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Bono

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3 julho 2013 11:02

por: Márcio Guariba

Será que um mero compositor de canções radiofônicas tem nível intelectual para, em pouco mais de 40 minutos, discorrer sobre temas que grandes escritores como William Gibson, Anthony Burgess e Charles Bukowski passaram suas vidas versando em dezenas de livros e textos?

Isso sim é que é ambição! Isso sim podemos chamar de megalomania!

zooropa-wallpaper

O ano é 1992 e o U2 está no topo do seu jogo. A turnê ZOO TV estava decolando, lançando um inédito conceito transgressor na relação ‘arte/música’, integrando a tecnologia de ponta da época ao showbizz. Até então, telões eram meros rebatedores de imagem, ampliando o tamanho daqueles homenzinhos na multidão, para que o pobre coitado lá de trás pudesse pelo menos entender o que se passava no palco. Mas a banda e, especialmente, Bono queriam mais. Queriam transformar a experiência toda. E o momento era perfeito. “O conceito do Bono para um show audiovisual, era onde ele pudesse interagir com o que estava passando no telão, com imagens ao vivo e pré-gravadas e misturar tudo isso.”, disse Adam na biografia “U2 by U2”. “Nós realmente queríamos fazer algo que nunca tinha sido visto antes, usando TV, texto e imagens. Era um projeto muito grande e caro pra ser posto em prática. Nós nos permitimos ser levados por novas tecnologias.”, completa Larry.

E esse monstrengo começou pequeno e cauteloso. Espaços menores para testar todo o processo, que nem eles mesmos, sabiam se iria dar certo. Acredite o primeiro show da turnê em Lakeland, na Flórida, foi ‘somente’ para quinze mil pessoas!

Para Edge, ‘A Zoo TV não era uma apresentação, era um estado de alma”.

A banda foi para a Europa, também em pequenos ginásios e voltou para a América para levar seu monstro aos estádios. Com o subtítulo de ‘Outside Broadcast’, a turnê se revigorou e ganhou novos contornos fantásticos, os elevando a um patamar jamais visto.

Paul McGuinnes, o ‘quinto U2’, fala sobre isso na biografia da banda; “A Zoo Tv foi entendida mundo afora como uma nova categoria de apresentação. Foi o surgimento do vídeo como um elemento criativo, muito mais do que nós chamávamos de i-mag, magnificação da imagem. Os críticos de arte e de arquitetura estavam escrevendo sobre nós. Era muito engraçado. Psicologicamente, isso elevou o U2 a um grupo de elite que incluía apenas Pink Floyd e The Rolling Stones. Eu me lembro de assistir a um dos shows com o Mick Jagger. Ele se virou para mim e disse, “Isso vai ser como o ‘Guerra nas Estrelas’. Se você faz alguma coisa tão grande quanto isso, nós teremos que fazer ainda melhor”. De certa forma ele estava certo, porque a partir daí o público não iria aceitar uma banda em uma caixa preta com um pouco de aço e uma lona sobre as suas cabeças e painéis brancos com algumas imagens ao lado do palco. Essas três produções, Pink Floyd, The Rolling Stones, e acima de tudo, o U2, elevou o nível para todo mundo.

Porém, quando a banda terminou essa parte da turnê e resolveu voltar para a Europa levando um show já encorpado e definido aos estádios de lá, os faniquitos de Bono começaram a tilintar…

“Nós estávamos indo para o nosso segundo ano na estrada. Aí surgiu a ideia, ‘Nós vamos ter algum tempo de folga. Ainda temos algumas ideias do último álbum, vamos fazer um EP, talvez umas quatro novas músicas para dar um tempero a mais para próxima fase da turnê. Um item de colecionador. Vai ser legal’”, comenta Edge. “Então nós fomos para o The Factory Studio em Dublin durante algumas semanas em fevereiro de 1993. Mas, na metade do processo de produção desse material, o Bono, um eterno otimista, disse, ‘Se nós vamos ter todo o trabalho de fazer um EP, vamos nos esforçar e ver se conseguimos fazer um álbum completo’. Eu estava lutando na época para dar alguma forma à musica, e não fiquei muito entusiasmado com a ideia no começo. Mas aí eu vi que era um grande desafio, um pouco impressionante. Conseguiria o U2 fazer um álbum em doze semanas, que era todo o tempo que nós tínhamos, ou nós nos tornamos tão mimados pelos orçamentos sem fim das gravações que nós precisamos de um ano para fazer um álbum?”

Foi ai que, imersos em um universo completamente diferente do já haviam experimentado, o ‘estado de espírito’ da ZOO TV os contaminou. Os contaminou não só para desafiarem-se logisticamente, mas também, musicalmente. Porque não tentarem ir onde nunca estiveram?

“Nós tínhamos (os produtores) (Brian) Eno (ex-Roxy Music) e o Flood (Depeche Mode e Nine Inch Nails), o que já era uma grande ajuda, mas por causa do problema do tempo, nós tínhamos que nos dedicar muito. Não havia nenhuma oportunidade para bagunças ou mesmo segundas opiniões, nós tínhamos que escrever, produzir e gravar e só”, comentou Edge.

E dessa ‘pressa’, nasceu o clima errático do disco. O conceito era falar sobre o futuro através do presente, como um álbum conceitual. Imaginar um homem tão maravilhado com esse lugar que estava disposto a renegar tudo o que acreditava.

Sobre esse período, Bono comentou; “Foi muito intenso, uma época de muita criatividade. Nós estávamos perdidos no nosso trabalho e na nossa arte e na nossa vida, tudo parecia ter se misturado em apenas uma coisa. As calças de plástico estavam ficando cada vez mais difíceis de serem tiradas após os shows”.

Cada faixa não foi realmente pensada para um disco conceitual, porém, tudo acabou se encaixando de forma quase sobrenatural. “Era a nossa chance de criar um mundo ao invés de apenas música, e um mundo lindo.”, completa.

Já na abertura, a faixa-título (que é dividida em duas partes; ‘Babel’ é a introdução hipnótica enquanto ‘Zooropa’ começa no mantra da guitarra de Edge, e nasceu em uma passagem de som durante a turnê), já tínhamos uma surpresa. O U2, famoso pelos seus refrões para estádios, começava no rebento sem um deles. “É o nosso novo manifesto”, disse Bono. “ ‘Eu não tenho nenhuma bússola, eu não tenho mapas, e eu não tenho nenhuma razão para voltar’. O Brian Eno estava na sua ‘área’ aqui. O estúdio se tornou um instrumento, um parque de diversões, vários ataques plásticos com os seus teclados DX7, várias levantadas de sobrancelha do Larry e do Adam. A faixa de abertura era o equivalente em áudio do visual de Blade Runner (Caçadores de Vampiros). Se você fechar os seus olhos, você pode ver o neon, o LED gigantesco advertindo sobre todas as maneiras de efemeridade. Eu queria me livrar do peso que eu estava carregando. Eu queria voar. Tinha muita melancolia a nossa volta. ‘E eu não tenho religião, Eu não sei o que é isso’. Há uma linha no Novo Testamento que diz que o espírito se move e ninguém sabe de onde ele vem ou para onde ele está indo. É como o vento. Eu sempre senti isso sobre a minha fé. A religião geralmente é inimiga de Deus porque ela nega a espontaneidade e a quase anárquica natureza do espírito”.

E é assim, questionando a sua fé, que ‘Zooropa’ começa. E o mais estranho nisso tudo, é que mesmo os fãs mais quadrados compraram a ideia. ‘Deslizaram sob a superfície das coisas’, como a banda gostava de mencionar. Só que dessa vez, a superfície escondia sim muito conteúdo mergulhado em estranheza.

Não acredita? Pegue ‘Babyface’, a segunda faixa. Em uma melodia eletronicamente doce, Bono versa sobre o sexo com uma imagem na televisão. Famosa pela religiosidade, em duas canções a banda consegue ir até mais longe do que antes, negando a sua religiosidade e exaltando o sexo via satélite. Detalhe, muito antes das Web Cams dominarem o mundo.

“Numb”, escolhida pela banda para ser o primeiro single do álbum, é a antítese do que foi escolhida para ser. Não tem refrão, paixão, explosão… Nada! Originalmente um demo que sobrou do álbum ‘Achtung Baby’ chamada ‘Down All The Days’ (que recentemente viu a luz do dia no box comemorativo de vinte anos do álbum lançado em 2011) e cantada pelo guitarrista The Edge, a faixa retrata um homem sem vida e sem vontades, totalmente absorto na programação vinte quatro horas da televisão. O sensacional vídeo dirigido por Kevin Godley costurou o conceito audiovisual da banda ao extremo, mostrando Edge olhando nos nossos olhos como um robô saído de ‘2001 – Uma Odisseia no Espaço’ enquanto a vida acontece à sua volta. “É um retrato cruel do que ele estava sentindo naquele momento e o que muitas pessoas estavam sentindo no mundo sobre a mídia. Ele estava bem nesse meio, mas se tornou uma grande metáfora para a mídia a incapacidade dessa geração de sentir qualquer coisa pelas imagens que você vê.”, comentou Bono.

Depois dessa tríade de abertura, já poderíamos esperar qualquer coisa e o hino “Lemon” só reforçou a estranheza. Totalmente cantado em falsete por Bono, que versa sobre a memória mais antiga de sua mãe, Iris, morta quando ainda era criança.

“Eu tenho poucas lembranças da minha mãe porque o meu pai nunca falava sobre ela depois que ela morreu”, conta ele. “Então foi uma experiência muito estranha receber pelos correios, de um parente muito distante, um filme Super 8 da minha mãe ainda nova, com 24 anos, mais jovem do que eu, participando de um jogo em câmera lenta. Essa linda e jovem garota irlandesa, com uma cintura bem fina, curvilínea e com cabelos negros como de uma cigana. O filme era em cores e parecia extraordinário. Era um casamento, onde ela era a dama de honra vestida em um lindo vestido cor de limão. Eu cantei com a minha voz de Fat Lady, mas havia uma aspereza na letra. Havia duas coisas acontecendo, memória e perda, o retrato de uma garota em um vestido limão cintilante, que a deixava sexy e alegre e o fato de um homem se separar das coisas que ele ama. Eu realmente senti pelo Edge naquele momento, porque ele teve que se mudar de casa. A sua primeira esposa, Aislinn, era uma garota muito especial e ele era muito próximo da sua família. ‘Lemon’ é sobre deixar a casa, ou não deixar a casa”, complementa.

A faixa é uma canção dançante e cíclica. Quase uma homenagem a grande tecnologia que, em 93, prenunciava mudar o mundo. A reciclagem. Quem não se lembra do Doutor Brown usando lixo como combustível em ‘De Volta Para o Futuro 2’?

“Stay”, construída a partir de uma demo chamada “Sinatra” é a única coisa “quase” U2 tradicional no álbum. Inspirada pelo filme alemão “Tão Longe, Tão Perto” de Wim Wenders, continuação de “Asas do Desejo” e mais conhecido por aqui pela refilmagem americana “Cidade dos Anjos”, ela é quase que como um pedaço de céu, porém, cinza. Melancólico, Bono lamenta sobre a distância das coisas. Sobre a impessoalidade que a tecnologia impõe, ao mesmo tempo que versa sobre anjos caídos, tema central dos filmes. Uma obra prima reverenciada até pela própria banda. “É a principal faixa do álbum”, segundo Edge.

E esse é o lado A. E pensar que era o lado mais fácil do disco.

Por Márcio Guariba

Foto: Ricardo Rocha

Comentários

Excelente! Eu fico pensando: como pode em 10 anos uma banda saltar de War (83) para Zooropa (93)?
Obs: Blade Runner não seria Caçador de Andróides?

E em sete anos uma banda saltar de Boy (80) para The Joshua Tree (1987) ou em onze anos saltar de de Boy (80) para Achtung Baby (1991). Definitivamente uma das bandas mais geniais da história!

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