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A canção "Glória" do U2 é inspirada em outra canção do mesmo nome que foi escrita por Van Morrison, músico que viria a se tornar um dos heróis dos U2ers.
Van Morrison nasceu George Ivan Morrison a 31 de Agosto de 1945 em Belfast, Irlanda do Norte. Sua mãe era cantora, e seu pai um ávido colecionador de discos de Jazz e Blues americanos. Aos 15 anos Van deixou os estudos para seguir carreira musical numa banda de R&B. Pouco depois ele fundaria a sua própria banda, chamada "Them" e escreveria "Glória", que apesar de não ter sido um grande sucesso na época em que foi lançada, acabou sendo regravada por vários outros artistas, os Doors e Patti Smith entre eles.
Ousada para aquela época, a letra original de Van Morrison é pouco mais do que a estória quase inocente do sentimento de antecipação de um rapaz que está esperando por sua namorada em seu quarto. Numa disposição mais sexual do que romântica, mas incrivelmente sem malícia, ele espera pela moça que cherará à meia-noite para fezê-lo "se sentir bem". E enquanto espera ele imagina, quase agradecido, como ela virá andando por sua rua, como ela baterá em sua porta e entrará em seu quarto.
No refrão ele meio chama, meio grita o nome dela num misto de orgulho, admiração e puro êxtase. G-L-O-R-I-A, ele soletra. O som do nome é transformado numa representação do próprio prazer que ele sente, ou antecipa sentir.
Os primeiros a regravar Glória foram os Doors, que fizeran da canção um de seus grandes sucessos. Mas os instintos predadores de Jim Morrison dão à letra uma dimensão mais sombria, quase violenta. Subtamente, a moça é uma menor de idade confrontada por um homem mais experiente, e os amantes mal se conhecem. Ela não apenas vai à casa dele, mas o leva à sua enquanto seus pais não estão, e Jim assim insinua que ela estaria procurando no sexo casual o amor que não recebe do pai ocupado e da mãe ausente.
Se antes a canção era mais sobre sexo do que sobre amor, agora ela é puro sexo. Se antes havia uma quase-igualdade e consentimento mútuo entre os amantes, agora o foco está todo no homem, que deixa pouca escolha à menina. Ele ainda se refere a ela como "minha rainha", mas o romantismo da antecipação deu lugar à crueza da consumação.
Patti Smith foi a primeira dos artistas do movimento Punk que tocavam no clube CBGB em Nova Iorque a assinar contrato e lançar um disco, dando assim o tom ao movimento todo, e sua versão de Glória passou a representar a própria essência do Punk.
Antes de mais nada Smith adicionou à canção uma dimensão espiritual que não existia em suas duas primeiras versões, descobrindo em "Glória" uma "culpa católica" que ela se apressa em rejeitar: "Jesus morreu pelos pecados de alguém, mas não pelos meus". Essa iconoclastia se tornaria a base da ideologia de todo o movimento.
Como seus predecessores, Patti dá sua própria interpretação à letra, adicionando detalhes e elementos ao que agora já se tornou a "saga" de Glória. A antecipação cheia de esperança e alegria está de volta, a moça de Smith é adorável em seu "lindo vestido vermelho" e o rapaz está de novo feliz de tê-la em sua cama, como era o personagem masculino de Van Morrison.
Mas o que faz de sua versão um dos marcos na história do Rock é o fato de que, por conservar o caráter predominantemente masculino da canção mesmo numa voz feminina, Patti Smith reconquista um senso de poder da mulher sobre sua própria sexualidade. Estranhamente, o foco da canção deixa de ser o masculino, para passar a ser o feminino. Subitamente a mulher é o centro ativo da narrativa, e não mais o objeto passivo cuja estória é contada por outros.
E no processo, "Glória" ganha uma vida própria: Ela agora é para todos os efeitos uma personagem com uma estória, uma quase-personalidade. 3 canções em uma, uma por todas e todas por uma, Glória é o arquétipo feministico da menina-mulher que perde sua inocência na cama de um homem, que começa sua busca pelo amor no mundo dos adultos de todas as maneiras erradas, mas que no fim supera a solidão e a culpa iniciais para se tornar uma mulher segura de si, e dona do próprio destino, apesar mesmo dos homens e de sua sociedade e religião que são feitas para mantê-la subserviente.
O círculo se fecha com uma quarta "Glória", a canção de mesmo nome que foi escrita pela banda U2. A canção "Glória" do U2 não é mais uma versão da canção de Van Morrison, mas um misto de homenagem aos seus heróis Van Morrison e Patti Smith, e de uma missa católica, que é de onde vêm as palavras em latim da canção do U2.
A eles, que encontram Glória já uma mulher feita e experiente, nada resta senão prestar a ela homenagem, humildemente expressando sua admiração pelo princípio do poder feminino e inacessível, reconhecendo sua própria inadequação frente oas seus heróis, mesclando o feminino ao divino como é comum na iconografia da banda e rezando sobre ela a missa católica, para livrá-la da culpa que Smith descobriu.
Depois de tudo o que passou, Glória se tornou uma idéia, mais que uma simples canção. Uma idéia que define em grande parte a própria história do Rock dos anos 60 aos anos 80.
Autor: Lucila SaidenbergÉ proibido reproduzir o conteúdo desta página sem autorização.
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