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Apelidados de "o estranho casal" pela média americana, "Bono Mulder" e "O'neill Scully" terminaram há pouco sua visita de 10 dias à África.
Os 2 "Pauls" não poderiam ser mais diferentes um do outro, apesar da ironia da homonimidade. Rock Star/engajado e Político/homem de negócios, a diferença se fez sentir no momento em que os dois se viram a bordo do mesmo avião pela primeira vez. Bono, saído diretamente da festa de despedida de solteiro do Edge, de roupas em desalinho e barba por fazer (e, suspeita-se, uma bela ressaca) e O'neill, recém-chegado de um congresso na Europa, sóbrio e impecável em seu terno-e-gravata-com-direito-a-camisa-branca-e-tudo.
Mas as diferencas não param por aí. Nada podia ser mais diferente do que os motivos que os levaram, juntos, à África. O primeiro senhor, nosso Rock Star favorito, foi ao continente para chamar a atenção da propria média e tentar provar que os problemas da África são reais e urgentes (mas que com ajuda e boa administração podem ser superados). O segundo, secretário do tesouro (ministro das finanças) dos EUA, foi lá para demonstrar por "métodos científicos" que os sucessos da África no combate à pobreza e doenças são irrelevantes e que o (pouco) dinheiro destinado por seu país para a ajuda internacional foi desperdiçado, justificando assim a política "mão-de-vaca" americana.
E entre piadas, roupas esdrúxulas, cordiais "alfinetadas" mútuas, cantorias improvisadas, o forte cheiro da maconha fumada pelos empregados da indústria Ford na África do Sul e muita tensão velada, os dois conseguiram provar exatamente o que queriam de acordo com seus próprios métodos.
Sim, a África tem problemas gravíssimos, e precisa de ajuda. Sim, a ajuda passada nem sempre conseguiu causar os efeitos desejados, mas mesmo assim foram feitos progressos importantes. O'neill insiste em "ver resultados", enquanto Bono insiste que eles estão bem ali, na frente deles, e pede mais dinheiro para ajuda. O'neill ofereceu poços artesianos: Bono quer os poços *e mais* os recursos para a sua manutenção, porque construir os poços e depois abandoná-los aos desgastes do tempo não ajuda em nada, e até prejudica.
Mas enquanto as ONGs (Bono) e o governo americano (O'neill) discutem, os governos da África não querem caridade. O que eles realmente precisam, e isso eles deixaram claro, é uma porção do "Bolo Global" através de condições justas de comércio e iguais oportunidades e direitos no mercado internacional.
Porque como está não pode ficar: a ajuda dos Eua é mínima, insuficiente e dada com avarice, ao mesmo tempo que o governo americano dá 180 bilhões (prestem atenção, UVs: eu disse BI, não "mi"...) em subsídios aos seus próprios fazendeiros, que então vão e "inundam" os mercados africanos com produtos mais baratos, causando graves danos às economias locais. Em Gana, por exemplo, o arroz apodrece nos campos por causa dessa política. Nao há compradores.
Na verdade, o que O'neill está dizendo é "nós não queremos dar ajuda porque o que eles precisam é comércio, e nós não vamos comerciar com eles porque nós não queremos".
Os resultados dessa "missão" só serão vistos no futuro, e resta saber se a combinação do charme do Bono com os problemas e o heroísmo da África será o suficiente para abrir a carteira do governo americano. Uma coisa é certa, pelo menos: O'neill andou usando os óculos de lentes azuis que Bono deu pra ele...
E apesar de tudo, e da intensa cobertura da viagem pela média escrita nos jornais e pela Internet, eu sinto que pelo menos mo que diz respeito à TV o governo americano conseguiu passar a perna no Bono.
É interessante como a TV sabe mostrar apenas os estereótipos, as imagens patéticas: imagens de crianças morrendo de fome na Etiópia quando se acreditava que nada poderia ser feito por elas eram comuns nos anos 80, mas imagens equilibradas dos esforços até mesmo heróicos dos africanos para remediar a situação hoje em dia "não dão ibope".
E como se não bastasse o cinismo das redes de TV, o governo americano resolveu não deixar nada ao acaso: poisé, meus amigos... A viagem de W. Bush à Russia exatamente ao mesmo tempo não foi nenhuma coincidência. Ela foi habilmente orquestrada para "roubar" de Bono as manchetes principais, pois afinal o Presidente é sempre "mais notícia" do que o secretário das finanças...
Autor: Lucila SaidenbergÉ proibido reproduzir o conteúdo desta página sem autorização.
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