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Citando Jim Morrison (que é assunto para a próxima coluna, mas tudo bem): "Naquele tempo tudo era mais simples e mais complicado." No início dos anos 50 nos EUA, as rádios dirigidas ao público branco tocavam um tipo de música, e as dirigidas ao público negro tocavam outro tipo de música.
Era simples assim.
E, é claro, nada era tão "simples" assim. Numa sociedade predominantemente branca e de passado escravagista, a segregação racial (sancionada pelo governo americano) reinava. Os dois públicos não se misturavam: nas cidades haviam "bairros brancos" e "bairros negros", nas escolas as crianças negras eram obrigadas a sentar nas carteiras ao fundo da sala, e até nos ônibus os passageiros negros sentavam na parte de trás, para citar alguns exemplos.
Mas quando a mudança social se faz necessária, o que o governo não faz, faz o povo. Desde os anos 30, nos EUA, a música "Folk" era veículo de idéias e protesto. As canções, muitas vezes de autores anônimos, passavam de pais para filhos de boca a ouvido por gerações.
A essa tradição se uniu à crescente popularidade das "rádios negras" cuja música, por artistas como Chuck Berry, Little Richard and Sam Cooke, atraía um número crescente de ouvintes brancos.
Surgiram então os "shows itinerantes", reunindo vários cantores e grupos negros que tocavam "Rhytm and Blues" e apresentavam os seus maiores sucessos um após o outro, numa espécie de "mini festival". Um dos organizadores desse tipo de entretenimento era Alan Freed, o DJ de Cleveland que passou a ser conhecido como "Mr. Rock 'n' Roll".
Altamente populares junto aos jovens, esses shows e sua transmissão pela TV eram vistos com suspeita e hostilidade pelos pais e até pelo governo americano. Pequenos "escândalos", como um "incidente" onde um artista negro tirou uma menina branca para dançar foram o suficiente para que esses shows passassem a ser fortemente policiados, com sua interrupção sumária a qualquer sinal de "desordem". Os jovens na platéia eram inclusive proibidos de levantar dos seus lugares para dançar, uma ordem da polícia que provou ser impossível de ser obedecida, apesar dos pedidos repetidos dos músicos, e dos esforços da platéia para colaborar. Muitos shows terminavam mais cedo por causa disso...
Com o sucesso dos "shows itinerantes", artistas brancos começaram a tocar a sua própria versão do "Rhythm & Blues". Alguns, como Jerry Lee Lewis (que começou sua carreira como músico de estúdio, tocando piano com os "Little Green Men", a "banda da casa" dos estúdios "Sun" de Sam Phillips em Memphis, no mesmo tempo em que Elvis e Johnny Cash gravavam lá) chegaram a se apresentar como parte do "show itinerante" de Freed enquanto outros, como os Everly Brothers e os Righteous Brothers apresentavam uma "alternativa branca", baseada em ricas harmonias vocais e na tradição das músicas Folk e Country que têm raízes na música folclórica da Escócia e da Irlanda.
Chamado por Sam Phillips de "um homem branco de alma negra", Elvis Presley foi o primeiro real Rock Star. A música de Presley combinava influências de Blues, Country e Gospel, unindo estilos musicais oriundos dos dois lados da divisão racial.
Elvis foi violentamente criticado por pais e professores em 1957, sendo taxado de ser vulgar e uma má influência, principalmente por causa de seus movimentos sugestivos que lhe renderam o apelido pejorativo de "Elvis the Pelvis", e três apresentações no "Ed Sullivan Show" onde ele foi filmado somente da cintura pra cima. Existe inclusive um documentário televisivo chamado "Elvis from the waist up" que é (significantemente) narrado pelo nosso Bono ("nosso" e do U2, é claro).
No Brasil, a introdução do Rock se deu em 1955 com a gravação de uma versão em português de "Rock Around the Clock", de Bill Halley and the Comets, rebatizada de "Ronda das Horas", por Nora Ney.
Mas parte por ser considerado um estilo musical "inferior" à música local, e parte pela dificuldade que os primeiros roqueiros brasileiros (que ainda não tinham "cara de bandido") tinham de cantar em inglês o Rock, reduzido a versões em português de grandes sucessos importados dos EUA e composições instrumentais, não chegou a ter um impacto maior na cultura brasileira em sua primeira década no país. Os artistas Cely Campelo e Sérgio Murilo foram respectivamente a "rainha" e o "rei" do Rock brasileiro nos anos 50.
Uma das características do Rock instrumental brasileiro são os arranjos rock experimentais para músicas de outros estilos, como tangos e canções brasileiras tradicionais, da mesma maneira que as primeiras bandas de rock nos EUA e no Reino Unido adaptavam o Blues e até canções infantis (que caem sob a classificação "folk", aliás) para arranjos "upbeat" baseados fortemente na guitarra elétrica. A beleza do Rock como estilo musical está na facilidade com a qual ele se da à experimentação, acomodando e absorvendo outros estilos musicais sem perder as suas próprias características.
O Rock só passaria a ter maior importância no Brasil após o golpe militar de 1964, quando, como nos EUA, se transformaria em movimento de protesto.
De volta aos Estados Unidos o Rock, como movimento espontâneo de aproximação das raças, receberia um forte golpe. Alan Freed, "Mr. Rock 'n' Roll", foi acusado pelo governo americano de receber dinheiro (suborno) para tocar certas gravações (a chamada "payola") e caiu em desgraça, sendo despedido das estações de TV e rádio onde trabalhava.
Mas com a continuação dos protestos e tumultos raciais nas ruas dos Estados Unidos, e sua transformação no movimento pelos Direitos Civis nos anos 60, o Rock voltaria com força total, tomando novos rumos, atravessando o Atlântico na direção da Inglaterra e retornando aos EUA com efeito devastador.
Autor: Lucila SaidenbergÉ proibido reproduzir o conteúdo desta página sem autorização.
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