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Caros Uvs:
A coluna vai sair um pouco, desta vez, de seus temas usuais, i.e. a historia do Rock e a minha experiência como fan do U2. Mas existe outra coisa importante que eu preciso dizer, e este espaço é tão bom como qualquer outro na Internet, para isso.
Aos fans que fazem questão de ler única e exclusivamente sobre música eu peço que esperem pela próxima coluna. Obrigada.
Permitam-me começar parafraseando a Sócrates , o famoso filósofo grego (ele disse isso sobre o casamento, mesmo porque no tempo dele se você quisesse "namorar" você tinha que casar primeiro, mas dá na mesma): "Ame. Ame mesmo. Se seu amor for correspondido você vai ser feliz, e isso é uma coisa boa. Se não, você vai virar filósofo, e isso também é um coisa boa."
Eu acho que estou virando filósofa, mas Sócrates disse que isso é uma coisa boa, e Sócrates é um homem honrado.
A grande tragédia da cultura popular atual no ocidente é o romantismo. Fala-se demais sobre o amor, em incontáveis livros, filmes, canções, artigos de jornal, etc, etc, etc.
Ninguém sabe o que é o amor, de onde ele vem, como atraí-lo, como despertá-lo, como cultivá-lo, ou como evitar que ele acabe. E mesmo assim todo mundo fala sobre ele o tempo todo, interminavelmente. Ninguém sabe nada sobre o amor, mas todo mundo tem algo a dizer sobre ele. Inclusive eu, ao que parece.
Incontáveis crônicas e livros por ano, todo ano, tentam analisar, descrever, definir, comentar, e mesmo dissecar o amor. E todos os seus autores acham que podem ensinar aos outros algo sobre esse velho desconhecido do ser humano, o amor, quando eles mesmos geralmente não fazem a mínima idéia de sobre o que é que estão falando. Enfim. Se outros podem, eu também posso. E isso é o que eu tenho a dizer:
O amor não se explica: se vive. Tudo aquilo que é dissecado está fadado a morrer antes de seu tempo. Amor não se discute, e muito menos se discute com o amor: ele está presente, ou não está. Simples assim.
O ser humano tem medo de tudo o que ele não conhece, tudo o que ele não entende. E para vencer o medo, o ser humano precisa capturar o objeto do seu medo, para então tentar analisar, descrever, definir, comentar, dissecar, catalogar, pôr num vidrinho com formol e depois esquecer. Mas o que funciona tão bem com batráquios e insetos não é assim tão eficiente quando se trata de sentimentos.
O que o ser humano, no seu afã de trazer o amor sob o seu controle esforça-se por esquecer, é o fato que esse mesmo amor é uma força da natureza, que por isso mesmo não pode ser, nem nunca será, controlada.
Esse romantismo desenfreado está para o amor como a religião está para Deus: romantismo e religião podem ser "vendidos", ou de qualquer maneira "empurrados" para nós de um modo ou de outro, para nos fazer servir os propósitos de outras pessoas. Mas o amor e Deus não estão à venda.
Parafraseando a Bono, em sua célebre definição da religião: "o romantismo é o que fica quando o amor vai embora, e as pessoas ficam para trás, procurando algo com o que preencher o vazio."
Assim como Deus, o amor não exige sacrifícios e não prescreve rituais. Sacrifícios, rituais, e análises intermináveis são sinais externos, artifícios daqueles que têm medo de olhar para dentro do próprio coração, daqueles que não querem tomar responsabilidade por aquilo que poderiam talvez encontrar dentro de si.
Do amor não se foge: o amor se aceita. Aceita-se o amor que está dentro de si, e aceita-se o amor que outras pessoas oferecem a você. De maneira completa e sem discussão, mesmo que não se tenha a intenção ou a possibilidade de retribuí-lo. Qualquer outra reação diante do amor é covardia, e um absoluto desrespeito. A si mesmo, à pessoa amada (ou à pessoa que te ama) e ao próprio amor.
Em amar, em ser amado, e em dar a merecida honra ao amor dos outros se resume a solução para o dilema da existência humana. E isso foi Erich Fromm, o famoso psicólogo e filósofo social que disse, e não eu.
Se esse simples fato não for mantido em mente a todos os momentos, então todas as crônicas, todos os artigos, livros, filmes e canções perdem todo e qualquer sentido e se tornam apenas uma balbúrdia incompreensível.
Dessa balbúrdia toda, de todas essas estórias românticas que a indústria literária já me empurrou, para mim faz sentido apenas uma frase, uma citação em latim, a única coisa que se salva de um livro especialmente críptico, no qual me parece que até mesmo o autor perdeu o fio da meada de sua idéia original, que me pareceu ter sido a própria citação final:
"Cras amet qui nunquam amavit, quique amavit, cras amet."
"Que aquele que nunca amou ame amanhã, e que aquele que já amou ame amanhã também."
Simples assim.
Autor: Lucila SaidenbergÉ proibido reproduzir o conteúdo desta página sem autorização.
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