U2, o Prêmio Grammy, o CEO e a atual guerra da indústria fonográfica contra os fãs

Ok, vamos começar pelo mais importante: O U2.

Os 4 prêmios que os nossos roqueiros favoritos receberam foram a coroação de um ano maravilhoso, e mesmo os rumores de um suposto "milagre" da transformação da àgua mineral em vodka não conseguiram embaçar o brilho de mais essa vitória. Todos nós sabemos que Bono é Deus, mas esse não é o estilo dele em milagres.

Restaurado seu status de maior banda de Rock do mundo, e talvez a única ainda fiel às raízes o suficiente para merecer esse título, o U2 volta ao estúdio para mais um período de trabalho àrduo, e Bono volta à sua linha geral de milagres, mais na area da aproximação de corações e a multiplicação de pães e peixes.

Enquanto isso, a indústria fonográfica está em polvorosa. O longo e chato discurso do Chief Executive Officer (CEO) do RIAA (Recording Industry Association of America) vem provar duas coisas: 1) a Internet (e os Mp3s) realmente causou uma crise séria na indústria da música e 2) eles não fazem a mínima idéia de como lidar com isso. Uma coisa é certa: esconder a cabeça na areia e pôr a culpa da sua própria incompetência nos fãs não vai ajudar.

O fato é que os Mp3s devolveram a indústria fonográfica à estaca zero, e retrocederam o modo como o público consome música em 50 anos, afetando a indústria em seu ponto mais vulnerável: a maneira como as gravadoras fazem dinheiro.

Há 50 anos, quando os primeiros de Rock começaram a vender seus discos, os fãs preferiam comprar os singles. Os álbums não valiam o preço, porque geralmente continham 1 ou 2 canções de maior sucesso, sendo o resto bem mais fracas, incluídas só para "preencher espaço". E 3 ou 4 singles de 2 ou 3 (e às vezes 4) músicas cada custavam o mesmo que um LP.

Os LPs só passaram a ter melhor vendagem nos anos 60, quando artistas como os Beatles e Bob Dylan provaram ser possível gravar um disco inteiro de boas canções. Com isso, os singles passaram a ser o meio usado pelas gravadoras para promover os LPs nas rádios. Esse método funcionou bem até os anos 90, quando ocorreu um grande declínio na qualidade da música apresentada aos fans por rádios cada vez mais limitadas em formato e conteúdo pelas próprias gravadoras, cada vez mais preocupadas com o lado comercial da indústria.

Enquanto nos anos 50 e 60 uma só estação de rádio nos EUA tocava uma seleção representativa de todos os estilos musicais disponíveis ao público, hoje em dia as rádios se "especializam" em (isto é se limitam a) um único estilo musical, como Pop, Country, Adult Contemporary, Classic Rock, College Rock, e por aí vai.

As conseqüências dessa política são várias, e nenhuma delas beneficia ao público. Nos anos 50 e 60 todo mundo escutava o mesmo material nas rádios, e a variedade de estilos e canções estimulava a comparação, o que levava os artistas a sempre se esforçar por melhorar a qualidade de suas canções. Mais, a abundância de estilos em um só formato de rádio dava ao público a oportunidade de decidir por si mesmo quais eram as melhores canções e artistas. Isso criava os grandes hits inesquecíveis e os consensos populares. Músicas como "Yesterday" dos Beatles e "Don’t be cruel" de Elvis Presley eram sucessos aclamados em unanimidade por todos os ouvintes.

A divisão das rádios em estreitas "fatias" de estilo alienou o público. Nós já não escutamos todos as mesmas músicas, e a escolha do que é melhor já não é deixada a nós, mas é impingida pelas gravadoras cada vez mais desesperadas por sucessos instantâneos, porque a falta de comparação pelo público tambem causa a alienação dos artistas, que perdem a noção do que é realmente "boa música". Além disso, cada estilo tem seu #1 toda semana, confundindo o público mais ainda e tornando os artistas quase anônimos pela abundância de hits "fabricados".

E para piorar, o advento dos Mp3s tornou os singles irrelevantes. Com a baixa na qualidade dos discos, novamente cheios de "enchimento" para 1 ou 2 boas canções, o público passou a querer colecionar apenas as canções de melhor qualidade. Mas por que comprar singles que custam quase o mesmo que um álbum, hoje em dia, se o MP3 vem de graça?

Acostumadas com vendas abundantes a altos preços, as gravadoras esqueceram que o público não é bobo. Acostumadas ao monopólio, elas não sabem lidar com a competição, honesta ou não, da Internet. Iludidos pela própria grandeza, elas esquecem que são apenas intermediários cuja verdadeira função é aproximar fãs e artistas. Desorientados, os CEOs recorrem ao ataque aos fãs.

Como todos sabem, a solução para conflitos de qualquer espécie não é bélica, mas diplomática. As grandes gravadoras ainda podem fazer dinheiro vendendo (pasmem) gravadores de CDs, aparelhos portáties de tocar Mp3s, e até CDs em branco. As grandes gravadoras podem voltar a formatos de rádio mais democráticos, afixar preços mais baixos para os CDs já gravados, e exigir maior qualidade musical de seus artistas, em lugar de se preocupar apenas em ganhar dinheiro. Como toda nova tecnologia, o Mp3 não tornará as gravações convencionais obsoletas, nas achará o seu lugar ao lado delas.

Os fãs fariam bem em adotar uma política de equilíbrio: por um lado fazer download de Mp3s como se fossem singles, "amostras" de um álbum, e por outro "adotar" um artista predileto (especialmente dentre os novos) e ajudar a promovê-lo de todas as maneiras possíveis, seja pedindo que as rádios toquem suas canções com mais freqüência, seja votando neles nos websites especializados em música, e seja mesmo comprando CDs e camisetas, e indo aos shows enquanto fazendo uma campanha ativa junto às grandes gravadoras pela melhoria da qualidade da música, e preços mais baixos. Esta é a Internet, gente, isso é possível!

Porque quem realmente sai prejudicado nessa "guerra" toda são os artistas, os "civis inocentes" que precisam tanto do apoio das gravadoras como do nosso, os fãs, para sobreviver. A música não é apenas a profissão deles. Ela é também um meio de expressão emocional (às vezes o único) e uma vocação que chega a beirar o sagrado, em sua intensidade. Vide U2.

Autor: Lucila Saidenberg
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