![]() |
Ok, de pintura eu entendo. Não foi à toa que eu estudei arte na universidade por 3 anos, portanto eu tenho o que dizer sobre o assunto da pintura "Image of Bono" de Louis le Brocquy, que foi comissionada pela National Gallery, em Dublin.
Como todos os fans do U2 que estão acompanhando este acontecimento sabem, essa é uma das maiores homenagens que o governo da Irlanda pode fazer a seus cidadãos. Bono está sendo homenageado, imortalizado mesmo, por seu trabalho humanitário e sua contribuição para não apenas a música popular, mas também à arte na Irlanda.
O renomado pintor-celebridade (e pintor de celebridades) Louis le Brocquy nasceu em Dublin em 1916. Estudou química em Trinity College nos anos 30, e em 1938 mudou-se de Dublin para Londres, casou-se e passou a estudar arte informalmente, visitando os grandes museus em Londres, Paris, Veneza e Genebra. Brocquy viveu por algum tempo no Sul da França, onde impressionistas e post-impressionistas como Monet, Cézanne e Van Gogh também viveram e pintaram, mas foi forçado a voltar para a Irlanda quando os Nazistas ocuparam parte da França em 1940.
A figura humana sempre foi o principal tema na pintura de le Brocquy, desde os anos 30 e 40. O que mudou, ao longo dos anos, foi o modo como ele trata o assunto.
O estilo de le Brocquy é bastante eclético, mas uma forte influência do cubismo de Picasso se faz notar, principalmente nos primeiros quadros, mas na verdade ao longo de toda a sua carreira. O site oficial do artista cita o estilo cubista do pintor polonês Jankel Adler (1895-1949), de quem le Brocquy foi amigo, como uma importante influência nos anos 40.
Nos anos 50 a influência de Picasso "pré-cubista" (pós-impressionista) se faz sentir, no trabalho de le Brocquy, combinada com algo do simbolismo de Marc Chagall. A partir dos anos 60, e nos anos 70 adentro, o pintor tenta "quebrar" as influências cubistas, e trazer formas mais curvilíneas e orgânicas para dentro do seu trabalho.
Eu entendo, olhando para os demais retratos dele, de onde "Image of Bono" se origina, e porque suas imagens grotescas atraíaram a atenção de Bono e Gavin Friday, que costumavam cabular aulas, quando adolescentes, para visitar a National Gallery, onde seus trabalhos estavam expostos. Há algo de "dia das bruxas" no seu estilo de retratos dos anos 70, que lembram autopsias, mais do que qualquer outra coisa. Seus retratos "dissecam" a imagem representada. Nos anos 40, o pintor inclusive trabalhou como ilustrador, fazendo desenhos de operações para uma tese sobre a região da glandula pituitária, no cérebro, para o cirurgião Adam A McConnell.
Suas formas humanas nos anos 90 são quase completamente abstratas, em contraste com as formas concretas de inspiração cubista dos anos 30. Eu gosto do modo como as imagens parecem "saltar" da tela, quase tri-dimensionais, e de como as "fronteiras" entre pintura e tela parecem se fundir, fazendo com que o médium (tinta, tela) e a idéia (imagem) se tornem uma coisa só.
A pintura "Image of Bono" me lembra algo dum quadro que Picasso pintou em 1910, entitulado Portrait of Ambroise Vollard. A diferença é que a imagem de Bono se baseia em formas curvas, e não cúbicas. Mas a meu ver, o princípio é o mesmo. No afâ de emprestar movimento à imagem estática na tela, o artista a decompõe em seus elementos básicos. Como devemos chamar a esse novo estilo? "Roundism"?.
Mas eu tenho uma notícia a dar. A pintura, como expressão, e talvez até mesmo como técnica, morreu. Principalmente depois da invenção da fotografia e da TV, não há nada que a pintura possa contribuir para a nossa percepção de imagens, que a TV, com suas imagens em movimento, não possa.
Sinceramente, eu não gostei da "Imagem de Bono", que me deixou muito preocupada. Por várias razões, a citar:
Em primeiro lugar, eu teria gostado mais de ver o retrato de Bono pintado no estilo dos retratos de "Francis Bacon" ou "James Joyce", do mesmo artista. Ou no estilo de "fusão" com a tela, mais recente, chamado "presença", pelos críticos. A necessidade de se fazer um retrato "elogioso" do objeto do estudo artístico leva le Brocquy, tão inclinado a "dissecar" quase clinicamente as suas imagens, a uma concessão perigosa, fazendo com que a pintura "não funcione", nem como elogio, e nem como estudo desinteressado.
A seguir, esse tipo de "devaneio lírico" se presta mais a outros médiums, como caneta sobre papel pautado, ou notas musicais sobre o ar, que são, necessariamente, meios abstratos. A aplicação desse tratamento a quadros figurativos, sempre leva a uma "decomposição" da figura que, a meu ver, não é muito bem vinda. Aliás é esse exatamente o dilema da pintura contemporânea, que morreu e esqueceu de cair. Se le Brocquy quer expressar "dinamismo", que mostre a Bono cantando, de preferência junto com a sua banda.
O que me leva ao meu ponto final: a "Image of Bono" abre um precedente perigoso na história da banda U2, sem a qual Bono não teria chegado aonde chegou, porque ela não está representada. A "idéia" chamada "Bono", a "lenda viva" na qual ele se transformou por seu trabalho humanitário não é fruto dos esforços de um único ser humano, mas de quatro. Contem-se aqui também The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen, e mesmo um quinto ser humano, Paul McGuinness.
Se continuar assim, a banda ainda vai ser apresentada, em suas aparições na TV e rádio, como "Bono e U2", como a um tempo quiseram fazer com "Jim Morrison e os Doors". Assim como Jim bronqueou com o apresentador e exigiu ser apresentado apenas como "The Doors", reclamo eu: o carisma do cantor deve ser cuidadosamente cultivado para promover a banda como um todo, mas nunca ser deixada ofuscar aos outros membros.
Se eu fosse Bono, eu estaria um pouco ofendida com a homenagem um tanto "desastrada" que lhe foi prestada, na melhor das intenções.
Autor: Lucila SaidenbergÉ proibido reproduzir o conteúdo desta página sem autorização.
Este site seria melhor visualizado com um navegador atualizado, como as versões mais recentes do Internet Explorer, do Netscape ou do Mozilla. Mais informações em inglês aqui.