Achtung Baby
11/04/2005, 22h35
11/04/2005
Livro mostra o mundo segundo Bono Vox, do U2
Músico fala sobre a banda, assuntos globais e sobre o seu passado
Larry Aydlette
Em West Palm Beach, Flórida
Ele é uma criatura social cintilante, um ativista político ardente, crê em Deus, é amigo das supermodelos e dos líderes mundiais. Sem falar que é uma celebridade milionária e introspectiva que alega não ser uma celebridade. Ah, sim. E também canta em uma super banda de rock.
Sandy Huffaker/The New York Times
Bono Vox durante apresentação da turnê do U2 na Califórnia neste ano
Quem mais poderia ser senão Bono, o egotista, bom vivant, performático e popular xamã do U2?
Quem quer que o veja discursando no Rock and Roll Hall of Fame sabe que esse bardo irlandês adora falar, de forma que não é de se surpreender que ele se mostre um tagarela nesse livro de diálogos, prolixo, mas muito inteligente, com o amigo jornalista Michka Assayas.
A obra poderia ser chamada de "Crônicas de Bono, Volume Um". Ele admite abertamente que se trata de um substituto barato para a terapia e a introspecção. Bono não é o tipo de pessoa inclinada à nostalgia, e é fácil constatar o porquê disto.
Atualmente, o cantor leva uma vida elegante de alta sociedade, mas o livro deixa dolorosamente evidente que ele veio das inóspitas ruas urbanas de Dublin e que teve uma infância devastadora.
A morte prematura da mãe ainda é para ele um processo difícil. E o pai se constitui em um outro problema. Bob Hewson tinha o talento irlandês, e chegou a sonhar em ser cantor de ópera, mas era também ríspido, amargo e incapaz de expressar a sua dor ou de demonstrar muita afeição para com o filho. A casa onde moravam parece ter sido um inferno.
Mesmo após Bono ter se tornado um superastro e lotado grandes estádios, o maior elogio que fez ao pai foi dizer que este era "muito profissional". Ao ser apresentado certa vez a Julia Roberts, Bob Hewson disse: "Mulher bonita uma ova!". No seu leito de morte, continuou sendo um enigma.
"O conselho do meu pai para mim, nunca verbalizado, foi: Não sonhe! Sonhar é se desapontar!", relembra Bono. "E, é claro que foi aí que teve início a minha megalomania. Essa história de nunca ter uma grande idéia passou a ser o meu foco de interesse".
E grande parte do livro gira em torno do apoio de Bono a grandes idéias, especialmente as suas recentes iniciativas de aliviar a dívida dos países africanos, fornecer medicamentos a aidéticos e proporcionar um comércio mais livre às nações em desenvolvimento.
Bono, cujo nome foi cogitado para ser presidente do Banco Mundial, é muito, muito inteligente. Ele é dono de um talento político ímpar para usar celebridades na hora de manobrar por entre burocracias esclerosadas que trituram as metas ambiciosas e as verbas significativas.
Em conversas com empresários e parlamentares, ele é altamente pragmático. Sempre pergunta: Quem é o Elvis aqui? Quem é o cara no topo, capaz de fazer com que as coisas andem?
Isso fez com que surgissem fotos que a maioria dos astros liberais de rock evitaria. Ele discorda de Bush quanto à guerra no Iraque, mas, a despeito disso, gosta do presidente, e o interesse de ambos pela religião proporciona uma brecha para que discutam o aumento do auxílio à África.
O cantor dirigiu palavras gentis ao ex-senador americano ultraconservador Jesse Helms e a Gerry Adams, do Sinn Fein [braço político do IRA - Exército Republicano Irlandês]. A sua capacidade multidimensional de enxergar "inimigos políticos" nas pessoas das quais discorda e com quem trabalha é uma característica pessoal interessante.
Mas quando o assunto é a epidemia de Aids na África, ele fica furioso e adota um tom moralizador, ainda que tenha admitido, após ser intensamente questionado por Assayas, que o auxílio fornecido no passado ao continente foi desviado por regimes corruptos.
"Todos os dias 6.500 africanos morrem de doenças tratáveis e que poderiam ser prevenidas", afirma.
"E isso não é uma prioridade para o Ocidente. São dois 11 de setembro por dia. Ou 18 aviões Jumbo carregados de pais, mães e famílias caindo do céu. Nenhuma lágrima, nenhuma carta de condolências, nenhuma saudação com 51 tiros. Por quê? Porque não damos à vida africana o mesmo valor dado a uma vida européia ou norte-americana. Deus não nos deixará impunes por isso, e a história com certeza não aceitará as nossas desculpas".
Deus é um assunto que permeia essas conversas, o que não é motivo de surpresa para qualquer fã da música do U2. Bono estuda as escrituras. Ele fala com Deus todas as manhãs, e diz que o criador ouve os seus apelos. Apesar de ver nas religiões organizadas um obstáculo à fé, ele encontra conforto nos rituais católicos. Bono relembra seu encontro com o falecido papa João Paulo 2º --o pontífice ficou admirado com os seus óculos escuros.
U2
Entre memórias de pontífices e políticos, de Nelson Mandela a Bill Clinton, Bono e Assayas felizmente falam também sobre o U2.
Bono traça perfis íntimos das personalidades de Edge, Larry Mullen e Adam Clayton, com muitas memórias dos seus primeiros e difíceis anos, dos cabelos desgrenhados e das estratégias antigas (como aquela que fez Paul Hewson mudar o nome para Bono Vox).
Sobreviver como uma banda por todo este período é algo que exige um relacionamento familiar, e eles tiveram que superar discórdias, disfunções e até algumas brigas.
O maior desapontamento neste livro é o fato de não ter sido dada muita ênfase à composição e inspiração relativas a músicas e álbuns específicos. Bono diz o quanto de "Achtung Baby" (segundo ele, "uma beleza negra") foi motivado pelo divórcio de Edge.
Talvez o mais interessante, especialmente à luz da sua infância, seja a determinação arrogante, precoce e autoconfiante de Bono em ter sucesso. Ele nunca desviou o olhar dos seus objetivos. Bono diz que os grupos da moda buscam o sucesso temporário, enquanto o U2 sempre teve planos de longo prazo. "Ser relevante é bem mais difícil do que fazer sucesso", observa ele.
Assayas se sai bem ao deflacionar cuidadosamente o ego de Bono e questionar certas alegações feitas pelo cantor (especialmente aquela de não ser uma celebridade). Bono sempre demonstra ter um senso de humor agudo, adora o Monty Python, embora ninguém adivinhe tal coisa com base na música séria, e às vezes melodramática, da banda.
Entre a promoção das suas agendas políticas, Bono fala sobre os fatos que se passam nos bastidores, e são essas passagens que acabam tornando o livro particularmente interessante. Ele explica o seu longo o monogâmico relacionamento com a mulher, Ali, os seus problemas com a bebida, as suas aventuras na Nicarágua, o seu amor pela música de Neil Diamond e R. Kelly, a sua raiva devido ao suicídio de Michael Hutchence, a inteligência dos supermodelos, e a sua sensação de que Prince é um gênio, mas que precisa de um editor. Ele chega até a falar de imóveis com RZA to Wu-Tang Clan!
O mais importante é que Bono jamais é entediante. Essas conversas são leitura obrigatória para os fãs do U2 e para qualquer pessoa interessada na vida de um agitador moderno e atuante em várias frentes.
"Bono: In Conversation with Michka Assayas" ("Bono: Em Conversa com Michka Assayas"). Editora Riverhead Books. 323 páginas. US$ 23,95
Acabei de ver no site da Uol ;)
Livro mostra o mundo segundo Bono Vox, do U2
Músico fala sobre a banda, assuntos globais e sobre o seu passado
Larry Aydlette
Em West Palm Beach, Flórida
Ele é uma criatura social cintilante, um ativista político ardente, crê em Deus, é amigo das supermodelos e dos líderes mundiais. Sem falar que é uma celebridade milionária e introspectiva que alega não ser uma celebridade. Ah, sim. E também canta em uma super banda de rock.
Sandy Huffaker/The New York Times
Bono Vox durante apresentação da turnê do U2 na Califórnia neste ano
Quem mais poderia ser senão Bono, o egotista, bom vivant, performático e popular xamã do U2?
Quem quer que o veja discursando no Rock and Roll Hall of Fame sabe que esse bardo irlandês adora falar, de forma que não é de se surpreender que ele se mostre um tagarela nesse livro de diálogos, prolixo, mas muito inteligente, com o amigo jornalista Michka Assayas.
A obra poderia ser chamada de "Crônicas de Bono, Volume Um". Ele admite abertamente que se trata de um substituto barato para a terapia e a introspecção. Bono não é o tipo de pessoa inclinada à nostalgia, e é fácil constatar o porquê disto.
Atualmente, o cantor leva uma vida elegante de alta sociedade, mas o livro deixa dolorosamente evidente que ele veio das inóspitas ruas urbanas de Dublin e que teve uma infância devastadora.
A morte prematura da mãe ainda é para ele um processo difícil. E o pai se constitui em um outro problema. Bob Hewson tinha o talento irlandês, e chegou a sonhar em ser cantor de ópera, mas era também ríspido, amargo e incapaz de expressar a sua dor ou de demonstrar muita afeição para com o filho. A casa onde moravam parece ter sido um inferno.
Mesmo após Bono ter se tornado um superastro e lotado grandes estádios, o maior elogio que fez ao pai foi dizer que este era "muito profissional". Ao ser apresentado certa vez a Julia Roberts, Bob Hewson disse: "Mulher bonita uma ova!". No seu leito de morte, continuou sendo um enigma.
"O conselho do meu pai para mim, nunca verbalizado, foi: Não sonhe! Sonhar é se desapontar!", relembra Bono. "E, é claro que foi aí que teve início a minha megalomania. Essa história de nunca ter uma grande idéia passou a ser o meu foco de interesse".
E grande parte do livro gira em torno do apoio de Bono a grandes idéias, especialmente as suas recentes iniciativas de aliviar a dívida dos países africanos, fornecer medicamentos a aidéticos e proporcionar um comércio mais livre às nações em desenvolvimento.
Bono, cujo nome foi cogitado para ser presidente do Banco Mundial, é muito, muito inteligente. Ele é dono de um talento político ímpar para usar celebridades na hora de manobrar por entre burocracias esclerosadas que trituram as metas ambiciosas e as verbas significativas.
Em conversas com empresários e parlamentares, ele é altamente pragmático. Sempre pergunta: Quem é o Elvis aqui? Quem é o cara no topo, capaz de fazer com que as coisas andem?
Isso fez com que surgissem fotos que a maioria dos astros liberais de rock evitaria. Ele discorda de Bush quanto à guerra no Iraque, mas, a despeito disso, gosta do presidente, e o interesse de ambos pela religião proporciona uma brecha para que discutam o aumento do auxílio à África.
O cantor dirigiu palavras gentis ao ex-senador americano ultraconservador Jesse Helms e a Gerry Adams, do Sinn Fein [braço político do IRA - Exército Republicano Irlandês]. A sua capacidade multidimensional de enxergar "inimigos políticos" nas pessoas das quais discorda e com quem trabalha é uma característica pessoal interessante.
Mas quando o assunto é a epidemia de Aids na África, ele fica furioso e adota um tom moralizador, ainda que tenha admitido, após ser intensamente questionado por Assayas, que o auxílio fornecido no passado ao continente foi desviado por regimes corruptos.
"Todos os dias 6.500 africanos morrem de doenças tratáveis e que poderiam ser prevenidas", afirma.
"E isso não é uma prioridade para o Ocidente. São dois 11 de setembro por dia. Ou 18 aviões Jumbo carregados de pais, mães e famílias caindo do céu. Nenhuma lágrima, nenhuma carta de condolências, nenhuma saudação com 51 tiros. Por quê? Porque não damos à vida africana o mesmo valor dado a uma vida européia ou norte-americana. Deus não nos deixará impunes por isso, e a história com certeza não aceitará as nossas desculpas".
Deus é um assunto que permeia essas conversas, o que não é motivo de surpresa para qualquer fã da música do U2. Bono estuda as escrituras. Ele fala com Deus todas as manhãs, e diz que o criador ouve os seus apelos. Apesar de ver nas religiões organizadas um obstáculo à fé, ele encontra conforto nos rituais católicos. Bono relembra seu encontro com o falecido papa João Paulo 2º --o pontífice ficou admirado com os seus óculos escuros.
U2
Entre memórias de pontífices e políticos, de Nelson Mandela a Bill Clinton, Bono e Assayas felizmente falam também sobre o U2.
Bono traça perfis íntimos das personalidades de Edge, Larry Mullen e Adam Clayton, com muitas memórias dos seus primeiros e difíceis anos, dos cabelos desgrenhados e das estratégias antigas (como aquela que fez Paul Hewson mudar o nome para Bono Vox).
Sobreviver como uma banda por todo este período é algo que exige um relacionamento familiar, e eles tiveram que superar discórdias, disfunções e até algumas brigas.
O maior desapontamento neste livro é o fato de não ter sido dada muita ênfase à composição e inspiração relativas a músicas e álbuns específicos. Bono diz o quanto de "Achtung Baby" (segundo ele, "uma beleza negra") foi motivado pelo divórcio de Edge.
Talvez o mais interessante, especialmente à luz da sua infância, seja a determinação arrogante, precoce e autoconfiante de Bono em ter sucesso. Ele nunca desviou o olhar dos seus objetivos. Bono diz que os grupos da moda buscam o sucesso temporário, enquanto o U2 sempre teve planos de longo prazo. "Ser relevante é bem mais difícil do que fazer sucesso", observa ele.
Assayas se sai bem ao deflacionar cuidadosamente o ego de Bono e questionar certas alegações feitas pelo cantor (especialmente aquela de não ser uma celebridade). Bono sempre demonstra ter um senso de humor agudo, adora o Monty Python, embora ninguém adivinhe tal coisa com base na música séria, e às vezes melodramática, da banda.
Entre a promoção das suas agendas políticas, Bono fala sobre os fatos que se passam nos bastidores, e são essas passagens que acabam tornando o livro particularmente interessante. Ele explica o seu longo o monogâmico relacionamento com a mulher, Ali, os seus problemas com a bebida, as suas aventuras na Nicarágua, o seu amor pela música de Neil Diamond e R. Kelly, a sua raiva devido ao suicídio de Michael Hutchence, a inteligência dos supermodelos, e a sua sensação de que Prince é um gênio, mas que precisa de um editor. Ele chega até a falar de imóveis com RZA to Wu-Tang Clan!
O mais importante é que Bono jamais é entediante. Essas conversas são leitura obrigatória para os fãs do U2 e para qualquer pessoa interessada na vida de um agitador moderno e atuante em várias frentes.
"Bono: In Conversation with Michka Assayas" ("Bono: Em Conversa com Michka Assayas"). Editora Riverhead Books. 323 páginas. US$ 23,95
Acabei de ver no site da Uol ;)