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5 julho 2013 10:58

por: Márcio Guariba

Zooropa Especial 20 anos

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O lado B consegue ser ainda mais difícil que o anterior, porém, com uma angústia quase Joy Division. Pós-Punk e industrial.

Já na abertura, com a bluesy ‘Daddy’s Gonna Pay For Your Crashed Car’ (outra que nasceu das jam sessions durante as passagens de som), nos sentimos dentro do palco da ZOO TV. Sob uma introdução sampleada das fanfarras preferidas de Lênin e uma bateria marcial, perfeita para um desfile de soldados marchando, Bono versa sobre a imaturidade de um viciado como um demônio convencendo alguém a pular de um precipício. O mesmo vale para a seguinte, ‘Some Days Are Better Than Others’, com uma linha de baixo matadora de Adam Clayton e uma guitarra que mais parece um zunido do que aquele velho instrumento de cinco cordas. Edge está totalmente a vontade com um novo universo nas suas partes. Ele não está ali como um Guitar Hero. Quando aparece, são para intervenções, barulhos dissonantes. A letra é ainda mais cínica: “Alguns dias você se sente um pouco bebê procurando por Jesus e sua mãe. Alguns dias são melhores do que outros”. Na melhor linha Lou Reed.

Durante sete faixas, o narrador desconfia do mundo e o rejeita. Faz amor e fica entorpecido pela televisão. Alcança o cume de sua arrogância e cai de joelhos do seu pedestal e, como um anjo caído, brinca com a fossa dos outros. Chegou então a hora do arrependimento.

Na sua parte final, a temática é autocontida. O personagem que afirmava e questionava agora se mostra arrependido e quer voltar para casa, em uma jornada de autopunição. A tríade ‘The First Time’ (que originalmente se chamava “The Prodigal Son” e foi escrita como um tema Soul para Al Green, grande expoente da música negra americana e uma das maiores influências de Bono), ‘Dirty Day’ e ‘The Wanderer’ fecham esse disco com chave de ouro. “´The First Time` é uma música muito especial” explica Bono na biografia “U2 by U2”. “Me parece muito certo que bem no meio de todo esse caos e luzes ofuscantes haveria um momento muito simples, poético. É a história do filho pródigo, mas nela o filho pródigo decide que não irá mais retornar. É sobre perder a sua fé. Eu não tinha perdido a minha fé, mas eu era muito simpatizante com as pessoas que tinham a coragem de não acreditar. Eu vi várias pessoas perto de mim terem experiências ruins com a religião, sendo tão maltratados que eles sentiram que não podiam mais ir lá, o que é uma vergonha.

Já ´Dirty Day` é uma música sobre pai e filho. “´It´s a dirty day` (É um dia sujo), era uma expressão que o meu pai costumava usar e tem muito dele nessa música, mas também foi influenciada pelo Charles Bukowski, o grande escritor americano e bebedor”, comenta Bono. “O seu apelido era Hank e eu uso essa frase no final da música, O Hank diz que os dias passam como cavalos sobre as colinas. A música é sobre um sujeito que deixa para trás sua família e que anos depois reencontra o filho abandonado. Não é sobre o meu pai, mas eu uso algumas das atitudes do meu pai nessa música. ‘Eu não conheço você e você não conhece metade disso’. ‘Nenhum sangue é mais grosso do que tinta’. ‘Nada tão simples quanto você pensa’, são todas coisas que o meu pai dizia. ‘Isso não dura o tempo de um beijo’ é outra do meu pai, a forma que ele dispensava alguma coisa que achasse transitória,” complementa.

Já sobre “The Wanderer”, talvez uma das melhores coisas que o U2 fez em todos os tempos, ele comenta: “Eu tive muitas figuras paternas na minha vida. Que lista isso daria! Mas em algum lugar no topo dessa lista tem que estar Johnny Cash, para quem nós escrevemos uma música e o persuadimos a vir e cantá-la conosco, para fechar o álbum, ‘The Wanderer’. Eu escrevi essa letra baseado no livro de Eclesiastes do Velho Testamento, o qual em alguma tradução é chamado de O Pregador. É a história de um intelectual com sede por viagens. O pregador quer encontrar o sentido da vida e para isso ele tenta um pouco de tudo. Ele tenta viajar, tem todas as visões, mas não é nada disso. Ele tenta vinho, mulheres e música, mas não é isso. Tudo, ele diz, é orgulho, orgulho de bobagens, se esforçando atrás do vento.”

A canção, que originalmente se chamava “The Ellis Island” (a ilha onde está a estátua da Liberdade, em Nova Iorque), é uma resposta à pergunta feita no início do disco, na faixa-título. A redenção a danação: “A música é o antídoto para o manifesto de incertezas de Zooropa”, Bono comenta. “Mesmo se o álbum começasse com Eu não tenho uma bússola, eu não tenho um mapa – em outras palavras, Eu não sei, mas eu aceito esse estado de incertezas – ´The Wanderer` apresenta uma solução possível. Em linhas gerais sobre o álbum, a chave é aprender a viver com as incertezas, mesmo que seja preciso permitir que a incerteza seja o seu guia. Eu me lembro de tentar ordenar alguns problemas com as frases da música e o Johnny me interrompendo e dizendo, ‘Não, eu gosto quando o ritmo é irregular. Eu quero fazer o inesperado’. Outra lição de um mestre. Mas escutar a voz de um marinheiro ancião cantando sobre sons eletrônicos era um pouco de justaposição e uma das melhores coisas que nós já fizemos”, finaliza.

A banda se lançou na turnê europeia durante a finalização e o lançamento do disco. Várias faixas foram tocadas ao vivo em um primeiro momento e, outras, somente quando a turnê chegou a Ásia e a Oceania, onde a banda fez o registro definitivo dessa fase, com a gravação do show em Sidney, na Austrália. No bis, Bono entrava travestido como o personagem MacPhisto, uma brincadeira, misturando o tradicional nome ‘Mac’, muito comum no Reino Unido, com o anjo caído Mefistófeles. “Para esse personagem, nós viemos com a ideia de um velho diabo inglês, um pop star com um passado primoroso, retornando regularmente à cada estação a Las Vegas e alegrando qualquer um que escutasse suas histórias dos bons e maus dias”, comenta Bono. Nesse momento do show, entre a apresentação de “Daddy’s Gonna Pay For Your Crashed Car” e “Lemon”, Bono fazia um melancólico discurso, reclamando de algum tema, ora fútil, ora cheio de segundas intenções e, invariavelmente, ligava ao vivo para um dos citados. Se na primeira parte da turnê, o alvo invariavelmente era a Casa Branca, na fase “Zooropa”, Bono ligou para personagens díspares como Salman Rushdie, Luciano Pavarotti e até políticos com péssimo histórico, como o francês Jean-Marie Le Pen e Alessandra Mussolinni, neta do ditador italiano. Sobre isso, Bono comentou; “Eu liguei para a Alessandra Mussolini, a neta do ditador italiano, que estava começando a se envolver na política e nós tínhamos setenta mil pessoas cantando, ‘Eu apenas liguei para dizer que eu te amo’ na sua secretária eletrônica. Eu liguei para o arcebispo de Canterbury e disse para ele que eu adorava o que ele estava fazendo e que era maravilhoso que a igreja não parecia tomar partido de nada. Isso foi a morte, querido! Durante os nossos shows na Itália, em um momento de performance artística, eu me filmei andando pela praça do Vaticano. Nesse momento o MacPhisto desenvolveu uma maneira de andar mancando, e eu tinha uma bengala e ia enxotando os pássaros, vestido como o diabo, andando pela praça do Vaticano, murmurando ‘Um dia, tudo isso vai ser meu. Ah não, eu esqueci, isso é meu’”, finaliza.

O disco foi extremamente bem recebido pela crítica, apesar das vendas não terem sido tão expressivas para os padrões da banda até então. Muitos chegaram a elegê-lo como um dos melhores do ano e a banda ganhou um Grammy como “Melhor disco alternativo”, o que parece surreal.

Praticamente todo o material do disco foi descartado após o término da “ZOO TV”. “Stay” é a única que foi mais regularmente tocada nas turnês subsequentes. “The First Time” apareceu em alguns shows da turnê “Vertigo”, entre 2005 e 2006 e, depois de dezoito anos, “Zooropa” foi finalmente tocada completa, e sua primeira apresentação foi exatamente aqui no Brasil, no segundo show da turnê “360°”, em uma performance tão arrasadora que foi mantida até o final da gira.

Infelizmente, a banda não valoriza o disco como deveria. “Eu nunca pensei no Zooropa como algo mais do que um intervalo”, comentou Edge. “Mas um bom intervalo. De longe, o nosso mais interessante.”.

Bono complementa: “Na época eu imaginava o Zooropa como um trabalho de gênios. Eu realmente achava que a nossa disciplina pop estava se encaixando na nossa experimentação e esse era o nosso Sgt. Pepper. Eu estava um pouco enganado em relação a isso. A verdade é que a nossa disciplina pop estava nos deixando para baixo. Nós não criamos hits. Nós praticamente não entregamos as músicas. O que seria de Sgt. Pepper sem as músicas pop?”

A banda ainda manteve o pé na experimentação por mais alguns anos. O projeto “Passengers: Original Soundtracks One”, lançado em 1995, e o controverso álbum “Pop”, de 1997, que junto da sua turnê “Popmart”, quase quebrou a banda.

Mas isso fica pra depois.

O que sobra, e o que deve ser sempre lembrado, é esse grande disco, de uma banda que tinha tudo para ser muito mais que produtores de hits radiofônicos. Se existe arte no trabalho do U2, ele foi todo comprimido nesse pequeno, esquisito e torto disco de dez faixas lançado há vinte anos.

Uma pena que será esquecido…

Por Márcio Guariba

Comentários

Esse álbum fabuloso não será esquecido, por ser uma fase do U2 tão experimental. Vale a pena sempre mergulhar nesse “universo” tão atual.

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