das pessoas que nos rodeavam se deixaram levar pelo entusiasmo. Era uma fantástica equipe de pessoal a dar o seu melhor ou, pelo menos, esforçando-se por isso. Atingimos um objetivo. Estávamos dominando a América. O álbum estava tendo uma boa saída, tudo acontecia muito depressa e nós nos limitamos a ter os pés bem firmes no chão.
BONO: No início da turnê, durante os ensaios em Tempe, no Arizona, bati a cara ao cair numa das minhas acrobacias. Ainda tenho a marca no meu queixo. Eu me perdia na música e, no início de cada concerto, gostava de conhecer o espaço físico do palco, a sua geometria, e subestimava o meu próprio físico. Pensamos que somos feitos de ferro, mas não somos. Batidas e contusões... são as recordações que tenho desta turnê. Dávamos espetáculos cada vez maiores e isso nem sempre era bom. Quando as coisas não estão correndo bem e eu sinto que não estamos conseguindo comunicar, enfrento momentos terríveis no palco. Uma espécie de escuridão desce sobre mim. Às vezes conseguia me livrar dela através das músicas como “Bullet the blue Sky” ou “Exit”, mas, outras vezes, não conseguia libertar-me dessa escuridão, ela não ia embora. A música é tão poderosa, que nos leva a lugares onde, às vezes, preferíamos não ter ido.
LARRY: Éramos sempre inconscientes em palco e o Bono ficava fulo com a banda. Havia uma certa dose de desconforto por sermos elevados até àquele nível e não sermos capazes de fazer jus. Eu nunca cheguei a pensar que fôssemos assim tão bons. Quando tudo o que temos é a banda, a idéia de que podemos não ser capazes de enfrentar corajosamente a opinião pública é assustadora. Foi difícil desfrutar do momento com essa idéias na cabeça.
BONO: Lembro-me de todo esse período como sendo um momento de consciência, no sentido de que encarávamos a fama de forma séria, fingindo que não a queríamos, que era uma intrusão e que nos iria mudar. É tudo mentira. Nós quisemos a fama. Não tem de ser uma intrusão. E deve mudar-nos. Porque razão deveríamos querer ficar iguais?
EDGE: Durante aquele período, o problema foi, de um momento para o outro, termos de descobrir quem realmente éramos. Estar, de repente, no meio de todo aquele frenesi da comunicação social fez-nos recuar um pouco. Havia uma enorme expectativa e uma certa responsabilidade que não podíamos ignorar. Fomos sempre muito auto críticos. Gravar um disco ou dar um espetáculo não é algo que o U2 faça sem qualquer esforço. Às vezes, a linha que separa o ‘conseguir’ do ‘estragar tudo’ é bastante fina.
Quando a pessoa é o centro das atenções, isso pode transformar-se num receio quase paralisante de falhar.
BONO: Estava uma noite muito bonita em LA quando o Bob Dylan se juntou a nós no palco para cantar ‘Knocking on Heaven’s Door’. Ele cantou maravilhosamente e o público estava eufórico. Creio que ele ficou espantado. Estávamos nos anos 80 e, nesta fase, ele ainda não sabia muito bem qual era o seu lugar. Acho que essa noite o fez relembrar o poder da sua música. Depois, voltamos ao Sunset Marquis Hotel. Ficamos sempre nesse hotel desde que tínhamos 20 anos, mas, desta vez havia multidões lá fora. A rua estava interditada, pois as todas as pessoas tinham ido para a porta do hotel depois do concerto na esperança de conseguirem nos ver. Eram milhares de pessoas que não arredavam pé. O Bob disse: “Vejo que estão se saindo muito bem. Como estão correndo as coisas?” E eu disse: “Muito bem. É uma experiência única”. Ele olhou para mim com uma expressão séria e disse: “Imaginem o que é enfrentar isto sozinho.” Uma banda é algo forte, pois podemos estar de olho uns nos outros. O Bob Dylan nunca teve isso.
EDGE: Eu, o T-Bone Burnett e o Bob Dylan acabamos indo para o meu quarto no hotel beber uns copos. Entretanto, o T-Bone sugeriu que compuséssemos uma música juntos. Eu tinha alguns rascunhos para uma música chamada ‘We Almost Made It This Time’. Peguei na minha guitarra e toquei-a para eles ouvirem. O Bob pensou durante alguns segundos e disse: “Gosto da idéia dos segredos. Que tal: I was listening to the Neville Brothers, it was a quarter of eight/ I had an appointment with Destiny but I knew she would come late/ She tricked me, she addicted me, she turned me on my head/ Now I can’t sleep with these secrets, they leave me cold and alone in my bed… We almost made it this time…” Não sei se ele já tinha escrito aqueles versos para um dia que viesse a precisar ou se as inventou ali no momento, mas fiquei sem palavras. Nem sequer consegui retorquir. Acho que com o Bono se passou o mesmo.
O T-Bone continuou como se não fosse nada, como se aquele tipo de coisa fosse algo habitual no Bob. Talvez até fosse, mas, para mim, foi como levar um soco do Muhammed Ali. Foi mais enriquecedor do que embaraçoso perceber que ainda tínhamos um longo caminho a percorrer. Nem sequer consegui retorquir. E acho que o Bono também não teve muito a dizer. Aquilo era exatamente o oposto do que tínhamos imaginado. Éramos agora uma banda de sucesso, convivíamos com o Bob Dylan, mas o nosso sucesso trazia consigo a percepção de validação artística. Acabou fazendo a gente se sentir pior. Conseguíamos nos aperceber das falhas e daquilo que não tínhamos sido capazes de fazer. Estávamos tentando viver à altura do respeito e da oportunidade que nos tinham sido dadas pelos nossos fãs e assumir este estatuto de grande grupo. Às vezes, era complicado. O Bono, sobretudo, enfrentou um período de sérias dúvidas acerca de si mesmo e do grupo como um todo.
No meio de tudo isto, eu e a Aislinn tentávamos manter a família unida. Tivemos duas filhas durante um período em que o U2 gravou dois álbuns e embarcou em duas turnês. Foi bastante complicado para a Aislinn e eu caí em desespero tentando conciliar a banda e a família. Foi difícil e não posso dizer que ambas tenham tido a atenção que mereciam. A turnê ocorreu num período delicado, pois não é a situação ideal para ir para fora durante alguns meses quando se constituiu família há pouco tempo. Eu estava por minha conta. Foram tempos difíceis.
BONO: Foi complicado para não nos desorientarmos. Quando se enfrenta isto pela primeira vez, ainda não se sabe muito bem o que é a fama. É como se todas as moléculas começassem a vibrar em ritmos diferentes, há uma espécie de energia extravagante no ar. Mas não era tudo receios e aversão. Também houve muita bebida nessa turnê. Marguerittas, tequilha e muitas risadas. Foi um período de libertação do lado mais rígido da banda, o Glasnost pessoal do U2.
LARRY: Andávamos viajando pela América e isso era fantástico. Não ficava triste por ver a traseira dos carros. O nosso avião era como um bordel voador, em termos de decoração e não em relação à atividade.
ADAM: Foi bastante desafiador, mas eu adorava estar naqueles palcos enormes. É sempre um pouco mais difícil dominar todo aquele espaço físico, mas nós éramos um bom partido. Tudo corria às mil maravilhas. O avião e as limusines tornaram as turnês muito mais fáceis. É óbvio que era caótico, mas sempre o foi. Eu não sentia que houvesse grande diferença, pelo menos na minha perspectiva.
LARRY: Quando votamos à Europa, tínhamos vendido sete milhões de álbuns e tínhamos tomado a decisão de começar a atuar em estádios. Foi uma aventura. Por mais que as apresentações em espaços fechados enfrentassem imensas dificuldades do ponto de vista da competência musical, os espetáculos ao ar livre originavam um novo grupo de problemas. Estávamos naqueles espaços enormes ao ar livre, sem reforço de vídeo. Os elementos da banda pareciam pequenos pontos e era difícil manter o contato físico com a nossa audiência. O som era sempre um problema. Havia vários elementos a levar em conta – condições meteorológicas, etc.
BONO: No estádio Flaminio em Roma, o Brian Eno ficou ao lado do palco. Regra geral, ele tinha sempre o seu lado emocional “desligado”, mas, desta vez, tinha lágrimas escorrendo-lhe pela cara a ouvir 35 mil pessoas a cantar “ha la lala de day”, o refrão de ‘Running to Stand Still’. Ele não conseguia acreditar. Pessoas de diferentes nacionalidades cantando uma das músicas que tínhamos composto juntos. Também tivemos uma noite fantástica no Estádio Bernabéu em Madrid. Estávamos contando com 100 mil pessoas, mas apareceram 120 mil. As pessoas empurravam-se umas às outras para conseguirem entrar, era impossível controlá-las. Nunca tínhamos visto tanta gente junta e isto não era um festival, era um concerto do U2. Saímos do palco e começaram todos a cantar: “Torero, torero, torero, torero”. Cem mil pessoas gritando “torero” é um som fantástico. E alguém disse: “Eles estão dizendo que vocês são toreiros. É o melhor elogio que podem dar à vocês”. Subi no palco de novo e pedi ao promotor local para traduzir o que eu dissesse. Disse-lhes: “Nós não somos o toureiro. Nós somos o touro!” Os espanhóis adoraram.
EDGE: Demos dois espetáculos do Estádio de Wembley, para 144 mil pessoas, e atuamos novamente no Croke Park. Depois, tiramos algum tempo de férias durante o verão. Foi um alívio regressar a Dublin depois da grandiosa experiência na América e na Europa. Foi ótimo ver os meus filhos. Eu tinha uma certa dificuldade em me adaptar à vida de casa. Voltamos exaustos, mas reparamos que a casa agüenta bem sem nós. Entretanto nos apercebemos da falta que fizemos enquanto estávamos fora e tentamos voltar à rotina doméstica. Naquela fase, éramos a maior banda da América, talvez até a maior banda do mundo, e estávamos voltando à Dublin e à nossa vida normal. Era tudo muito simples, não havia aviões particulares nem carros de luxo. Tínhamos boas casas, mas continuava a ser um estilo de vida normal. A Aislinn assegurou-se de que as loucuras e extravagâncias ficassem do lado de fora de casa.
Na verdade, o primeiro sinal de grande loucura foi a idéia de fazer um filme à Hollywood. Creio que foi idéia do Paul McGuiness. Ele tinha estado ligado à indústria cinematográfica antes de vir trabalhar conosco e, provavelmente, sempre teve a intenção de regressar a essa área. Um filme sobre a banda seria o veículo perfeito.
PAUL: A culpa foi minha e a assumo, pois fui eu que tive a idéia. Fascinava-me a idéia de ir mais além com uma maior divulgação duma altura daquelas e queria ver até onde conseguíamos chegar. Sempre tinha admirado o Coronel Parker e o Brian Epstein por terem percebido que a música conseguia capturar a imaginação do mundo inteiro.
EDGE: Originalmente, a idéia era fazer um filme de baixo orçamento, exibi-lo apenas num determinado número de lugares e fazer disso uma espécie de evento dirigido aos fãs. Falamos com alguns realizadores, entre eles Jonathan Demme. Tínhamos adorado o Stop Making Sense, que ele tinha realizado com os Talking Heads. Phil Joanou foi o realizador mais jovem com quem falamos e o que tinha um CV menos extenso, mas ele era um prodígio em termos técnicos, que sabia muito sobre a banda, e o entusiasmo dele era inspirador. Não tínhamos propriamente um plano nem um texto para a realização de um filme. O nosso objetivo era descrever a turnê num filme de 16mm em preto e branco e ver no que dava.
BONO: O Joanou era um tipo formidável: cabeça pequena, cérebro grande e bastante técnico. Sabia nos descrever como eram feitas todas as cenas de um filme qualquer, dizia quais as luzes que foram usadas, que câmara, que lente. Queríamos fazer um filme sobre a nossa viagem musical pela América e tentar converter a turnê num mito.
(Continua...)
Créditos: Joanne.
Bonolocks
28/05/2007, 19h28
(Continuação)
Páginas (191 – Foto), 192, (193 a 195 Fotos) e 196.
LARRY: A idéia inicial era financiarmos o filme e as filmagens das atuações com o dinheiro ganho na turnê The Joshua tree. Estava tudo correndo bem, mas começaram a acrescentar-se outras coisas ao plano de trabalho, já que podiam ficar bem no filme. Ficou uma monstruosidade. Atribuo a culpa à loucura da turnê The Joshua Tree. Perdemos o contato com a realidade.
EDGE: Estávamos realizando um dos nossos primeiros shows em um estádio nos Estados Unidos, no Estádio Robert Kennedy, em Washington DC. A equipe do documentário estava presente e o show não estava indo muito bem. Naquele tempo quando um show do U2 não estava correndo bem, é porque não estava sendo bom mesmo. Era apenas uma seqüência de momentos e de músicas deslocadas que não produziam o efeito desejado. O ambiente no palco ficava bastante sombrio. Naquela noite em particular, na tentativa de fazer com que as coisas funcionassem, o Bono começou a correr a toda velocidade para um dos lados do palco. Como estava chuviscando, o piso ficou escorregadio. Ele escorregou e caiu sobre o ombro, deslocando-o.
BONO: A música era ‘Exit’ e ela me transportou para um lugar horrível. Eu escorreguei e cai sobre o ombro esquerdo, fiz uma ruptura em três ligamentos da clavícula. Estava com muita dor. Nunca cheguei a ficar completamente curado. O ombro ficou um pouco para frente e agora tenho que fazer exercícios para que volte a posição normal. Foi a fúria que provocou isso. Foi ali que percebi que a fúria pode sair de dentro de nós e nos prejudicar.
EDGE: Ele terminou a música, sai do palco e foi para o hospital. O Phil Joanou é um diretor tão dedicado que entrou no carro aonde o Bono ia, e foi o caminho todo filmando o cantor atormentado cheio de dores. Não foi agradável, mas mostra o nível da angústia e intensidade que era predominante no grupo.
LARRY: Tivemos que levar uma enfermeira com a gente na estrada para cuidar do ombro do Bono. Andou com o braço ao peito durante um mês. Nós vivíamos em Hamptons em Long Island, New York, e íamos de avião para os shows e voltávamos no mesmo dia. Tínhamos uma casa na praia. Foi durante o inverno, estava um tempo horrível e um frio de rachar. Não havia nada aberto nem qualquer movimento nas ruas.
EDGE: Havia duas casas. Eu tinha uma família, por isso fiquei com uma. Duas casas acima ficava o complexo do U2, compartilhado pelo Bono, Ali, Larry, Ann e Adam. O Paul estava em uma casa no fundo da rua com a família. A Aislinn não queria muito ficar ali e eu não posso censurar. Não era dos melhores lugares para se viver com dois filhos ainda pequenos em setembro/outubro, quando o tempo costuma ficar mais frio e não há ninguém nas ruas. Naquela ocasião, pareceu ser boa idéia pegar o avião em Long Island para ir e vir dos shows na costa oriental, mas na verdade foi um erro.
ADAM: Era estranho voltar para casa no meio da noite, pois não havia serviço de limpeza. Eu preferia ficar em hotéis.
BONO: O contraste entre o público e a alegria em um show do U2, depois uma espécie de silêncio no dia seguinte, e a vida familiar, me assustavam. Ainda não tinha entendido a psicologia dessa situação. Uma pessoa se esgotava em um palco e por isso ficava um vazio dentro de nós, que é natural depois de uma grande noite de show. Comecei então a perceber porque é que o Keith Richards tinha se tornado um viciado. Ele disse que era após as turnês, era aí que ele se voltava para a heroína. Se apresentasse todas as noites tudo bem, mas quando não apresentava é que havia um vazio que precisava ser preenchido.
EDGE: Também houve muitos momentos de alegria pelo caminho. Os Dalton Brothers estrearam em Indianápolis. Estávamos nos preparando para o show quando apareceu o Paul McGuinness e disse: “Os Los Lobos perderam o avião, não vão conseguir chegar.” Ficamos pensando até que nos surgiu a idéia de fazer a abertura do nosso próprio show. Vestimos-nos de cowboys, subimos no palco e cantamos algumas músicas country. Estávamos horríveis, mas em lugares assim grandes, só as pessoas das primeiras cinco ou seis fileiras é que conseguiam ver a nossa cara. Houve quem nos reconhecesse e após umas três músicas começaram a espalhar a notícia.
Entretanto, o pessoal da frente estava em uma enorme agitação e só se ouviam gargalhadas. O restante estava comprando pipocas. Praticamente ninguém do fundo estava prestando atenção.
ADAM: Ainda ouvimos algum “Boo!”. Mas acho que fez parte da diversão.
BONO: Alton Dalton, Luke Dalton e Betty Dalton. O Adam deu uma Linda Betty. Tocamos algumas músicas. Lembro de ter encontrado o Dr. Udo, o nosso promotor japonês, que já não víamos há alguns anos. Ele não percebeu que estávamos disfarçados e limitou a dizer: “Meu Deus, estão tão mudados! É isso que é preciso para ser uma grande banda na América?”
ADAM: Tínhamos um rol de músicas country que podiam ser acompanhadas por um violão. Conseguimos tocar até o final a música dos Eagles, ‘Tequila Sunrise’, dos nossos tempos da Mount Temple e o Edge sabia algumas músicas do Hank Williams, como ‘Lost Highway’. Fazia tudo parte do que acontecia naquela turnê, havia um elemento de busca da genuína música americana. De certa forma foi daí que surgiu o álbum Rattle and Hum.
BONO: Fizemos shows duas noites em Los Angeles. Um dia acordei com uma música na cabeça: ‘Love Rescue Me’. Muitas músicas surgem durante o sonho. A princípio achamos que é uma música de outra pessoa, pois esta completa, estrofes, coro, melodia. Eu tinha sonhado com o Bob Dylan e pensei que poderia ser uma música dele. Era sobre um homem que todas as pessoas recorrem como sendo um Salvador, mas a sua própria vida esta ficando de pernas para o ar, e é ele quem precisa de salvação. Escrevi alguns versos, não sabia muito bem o que fazer com eles. Até que lembrei: “Eu tenho o número de telefone do Bob Dylan. Por que não telefono para ele?” E ele me convidou para ir à sua casa.
Ele morava na costa californiana, fora de Los Angeles, em uma zona discreta, nem dava para imaginar que vivesse ali alguém tão famoso. Eu estava super feliz por estar ali com meu herói. Ele foi sempre muito simpático e generoso comigo. Contei que tinha acordado pensando em uma música e que achava que era dele. Ele disse: “Toca.” Toquei aquilo que sabia e disse: “É sua?” E ele disse: “Não, mas podia ser.” Então vamos terminá-la. Ele canta coisas fantásticas que lhe vem à cabeça. E saiu com essa frase: I’m hanging by my thumbs, I’m read for whatever comes, love rescue me. Pendurado pelos polegares (‘Hanging by my thumbs!’). Excelente imagem na música.
Aprendi muito com o Bob Dylan, apenas compondo com ele. Aprendi a escrever letras. ‘Love Rescue Me’ é sobre a auto-aversão e a frase ‘the place of my shame’ (o palácio da minha vergonha) foi uma idéia interessante. Parte da doença de uma estrela de rock é o fato de sofrer as conseqüências dos seus próprios atos. Todos os escritores acham que os seus sentimentos são importantes, mas um grande escritor percebe que embora seus sentimentos sejam importantes, nem todos são suficientes para serem partilhados. ‘The palace of your shame’ descreve a forma como as pessoas transformam sua vida em um monumento de compaixão. Os irlandeses adoram melancolia. É aquele encanto amargo no qual somos peritos. Eu sempre achei que era por causa da chuva.
Toda a minha vida procurei mestres e fiz de mim um aluno. Sempre vivi como aprendiz. É por isso que escrevo melhor esse ano do que escrevia no ano passado, e provavelmente serei ainda melhor ano que vem. Todo mundo aprende coisas e eu estarei sempre preparado para ser humilde perante alguém que sabe mais do que eu. Uma vez disse ao Lou Reed: “Se você tivesse um conselho para me dar em relação às letras das músicas, que conselho seria?” Ele olhou para mim tocou uns acordes e disse: “Não tenha medo de perder a rima.” Ótimo. Mas, mais uma vez, somente passado uns anos depois é que entendi a mensagem.
Ser famosos se formos inteligentes, nos coloca em um caminho para mais aprendizagem em vez de ficarmos parados por ali. Temos a oportunidade de conhecer pessoas que admiramos, de explorar idéias que de outra forma não teríamos a possibilidade de explorar, de ir à origem das coisas. Deixamos a privacidade para trás, mas a vida da imagem se transforma na verdadeira mansão. Há mais “quartos” onde podemos entrar. Frank Sinatra, Johnny Cash, Allen Ginsberg. Fui atrás de todas essas pessoas para ver o que podia aprender. No Reino Unido e na Irlanda, essas pessoas são tratadas como velhos fantasmas, mas na Índia e em outras culturas quando as pessoas atingem os 60 anos é que começam a adquirir o seu poder. É nessa altura que estão repletos de sabedoria. Por outro lado, na música rock, conta-se que a pessoa não passe dos 27 anos.
EDGE: Estávamos tentando reunir material novo para o álbum que veio a se chamar Rattle and Hum. Comecei a trabalhar algumas músicas em uma pequena casa em Connemara, na parte ocidental da Irlanda, antes de voltarmos à estrada. Estávamos claramente trabalhando no conceito das origens da música americana que tinha sido abordado durante a turnê. Eu estava ouvindo a compilação do Dylan, Biograph, que tinha acabado de ser lançada, e tinha os primeiros discos dos Stooges e também uma coletânea do Lefty Frizzel, um impressionante cantor country dos anos 50. O Bono foi passar uns dias comigo. A partir da música que eu já tinha, traçamos as linhas gerais de Desire e Angel Of Harlem. Comecei a trabalhar outras melodias que vieram ser ‘Hawkmoon 269’ e ‘All I Want is You’, e o Bono trabalhou ‘When Love Comes To Town’.
Ele achava que a música era muito tradicional para nós. Umas semanas antes tínhamos ido ver o B.B King e depois do show o B.B disse: “Adoraria que me compusessem uma canção.” Surgiu então a idéia de ser o B.B cantando essa música.
BONO: O B.B King estava esperando que lhe mostrássemos a música. Como seria de se esperar eu não tinha terminado. Escrevi a letra no banheiro em 10 minutos, enquanto ele esperava lá embaixo. Sai do banheiro, me vesti, desci e entreguei a música. Foi um momento profundamente humilhante ter um homem tão grandioso lendo a letra da minha música. Fala dos soldados que deitaram sortes para dividir entre si as vestes de Jesus. O tema eminente é a traição. E ele disse: "Ainda é muito novo para escrever letras tão pesadas".
(Continua...)
Créditos: Juliana Oliveira (JulianaSP).
Bonolocks
28/05/2007, 19h30
(Continuação)
Páginas 197, (198 – foto) e 199.
EDGE: Ensaiamos a música com ele diversas vezes e conseguimos convencê-lo a se apresentar conosco nessa noite. Ele é uma pessoa incrível, graciosa, com um coração enorme e uma alma incrível. Ele é daquelas pessoas para quem tudo é música. Estar ao lado dele em palco enquanto cantava foi algo verdadeiramente arrebatador. Que ele tocava bem guitarra, isso nós já sabíamos, mas nunca tínhamos percebido do magnífico cantor que era.
A definição da faixa de ‘When Love Comes To Town’ foi feita no Sun Studios em Memphis. Demos um show no Tennessee e conseguimos que o estúdio abrisse durante alguns dias. Tivemos a ajudo do ‘cowboy’ Jack Clements, o engenheiro de som que o Sam Philips usou para a gravação do Elvis. Pegamos em algum equipamento que já estava com teias de aranhas desde os anos 60, desde que aquele lugar tinha deixado de ser um estúdio em funcionamento. Foi incrível, pois o som estava lá, nos tijolos e na argamassa. Não foi nada artificial, foi apenas o sentimento e a acústica do espaço em si.
BONO: Os microfones ainda eram os mesmos que o Elvis tinha usado. O espaço era pequeno. O chão era em pedra, forrado com linóleo, as paredes tinham uma espécie de revestimento acústico, tudo a lá anos 50. O som era verdadeiramente estridente. Convidamos os Memphis Horns e gravamos ‘Angel Of Harlem’. Achei que o pessoal precisava se descontrair um pouco e comecei a distribuir garrafas de Absolut Vodka. Entreguei uma aos trompetistas e estávamos todos rindo quando o cowboy veio falar comigo. Ele era uma pessoa que gostava de arrumar problemas, mas também sabia quando não devia arrumar. Virou-se para mim e disse: “Bono, há quanto tempo anda nisso?” E eu disse: “Em torno de 10 anos”. Ele respondeu: “Há 10 anos e ainda não sabe que não se dá Absolut Vodka aos trompetistas? Pode dar a qualquer pessoa menos aos trompetistas”. E eu perguntei: “Por que os trompetistas em particular?” E ele disse: “Presta atenção seu tonto, tenta tocar trompete com os lábios descoordenados”.
ADAM: O objetivo era gravar essas músicas, como pequenos esboços para quebrar a duração das apresentações durante a turnê. Nessa época ainda são sabíamos que o álbum ia ser duplo. Era apenas uma forma de organizarmos as coisas para o filme.
BONO: Aconteceu uma coisa estranha no final da turnê The Joshua Tree. Participamos da campanha do dia de Martin Luther King em Tempe, no Arizona, local de abertura da turnê em abril. Havia um governador chamado Mecham que era contra tudo isso e nós nos envolvemos na política local e manifestamos o nosso apoio. Voltamos a Tempe no final da turnê, em dezembro, para apresentar no Sun Devil Stadium.
Recebi ameaças de morte durante toda a turnê. Uma delas foi levada bastante a serio por parte do FBI. Havia um cara racista que se sentia ofendido com o nosso trabalho. Achava que estávamos nos metendo na vida de outras pessoas e que estávamos a favor dos negros.
Em uma das noites os homens do FBI disseram: “Isso é sério. Ele diz que tem um ingresso para o show. Diz que está armado, e que se vocês tocarem Pride (In the Name of Love) vai te dar um tiro”. Começamos o show com os homens do FBI por perto, e estávamos nervosos. Não fazíamos idéia de onde ele estava. Será que estava presente? Será que estava nas grades? Será que estava em cima da cobertura? Durante a música Pride estava eu naquela parte: Early morning April 4, shot rings out in a Memphis sky, fechei os olhos e fui cantando. Quando abri os olhos, o Adam estava na minha frente.
EDGE: A turnê foi um grande sucesso e o disco estava tendo uma saída incrível. Venderam 20 mil cópias. Estávamos atravessando uma fase bastante positiva. Apesar de toda a nossa angústia, tudo acontecia a mil maravilhas. Até que em determinada altura, começamos a pensar nos custos referentes a rodagem do nosso filme e lembramos: “Caramba, ainda não elaboramos um plano para isso”. Fizemos as coisas ao contrário. Contratamos um diretor, começamos a filmagem e uma vez que era um documentário, tínhamos todos os atores e locais definidos antes de sequer termos um contrato. Talvez não seja a melhor forma de fazer as coisas. Começou a tornar-se obvio que a única forma de conseguirmos recuperar o dinheiro que tínhamos gasto era falando com os estúdios maiores. Tivemos então uma reunião com a Paramount Pictures e foi o clássico de colocar as cartas na mesa e ficar à espera.
PAUL: Gastamos cinco milhões de dólares de nosso dinheiro para fazer o filme e vendemos à Paramount pelo mesmo valor. Foi uma enorme sensação de alivio, pois já estávamos em uma situação de aperto há algum tempo.
LARRY: Quando a Paramount Pictures se envolveu já não íamos fazer um filme de estrada.
EDGE: Em vez de estrear em 20 salas, o filme ia estrear em 120. Íamos filmar apenas o habitual de um documentário e esperávamos que no meio de tudo aquilo houvesse algo que se pudesse aproveitar e ser transformado em uma história. A turnê terminou na América e nós voltamos a Dublin. O Phil estava trabalhando em Los Angeles, tratando da edição e fazendo a seleção das cenas. Ele tinha horas e horas de fita de nós convivendo, passeando, quebrando o nariz um dos outros, coisas assim. Nenhum de nós fazia idéia do que aquilo ia dar. Depois, o Phil começou a dizer que tínhamos que dar uma fundamentação ao filme, pois faltava um conceito. Então veio a Dublin para filmar algumas entrevistas e uma ou outra cena para completar o vídeo.
ADAM: Tínhamos feito ‘demo’ de algumas músicas em Dublin. ‘Desire’ já estava pronta e o Phil filmou uma versão dessa música no Point Depot, que na época era um armazém e só depois que se tornou um espaço para shows.
EDGE: Eu trabalhava em uma pequena casa em Rathgar. Tinha comprado junto com a Aislinn, uma casa espaçosa em Monkstown, mas ainda não tínhamos mudado. Continuando, eu estava em casa ensaiando e tocaram a campainha. Estava tocando em um ritmo fantástico, mas não conseguia achar o gravador. Por isso, fui tocando até a porta, abri sem parar de tocar. Era o carteiro. Entregou duas cartas. As peguei, e joguei em cima da mesa da entrada, sempre tocando e disse: “Obrigada, tchauzinho.” Fechei a porta sem parar de tocar, subi as escadas e achei o gravador junto à minha cama e gravei o riff. E assim surgiu ‘Desire’.
BONO: ‘Desire’ é um pequeno clássico. O Edge se inspirou no ritmo de The Stooges ‘69’ que por sua vez tinham se inspirado no ritmo de Bo Diddley. O ritmo é o sexo da música. Eu queria declarar a religiosidade dos shows de rock’n’roll e o fato de que somos pagos por eles. Por um lado estou criticando os pregadores lunáticos quando digo na música ‘stealing hearts at a travelling show’ (roubam corações em um show itinerante), mas começo agora a perceber que existe um verdadeiro paralelo entre o que eu estou fazendo e o que eles fazem.
ADAM: Em junho de 1988 mudamos para LA para terminar a mixagem de som do filme e fazer o que é agora um álbum ao vivo e algumas faixas de estúdio. Inicialmente iam aparecer apenas cinco ou seis faixas novas no filme, mas estava ficando muito longo e acabamos por ficar com nove no total, o que já é praticamente um álbum novo.
BONO: Qualquer outra banda teria provavelmente lançado o álbum ao vivo e regressado para casa, mas nós estávamos determinados a fazer algo mais original. Queríamos que fosse o álbum da turnê, em cima e fora do palco, acrescentando ao meio das apresentações da turnê Joshua Tree o que tínhamos aprendido com a música americana.
BONO: Eu e o Edge fomos conversar com o Phil antes de todos chegarem e ficamos vendo ele tratar da edição da parte ao vivo. Entretanto chegou o resto da banda. Foi fantástico. Encontramos uma casa que mais parecia um quartel do exército, com um campo e uma piscina no meio. Não tinha ar condicionado e estava prestes a ser derrubada. Este era o seu último arrendamento. Era enorme, mas era barata. Ficava em Bel-Air, na zona de Hollywood Hills.
LARRY: Era como a ‘Invencível Família Brady’. Quatro quartos em uma casa gigantesca que estava desabitada há algum tempo. Tivemos que alugar tudo: mobílias, tapetes, posters para parede, televisão. Era um lugar maluco.
EDGE: Quando chegamos a Los Angeles, houve uma certa desarmonia no ar. Aluguei uma casa com a minha família e os outros ficaram todos juntos em outro lugar. Eu estava tendo uma vida plena em Beverly Hills. E eles estavam se divertindo muito lá na comuna hippy em Bel Air. O contraste era bastante desprezível. Dediquei a trabalhar no álbum e a visionar a pós- produção áudio do filme. Seria bom dizer que através da minha determinação e dedicação extrema, consegui salvar o disco, mas admito que também não estava no meu melhor e que a esquizofrenia do disco reflete os momentos estranhos que estávamos passando.
BONO: Vivíamos bem. Eu tinha uma Harley-Davidson e ia de moto trabalhar. Estávamos começando a viver à noite, passávamos o tempo na cidade baixa, afastados das grandes altitudes, em todos os sentidos. Como o passar dos anos o coração da cidade passou para ocidente e a cidade baixa foi transformada em um centro de comercio bancário e de negócios, com o fantasma do seu passado animado apenas em clubes de jazz e em locais de dança.É um lugar estranho e esquizofrênico, onde podemos encontrar pessoas de fato pisando em porcarias e seguindo caminho concentradas em direção às suas torres espelhadas. LA não é uma cidade animada. Às dez da noite as pessoas já estão na cama para levantarem bem cedinho e irem trabalhar, mas nós íamos pela 101, pela auto-estrada até o centro da cidade.
Havia lá um clube chamado The Flaming Colossus e era um lugar extraordinariamente imaginativo. Em um dia havia música cigana, no outro árabe, bandas ao vivo, dança do ventre, encontros de engolidores de espadas. Todo tipo de pessoas que viviam da noite reunia-se lá. Já não me importava que as pessoas olhassem para mim, começava agora ser mais desinibido. Saia para dançar, fazia maluquices. Desenvolvi um gosto especial por whisky. O whisky não me deixava sonolento, ao contrário do vinho, que é o que bebo atualmente, por isso não ficava com vontade de dormir. Preferia pular das grades do telhado. Podia beber muito e nunca ficava bêbado, mas estava me expondo muito, por isso, parei. “Epa, o cara que escreveu a letra sobre Martin Luther King é o mesmo cara que me tentou dar um soco no nariz?” Tive que parar.
ADAM: Fui a uma festa na mansão da Playboy. Vicky, a mulher do nosso produtor Jimmy Lovine, ofereceu para me levar lá com uma ou duas amigas dela. Muitas das coelhinhas ou ex-coelhinhas que vi eram mais velhas do que eu, era claramente de uma “colheita” diferente. Na época eu tinha 28 anos e acho que era o homem mais novo da festa. Estavam lá o Berry Gordy e o Tony Curtis. Dei umas voltas lá dentro, mas aquilo não era um mundo de erotismo com o qual os europeus se identificassem. Não cheguei a ter a oportunidade de conhecer o lendário Hugh Hefner. Havia muitas limusines alinhadas à porta e ele estava muito ocupado falando com os verdadeiros VIP’s. O baixista do U2 em 1988 não lhe dizia nada.
BONO: Los Angeles é uma cidade construída a partir da imaginação das pessoas. O que a Boeing e a Microsoft são para Seattle, as indústrias cinematográficas e as gravadoras são para LA. Quando se é uma estrela, é como se fossemos o capitão da indústria. Os carros da polícia avançam ao nosso lado, com os strobes ligados e os guardas nos saudando através do alto-falante colocado em cima do carro: “O novo álbum é o máximo!” Lembro de uma vez terem me mandado parar. Estava dirigindo um Chevy 1963 e pediram para encostar. Falaram: “Mostre-me a sua identidade.” E eu disse: “Não tenho nada comigo”. E eles: “Não tem nenhum documento? Tem que ter algum”. E eu mostrei uma foto minha com o Bob Dylan. Foi tipo: “Pronto. Siga seu rumo, colega”. Todo mundo respeitava o Bob. Estive mais vezes com o Bob nesse tempo. Ele significa mais para mim do que qualquer outro artista ligado à música ou à arte. Não o vejo como um compositor, o vejo como artista. Para mim ele é Goya e Shakespeare em uma só pessoa. Viu alguma coisa em mim, mas que ainda não estava totalmente formada. Tal como o Van Morrison disse nessa época: “O Bono vai ser grandioso quando estiver completo.” Encarei isso como um elogio, pois também pensava o mesmo. O fato de vendermos muitos discos não era o importante. Eu estava crescendo, estávamos melhorando como banda e isso é que importava.
LARRY: Estávamos gravando no A&M Studios. O Jimmy Iovine era o produtor. Ele tinha uma forma muito particular de trabalhar. Entrava no estúdio, escutava um pouco e dizia: “Precisam trabalhar mais nisso.” Depois ia embora. Não tínhamos o mesmo tipo de abordagem que estávamos acostumados com o Brian ou com o Danny. Tínhamos sim uma chamada à realidade: “Ainda não está pronto. Não posso ajudá-los. Tem que ser vocês mesmos resolvendo isso”. Era uma espécie de tomada de consciência. Contudo o que nos diz respeito às músicas penso que há um excelente trabalho nesse disco. O Jimmy deixava bastante claro do que as músicas precisavam, só não estava por perto o tempo suficiente para nos dar um empurrão. A nossa concentração dependia fortemente da banda, sobretudo do Bono e do Edge.
Não há nenhuma música desse período que pareça inacabada. Estão todas como deveriam estar.
BONO: Às vezes, a coisa mais importante que um produtor pode nos dizer é que a música ainda não está no ponto ou nos mostrar que parte da gravação ficou melhor. Nós tocávamos uma música ao Jimmy e ele era do gênero: “Gostei do refrão.” E nós falávamos: “Por que? Acha que devemos modificar a estrofe?” E ele: “Não, acho que o refrão é a estrofe. Agora façam um refrão.” Ele tem um QI elevado, mas não é o tipo de músico que chega lá, pega em um instrumento e começa a improvisar junto com a gente. Éramos um grupo punk rock tentando interpretar Bach. As nossas limitações nos davam mais força, mas precisávamos de tecladistas por perto, precisávamos fazer outras experiências para seguirmos um rumo novo. Se fossemos mais completos como banda, ele teria sido o produtor perfeito para o U2. O Jimmy Iovine tem sido uma das maiores influências na vida da banda e na minha, em particular, como ajudante e como amigo.
Desafiou-me, sobretudo, como poeta lírico, pois durante as conversas ele tinha sempre as melhores deixas. Se olhar para trás, para todo o trabalho que foi feito nos anos 80, sinto que precisava ter sido mais desafiado.
(Continua...)
Créditos: Juliana Oliveira (JulianaSP).
Bonolocks
28/05/2007, 19h33
(Continuação)
Páginas (200 a 202 – fotos), 203 e 204.
EDGE: Eu era aquele que tentava que o disco desse em alguma coisa, quando parecia que o Bono e o restante dos membros andavam na boa vida mais do que nunca. O Jimmy Iovine não sabia o que pensar. Perante ele estava a banda que tinha escrito letras sobre os direitos civis e sobre Deus a converter-se em entusiasta da noite em LA. Eu me agarrei ao disco como uma espécie de salva-vidas. Estava me afundando e o meu casamento estava por um fio. Creio que eu era o único, e também talvez o Larry, que não era muito dado a festa. Quer dizer, havia muitas festas na minha casa em Beverly Hills, mas não enquanto eu estava lá. Acho que se eu tivesse disposto, já não teria voltado. Tornou-se tão mau, que por vezes eu ficava no carro na porta de casa pensando: “Quanto dinheiro é que terei no bolso? Até onde daria para ir?” Passava na minha cabeça ir embora, sair dali para respirar ar puro. Entreguei-me totalmente ao disco, o que provavelmente não ajudou na situação em casa. Acho que a Aislinn se sentiu abandonada, pois eu andava tão embrenhado no trabalho, que nunca estava presente. Não me refiro apenas a um pequeno transtorno, refiro-me a problemas fundamentais que sempre estiveram ocultos e que devido a toda essa pressão no negócio da gravadora e do sucesso que tínhamos, vieram todos a tona.
LARRY: Los Angeles era uma repetição de crises, um problema seguido do outro no disco, no filme e na vida. Comecei a sentir saudades de casa. Não havia para onde ir, o lugar fecha as nove em ponto. No meu tempo livre pedia uma moto emprestada e ia dar uma volta por LA. Trabalhar no A&M estúdios era muito legal, mas havia outro estúdio, o Ocean Way, que era subterrâneo onde não entrava luz do dia. Eu não conseguia suportar. Estava desesperado para sair de LA.
BONO: ‘Hawkmoon 269’ foi gravada no Sunset Sound, com todas aquelas confusões que acontecem lá. Apreensões de drogas, Sunset Strip, prostitutas. Todos os anúncios luminosos publicando sexo. Dá para sentir tudo isso na Hawkmoon.
EDGE: Hawkmoon é um lugar em Rapid City, Dakota. Passamos lá na turnê Conspiracy Of Hope. 269 vêm dos números de misturas. Perdemos três semanas com essa faixa.
LARRY: Mostra a situação em que nos encontrávamos. Tínhamos perdido a capacidade de tomar decisões.
ADAM: Em determinada altura, eu e o Bono alugamos um Jeep Cherokee e fomos de LA até New Orleans. O Bono tratava da orientação e eu dirigia. Não conseguia confiar nele com as mãos no volante.
BONO: Começamos a viagem na Nacional 10, uma estrada que faz a ligação entre a costa ocidental com o lado oriental. Quando se sai de LA, deixa-se para trás uma América e entra em outra. É a verdadeira América, uma América que eu admiro. Enchemos o carro com discos do Johnny Cash e lá fomos nós, em direção ao Painted Desert, atravessamos uma cidade chamada Truth and Consequence, o Novo México, Arizona, Texas, Tennessee. Não sabíamos ao certo para onde íamos, fomos inventando ao longo da viagem. Foi uma aventura.
ADAM: Foram duas semanas de viagem. Viajávamos durante o dia, passávamos a noite em um motel, comíamos qualquer coisa e seguíamos caminho no dia seguinte pela manhã.
BONO: Até que ficamos sem carro. Ele pifou e tivemos de pedir carona. Um corvette, conduzido por um rapaz novo, encostou. O sujeito fez uma cara de espanto e disse: “Vocês são quem estou pensando?” E nós falamos: “Somos”. Entramos no carro e ele ia nos deixar onde nós quiséssemos. Olhou para gente e disse: “Nem vão acreditar. Estava agora mesmo ouvindo a música de vocês e de repente os vejo na estrada’. Entretanto ele colocou ‘Where The Streets Have No Name’. Ficamos ouvindo o último minuto da música do seu poderoso sistema de som e estávamos um pouco envergonhados. No final da música aconteceu uma coisa que me deixou perplexo. Parecia o fim do mundo, parecia que o Godzilla estava dando passos violentos no chão junto ao carro. Era o melhor som de bombo que eu já tinha ouvido. Pensei: “O que é isso?” Era tipo “Boom-boom-whoo! Boom-boom-whoo!” Olhei para o Adam e o Adam olhou para mim. Nunca tínhamos ouvido um som tão intenso. Era ‘Pour Some Sugar on Me’ dos Def Leppard e parecia ter o dobro de intensidade do que ‘Where The Streets Have No Name’. Tomamos a devida nota! Porque no final das contas, as pessoas escolhem as músicas que melhor se adaptam aos aparelhos de som, o que é algo que os músicos não gostam de admitir. Ambos tomamos a devida nota que nos próximos discos deveríamos experimentar uma vertente mais sônica.
ADAM: Nessa época, ainda conseguíamos ir a lugares sem que as pessoas reconhecessem logo o Bono, por isso, ele ainda atravessava uma fase de alguma liberdade. Ficamos uns dias em Santa Fé, no Novo México, uma fantástica cidade turística. Não paramos em nenhum lugar no Texas, porque era um estado enorme. Estivemos algum tempo em Memphis, onde convivemos com alguns amigos.
BONO: Encontramos com o Robert Palmer, o considerável crítico do New York Times, que tinha escrito ‘Deep Blues’. Ele gostava tanto de blues que vivia em Memphis. Acho que ele tinha graves problemas de saúde, e teve alguns problemas com drogas quando era mais novo, mas era o mais encantador dos homens e tinha uma paixão genuína por música. Tinha uma banda onde tocava clarinete e tinha alguns amigos brilhantes. Ele nos disse: “Se estão interessados em blues, eu mostro a vocês o blues”, E fomos a Memphis, viajamos pelo país, fomos aos campos de algodão, a um Juke Joint (bar de blues), que era o único lugar onde se podia beber em um domingo. Havia pessoas bebendo e tocando.
ADAM: Como estão muito longe da cidade e não tem dinheiro para os transportes, nos finais de semana os trabalhadores rurais reúnem-se em uma casa de um deles e a transformam em um salão de baile. Os músicos locais se juntam, é tudo muito rústico e genuíno, semelhante ao que acontece na parte ocidental da Irlanda, mas com negros.
BONO: O Robert Palmer disse: “Nem todos os grandes nomes de Blues foram para Chicago. Um dos maiores é um cara chamado Junior Kimbrough. Ainda toca aqui de vez em quando”. Estávamos em um lugar aonde a música vinha do porão. Não sei que instrumentos tinham lá embaixo, mas o som ecoava em todo o edifício. Havia pessoas tocando, partilhando instrumentos, conversando enquanto eles tocavam bateria, canções incríveis. Uma amiga nossa, chamada Lian Lunson, esteve sempre com a gente durante um ou dois dias. Os convidados de fora da cidade acabam sempre entrando para conhecer o Junior. Ele devia ter uns 70 anos. Estendeu a mão para nos cumprimentar. Correspondemos a gentileza e fingimos que conhecíamos o material dele. Esperamos uma hora até o sol se por. Depois o Junior saiu e a multidão de 50 ou 60 pessoas se dividiram como na história de Moisés e o Mar Vermelho. Ele limitou-se a avançar, agarrou uma guitarra, soltou um gemido de fazer gelar o sangue, e começou uma canção chamada ‘I’m Going to Rape You, Little Girl’, que chamou a atenção de imediato da nossa companheira de viagem, a Lian, e a nós também. Acho que ele estava nos cutucando para se divertir. Mas fez-se música, muito, muito intensa. Depois as cosias começaram a ficar malucas, o álcool começava a subir na cabeça das pessoas. O Robert Palmer disse: “Acho melhor irem embora.” E nós dissemos: “E você, não vem?” Ele respondeu: “Não, a mim aqui ninguém faz mal.” E nós fomos embora.
Houve outro momento marcante em Memphis. O nosso carro tinha quebrado, mas acabamos pegando carona. Estávamos esperando por um táxi quando apareceu uma garota de limusine, vestida como qualquer motorista de limusine, mas com uma mini saia de couro. Era muito simpática e nos levou a diversos lugares. Era domingo e ela nos ouviu dizer que gostaríamos de descobrir igrejas onde o Al Green cantava e nos disse: “Eu posso levar vocês lá.” E lá fomos nós para a tal igreja. O Al Green não estava, acredito que não pregada todos os dias, mas ficamos para a cerimônia. O pregador estava um pouco elevado. Não conseguia nos ver, estávamos sentados lá atrás, mas começou a dizer:
“Deus os vê, Deus os vê. Mesmo que se escondam, Ele os vê. Não importa de onde vêm. Ele sabe para onde vão. Podem ter tomado a Nacional 10. Podem ter ido em direção a New Orleans, ter ido a Memphis e podem encontrar o Senhor.” O Adam ficou olhando para mim e eu olhando para ele. O pregador disse: “E podem estar nessa estrada nacional, podem estar no nosso SUV, podem ter mudanças automáticas ou não, e até podem não ter os pés nos pedais. Mas quero que saibam que nessa vida, não há barrade proteção e nunca sabem quando podem capotar. Se está aqui nessa noite alguém que sinto que o Senhor lhe fale, levante-se.” E o Adam sussurrou: “Ele está falando de nós.” Mas eu pensei: “Como é que ele sabe tudo isso?” Ficamos sem saber se devíamos ou não levantar, por a mão no ar, não vai haver alguma benção. Eu entrego a minha vida ao senhor seja quando for, mas o Adam começou a dizer: “Estou me sentindo desconfortável aqui, e você?” No final da cerimônia eu disse a alguns paroquianos: “Quando é que o Al vai estar aqui?” E eles disseram: “Qual Al?” “O Al Green” respondi. “Não o Al não canta aqui. Canta em outra igreja, do outro lado da cidade”. E nós falamos: “Mas foi uma motorista de limusine, a Melissa, que nos trouxe aqui”. E eles nos disseram: “Ah, ela é filha do pregador”. Ela própria tinha se tornado uma “pescadora” de homens e nos enganou. Foi lindo.
ADAM: Prosseguimos caminho para Nashville e encontramos o ‘cowboy’ Jack Clement. Apresentou-nos para muita gente. Passamos horas muito divertidas no estúdio com o John Prine e fomos visitar o Johnny Cash.
BONO: O Johnny Cash nos convidou para almoçar. Havia uma gigantesca mesa de carvalho francês posta com comida para cem pessoas. Nós éramos apenas cinco. A mulher do Johnny, a June Carter Cash, entrou e disse: “Não se preocupem, não têm que comer tudo isso. É só para tirar umas fotografias para o meu novo livro de culinária. Nós vamos comer aqui.” A seguimos então para outra sala com um banquete mais modesto. O Johnny era como um príncipe. Era inteligente, talentoso e machista, mas suavizado pela sua humildade. Deu graças com uma bela oração, agradecendo a Deus tudo o que estava sobre a mesa e dentro das quatro paredes, sob o teto, e tudo o que estava no exterior. Fiquei muito emocionado. Depois o Johnny abriu os olhos, virou-se para mim e disse: “Mas a verdade é que sinto falta das drogas!” Conversamos sobre poetas irlandeses e sobre as Escrituras. Perguntei se sabia a origem do nome Cash e ele disse: “Sim, vem de uma família baronial escocesa. A Família Cash.” E eu disse: “Não concordo com você Johnny. Os Cash são uma gente nômade, que gosta de cavalos, e são de Wexford, na Irlanda.” E ele me mostrou um sorriso amarelo.
ADAM: Em New Orleans, encontramos com o Daniel Lanois, que estava com os Neville Brothers e toda a equipe. O Danny tinha acabado de fazer o álbum Oh Mercy com o Dylan. Foi o Bono que os apresentou, e foi aquele álbum que trouxe o Dylan de onde quer que ele tenha estado a definhar.
BONO: New Orleans tinha a doçura de um vinho putrefato, quando as uvas estão entrando em decomposição. Adorei. A “podridão nobre” como chama os apreciadores de vinho. Havia umas cores escuras, roxo e púrpuro. Chovia muito quando chegamos. O Danny tinha um castelo barroco em New Orleans, uma bonita casa com uma escadaria admirável. Era um lugar mágico. Fiquei com os Neville Brothers. O Aaron cantava como um anjo, mas tinha aspecto de guarda-costas do diabo.
O Danny tinha descoberto um mundo de pessoas tão perdidas na música quanto ele. Havia uma sensação de estonteamento no ar. Foi uma viagem fantástica e passei dias fantásticos com o Adam. Guardarei para sempre essa recordação com muito carinho.
‘Heartland’ surgiu nessa viagem. E a minha história e do Adam. Mississippi and the cotton wool heat/ Mississippi and the cotton wool heat/ Of deserts dry of cool green valleys/ Gold and silver veins, shining cities…. Freeway, like a river cuts through this land. A música esta repleta de pequenos relatos do meu diário dessa viagem.
Em Rattle an Hum há algumas músicas bonitas. ‘All I Want is You’ é provavelmente a melhor. O Jimmy Iovine sempre diz: “É uma música excelente, mas nunca foi um grande disco.” Achava que se tivessemos conseguido pegar o jeito, teria sido o primeiro lugar das paradas. Nunca foi.
BONO: Canto essa música para a Ali. É uma pessoa muito reservada, que não gosta de se dar por conhecida. E ela não quer ser conhecida, o que a torna ainda mais enigmática. Sendo um artista, que tenta sempre estabelecer contato com o público, me sinto fascinado pelas pessoas que não se interessam pela opinão que os outros tenham delas. Ela se interessa pela minha opnião, mas é só isso. A Ali é uma força da natureza. É como uma corrente que só se vê quando se entra na água. Tem imensa força, mas não é algo que se sinta logo. Essas músicas se tiverem algum valor, são geralmente tanto biográficas como autobiográficas. Contêm a pessoa que, às vezes, queremos ser e não tanto aquela que somos. Eu queria ser mais do que ela queria que eu fosse em casa. Ela não precisa que eu seja mais do que aquilo que sou. Eu costumava pensar: “Bolas, gostaria de ser mais assim, gostaria de ser mais assado.” Ela olhava para mim e dizia: “Eu gosto de você como você é. Anime-se.” Ela acreditava naquilo que eu sou na minha essência. É uma coisa incrível.
EDGE: O Van Dyke Parks veio ao estúdio, ouviu o que tínhamos feito, foi embora e criou um arranjo lindo e incrivelmente assombroso, que tem a duração de dois minutos e meio. Foi uma forma fabulosa de terminar o álbum. ‘All I Want is You’ é provavelmente o melhor do que tentamos fazer com aquele álbum, uma vez que tem uma base tradicional. Era uma verdadeira música do U2. Olhando para trás acredito que a principal falha de Ratlle and Hum era a sua falta de inovação. A culpa era nossa pois estávamos na América, no meio de Hollywood, fazendo um filme com um estúdio conceituado, e não se tratou realmente de experimentar e tentar descobrir um novo ponto de partida na música. Tratava-se mais de nos expressarmos como fãs, absorvendo a atmosfera e permitindo-nos explorar as raízes da forma, o que não era necessariamente a melhor receita para um álbum original.
BONO: Em uma certa época, tive medo da natureza da letra em Rattle and Hum. Acordei com um riff maluco na cabeça. Expliquei para o Edge e ele tocou a versão dele, que naturalmente foi bem melhor. Eu estava lendo o livro de Albert Goldman sobre o Lennon e não tinha gostado. Uma coisa era o Goldman embirrar com Elvis, naquela sua voz trocista da Costa Leste...mas o livro dele sobre o Elvis era uma descrição de inutilidades, na perspectiva de um intelectual, dizendo ao mundo o que realmente se passava na corte do rei. De certo modo, o livro sobre o Lennon foi um fracasso, pois o Lennon já tinha nos contado tudo sobre si próprio. Não havia surpresas. Ele já havia descrito todos os seus maus hábitos, os seus esgotamentos nervosos, os seus interesses passageiros por idéias excêntricas e a sua incontinência verbal. O livro me pareceu completamente inútil. Pensei: “Ele não pode responder, por isso, vou eu fazê-lo”.
E daí nasceu ‘God Part II’, em homenagem a ‘God’, a bonita canção de Lennon. Gostei de todo aquele aspecto megalômano.
O título pretendia ser mordaz e presunçoso. Tal como eu disse anteriormente. Essa banda precisa de um editor. Há uma estrofe naquela música que diz: Don't believe in the sixties, the golden age of pop/ You glorify the past when the future dries up (não acredito nos anos 60, a era dourada do pop. Você glorifica o passado quando o futuro seca para cima.). Isso acontece em um álbum em que exploramos as raízes da música. É capaz de ser mais genuíno. A música inteira surgiu em um momento em que eu estava preocupado com o que andávamos fazendo. Aquela música não pertence verdadeiramente a Rattle and Hum. Seria a primeira música de Achtung Baby. Eu tinha ido ao fim da nostalgia, é essa a explicação.
(Continua...)
Créditos: Juliana Oliveira (JulianaSP).
Bonolocks
28/05/2007, 19h35
(Continuação)
Páginas (205, 206 – fotos), 207, (208 a 210 – fotos), 211, (212 – foto) e 213.
EDGE: Estávamos na última hora tentando encontrar harmonia com um pouco mais de contemporaneidade. Faltava uma espécie de perversidade ao álbum. A ambição primordial do disco era ser uma lembrança daquela grande turnê, uma conjugação de novas músicas, músicas ao vivo, um pedaço disso e daquilo. Depois já mesmo no fim, acabamos compreendendo que éramos grandes demais para escapar com aquele tipo de produção excêntrica. Começamos a perceber que iria ser comparado a tudo o que tínhamos produzido, não iria ser tratado como um álbum de recortes. Mas já era tarde demais para alterar a natureza do disco.
PAUL: Acredito que alguma coisa tenha dado errado na pós-produção do filme, o tornando muito cerimonioso. A opinião do diretor desapareceu e todas as cenas eram aprovadas pela banda.
LARRY: O filme foi feito pelo comitê, o Politburo, que éramos nós. Verdade seja dita, graças ao Phil Joanou, as partes ao vivo ficaram extremamente perfeitas. Mas houve outros momentos que foram mais complicados. Nós faziamos de tudo para não ficarmos muito expostos. Não deixávamos que nos filmassem nos camarins e coisas do gênero. Não sabiamos o que queríamos. Cometemos muitos erros durante esse período, mas também aprendemos muitas coisas.
BONO: Houve um momento no nosso desenvolvimento em que a arrogância era o próximo passo lógico. A realização do filme é brilhante. Foi filmado por Robert Brinkmann e Jordan Cronenweth. Nunca uma banda de rock’n’roll foi filmada assim. A metragem em preto e branco parece às vezes o “touro enraivecido”. O resto somos nós, muito inseguros, em frete à câmera. A timidez torna feio o rosto mais bonito e torna desconsolada a personalidade mais alegre. Apesar de todo o tempo que o Phil passou com a gente, as luzes ascendiam e nós ficávamos imóveis. É muito difícil ser natural. O que se faz quando uma pessoa nos diz: “Seja você mesmo.” É complicado, sobretudo quando não sabemos quem somos.
EDGE: Penso que o Phil fez um excelente trabalho. É acima de tudo, uma espécie de amostra do estado de espírito da banda, revela como éramos cabeças avoadas e levianas, como se estivéssemos perto de estragar tudo, mas depois conseguimos manter tudo unido, embora com dificuldade. Em vez de usarmos o Joshua Tree como trampolim para uma coisa ainda maior, fizemos um filme de estrada e quase nos despistamos.
O álbum sofreu por ter ficado ligado a essa campanha cinematográfica massiva, foi anunciado como se fossem os dez mandamentos vindos do alto. Quando foi lançado, todos sentiram que era uma coletânea confusa, nem tanto ao ar, nem tanto a terra. Penso que tem alguns momentos fantásticos, mas representa, provavelmente, uma falta de discernimento momentâneo. Durante algum tempo, em vez de irmos à caça do sucesso, o sucesso que andava atrás de nós.
PAUL: O plano era lançar primeiro o álbum e conseguir que ficasse em primeiro lugar em todo o mundo, coisa que aconteceu. O filme foi lançado pouco tempo depois e o primeiro fim de semana de exibição foi o mais estranho. Teve uma sexta-feira fabulosa e todos pensaram que agora ia ser só faturar. O sábado foi uma grande desilusão, ao contrário do que acontece habitualmente, e no domingo não houve espectadores. Exibimos o filme em imensas salas, umas 1200 ou 1500 salas nos Estados Unidos, o que foi uma ampla divulgação. Todos os apaixonados pelo U2 foram assistir na mesma noite e por isso, no domingo estava tudo acabado. Começamos a nos sentir bastante idiotas, sobretudo eu.
EDGE: Penso que a Paramount não perdeu dinheiro, mas aquilo não rendeu o que eles esperavam. Foi uma época estranha, a realidade se arrebentou diante de nossos olhos. Após uma fase de prosperidade. Fomos a algumas estréias e depois voltamos para a casa, tentar apanhar a resto de nossas vidas normais. A Aislinn estava grávida da nossa terceira filha. A Blue Angel nasceu dia 26 de junho de 1989.
PAUL: Rattle and Hum é considerado um dos insucessos do U2. Vendemos 12 milhões de cópias. Mas esse insucesso, posso eu com ele muito bem. Recebeu algumas duras críticas. John Pareles, do New York Times, acusou o U2 de terem um estilo bombástico e pretensioso, de tentarem se aproveitar da música americana em vez de aprenderem com ela. Penso que essas críticas atingiram o alvo em cheio.
ADAM: Há um limite para a quantidade de público que vai ver um “rockumentário” como aquele, mas estou contente por termos feito. Ficará para a posteridade e captou um pouco daquilo que acontecia na época. Gostei muito do álbum. Achei que as faixas ao vivo estavam fantásticas e adorei o que Jimmy Iovine fez com as faixas gravadas em estúdio. Não concordei muito com as criticas de que fomos alvo.
LARRY: A Crítica não era propriamente inesperada. Estávamos a um ponto em que alguma coisa tinha de ceder. Algumas críticas foram bastante severas, mas o mundo do show é assim mesmo. A crítica é algo duro para qualquer pessoa, mas devemos aceitá-la quando temos consciência de que fizemos um trabalho que é uma droga. No entanto, embora o filme possa ter sido um erro, não foi uma droga. Defenderei aquelas músicas em qualquer ocasião. Em qualquer ocasião.
Devíamos ter feito o nosso pequeno filme de estrada. Devíamos ter desaparecido durante algum tempo e termos reinventado. Mas, com todo aquele sofrimento de ver o nosso trabalho ser descrito como imponente, arrogante e sem sentido, ficamos com vontade de lançar o The Joshua Tree.
ADAM: Em 1989, foram lançados singles de Rattle and Hum, foram feitos vídeos, versões diferentes, muita promoção. Houve também alguns projetos paralelos durante a primavera e o verão. O Bono e o Edge escreveram uma música para o Roy Orbison. Eu toquei com a Maria McKee, a cantora da banda Lone Justice, que tinha se mudado para Dublin e estava fazendo trabalhos fantásticos solo. Gosto muito de me envolver em atividades extracurriculares, desde que haja tempo para ensaiar e resolver as coisas. Não gosto de estar apenas dependente de um trabalho incompleto. Fui ao festival de rock de Glastonbury e acampei lá. Foi muito divertido. Sempre consegui passar por despercebido. Ser o baixista do U2 não dá tanto na vista quanto possam pensar, sobretudo quando se está atrás de um cantor como o Bono. Havia muitos músicos presentes em Glastonbury. Os Waterboys eram a atração principal em uma das noites, os Hothouse Flowers e a Maria McKee também iam apresentar. Só me juntei aos Hothouse Flowers em uma das músicas deles. Foi a primeira e única vez que toquei em Glastonbury. Tentamos fazer umas gravações no STS, mas acho que não deram em nada. Nasceram bebês – o Edge e a Aislinn tiveram a terceira filha, a Blue Angel, e o Bono e a Ali a primeira, a Jordan.
BONO: A Jordan nasceu no dia do meu aniversário, 10 de maio de 1989. Foi um grande presente. Nessa época o U2 estava no STS. A Ali foi me buscar no estúdio para irmos ao hospital. Estava com contrações. E eu disse: “Tem certeza que consegue dirigir?” E ela disse: “Vou ficar menos nervosa se eu for dirigindo.” Ela tinha levado uma garrafinha de whisky e algum material de leitura...para mim! Levei comigo um gravador do estúdio. Nem sei em que eu estava pensando. Achei que podia gravar as pulsações do bebe. Estava muito tenso, tentando não demonstrar, encarregado de controlar o soro da Ali, andando de um lado para o outro tentando ser útil. Gosto de controlar as coisas que são potencialmente perigosas, por isso, me custava muito ficar quieto. O meu instinto natural seria: “Alguém que eu amo muito está sofrendo. Bato em quem?” Não podia bater nos médicos nem nas enfermeiras, pois estavam tentando trazer ao mundo a nossa primeira filha. A Ali me disse para deitar um pouco. Havia outra maca na sala de parto e eu me estendi e comecei a ler. Tinha colocado o gravador encostado na Ali e reparei que a pulsação estava ficando mais fraca e lenta. Levantei e disse a Ali: “É normal que a pulsação enfraqueça?” E ela disse: “Deve ser. O bebe só esta descansando.” E eu disse: “Ali, isso não está lega!” E ela: “Faz o favor de se distrair? Deita lá outra vez. Beba um gole de whisky!” Deitei-me e voltei a ouvir a pulsação ficar novamente fraca. Pulei da maca, saí da sala, chamei uma enfermeira e disse: “Olha, ou eu estou imaginando coisas, ou a pulsação está mesmo baixando. É normal que isso aconteça?”
E ela disse: “Ai meu Deus, a pulsação esta muito fraca!” E chamou o médico. A pequena Jojo estava em apuros. Eu tinha razão.
Nasceu muito pequena, com dois quilos e meio. Costumava dormir em cima do meu peito. O médico disse: “É bom bebês dormirem sobre o peito, porque ouvem o coração batendo e julgam que ainda estão dentro da barriga da mãe.” Eu e a Jordan temos uma ligação muito forte. Tudo mudou para mim quando ela nasceu. Tudo. Percebemos porque se combate a guerra, porque é que os homens querem possuir terras, compreende-se porque as mulheres são tão espertas, porque elas têm que ser, pois tem que resolver muito mais coisas do que nós. Tenho a maior admiração pelas mulheres. A minha filha virou a minha vida do avesso.
PAUL: Depois de todas as críticas a Rattle and Hum, decidimos que talvez fosse bom fazermos uma turnê sem um álbum, apenas pelo prazer de viajar e de fazer shows, e não irmos nem para a América e nem para a Inglaterra, mas sim percorrer locais aonde não tínhamos tido a oportunidade de ir à turnê The Joshua Tree.
BONO: Não tínhamos levado The Joshua Tree para a Austrália. O nosso público australiano significava muito para nós e não queríamos perder o contato com eles. Planejamos uma turnê que começaria na Austrália, depois faríamos alguns shows na Europa e terminaríamos na véspera do ano novo em Dublin. Acho que fui eu que convenci a banda a fazer isso.
ADAM: Escudados pelo Rattle na Hum, colocamos a hipótese de nos apresentar como uma banda maior. Refletimos sobre o U2 pós-Joshua Tree e pensamos no que faríamos da próxima vez. Como iria ser a turnê? Agora que fizemos shows em grandes estádios, recrutamos mais músicos e colocamos mais pessoas no palco? Estávamos tentando expandir, e ver se podíamos ter uma estrutura diferente e tocar um leque mais variado todas as noites.
PAUL: Como resultado de Rattle and Hum, havia algumas músicas do U2 com metais. O B.B. King tinha uma sessão de metais.Ele tinha conseguido algum sucesso com ‘When Love Comes To Tow’. Entramos em contato com ele e propomos que fizesse uma turnê de três meses por aquelas terras. Ele faria a abertura dos shows e depois junto com a sua sessão de metais, tocaria algumas músicas com o U2. Era um acordo estranho para o B.B., pois ele estava acostumado a dar nove shows por semana. Às vezes até fazia mais do que um show por dia. Ficou espantado com a idéia de ir em uma turnê onde só iria tocar três ou quatro vezes por semana. Os ensaios começaram em agosto e houve um momento de alguma tensão quando o Adam foi preso.
ADAM: Alguns membros dos Hothouse Flowers e outros amigos estavam todos reunidos em um pub nas montanhas de Dublin. Nos dias em que o tempo estava bom, as pessoas costumavam sair dos carros e ficavam apreciando a vista sobre Dublin. Estávamos todos sentados fora, bebendo uma cerveja. Acredito que alguém estava fumando maconha, como era comum naquela época, em praticamente todos os parques de estacionamentose todos os pubs do país. Apareceram dois caras que se identificaram como agentes de narcóticos à paisana. Nenhum de nós os levou a sério. Não sei qual é o aspecto dos agentes de narcótico, mas pensava que esses não passavam de dois policias que estavam de folga e que encontraram uma boa oportunidade de deter uma celebridade.
Começaram a nos revistar e não descobriram nada, mas depois entraram no meu carro e encontraram um pouco de haxixe. Fui detido e levado para a polícia local e acusado de posse e intenção de venda de droga. Não foi nada agradável. Foi uma estupidez ter me envolvido em uma situação daquelas, uma vez que eu sabia que o haxixe era uma substância ilegal, mas penso que havia problemas mais sérios em Dublin, em termos de cultura de droga, do que eu estar fumando maconha. A idéia de sugerir que eu estava vendendo drogas é completamente absurda. Não passou de um pequeno delito, que algumas pessoas tentaram fazer passar por algo muito mais sério, para seu próprio benefício. Entre os membros do U2 havia um certo receio de que aquilo me impedisse de sair do país para os shows. Quando fui a julgamento, o juiz decretou pena suspensa, o que significa que eu tinha que pagar a fiança em vez de ser condenado. De modo arbitrário, aplicou uma fiança de 25 mil libras (cerca de 36 mil euros). Se a intenção era fazer de mim um exemplo, não sei se aquela foi a maneira certa, uma vez que a mensagem foi apenas confusa. Pelo menos para mim. Duvido que um traficante de heroína fosse obrigado a pagar uma fiança tão alta. Isso fez com que a situação ficasse mais grave do que era na realidade. Lamento por ter sido ingênuo a ponto de me pegarem infringindo a lei, mas o dinheiro foi entregue ao Centro de Acolhimento do ‘Women’s Aid de Dublin.
EDGE: “Guitarrista de uma banda de rock’n’roll encontrado com uma pequena quantidade de haxixe” nunca foi um titulo de jornal que chocasse o mundo. Assim, lá fomos nós para a turnê, com o B.B. King e a sua sessão de metais. Ia ser diferente. Achamos que poderia ser uma forma triunfante de inserir os metais nos nossos shows. Era essa a identidade musical da turnê.
Gostei de algumas coisas que fizemos na turnê, mas aquilo parecia mais uma excursão a um beco sem saída. Há certas coisas que temos feito ao longo dos anos que tem um forte componente de blues, mas, em regra, costumávamos chegar ao blues através de um caminho muito diferente do que alguém como o B.B. King. Foi um desafio tocar naquele idioma e torná-lo interessante. Para ser sincero, não sei se atingimos o objetivo.
LARRY: O B.B. King é uma lenda, e é para mim um orgulho ter tocado com ele. Divertimos-nos muito nessa turnê, mas misturaram-se as críticas do filme e do álbum, que foram basicamente: “Banda U2 vai para América, descobre o Blues e nos conta tudo sobre eles, como se nós já não soubéssemos.” Embora a audiência aplaudisse, dava para sentir que as pessoas estavam confusas. Foi uma mudança esperada. Todos sabiam disso.
BONO: Esse foi o final de uma viagem para a qual Bob Dylan nos tinha enviado. Em 1985, antes do seu show no Castelo de Slane, ele me disse: “Vocês tem que olhar para trás. Precisam recuar no tempo. Precisam entender as origens”. Quisemos ligar toda a terra à eletricidade que nos percorria, e compreender melhor o passado. E isso nos ajudou mesmo. Ouvir a música negra nos ajudou a entrar na onda de Achtung Baby. Ouvir a música popular me ajudou a crescer como poeta lírico. Mas esse era um trabalho gradual. Embora confuso e incomodo, penso que foi necessário para o nosso desenvolvimento.
EDGE: Fomos para a Austrália e para a Nova Zelândia, depois voltamos e fizemos alguns shows na Europa e terminamos em Dublin no final da década de 80, em 31 de dezembro de 1989, fazendo show no Point Depot. Naquela altura estávamos completamente exaustos. Não era só desgaste da turnê, era a turnê misturada com o filme, mais a outra turnê e o fato de andarmos correndo de um lado para o outro há muito tempo. O Bono não tinha nos contado nada antes de começar a verbalizar uma espécie de confissão, tipo um discurso, no final de ‘Love Rescue Me’, em que disse ao público que aquela era uma festa de despedida. Ele estava muito cansado e emocionado. Parecia que tínhamos chegado ao fim de uma era, mas o sentimento era geral – já estávamos sem forças.
BONO: Véspera de ano novo, em nossa cidade natal, que mais poderíamos querer? Somos a maior banda do mundo, e essas são as pessoas que tornaram isso possível. Entramos em palco e parece que vamos entrar em órbita, mas nunca conseguimos sair da terra. O peso da expectativa nos prende. A magia tinha desaparecido, já não conseguíamos ver as estrelas. O espaço exterior, a via Láctea e todas as idéias bombásticas que nos tornavam especiais, pareciam não estarem presentes naquela noite. Havia apenas as paredes e o teto, que cercavam a nós e ao publico. Eu percebi que, ou acabávamos ali ou voltávamos ao princípio e reconstruíamos o sonho.
Créditos: Juliana Oliveira (JulianaSP).
Mysterious girl
28/05/2007, 19h36
UAUUUUUUUU..... Parabéns novamente pessoal....:aprovado:
ethanhawk
28/05/2007, 23h22
Tá ficando massa até agora... hehehe :aprovado:
Adri Soul Love
28/05/2007, 23h30
Minha nossa, foi muito bom!!!:aprovado: Obrigado novamente!
JuHewsonBand
28/05/2007, 23h47
gente....tá muito bom isso aqui!!!!parabéns!!!
tô salvando tudinho!!!
ainda vo fazer uma edição legal de tudo isso no word ou no acrobat reader
:assobio: :lol:
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