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Faz mais de um mês que eu estou pensando no que escrever nesta coluna. Isso mesmo, antes mesmo do U2 chegar eu já estava preocupada com o quê eu ia escrever aqui. Talvez porque já soubesse exatamente o que ia acontecer: eu ia ter um bloqueio. Tive. Ainda estou tendo, por sinal.
Juro que estou escrevendo sem ainda ter a certeza sobre o que falar. Porque, embora tudo já tenha sido dito, ainda há coisas que simplesmente não podem ser ditas, pois não há como traduzi-las em palavras. Sensações que desafiam a barreira da consciência - não têm nome e não dá pra explicar o que é ao certo.
Só sei que, desde que ouvi o último "Good night" ao final do show do dia 21, tenho me sentido assim. Primeiro veio o vazio, aquela sensação ruim de saber que tudo o que é bom acaba. Depois, um misto de euforia e satisfação (durante os poucos 'lapsos' de consciência que me fazem ver o quanto eu fui abençoada por TUDO o que aconteceu comigo naqueles dias lindos) com momentos de total desespero e impotência. A sensação que fica é que "o U2 foi embora e levou junto um pedaço de mim".
Mas não quero que essa coluna seja depressiva, porque foi tudo bom demais pra que o meu primeiro texto depois do furacão Vertigem seja recheado de sentimentos assim, tristes... Então, ainda tentando juntar os pedaços da minha vida que sobraram depois que vivi quatro dias tão intensos (minha "maratona" começou no sábado), acho que ainda tenho algumas coisas para comentar... podem não ser as mais relevantes ou as mais inéditas (mesmo porque eu sei que demorei... :P), mas são coisas que resistem dentro do meu cérebro e da minha alma...
Começo com uma pergunta: alguém reparou que pouquíssimas pessoas conseguiram comentar *o show* em si? A execução das músicas, as guitarras do Edge e assuntos afins? Alguns arriscaram falar sobre o setlist, mas ninguém consegue fazer um review que mencione apenas o show, sem "contaminar" o texto com a emoção que transbordou do Morumbi naquelas duas noites. Ah, e por "ninguém" leia-se "nós, fãs".
Por um lado, acho natural. Pode parecer clichê, mas é daqueles casos em que se pode dizer, sem culpa, "sem comentários"... novamente pela falta de palavras para descrever tudo aquilo. Acho que fomos (e ainda somos, talvez) incapazes de ser críticos -- não que isso seja ruim, pelo contrário, eu acho ótimo! Quem teria a coragem de dizer que o Edge errou uma nota em tal música, ou que o Larry parecia descoordenado no começo de Love And Peace? Mesmo se alguma dessas coisas tivesse acontecido, não faria o menor sentido falar sobre isso, pois foi tudo tão maior, grandioso, que esse tipo de detalhe perde totalmente a importância... Pro inferno com a técnica ou com a perfeição! O Bono errando a letra de All I Want Is You *inteira* foi a coisa mais linda do mundo. Queria que ele viesse errar a letra de qualquer música por aqui toda semana...
Não suficiente esse espetáculo ter sido tão intenso (olha as palavras fugindo de novo...), acho que, para a maioria dos UV's, outro fator que pesou foi ter visto o(s) show(s) na companhia dos amigos. Tenho certeza que poucos de nós foram à PopMart em 98 na companhia de amigos que fossem fãs da banda. Desta vez, tivemos a oportunidade de dividir esse momento com pessoas que sentem exatamente o que nós sentimos. Todos na mesma sintonia. Arrisco dizer que pudemos até "comentar o show silenciosamente" com essas pessoas. Não era preciso dizer nada - apenas um olhar (geralmente inundado por lágrimas!) traduzia imediatamente qualquer comentário. Quer coisa melhor que isso?
Bom, acho que melhor que isso só a energia desses quatro MENINOS no palco. Porque era o que eles pareciam - meninos. Felizes, satisfeitos, emocionados acima de tudo. E estampada no rosto a certeza de que valeu a pena ter voltado. E nós fomos recompensados com sorrisos e demonstrações de carinho e gratidão que eu vi poucas vezes (ou nenhuma? Não consigo me lembrar, pois todo o resto parece tão pequeno depois dessa experiência esmagadora!) de uma banda com seu público.
É piegas e totalmente parcial dizer isso, mas eu sei (todos nós sabemos, não?) que esses dois shows foram particularmente especiais para o U2. Espero que especiais o suficiente para que eles tenham vontade de voltar na próxima turnê, também. Claro que os acontecimentos recentes vão influir, e muito, em qualquer decisão futura da banda, mas isso é assunto pra depois. Os oito anos que eu esperei para revê-los ficaram para trás naquelas duas noites, e eu soube que nada foi em vão. Tudo valeu, desde o sofrimento que foi não ter ido à famosa U2 Week em 2000, até algumas das dificuldades para que tudo desse certo desta vez. Eu esperaria, sofreria e choraria tudo de novo, sem pensar duas vezes.
Pra fechar com meu relato pessoal, continuo sem saber como pra contar pra vocês qual foi a sensação de ter visto tão de pertinho Bono, Larry e Adam no aerporto (e nem vou começar a falar do Adam, senão a coluna não acaba mais!), do quanto foi legal o show da U2 Cover na Saraiva, com direito a Ultraviolet de presente pra nós, "amarelinhos", que estávamos lá, o quanto cada minuto na fila foi divertido - ainda que cansativo -, como toda a espera desgastante valeu a pena, como eu me senti ao encostar na grade na Hot Area e tantas outras coisas que aconteceram naqueles dias. Mais que isso - da quantidade de EMOÇÕES que tomaram conta de mim, do quanto eu ri e chorei. Quem sabe daqui um tempo, quando tudo isso "assentar" dentro de mim e eu consiga acalmar o meu espírito, possa dividir isso com vocês com alguma exatidão... Mas ainda tenho a sensação de que isso nunca será possível.
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Autor: GoneÉ proibido reproduzir o conteúdo desta página sem autorização.
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