Deus salve a Guitarra Elétrica! (Parte 2)

A maioria das guitarras é "passiva", o que quer dizer que elas não emitem eletricidade por si sós. A vibração das cordas é que produz o sinal no captador, sinal esse que é então levado por um circuito elétrico muito simples para os amplificadores.

Mas até aí algumas guitarras não são "passivas", como no caso da Infinite Guitar ("Guitarra Infinita") inventada por Michael Brook e tocada por The Edge da banda U2, que pertence à classe das tecnológicamente mais avançadas guitarras "ativas", que usam circuitos eletrônicos alimentados por uma bateria para ajudar na amplificação e para produzir efeitos de som.

Para fazer bem simples uma primeira explicação, a Infinite Guitar usa um captador extra no braço para criar um campo magnético que joga o tom das cordas de volta sobre si mesmo, fazendo-as vibrar indefinidamente. O resultado é muito similar ao produzido pela interação entre o captador e o auto-falante. Diz-se que esse efeito é uma resposta superior ao "E-bow" (não me pergunte.), que faz mais ou menos a mesma coisa, mas requer que o guitarrista use uma de suas mãos para segurar o aparelho, e só pode ser usado em uma corda de cada vez. Pelo menos com o sistema da Infinite Guitar o guitarrista tem as duas mãos livres para tocar.

Mas a coisa é mais complexa que isso: aparentemente a guitarra infinita de Brook incorpora o que foi descrito como uma "caixa preta" que tem dentro uma placa de circuitos que age como um tipo de equalizador. O captador no braço é chamado "re-transmissor eletromagnético" e o que fica no corpo é um captador do tipo "duncan" que funciona como um condutor. (Se você pensa que eu entendi o que eu acabei de escrever, bem. [risos]). De qualquer maneira, esses dois mandam o sinal das cordas de um para o outro para criar o efeito. Os captadores da Infinite Guitar são aparelhos de alta impedância, que requerem algo como 100 volts para criar um campo magnético forte o suficiente para manter a corda vibrando. Eu não sei o que você acha, mas a coisa toda me parece meio perigosa. (Pra você ter uma idéia, as tomadas Brasileiras são de 110 volts).

E também existe a questão do "braço escavado" do protótipo da guitarra infinita, o que quer dizer que a madeira entre os trastes foi retirada, criando um espaço vazio e concavo entre eles. Isso faz certos efeitos mais fáceis de se conseguir, como por exemplo a aplicação de vibrato em notas individuais dentro de um acorde.

Brook fez apenas mais 2 ou 3 cópias de sua Infinite Guitar: uma ele deu a The Edge, outra ao músico e produtor Daniel Lanois, e se diz que uma terceira pertenceria a Brian Eno.

Depois da invenção original de Brook outros músicos produziram sistemas semelhantes e aperfeiçoados, um admitidamente inspirado na guitarra infinita original, e outra que se diz ter sido um desenvolvimento independente. A verdade é que a primeira patente americana de um "sustainer" foi outorgada em 1892, mas o aparelho só se tornou viável recentemente.

Alan Hoover e Gary Osborne viram a guitarra de Brook de perto quando o U2 tocou em Indianápolis em 1986 e Dallas Schoo, o técnico de guitarra de The Edge, deixou-os tocar algumas notas nela depois do ensaio da tarde. Eles então construiram sua própria versão de um "sustainer" (sustenidor, para os guitarristas de plantão), patenteando os refinamentos que eles fizeram, mas não os princípos básicos, que eles consideram pertencer a Michael Brook. Um desses refinamentos foi a introdução de um condutor de baixa impedância, para que uma simples pilha seja capaz de ativá-lo. Floyd Rose patenteou um sustainer magnético em 1990, e afirma nunca ter ouvido falar do dispositivo de Brook antes. Acontece. Outro sustainer no mercado hoje em dia é o da compania Fernandes, que é o que The Edge está usando. Ele é alimentado por uma bateria alcalina de 9 volts, que certamente parece mais segura. Por um segundo ali atrás eu estava realmente preocupada. Risos!

Os sustainers hoje em dia são produzidos em massa, como um componente de uma guitarra já pronta ou como um kit que pode ser instalado e removido de guitarras convencionais à vontade, sem requerer mudanças drásticas no instrumento, fazendo com que guitarras mais antigas e raras possam ser convertidas sem danos. Pelo menos, isso é o que o vendedor vai te prometer.

Do ponto de vista da minha altamente impressionável imaginação, a guitarra elétrica é o monstro de Frankenstein que deu certo, é a eletricidade trazida à vida através da música, ou a eletricidade dando vida e uma quase personalidade a um simples pedaço de madeira e umas poucas cordas de náilon.

Diz-se que elas tem "temperamentos" e até "personalidades", elas podem ser amantes carinhosas ou caprichosas, e guitarristas muitas vezes criam um relacionamento com suas guitarras que é ao mesmo tempo quase romântico e quase místico, algumas vezes obssessivo, e guitarras algumas vezes ganham nomes, como a famosa "Lucille", de BB King. Alguns dizem que ser capaz desse relacionamento, desse caso de amor, é um pré-requisito indispensável para qualquer um que se proponha ser um bom guitarrista.

Chas Chandler, o baixista do grupo The Animals que se tornou o empresário de Jimi Hendrix, costumava dizer que a guitarra é (ou deveria ser) como um rifle é para um soldado: Ela é a sua arma. Você come com ela, dorme com ela, a sua vida depende dela, e se ver sem ela significa que você está em sérios apuros. Chandler percebeu que algo estava muito errado com Hendrix no momento em que ele o viu sem sua guitarra numa festa em Londres pela primeira vez desde que eles se conheceram, anos antes. Pouco tempo depois Hendrix estaria morto

Eu pessoalmente prefiro a idéia da guitarra como amante.

A verdade é que a guitarra elétrica encontrou uma resistência inicial de tradicionalistas quando foi inventada e introduzida pela primeira vez no mundo da música. Ela era vista como uma "curiosidade", e havia dúvidas se ela era mesmo um instrumento musical "de verdade". Músicos de Country e Jazz nos Estados Unidos foram os primeiros a adotá-la e defendê-la. O Rock & Roll entusiasmadamente a adotou nos anos 50, e já nos anos 60 guitarristas eram os heróis de toda uma geração.

Guitarras choram e gemem, elas soltam gritos de gelar o sangue ou sussurram com carinho, elas tem "birras" como qualquer pessoa, e são capazes das mais bizarras, divertidas ou perturbadoras "conversas musicais" com outros instrumentos e até mesmo com a voz do cantor, comentando-a ou à letra da canção. E elas transformam em heróis os rapazes e moças que são corajosos o suficiente para enfrentá-las e talentosos o suficiente para trazê-las sob o seu controle.

O que mais se pode pedir da maior invenção da humanidade até hoje? E é por isso que eu digo, e repito: Deus Salve a Guitarra Elétrica!

Autor: Lucila Saidenberg
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