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Até agora, por toda esta série de artigos eu tenho apenas mencionado os artistas e bandas que eu percebo como relevantes no que eu percebo como seus momentos definidores (seu primeiro ou maior sucesso, ou até mesmo suas mortes) sem realmente fazer diferença entre os sexos. Se um artista era relevante dentro do assunto eu simplesmente jogava o seu nome no meio e mexia bem, sem levar em consideração se era homem ou mulher.
Num mundo ideal, não haveria necessidade nehuma em fazer todo esse furor sobre diferenças entre homens e mulheres no Rock. Só a música, a atitude e o talento deveriam ser relevantes, e eu sinceramente espero que chegue logo o dia no qual o sexo de uma pessoa se torne irrelevante como princípio definidor do que as pessoas são e fazem para viver. Não é isso que deveria ser importante.
Diz a lenda que um fan se aproximou de Joni Mitchell um dia para dizer a ela que ele achava que ela era a maior compositora feminina de todos os tempos. E qual não foi a sua surpresa quando ela se ofendeu com o elogio dele e virou as costas. Joni Mitchell é uma das maiores compositoras de todos os tempos, e ela já então sabia que se ela é homem ou mulher não deveria ter importância nenhuma.
Mas a verdade é que o Rock sempre foi (e ainda é) percebido como uma "coisa de homem", na qual mulheres teriam um "papel secundário", na maioria das vezes como admiradoras e espectadoras. O Rock foi inventado pelos homens, e toda a sua atitude é orientada para eles. (A guitarra elétrica mesmo é um símbolo fálico, por exemplo... O Artista Antes Conhecido Como Prince é um dos mestres desse tipo de simbolismo).
Em todo caso, uma outra verdade eh que, tanto quanto sexo, o Rock é antes de mais nada uma "coisa de atitude". E a boa notícia é que talento e atitude valem mais do que todo o resto. E foi isso que fez possível para as mulheres se tornar mais do que simples espectadoras passivas e empunhar uma guitarra com confiança em si mesmas. Mais do que isso, a democracia do Rock deu às mulheres com talento mais do que o direito a uma atitude; ele deu a elas uma voz com a qual criar sua própria versão da "contra-cultura".
Os primeiros nomes femininos, tanto quanto eu sei, associados com o movimento (Folk) Rock foram Joan Baez e Joni Mitchell nos anos 60. E assim mesmo o nome "Bob Dylan" é sempre lembrado na mesma frase, como se os dois nomes das duas mulheres "não fossem o suficiente" sem o dele. Bom, eles são mais ou menos um trio, pra falar a verdade. Enfim... Nos anos 50 quase todas as artistas pertenciam ao Soul e o Blues, geralmente naqueles grupos vocais exclusivamente femininos como como The Supremes e The Ronettes, e o Rock era uma coisa exclusivamente masculina.
Foi nos anos 60 que as mulheres se tornaram aceitas no mundo do Rock. De repente haviam mulheres por todos os lados. De Tina Turner a Janis Joplin, passando por grandes nomes como a guitarrista Bonnie Raitt; as mulheres passaram a ocupar o centro do palco com gosto.
Nos anos 70 o Rock aprendeu nomes como Patti Smith, a cantora Ann Wilson e sua irmã a guitarrista Nancy Wilson, Chrissie Hynde dos The Pretenders, Maureen Tucker, percussionista com o Velvet Underground, e Debbie Harry, vocalista da banda Punk/Pop Blondie.
Eu vi o feminino como uma forma de poder pela primeira vez no começo dos anos 80, quando eu vi o vídeo de "Sweet Dreams (Are Made of This)" dos Eurythmics pela primeira vez. Eu nunca tinha visto uma mulher com o visual que Annie Lennox tinha naquele vídeo. Ela era incrível, quase irreal, com seu cabelo curtíssimo vermelho-fogo e aqueles olhos azuis, de uma cor que beirava o azul-elétrico. Eu pintei o meu próprio cabelo de vermelho por anos por causa dela... Foi decididamente uma revelação. Outras mulheres que chamaram a minha atenção nos anos 80 foram The Bangles, The Go-Go's, Kate Bush, Stevie Nicks da banda Fleetwood Mac e Suzanne Vega, e Tracy Chapman, entre outras. Como eu disse antes, os anos 80 foram um tempo tão prolífico que seria impossível dar os nomes de todos nesse formato tão limitado...
E nos anos 90 nós tivemos (anida temos, e eu espero que ainda tenhamos por um longo tempo) pessoas como Alanis Morissette, The 4 Non Blondes, Dolores O'Rierdan dos The Cranberries, Courtney Love da banda Hole, Gwen Stefani da banda No Doubt, PJ Harvey, Sarah Bettens da banda K's Choice, Sinéad O'Connor, Sheryl Crow, e Tori Amos.
A multiplicidade de nomes e a alta qualidade da música faz parecer fácil para uma mulher "sobreviver" no ambiente do Rock, mas como em tudo mais no século 20, as mulheres tiveram que conquistar o seu lugar no mundo da música, e o processo ainda não terminou.
Como sempre, quando o assunto são as mulheres tudo fica mais complicado. A expressão "vendida" ganha todo um novo significado, assim como toda a questão da imagem. A idéia que se tem de mulheres roqueiras, especialmente no Rock pesado, sempre foi a da modelo "vestida" com 3 pedacinhos de lenço, e a exploração dessa imagem é maior nos vídeos. E isso é algo que muda muito devagar, com relutância, mesmo depois desse tempo todo.
Artistas mulheres estão sob a mesma pressão como todas as outras mulheres na sociedade, com a diferença que as cameras agem como uma lente de aumento, exagerando a tudo e aumentando a pressão. Antes de mais nada, as normas da sociedade ditam que uma mulher deve ser bonita em todos os momentos. Ela tem que ser magra, e ela tem que ser sexy sem ser "atirada". Ela pode até ter uma atitude, mas nunca ser "durona demais". E não importa quão boa seja a sua música, a sua apresentação sempre vai ser avaliada antes de mais nada pela sua aparência física.
Para os homens um bom visual é uma vantagem, mas não uma absoluta necessidade como é para as mulheres. Um homem pode não ser um "príncipe encantado", mas se a sua música é boa ele será perdoado por esse "detalhe desprezível". Por outro lado, se uma mulher é muito, mas muito bonita mesmo ela pode vender a sua música aos milhões, mesmo que essa música não valha muito. Esse é o princípio no qual a indústria do Pop parece se basear atualmente. Não importa que as britneys, shakiras e cristinas do mundo não tocam os próprios instrumentos. Elas sabem cantar suficientemente bem, e elas sabem decididamente dançar, e elas tem uma ótima aparência na frente das câmeras... e ninguém vai se lembrar delas em 20 anos.
Mas a tragédia não é essa. A tragédia é a manipulação da imagem da mulher pela máquina Pop de hoje que criou as britneys, shakiras e cristinas em primeiro lugar, e que está agora mudando a maneira como as adolescentes vêem a si mesmas, e como elas definem a beleza. As moças são levadas a esquecer que o visual das modelos é a excessão e não a norma. Mas até aí ninguém vai contar a verdade a elas enquanto elas estiverem dispostas a pagar fortunas em "dietas milagrosas", cirurgias cosméticas e todos os tipos de cremes e roupas para tentar criar em si mesmas um visual que é muitas vezes impossível.
Eu não vejo nada errado com mulheres bonitas, é claro. Mas a imagem pura e simplesmente não deveria ser toda a razão de ser da indústria da música. Não é assim tão difícil achar mulheres com boa aparência que são também boas musicistas. Muitas delas estão por aí afora praticando a sua arte na obscuridade neste exato momento, mas vão ter muita dificuldade em assinar um bom contrato com uma gravadora porque elas não têm a "aparência certa", ou de qualquer outra maneira não se adaptam às estreitas definições que a indústria estabeleceu para as mulheres sob a sua proteção.
Veja um outro exemplo, o de Blondie. Eles têm uma cantora, Debbie Harry, que é absolutamente linda, e acima de tudo o grupo realmente fez uma diferença no mundo da música e no movimento Punk. Mas parece que nem ela está imune à "tirania da imagem" do mundo da música. Eles voltaram a tocar juntos recentemente. Debbie continua a ser uma mulher bonita, e a música da banda continua a ser tão boa como foi no passado, Mas ela não foi capaz de se livrar da imagem de "bonequinha" de 20 anos atrás. Ela não conseguiu competir com sua imagem mais jovem, e a volta da banda foi encurtada por causa de um detalhe técnico. Eu acho isso uma coisa muito triste.
Hoje em dia mulheres musicistas conquistaram uma situação na qual elas são um pouco menos exploradas, mas a indústria da música ainda faz desnecessáriamente difícil para roqueiras se estabelecer sem usar a sua sexualidade como peça central da sua imagem. O preconceito ainda existe, e ainda é cultivado por aqueles que têm a ganhar com isso. O dilema da roqueira continua: como vender a sua música sem vender o seu corpo, sem ser uma "vendida"?
A maioria das roqueiras hoje concordam que ser sexy é uma coisa boa, enquanto o controle sobre a sua imagem está nas suas mãos. As conquistas das mulheres roqueiras nos últimos 30 anos criaram uma nova imagem feminina: mulheres hoje em dia podem ser sensíveis enquanto fortes, ser sexys e ainda assim ter um cérebro, e vulneráveis enquanto permanecendo independentes. Uma mulher pode finalmente ter uma atitude sem perder sua femininidade.
Mas um ponto crucial ainda precisa ser conquistado: e esse é a verdadeira igualdade com os homens. O dia em que as mulheres no mundo da música conseguirem isso, o dia em que sua música valer mais do que a sua aparência, muito provavelmente porque as mulheres em outros setores da sociedade também vão ter conquistado essa igualdade, vai ser o dia no qual textos como o que eu escrevi agora não serão mais necessários.
Autor: Lucila SaidenbergÉ proibido reproduzir o conteúdo desta página sem autorização.
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