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A recente apresentação da banda irlandesa de Rock U2 no intervalo de meio tempo do Superbowl, a final do campeonato de futebol americano, a apoteose da superficialidade do mundo ocidental, causou grande confusão entre os críticos americanos. Há quem diga que o U2 é a mais famosa, comercialmente bem-sucedida, "consciente", "engajada", e mesmo a melhor banda do mundo na atualidade. A banda, que é tão famosa por seu ativismo como por sua música, tocou uma ótima seleção de três canções, passou sua mensagem de solidariedade para com o povo americano em seu sofrimento após o atentado em 11 de Setembro último, e alcançou uma audiência de 800 milhões de espectadores ao redor do mundo.
Um completo sucesso de acordo com todos os critérios, certo? Não... errado. Isto é, pelo menos na opinião dos críticos. Nas últimas semanas após a dita apresentação, o U2 vem sendo chamado de todos os pejorativos existentes no mundo do Rock: falsidade, superficialidade, ego inchado, falta de rebeldia, ingenuidade, e mesmo o pior de todos, o feio "vendidos", reservado a artistas e bandas que comprometem seus ideais por dinheiro. Como se todos os supracitados pejorativos não bastassem, os patriotas americanos os acusam tambem de desrespeito à bandeira, porque o vocalista Bono a usou como forro de sua jaqueta.
Assim como quando da polêmica causada em 1865 pelo quadro "Olympia" do pintor francês Manet, algo na combinação entre uma banda de ideais tão elevados e uma festa americana tão popular como o Superbowl não se assenta bem. "Quem é Olympia?" perguntavam-se os críticos da época: Sofisticada demais para ser classificada de reles prostituta, vulgar demais para uma dama da sociedade, e tratada a pinceladas simples demais para ser considerada "boa arte", sua presença nua e insolente em tamanho natural na parede do Salão de arte de Paris causava embaraço e mesmo revolta a seus espectadores.
"Quem são U2?" perguntam-se os críticos de hoje. Como pode um "mero bando de roqueiros" querer fugir aos estereótipos do mundo do Rock, e ser mais do que simples entretenimento? Como pode uma banda que nem americana é, e que no passado criticou duramente as políticas daquele país, encabeçar a mais americana das celebrações, e livremente usar "símbolos sagrados" como a bandeira num mero forro para jaquetas? Além do mais, o U2 é uma banda "grande" demais para o Superbowl: antes de convidá-los, a direção do evento tinha em mente um grande sucesso americano do passado, a cantora Diana Ross.
Como "Olympia" eles são ousados, mesmo insolentes. Como ela, eles são iconoclastas, se recusando ocupar tanto tanto o pedestal da sofisticação como a sargeta da vulgaridade, mas sem escarnecer de ambos. Eles mantêm simples a sua mensagem, e almejam fazê-la alcançar o maior número possível de pessoas. Sua rebeldia é centrada no inconformismo e na vontade de mudar o mundo, mesmo usando métodos convencionais como o lobby político e o uso da média. A "afronta" do U2 está em não tomar nada por óbvio, forçando seus espectadores a pensar de maneira diferente do normal sobre o mundo que os cerca.
Mas apesar dos críticos a apresentação foi bem recebida pelo público. Foi passada a mensagem, e a boa qualidade do desempenho da banda impressionou positivamente a milhões de espectadores casuais, levando a um acentuado aumento em vendas de seu mais recente CD. Bono já usava a bandeira americana como forro de sua jaqueta muito antes do 11 de Setembro, e o fato de que alguém finalmente notou só pode ser um desenvolvimento positivo. Mais do que isso, a banda se recusou a aceitar pagamento por sua apresentação. "Vendidos"? Definitivamente não.
Autor: Lucila SaidenbergÉ proibido reproduzir o conteúdo desta página sem autorização.
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