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Depois da minha mais recente coluna, vários UVs me escreveram pedindo a introdução que Bono fez ao livro dos Salmos... mas em Português. Como eu acho que esse texto do nosso rock star favorito é realmente importante para a compreensão da espiritualidade nas músicas do U2, eu decidi traduzir...
Então lá vai: com a palavra, Bono!
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Explicar a fé sempre foi dificil. Como voce explicaria um amor e lógica no coração do universo quando o mundo está tão fora dos eixos? O que dizer sobre a verdade poética versus a verdade factual achada nas escrituras? Teria o livre arbítrio nos crucificado? E o que dizer dos personagens ardilosos que habitam o tomo conhecido como a Bíblia, que alegam ouvir a voz de Deus?
Você tem que estar interessado, mas e Deus, será que Ele está?
Explicar a fé é impossível... visão sobre visibilidade... instinto sobre intelecto... Um compositor de canções toca um acorde com a fé que ele vai ouvir o próximo em sua cabeça.
Um dos escritores do Livro de Salmos era um músico, um harpista cujos talentos eram requeridos no "palácio" como o único remédio capaz de acalmar os demônios do rabugento e inseguro Rei Saul de Israel. Este é um pensamento ainda inspirador: Marilyn cantou para Kennedy, as Spice Girls para o Príncipe Charles...
Na idade de 12 anos, eu era um fan de David. Ele parecia familiar... como um pop star podia parecer familiar. As palavras nos Salmos eram tao poéticas como religiosas, e ele era um star. Antes que David pudesse realizar a profecia e ser Rei de Israel, ele teve que tomar uma surra razoável. Ele foi forçado ao exílio e acabou numa caverna em alguma cidade de fronteira sem nome enfrentando o colapso do seu ego e o abandono por Deus. Mas ai é que essa novela começa a ficar interessante. Foi lá que se acredita que David compôs o seu primeiro Salmo - um blues. Isso é o que os Salmos parecem, pra mim, como os blues. O homem gritando com Deus - "Meu Deus, Meu Deus, por quê me abandonastes? E permaneceis longe de minhas súplicas e de meus gemidos?" (Salmo 22)
Eu ouço ecos dessa escaramuça sagrada quando o não-sagrado bluesman Robert Johnson uiva, "Tem um cão do Inferno nos meus calcanhares" ('There's a hellhound on my trail') ou Van Morrison canta. "De vez em quando eu me sinto como uma criança sem mãe" ('Sometimes, I feel like a motherless child'). Texas Alexander imita os Salmos em 'Justice Blues': 'I cried Lord my father, Lord kingdom come. Send me back my woman, then thy will be done.' ("Eu gritei Deus meu Pai, Deus do Reino dos Céus. Me mande minha mulher de volta, e então será feita a sua vontade"). Humoroso, às vezes blásfemo, o blues era uma música apóstata mas, exatamente por causa de sua oposição, ele elogiava o assunto do seu primo perfeito, o gospel.
Abandono e deslocamento são o material dos meus Salmos favoritos. O Saltério pode ser uma fonte de música gospel, mas para mim o que o Salmista realmente revela é o desespero e a natureza do seu relacionamento especial com Deus. Honestidade, mesmo ao ponto da raiva. "Até quando, Senhor? Até quando continuareis escondido?" (Salmo 89), ou "Atendei à voz de minha prece" (Salmo 5).
Salmos e hinos foram onde eu experimentei minha primeira música inspiracional. Eu gostava das palavras, mas eu não tinha muita certeza quanto às melodias - com a excessão do Salmo 23, "O Senhor é meu pastor". Eu os lembro mais sussurrados e entoados do que cantados. Mas eles me prepararam para a honestidade de John Lennon, a linguagem barroca de Bob Dylan e Leonard Cohen, a garganta aberta de Al Green e Stevie Wonder. Quando eu escuto esses cantores, eu me reconecto com uma parte de mim para a qual eu nao tenho uma explicação - Minha "alma" eu acho.
Palavras e música fizeram para mim o que sólida, mesmo rigorosa, argumentação religiosa nunca conseguiu fazer - elas me apresentaram a Deus, não à crença em Deus, mas mais um senso de experiência de DEUS. Mais do que arte, literatura, meninas, meus amigos, o caminho para o meu espírito era uma combinação de palavras e música. Como resultado, o Livro dos Salmos sempre estava aberto para mim e me levou à poesia de Eclesiástico, Cântico dos Cânticos, o Livro de John... Minha religião não podia ser ficção, mas tinha que transcender os fatos. Ela podia ser mística, mas não mítica e definitivamente não ritual...
Minha mãe era Protestante, meu pai Católico. Em qualquer outro lugar que não a Irlanda isso não teria nada de mais. Os "Prods" tinham as melhores melodias e os Católicos tinham o melhor cenário. Meu amigo Gavin Friday costumava dizer: "O Catolicismo Romano é o Glam Rock da religião" com suas velas e cores psicodélicas - azul cardeal, escarlate e púrpura - as bombas de fumaça do incenso e o soar do sininho. Os Prods eram melhores com os sinos grandes, eles podiam pagar por eles. Na Irlanda, riqueza e Protestantismo iam juntos. Ter qualquer um dos dois era colaborar com o inimigo - quer dizer, a Grã-Bretanha. Isso não entrava na nossa casa.
Depois de ir na Missa no topo da colina, em Finglas no lado norte de Dublin, meu pai esperava do lado de fora da pequena capela da Igreja da Irlanda na base da colina, onde minha mãe tinha trazido seus dois filhos...
Eu me mantinha acordado pensando sobre a filha do pastor e deixava meus olhos mergulharem no cinema dos vitrais. Esses artistas Cristãos tinham inventado os filmes. Luz projetada atravéz de cores para contar uma estória. Nos anos setenta a estória eram os "Troubles", e eles vinham atravéz dos vitrais, com pedras jogadas mais de malandragem do que de raiva. Mas a mensagem era a mesma: o país estava para ser dividido em linhas sectárias. Eu tinha um pé nos dois campos, então o meu Golias virou a própria religião: eu comecei a ver a religião como a perversão da fé. Eu comecei a ver Deus em todos os outros lugares. Em meninas, diversão, música, justiça e ainda - apesar da tradução pomposa de King James - as Escrituras...
Eu amava essas estórias pelas razões mais ordinárias. Esses eram filmes de ação, com alguns homens e mulheres durões... as perseguições de carro, as casualidades, o sangue e as entranhas. Haviam muito poucos beijos...
David era uma estrela, o Elvis da Bíblia, se nós podemos acreditar no trabalho de Michelangelo. E, nada usual para esse "rock star", com sua paixão por poder, paixão por mulheres, paixão pela vida, ele tinha a humildade de alguém que sabia que seu talento trabalhava mais do que ele jamais iria. Ele até dançou nu na frente de suas tropas - o equivalente bíblico de uma perambulação real. David era definitivamente mais um artista de palco do que um político.
De qualquer maneira, e parei de ir a igrejas e me envolvi com um tipo diferente de religião. Não ria. Isso é o que estar numa banda de rock é. Showbizz é shamanismo, música é adoração. Seja a adoração de mulheres ou o criador delas, do mundo ou seu destruidor, que venha daquele lugar antigo chamado alma ou do córtex cerebral, estejam as preces em fogo com raiva muda ou desejo ingênuo, a fumaça sobe, para Deus ou algo com o qual você substitui a Deus - geralmente você mesmo.
Anos atrás, sem achar palavras e com 40 minutos de tempo de gravação até o fim do nosso tempo no estúdio, nós ainda estávamos procurando uma canção para fechar o nosso terceiro álbum, War. Nós queríamos pôr algo explicitamente espiritual no disco para contrabalançar a política e o romantismo que ele continha; como Bob Marley ou Marvin Gaye fariam. Nós pensamos nos Salmos - Salmo 40. Houveram algumas caretas. Nós eramos uma banda de rock muito "branca", e essa pilhagem das escrituras era tabu para uma banda de rock branca a não ser que fosse a "serviço de Satã". Ou pior, Gótico.
O Salmo 40 é interessante porque ele sugere um tempo onde a graça vai substituir o karma, e o amor vai substituir as estritas leis de Moisés (em outras palavras, cumprí-las). Eu amo esse pensamento. David, que cometeu alguns dos atos mais egoístas como também os mais generosos, contava com isso. O fato que as escrituras estavam cheias até a borda de pessoas inescrupulosas, assassinos, covardes, adúlteros e mercenários costumava me chocar. Agora isso é uma fonte de grande conforto.
"40" virou a canção que fecha os shows do U2, e em centenas de ocasiões, literalmente centenas de milhares de pessoas de todos os tamanhos e formatos de camisetas têm gritado de volta o refrão, catado do Salmo 6: "How long (to sing this song)" (Até quando cantar esta canção). Eu tinha pensado nisso como uma questão irritante, puxando a barra da manga de uma divindade invisível cuja presença nós sentimos apenas quando agimos com amor. Até quando fome? Até quando ódio? Até quando até que a criação cresça e o caos de sua precoce, infernal adolescência será descartado? Eu achava estranho que a vocalização de questões como essas pudesse trazer tanto conforto - pra mim, também.
Mas para voltar a David, não está claro quantos desses Salmos David ou seu filho Salomão realmente escreveram. Alguns estudiosos sugerem que os reis nunca molharam suas penas na tinta e que havia uma multitude de sagrados escritores fantasmas (Holy Ghost writers). Que diferença faz? Eu nao comprava Leiber e Stoller - eles eram apenas os escritoraes das canções dele... Eu comprava Elvis.
Autor: Lucila SaidenbergÉ proibido reproduzir o conteúdo desta página sem autorização.
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