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Desde minha última coluna aqui no excelentíssimo site da Ultraviolet já se vão mais de 3 anos. Para ser mais precisa, 3 anos, 4 meses e 19 dias... É tempo, hã? É sim.
Mesmo que não precise, porque óbvio, confesso que 'naquela época', três anos atrás, ainda me sobrava um pouco mais de tempo para dedicar aos meninos. 'Ainda', porque já era reduzido. Passar tardes e tardes garimpando notícias sobre a banda, notícias, bootlegs e raridades, e principalmente passar horas a fio discutindo sobre pequenos detalhes em músicas e nos integrantes, o que rendia e-mail quilométricos à nossa adorada lista, é algo que não consigo imaginar na minha correria atual.
'Tempo é a gente que faz', eu sei, e não quero fazer de bode expiatório a minha correira atual como uma desculpa para a absoluta falta de colunas e dedicação à minha adorada banda, mas algumas coisas se tornam meio 'inevitáveis' depois de um tempo. Sim, continuei acompanhando aqui e ali o que tem acontecido, ainda me empolgo com quaisquer notícias, mas toda aquela minha dedicação incondicional acabou se dissipando por motivos mais pontuais e urgentes.
Acontece que no meio dessa brincadeira algumas coisas passam despercebidas. Sua disposição acaba diminuindo e os discos não mais saíam da prateleira para serem ouvidos com a mesma freqüência de antes, e é quando uma grande amiga minha veio comentar algo, naquela época recente, sobre a banda, e eu nem fazia idéia do que se tratava, me toquei: será que não me importo ou pior, não gosto mais do U2 como fazia antigamente?
Acabo de lembrar de um momento meio antigo e bobo da minha vida, daqueles que a gente nunca sabe porque lembra. Eu tenho disso e você provavelmente também. Um detalhe distante e até meio insignificante de sua vida, algo não necessariamente marcante, mas que te faz lembrar de uma época ou acontecimento com toda a precisão do mundo. Pois bem, daí eu tinha alguns poucos anos e ocupava meus dias pensando nas poucas coisas que preenchiam minha pré-adolecência, os garotos e amigas e planos e minhas espinhas. Numa volta pra casa de ônibus do colégio pra casa, eu ouvia meu singelo walkman (em eras de Ipod e fones de ouvido albinos, alguém, além de mim, ainda usa essa 'engenhoca'?), uma fitinha bacanuda contento alguma de minhas várias coletâneas dedicadas exclusivamente ao U2. Na época eu também tinha tempo para fazer coletâneas da banda, com músicas selecionadas pela minha pessoa para dias alegres, melancólicos, apaixonados, chuvosos, larrymullenosos e por aí vai.
Em certo ponto da fitinha, que não tenho nem idéia qual era, ouvindo um dos tantos versos que mudaram minha vida e alimentavam minha paixão adolescente pela banda, senti uma pontada de emoção e aquela lagriminha piegas caiu do canto do olho. Pra completar o momento meigo e cliché ao nível máximo, pensei com meus botões que não era possível que um dia eu iria deixar de amar esses caras como eu estava amando naquele momento.
Pensei nas milhares de pessoas que deixam suas causas depois que crescem, abandonam suas lutas e credos e não tem coragem nem de levantar uma bandeirinha, gritar alguma coisa na rua, ou mover-se de fato em prol de alguma coisa que o valha. Porque, afinal, essas pessoinhas execráveis que são os adultos precisam ganhar dinheirinhos cada vez mais e se sustentar e alimentar tooodo esse sistema porco e capitalista e inútil a que esse monte de gente se acomoda cada vez mais.
Já eu não: nunca que iria largar minhas bandeiras, quando fui escolhida pra ser fã do U2 (sim, sou quase uma versão feminina adulta de Danny Torrance, a escolhida, afinal não fui eu quem escolheu isso; oras, ninguém nunca me perguntou nada a respeito, então eu deixo é a responsabilidade pra outros alguéns, não eu!) e jurei que o Bono é meu pastor e nada me faltará, eu não posso chegar e decepcionar o militante non-stop desde as épocas de Hype e Feedback que ele é.
Acontece que a menina cresceu um pouco, estudou outro pouco, trabalhou mais um tanto e descobriu que, veja só: ela precisa se dedicar sim a outras coisas porque, afinal, o mundo não é bem daquele jeito que a garota 'revoltadinha' achava que era, ou talvez até seja, mas alguém precisa parar de te sustentar algum dia e você se virar e outras coisas viram prioridade. Visto até os olhos de nostalgia, olhando para trás: cartinha pra fã-clube, moedinhas não utilizadas no recreio pra comprar revistas e discos, comecinho de internet e até o início da Uv. Nostalgia, porque quem me dera ter mais tempo pra dedicar tantas horas dos meus dias para fazer exclusivamente coisas que gosto, inclusive e principalmente, papear sobre um verso obscuro de uma canção perdida da banda ou o quão charmoso anda o Sr. Clayton.
A questão é que as prioridades acabam mudando de tempos em tempos em nossas vidas. Descobri as Américas agora, mas na época eu não tinha muito idéia do que era isso. Invejo quem possa fazê-lo várias horas por dia, mas eu não posso mais. E conseguir alguns dias no meio de fevereiro ou março para viajar para assistir a um show da banda não é tão simples como antigamente.
Só um recado pra menina do walkman, no fundo do ônibus, sonhando com aquelas milhões de coisas: não deixei a luta não, nem de acreditar, sabe. Ainda sou inocente e acho que podemos mudar o mundo e tento fazer isso todo santo dia, do meu próprio jeito. E pequena, continuo não te decepcionando: a banda eu não deixei de amar não. Isso a gente não deixa. 'Ficante' a gente larga, namorado a gente pede um tempo, mas aqueles lá... você vira um adulto chato de terno e gravata e cheio de palavras babacas, como as que uso de vez em quando, mas esse amor não perde espaço. Hearts and thoughts, they fade away, será? Acho que sim. Apagar já é outra história.
Vez ou outra arranjo uma desculpinha dizendo que é falta de tempo ou falta de grana, mas isso aí é mania de gente de século novo que não sabe administrar seu tempo. Eu acho que nem consegui aprender isso ainda.
Mas eu sei que ainda amo porque ficou ali, escondidinho, nos meses que eu nem comi direito pela correria, nem sabia os filmes que estavam passando no cinema. Só que quando começam a pipocar boatos e discussões e confirmações aqui e ali, o friozinho na barriga já reaparece, os discos novos e antigos voltam a fazer parte da minha programação musical diária, e assistir a shows deles em devedês se torna tão mais interessante como há pouco tempo atrás era. Eletrizante.
Peço que me perdoem. Pela demora, pelas palavras emotivas e choramingonas. Pô, minha 'U2 For Girls', desculpaí pelo pó acumulado. E aos meus meninos, um 'sorry' bem carregado. Fevereiro, tamos aí, já tomando uma dose extra diária de água porque a desidratação (choros e afins) vai ser forte.
***
Não vou prometer nada, já que promessa é feita para não ser cumprida. Acabo no branco então essa coluna, sem prometer a próxima, quinzenalmente, anualmente, sei lá. Acho que, no caso da U2 for Girls, aquele ditado que vovó já dizia, só aparece quando muda o Papa, acabou funcionando. Não mais: prometo! Ops... Mas eu volto, tenham certeza.
Eu queria reativar o confessionário, música da semana, explicar todas as minhas referências do texto (ninguém deve ter entendido bulhufas), mas acho que dessa vez passa. Voltamos de pouquinho, pra não machucar.
Ah, e daí nós vamos ver o U2 daqui a pouco e eu estou cada vez mais nervosa e eufórica. Coisa de iniciante. Virgem mesmo, e daí? E um dos motivos que me deixa mais feliz (além do óbvio, duh!), é o monte de gente que eu vou encontrar nos shows da banda, gente que eu converso há muito tempo, sem ter encontrado pessoalmentee a grande maioria até hoje, mas por quem eu guardo um enorme carinho. E alguns outros queridos que vou reencontrar. Ou conhecer. Poucos dias para a confirmação oficial e a correria para venda de ingressos: ui!
Bom janeirinho pra vocês. Porque dois-mile-seis eu já sei que vai ser bom demais!
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9 de janeiro de 2006, por Rafaela Comunello
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