Rock & Roll x Espiritualidade: U2 e a Transcendência

Neste nosso mundo materialista, a cultura do show bizz e conceitos como Deus e a espiritualidade nem sempre andam de mãos dadas. A não ser, é claro, que a banda de Rock U2 esteja envolvida.

Como o próprio Bono diz, o tabu no mundo da música Pop / Rock não são as drogas, nem o sexo. O tabu é a espiritualidade. Escândalos envolvendo sexo, drogas ou os dois são considerados "normais", e já não chocam a mais ninguém. Aliás, esses escândalos são geralmente provocados pelos próprios artistas e usados como meio de promoção e publicidade barata. Um exemplo: George Michael estava completamente esquecido, até que foi pego nos banheiros do Central Park em Nova Iorque com outro homem. Depois disso a carreira dele voltou à ativa, e está dando frutos até hoje. Mas experimente o artista admitir acreditar em Deus ou professar uma religião, para ver o que acontece: Será no mínimo olhado de soslaio, como se tivesse acabado de chegar de Marte.

E no entanto, o U2 consegue trazer a espiritualidade de encontro ao Rock. É claro que isso é visto com desconfiança pelos críticos. É claro que uma coisa não se assenta bem com a outra. A diferença é que o U2, ao contrário de outros artistas e grupos, não se deixa acanhar pelas críticas. No ver de Bono, tudo se resume em ter Deus "de passsagem pela sala". Uma situação em que a presença de Deus se faz sentir na música, seja no estúdio ou em concerto. Por definição, o processo que permite que a presença de Deus seja sentida por seres humanos se chama transcendência.

A transcendência éa capacidade que os seres humanos têm de de se elevar acima de suas próprias limitações, e perceber realidades diferentes da habitual. Nesse caso, a Realidade Divina. Mas mesmo a visão que Bono tem da transcendência é motivo de polêmica. O ex-frei, e autor da teologia da libertação, Dr. Leonardo Boff faz uma distinção entre dois tipos de transcendência: uma verdadeira, atingida por meio da meditação e prática religiosa, e outra falsa, à qual se chega, entre outras coisas, atravéz da frequência a shows de Rock e a veneração a bandas e artistas.

E em 99.9% dos casos o Dr. Boff estaria certo. O "culto" que se faz hoje em dia aos ídolos do mundo Pop / Rock, por mais excitante e mesmo comovente que seja, é na maioria dos casos vazio e superficial, por ser baseado única e exclusivamente no Ego de artistas medíocres, que nao têm nada de mais profundo a oferecer. Mas o Dr. Boff aparentemente não conhece o U2 e sua proposta ideológica, ou não acredita que euma banda de Rock possa ser diferente das outras. Como nós sabemos, o U2 não é apenas centrado no "culto" às personalidades da banda (infelizmente necessário para facilitar a venda de CDs). Mais do que isso, a banda tenta sempre dar a Deus o crédito por seu talento, carisma e sucesso, "redirecionando" o culto e apontando-o novamente na direção certa. A direção não do Ego, mas do espírito.

E é por isso que, a meu ver, a transcendência à qual se chega por meio da música e frequência aos shows do U2 é verdadeira, apesar de não ser atingida pelos métodos tradicionais. Na triste situação em que nosso mundo se encontra face ao crescente materialismo e à perda de popularidade das religiões convenconais, eu prefiro tomar o meu exemplo de pessoas para as quais a espiritualidade ainda é importante, mesmo que essas pessoas sejam "apenas" os integrantes de uma banda de Rock.

Como já disse o Dalai Lama, quando comentou sobre a necessidade de se manter a fé apesar do materialismo moderno: "qualquer espiritualidade é melhor do que espiritualidade nenhuma". As pessoas precisam ter algo em que acreditar, algo que as eleve acima de suas limitações, mesmo que já tenham perdido a fé em sua religião original.

Triste? Talvez...

Mas é verdade.

Walk on.

Bibliografia recomendada:

Tempo de transcendência / Leonardo Boff. Rio de Janeiro : Editora Sextante, 2000

The Dalai Lama's Book of Wisdom (edited by Matthew E. Bunson) Random House, 1997

Selections from the book of PSALMS (with an introduction by Bono) Grove Press New York, 1999

OU, mais especificamente:

A introdução do Bono para o Livro dos Salmos (Na internet, em algum lugar, ou me contatem em privado)

Autor: Lucila Saidenberg
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