Agora eu sei por que isso se chama uma "peregrinação"

Shows de rock são incríveis. Eles são ótimos, e todos deveriam ir a um pelo menos uma vez na vida, e quanto mais melhor. Certamente, é uma das "obrigações sagradas" de todo fan de rock, seja quem for e esteja onde estiver.

Mas nunca confunda um show de rock na Irlanda, mesmo que seja um show do U2, com uma peregrinação. Eu tive a sorte e o prazer de visitar a Irlanda, a "Meca" de todos os fans do U2, não apenas uma, mas duas vezes. Na primeira vez eu fui para assistir o show que eles fizeram no castelo de Slane em agosto de 2001. Grande show, que teria sido a apoteóse daquela turnê se os atentados de 11 de setembro não tivessem criado a necessidade que a banda voltasse aos EUA para consolar os fans de lá. Um show de rock é uma experiência inesquecível, mas não é uma peregrinação.

Uma peregrinação é o que eu fiz agora: na verdade começou como uma chance de uma vez na vida de encontrar com uma grande amiga minha do Canadá, a Vanessa, que passou um ano inteiro em Dublin, e de com ela assistir ao Festival Medieval, novamente no castelo de Slane. Na peregrinação não é importante o que você vai fazer lá, mas o "local sagrado" em si. O importante é visitar o lugar, com tempo para andar pelas ruas, para conhecer os lugares históricos, e para sentar na frente do estúdio numa época na qual os U2ers também estejam lá.

Uma coisa que se faz muito em Dublin é andar. Leve uma roupa a prova de àgua, um bom guarda-chuva, e sapatos macios para as longas caminhadas que você terá obrigatóriamente de fazer. E foi uma peregrinação, certamente: você precisa andar um bocado, você precisa se perder, achar o seu caminho de novo, ir e vir muitas vezes. E aí você precisa esperar.

Mas eu estou me adiantando demais com a estória. Voltemos atrás um pouco: a primeira coisa que eu fiz em Dublin, depois de encontrar com a minha amiga, foi jogar uma moeda na fonte en St. Stephen's Green e pedir por bom tempo e boa sorte. E pode-se dizer que o meu desejo foi plenamente atendido.

Pra começar, o tempo melhorou logo no dia seguinte, o que nos permitiu pegar o Dart para ir a Killiney e passear na praia sob a casa do Bono, onde recolhemos várias pedrinhas de formatos e cores interessantes, e depois subimos o monte para apreciar a vista, passando na frente dos portões do Bono 2 vezes, na ida e na volta. Eu suspeito que a passagem que permite a subida da praia à rua do Bono é menos uma escada para uso humano que um sistema de escoamento de àgua. De qualquer maneira, os fans que passaram lá antes de nós pintaram pixações e deixaram mensagens para o Bono por toda a extensão da passagem. O lugar é muito bonito, e vale uma visita, mas é claro que a privacidade da casa do Bono deve ser respeitada.

Eu no portão do Bono Da lá nos continuamos em frente com a Dart e nossas passagens "day rambler" até um balneáreo chamado Bray. Lá nós almoçamos Nachos e Salsa regados a Ale num pub, e passeamos por mais uma praia cheia das pedrinhas. O engraçado é que uma das paradas do trem suburbano, que se chama Dalkey, teve uma das placas pichadas por um gaiato irlandês que mudou o nome do lugar para "Donkey" (burrico). E "bray" é a palavra inglesa para "zurrar"...

A "sorte grande" eu tirei no dia seguinte, 6 de maio, quando eu fui visitar o estúdio pela primeira vez. Eu precisei esperar apenas uma hora e meia lá na frente. O Edge chegou uma hora depois de mim, e saiu para cumprimentar a mim e a outras 2 fans dali meia hora, depois que Sam, que trabalha no estúdio, saiu para perguntar de onde éramos, e se já haviamos estado lá antes, e para nos dizer que ia avisar ao Edge que estávamos lá.

Eu me esqueci de tirar a luva pra apertar a mão dele, porque apesar de ser primavera lá, estava um frio de 14 a 17 graus, e ele me olhou a princípio como se eu tivesse caído da lua... Sorry, Edge, eu devia ter rirado as luvas, mas a sua primavera é como o meu inverno... Luvas a parte, ele é exatamente tão humilde e simpático como a gente sempre acreditou. Eu não achei palavras pra dizer quase nada, mas as outras fans compensaram pelo meu silêncio: perguntado "como vai", ele respondeu "Vamos indo, trabalhando muito", mas olhando pra gente com aquele jeito de quem diz "não olhem assim pra mim, eu não sou tão especial assim".

Ele assinou coisas e tirou fotos, como a foto abaixo atesta, e logo entrou de novo para continuar trabalhando duro. Segundo ele, a banda espera terminar de gravar o novo disco no outono.

Edge e eu O resto da semana eu passei na cidade, passeando, visitando lugares históricos e museus, e comprando presentes para parentes e amigos, me sentindo como a proverbial "formiga no labirinto": cada vez que eu atravessava a cidade eu me perdia um pouco menos. Eu só não sei se os pés das formigas doem como os meus doeram... E eu também aprendi como atravessar as ruas como uma verdadeira dubliner: primeiro você aperta o botão no poste, depois você olha para o lado oposto ao qual você olharia se estivesse em qualquer outro lugar do mundo, e aí você atravessa assim mesmo, com sinal verde ou sem sinal verde, carros ou sem carros... A vida é boa...

Guerreiros medievais com o castelo ao fundo No Sábado dia 10, aniversário do Bono, Vanessa e eu fomos visitar o castelo de Slane e participar do Festival Medieval. A apresentação dos "Devil’s Horsemen" foi simplesmente espetacular, e o show das Mediaeval Baebes foi muito bonito. Elas são ótimas cantoras, e mereciam ter cantado para mais gente. Eu acho que muito poucas pessoas visitaram o festival naquele dia, o que é realmente uma pena.

Depois do show nós fomos visitar o castelo em si, e tivemos a honra de ter como guias primeiro Alexander, Lord Slane, o filho de 26 anos de Henry Conygham, Earl Mountcharles, o dono do castelo e amigo da banda. E o Earl em pessoa foi o nosso segundo guia e nos levou para ver o salão de festas onde o U2 gravou o disco "The Unforgettable Fire" em 1984. Eu me senti completamente honrada. Lord Slane é um rapaz muito simpático, e ele tem as mãos mais bonitas que eu já vi num homem. Se ele tivesse nos guiado por mais dois minutos, eu acho que me apaixonava... hehe. A nossa terceira guia no passeio pelo castelo foi uma senhora muito simpática, que trabalha para eles. Há que lembrar que o lugar também serve de centro de convenções e hotel, e que pode ser alugado inteiro por 13.000 Euros por noite, ou cada quarto em separado, a precos nada baratos.

Direitinho como o Bono A estátua romana ao lado da qual tanto Bono como eu tiramos fotos fica no salão de festas. Outra característica famosa do castelo é a decoração do teto do salão de festas, que se salvou do incêndio que houve lá em 1991 por puro milagre. Mais detalhes sobre o castelo no seguinte link: http://www.slanecastle.ie/main.htm

Eu só tenho 3 palavras para descrever esse dia que eu passei lá: lindo, lindo e lindo.

De volta a Dublin, eu tirei o Domingo todo para dormir. E enquanto isso parece que mãe natureza decidiu que eu tinha tido bastante sol por uma semana em Dublin: voltou a chover torrencialmente.

E parece que, junto com o sol, foi-se a minha sorte: Bono passou a semana toda fora da Irlanda, se pavoneando em festivais de cinema em Nova Iorque e sei lá mais o quê. Se ao menos ele estivesse promovendo as suas causas humanitárias, eu entenderia. Mas cinema, really... Quando ele finalmente voltou, os U2ers o acorrentaram dentro do estúdio, e não o deixaram sair nem para cumprimentar os fans. Eu sei. Eu passei 10 horas inteirinhas sob sol e chuva na porta do estúdio na segunda feira, eu até falei com Sam, mas Bono não saiu para me ver.

Paciência. Podia ter sido pior, eu podia não ter encontrado com nenhum deles. E o Edge é tão U2er como o Bono, o Adam e o Larry. Mas de agora em diante eu me declaro fan do Edge, pro Bono aprender a não sair pelo mundo a toda hora, que o guitarrista dele rouba todas as suas fans... hehe.

Mas com Bono ou sem Bono, eu tive ótimos 10 dias na Irlanda. Eu encontrei minha grande amiga Vanessa, conheci uma grande amiga da minha grande amiga, a Bárbara, que também é um barato de pessoa, passei uma semana morando com elas e Peter, o proprietário, numa casa de mais de 150 anos de idade com direito a fantasma e tudo, apertei a mão do Edge, visitei o castelo de Slane e passeei por Dublin até ficar com os pés doendo e sarar de novo.

Lindo, divertido, incrível, inesquecível, difícil de acreditar, maravilhoso! Esse passeio foi tudo o que eu sonhei que seria. Se você tiver na sua vida a oportunidade de visitar a Irlanda, vá, e você não se decepcionará. E eu estarei rezando por vocês. Todo fan do U2 merece "fazer a peregrinação", pelo menos uma vez na vida...

Autor: Lucila Saidenberg
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