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"No future, No future for you" (The Sex Pistols, God Save the Queen)
Qualquer um que ouse tentar enquadrar um passado tão recente no domínio histórico está pedindo por encrenca. Mas até aí não houve nenhum período na história do Rock onde ele não tenha estado tão "encrencado" como nos anos 90.
A verdade é que os anos 90 até que começaram bem... em 1991-2 o Rock ainda estava "bem das pernas", com lançamentos novos de grandes bandas dos anos 80 como o U2 (numa auto-reinvenção de tirar o fôlego), REM e Metallica, que prometiam continuar nos anos 90 a mesma glória que foi o Rock na década anterior.
Em seus passos seguiam novos nomes, como Nirvana e o movimento "Grunge" nascido em Seattle, cuja base musical era uma combinação de Punk e Heavy Metal. Com visual unisex para meninos e meninas, composto de camisas de flanela amarradas na cintura, camisetas de bandas de rock por baixo, e bermudas largas, o Grunge era caracterizado pela revolta da "Geração X" contra tudo e todos, de jovens que haviam crescido num mundo liberal, mas sem futuro, ou pelo menos era isso que eles pensavam. Grupos como Soundgarden, Alice in Chains e Pearl Jam seguiam o mesmo caminho, e tudo estava bem... até 1994.
1994 foi o ano em que o Rock dos anos 80 morreu. Por um lado, havia um sentimento até de euforia: Blur e Oasis batalhavam pelo primeiro lugar nas paradas Pop, enquanto novos artistas como Jeff Buckley e os Manic Street Preachers lançavam álbuns que se tornariam ícones da música naquela época.
E aí começou: Kurt Cobain, o vocalista da banda Nirvana, banda de rock Grunge, alternativa e independente, a maior promessa do início dos anos 90, a banda cujo álbum Nevermind mudaria para sempre o modo como os jovens pensam em música e os lançaria rumo a um sucesso sem precedentes... Kurt Cobain, artista sério e despretensioso, se assustou com o sucesso repentino e pôs fim à própria vida em 5 de Abril de 1994.
O choque causado por esse ato de egoísmo e covardia foi demais para o mundo do Rock. Em profundo luto, os fans perderam a fé no Rock alternativo, se voltando ao culto do "mártir", ou à alienação na cultura das drogas, e o vácuo deixado por Cobain e Nirvana foi logo preenchido pelo Pop barato e o Hip-Hop, veiculados pela agora "vendida" MTV.
Com a tragédia do Rock internacional, no Brasil o Rock também perderia a força e seria gradualmente substituído pelos rítmos locais e música Pop de estilo vulgar, para o supremo desgosto dos jovens que cresceram embalados pelo espetacular Rock Brasileiro da década anterior. Tristemente o Rap, misturando o Reggae e o Ska a rítmos locais como o Pagode, eh o único movimento musical Brasileiro na atualidade que ainda guarda características que que foi um dia o nosso Rock... O Grupo de Hard Rock Sepultura, que tem sucesso internacional gravando em inglês é a única excessão.
Na confusão que se seguiu à morte de Cobain tudo se radicalizou. O rock foi se fechando em si cada vez mais, se tornando ainda mais alternativo e inacessível ao público da cultura Pop de Boy Bands, cantoras adolescentes feitas "adultas" artificialmente antes de seu tempo, e a música dançante movida a drogas como o Ecstasy se tornou tao dominante como vazia.
Mas ainda assim o Rock continuou ativo, através de bandas como Radiohead, que gradualmente e sem alarde revolucionaria o Rock mais uma vez, vingando a morte de Kurt Cobain, sem perder seu estatus de banda alternativa. E por outro lado as "baixas" continuariam, levando de nós músicos promissores e causando grave dano ao Rock. Em 1995 morria Richey Edwards, dos Manic Street Preachers, e em 1997 Jeff Buckley, uma das mais belas vozes dos anos 90, cairía com seu carro dentro de um rio, num trágico acidente.
Em todo caso, a virada do século viu sinais de recuperação, com a volta de grandes bandas como U2 e REM, e o surgimento de bandas novas como Coldplay e Travis, que junto com relativos veteranos como os Red Hot Chilli Peppers, parecem estar trazendo o Rock de volta ao seu merecido lugar no centro das atenções do público em geral.
No campo do ativismo social, os anos 90 viram a volta/continuação do projeto que começou com o Live Aid. Liderado ainda por Bob Geldoff, e tendo Bono do U2 como principal porta voz, o projeto Jubilee procura uma solução a longo prazo para a fome e HIV/AIDS que ainda assolam o continente africano, desta vez usando o sistema do "lobbying". Bono parece estar disposto a falar com quem quer que queira ouvir, e os resultados até agora tem sido animadores.
Na minha tentativa de dividir o Rock por décadas, para efeito desta série de colunas que termina hoje, eu me permiti uma série de simplificações, a mais grave delas a de começar cada "década" do Rock junto com as décadas do calendário convencional. A verdade é que por alguma coincidência, ou ironia cósmica, os grandes avanços e as grandes tragédias do Rock se dão em meados de cada década. Assim nós temos a primeira consolidação do Rock americano mais ou menos em 1955, o nascimento do Punk em 1965 e sua "explosão" em 1975, o ponto alto do rock dos anos 80 com o concerto Live Aid em 1985, e finalmente a "morte" dos anos 80 junto com Cobain em 1994.
Em todo caso, isso quer dizer que na verdade a "década de 90" do Rock mundial apenas começou, e se considerarmos os recentes desenvolvimentos do Rock nos últimos anos e o modo como ele vem gradualmente se recobrando desde 1995, seria seguro talvez prever que grandes coisas ainda estão por vir, que o Rock não morreu realmente, e renascerá como a Fênix das próprias cinzas lá por 2005, com o surgimento da proxima revolução musical, trazida por uma nova banda que ainda está enfiada em alguma garagem pelo mundo...
Mais uma vez, o que voce ainda está fazendo aqui??? Escuta... a série terminou. Foi legal enquanto durou, e daqui 2 semanas eu volto com outra coisa. Agora... Voce está vendo aquela guitarra lá no canto? Vai tocar com a sua banda, vai... ainda dá tempo.
Autor: Lucila SaidenbergÉ proibido reproduzir o conteúdo desta página sem autorização.
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