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5 outubro 2012 14:39

por: febottini

O fogo cruzado inesquecível

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Enquanto o avião da Popmart do U2, com um limão gigante pintado na sua cauda e um carrinho de supermercado na cabine, se torna visível acima das pitorescas colinas de Sarajevo, o bando de gente barulhenta da imprensa local se aglomera no aeroporto Tarmac lá embaixo e deixa escapar aplausos.

O avião aterrissa, os passaportes são descarregados, uma pilha de 50 cm de altura. Então chega a banda. Uma disputa pelo melhor lugar imediatamente se instala ao redor de Bono e um breve discurso começa. “Obrigado por nos emprestar sua cidade por essa noite. Esperamos tratá-la melhor do que o resto do mundo o fez durante a guerra”, ele diz.

“Qual é a mensagem do show?”, pergunta um jornalista local.

“Eu gostaria de pensar que a mensagem é de que a música está além da política.”

“O que vocês esperam?”, pergunta outro, enquanto o vocalista autografa a manga do uniforme de um soldado francês.

“Eu espero uma cidade roqueira. Porque antes da guerra, a música era tudo. Depois da guerra a música vai voltar a ser tudo.É por isso que estamos aqui. Esse é o nosso trabalho.”

Bono nos apresenta à uma mulher que viajou com a banda no avião. Essa é Miss Sarajevo, Inela Nogic, que mais tarde revela ter sido ideia de sua mãe que ela estivesse presente. “Ela ouviu que eles vinham e disse ‘mande um fax pra ele’. Foi o que fiz e cá estou eu.

Ela está tentando pôr os estudos em dia, que foram interrompidos por causa da guerra. “Você tem que concluir algumas coisas na vida”, ela diz desafiadoramente.

Para muitos, o sofrimento da população da Bósnia chegou até seus países vividamente pela ZOO TV do U2 e suas conexões via satélite da cidade de Sarajevo, durante o verão de 1993, da mesma forma que as transmissões de Martin Bell, da BBC, que duraram anos.

As conexões ao vivo via satélite com a ZOO TV foram criadas por Bill Carter, um voluntário norte-americano que contatou a banda na esperança de que o show deles pudesse ser utilizado para enfatizar a destruição que Sarajevo estava enfrentando, sob bombardeio constante dos sérvios.

“Aconteceu de eu estar furioso com tudo aquilo e de eles serem receptivos a isso”, Carter explica. “Eles realmente queriam vir e tocar na cidade, mas naquela época isso estava fora de questão.”

Isso foi em 1993, quando qualquer ajuntamento de pessoas com certeza atrairia a indesejável atenção de franco-atiradores.

“Em vez disso, eu disse ‘vocês têm os maiores televisores do mundo, vamos transmitir ao vivo de Sarajevo’”. A cada dia, Carter vasculhava a cidade em busca de locais para transmitir a realidade deles para qualquer estádio onde o U2 estivesse naquela noite. Mas as coisas mudaram na segunda noite de um total de quatro shows que a banda estava fazendo no Estádio de Wembley, em agosto.

“Já haviam se passado 2 meses e eu estava com dificuldades de conseguir pessoas para participar. Então achei essas 3 garotas, uma muçulmana, uma croata e uma sérvia. Um das garotas perguntou ao vivo ao U2,’o que vocês vão fazer?’ Houve uma pausa e, antes que a banda pudesse responder, ela disse:’Eu sei o que vocês vão fazer, vocês não vão fazer é nada.”

O clima no estádio ficou pesado. As acusações daquela garota tinham tocado fundo na vergonha de todos os presentes, de tal forma que nada, ainda menos um show de rock, poderia dissipar.

“Em qualquer grande momento de uma jornada chega aquela hora em que você acaba sendo cínico”, explica Carter. “A questão não é terminar com a guerra, embora todos possam ter essa ilusão de vez em quando. Eu tive, eles (a banda) provavelmente também. Então você dá o próximo passo, ou seja, você faz o que pode e vai em frente.”

O que o U2 decidiu fazer foi tocar em Sarajevo.

O ônibus a caminho do hotel passa pelas ruínas da estação de TV (de onde Carter enviou seu fax, contatando com o U2). A estação se assemelha à uma gaita de metal e concreto retorcidos que foi espremida até o final. Em Sarajevo, a estação de TV, o prédio do parlamento e a biblioteca pública foram destruídos ou incendiados. Mas a vida continua. As crateras causadas por estilhaços de bombas e por morteiros foram preenchidas e pintadas de vermelho. Papelões que chegam à altura dos joelhos com a palavra “explosão” escrita – parte de um programa de conscientização sobre minas terrestres – erguem-se das calçadas. Antes de plantá-las indiscriminadamente, os sérvios pintaram muitas de suas minas de amarelo brilhante ou vermelho, com a perversa esperança de que crianças curiosas iriam parar para pegá-las. A SFOR, força multinacional de estabilização da Bósnia, ainda junta os restos de 3 pessoas por semana, graças a essas geringonças baratas mas eficientes.

O Hotel Holliday Inn, assim como o Commodore em Beirute ou o Continental Palace em Saigon, alcançou um status legendário. Foi aqui que, em 1992, o líder sérvio Radovan Karadic e 12 de seus capangas tomaram conta dos andares superiores e começaram a atirar contra as pessoas que participavam de uma passeata pela paz, lá embaixo. Corre uma estória de que jornalistas visitantes alugavam um quarto no hotel para, no final das contas, dormirem no corredor, na frente do banheiro, de forma a efetivamente colocar 3 paredes entre eles e qualquer coisa que viesse das colinas lá adiante. Nos anos que se seguiram, sem dúvida o staff do hotel iria rir ao saber das tentativas de uma banda de rock visitante em destruir essas paredes blindadas. Afinal de contas, elas foram construídas por profissionais. O serviço de aluguel de carros no lobby do hotel também oferece carros blindados para alugar.

“Quando Bono visitou o hotel na véspera do ano novo de 1995, havia áreas onde paredes inteiras haviam desaparecido. Ele contou que, caminhando pelo corredor, ele subitamente dava de cara com um abismo,” conta The Edge, rindo.

Dois dias antes do show, os caminhões e a equipe do U2 entraram na cidade, em comboio, buzinando ao chegar. Essa foi a primeira evidência séria de que o U2 estava cumprindo a promessa feita por Bono de que ele voltaria e que, da próxima vez, traria a banda com ele. Pessoas nas ruas aplaudiam o comboio.

“Quando os motoristas dos caminhões chegaram, dava pra ver que algo havia acontecido”, diz Willie Williams, designer do palco da Popmart. “O único problema que eles tiveram foi com um fiscal de alfândega, na fronteira. Isso foi o ápice da carreira dele – 50 caminhões e 1 limão gigante -. Ele os segurou lá por horas.”

Brian Eno, cuja escola de música perto dali, em Mostar, foi aberta recentemente, já conhece a burocracia e os falsos argumentos políticos que são normais na Bósnia.

“Pra que esse show acontecesse, muita coisa rolou. Todos os poderosos da cidade tiveram que apoiar o evento. E foi o primeiro aqui em que isso aconteceu. Provavelmente porque o entretenimento é neutro o bastante para que as pessoas não vissem conotações políticas nisso. Uma maneira efetiva de mostrar seu poder num lugar como esse é resistir, causar empecilhos, e parece que eles não fizeram isso. Parece que realmente houve cooperação.”

“Nós viemos aqui em março e pensamos ‘isso não vai dar em nada, é só mais uma idéia maluca do Bono’’, diz o co-promoter John Giddings. “Nós pensamos, ‘o que podemos fazer pra que não aconteça?’ Mas então encontramos as pessoas daqui e realmente nos comprometemos em trazer o show.”

A venda de ingressos estava devagar até a chegada dos caminhões. “Eu acho que essa é uma cidade que foi tão decepcionada por tantas vezes, que muitas pessoas não estavam preparadas para acreditar que o show iria mesmo acontecer, até que viram o palco sendo montado”, diz o empresário do U2, Paul McGuinness.

No dia seguinte, eles venderam 8.000 ingressos.

Apesar de o U2 aceitar patrocínio pela primeira vez em sua carreira, da Coca-Cola e da GSM, uma companhia de telefones celulares, o show deve deixar um rombo em torno de 500.000 libras nas finanças da banda.

“Sim, estamos tendo prejuízo com esse show”, McGuinness admite. “Mas nós sabíamos que vir e cobrar o preço certo pelo ingresso seria crítico, porque existem muitos desempregados aqui (atualmente 50%). As pessoas simplesmente não têm dinheiro no bolso. Mesmo um gasto de 8 libras é algo grande para o povo dessa cidade.”

“Nós nos oferecemos para fazer um show de caridade aqui”, Bono diz, só chegar e fazer um show simples, mas eles queriam a droga da coisa toda. Eles queriam o limão.”

Antes da guerra, Sarajevo era uma cidade multi-étnica, com uma população formada por sérvios, croatas e muçulmanos. Era um centro famoso de cultura e ensinamento. Mas quando a Iugoslávia começou a se esfacelar no início da década, Sarajevo se transformou em uma imagem ofensiva para aqueles que queriam Estados separados.

Embora a visita do U2 tenha sido cuidadosamente despida de envolvimentos políticos, Bono ainda arranjou um breve encontro naquela tarde com o presidente bósnio, o muçulmano Alija Izetbegovic, onde eles discutiram Cristianismo e o Islã.

“Até certo ponto”, diz McGuinness, “nós deveríamos ficar longe da política. A história dessa região vem de milhares e milhares de anos, desde o Império Otomano. Essas são as origens desse conflito. Lembre-se que foi o assassinato do arquiduque Ferdinando logo ali adiante, nessa rua, que precipitou a 1ª Guerra Mundial.”

Na Grã-Bretanha, esse show tem incitado algum cinismo. Qual é, muitos imaginam, o verdadeiro gol do U2 nisso? O que eles estão procurando ganhar? Notoriedade? Alguma santidade? Saudações surrealistas?

“Eu não acho que você não possa explorar uma guerra a menos que seja contrabandista do mercado negro ou comerciante de armas ou algo assim”, McGuinness conta. “Nós tivemos contato com gente suficiente aqui para saber que certamente não seria algo ofensivo para o povo de Sarajevo.”

“Eu acho que o humor e a presença de espírito do show tem apelo para eles”, Bono diz. “Essa foi a última defesa deles aqui. Humor é tudo, sabe. O riso é a evidência da liberdade, de certa forma. Esse é um pensamento interessante para vocês. E eles têm um tal senso de humor negro… As primeiras pessoas de Sarajevo que conheci me contaram essa piada: ‘Qual a diferença entre Auschwitz e Sarajevo? Pelo menos havia gás em Auschwitz. Eu fiquei tipo, ‘whoargh!”

“Existe uma longa tradição de surrealismo através da guerra aqui, “ McGuinness diz. “A canção Miss Sarajevo comemora algo muito mais surreal do que o que estamos fazendo. Eles fizeram um concurso de beleza num bunker no meio do abrigo anti-aéreo. Dedos apontados para o mundo: ‘Vocês podem ter nos esquecido mas nós estamos vivos e fazendo concursos de beleza.”

O caminho para a visita do U2 foi facilitado pelo ex-ministro do exterior da Bósnia e atual embaixador na ONU, Muameda Sacirbegovica.

Bono encontrou com ele originalmente na Itália e, segundo Sacirbegovica, “Bono disse, ‘Tome um drink´, e eu disse, ‘com certeza’, e ele disse, ‘bem, aqui está o meu copo’. De alguma forma, naquele passar de copos eu acho que muito mais se passou, incluindo o que nos levou a esse show.”

Boatos sobre seu comportamento e de Bono em Sarajevo na véspera do ano novo de 1995 são lendários. Alguns juram que ouviram o presidente Itzebegovic criticar Sacirbegovica e Bono durante um discurso de ano novo à nação alguns dias depois, referindo-se ao par como “imbecis bêbados debaixo de uma mesa de bar.”

Sacirbegovica explica, “Nós passamos uma véspera de ano novo aqui em Sarajevo. Nós bebemos alguns drinks, que agora, de acordo com a lenda, viraram algumas caixas. Foi uma noite divertida, mas eu acho que mais do que tudo Bono sentiu como é Sarajevo. Não houve nenhum sinal de maus comentários sobre como Bono e eu nos comportamos. O que aconteceu é que Itzebegovic fez alguns comentários sobre o que ele considerou ser inapropriada bebedeira e excessiva celebração pública numa época em que a guerra recém tinha terminado e nós havíamos sofrido tanto.”

Sacirbegovica está feliz por ver o vocalista de volta à cidade. “Eu estou envolvido com diplomacia e política há muito tempo e você nunca pode ter certeza sobre as consequências das palavras que você diz ou dos documentos que assina. Uma coisa da qual eu tenho certeza é que o show do U2 somente contribuirá para o bem da Bósnia, para a integração do país e para a felicidade de seu povo. È incrível ver bósnios gostando de si mesmos e, eu acho, tendo pela primeira vez em muito tempo uma sensação de otimismo sobre o futuro.”

“As consequências serão sentidas por longo tempo e isso é bom. Políticos demais vêm para cá para assinarem um pedaço de papel, então vão embora antes das câmeras de TV e dizem que fizeram algo. Mas o tipo de sentimento, a sensação de segurança, normalidade, integração do país para os quais esse show contribui – so pode trazer benefícios.”

Bem acima do estádio de Kosovo, a parte mais prática do show está por começar. Um limão gigante prateado se ergue, aceso por uma ofuscante barragem de luzes. Dentro dessa engenhoca parecida com uma vagem do ano 2001, os 4 membros do U2 estão de pé escondidos da multidão, braços cruzados, vestidos de Village People. Essa noite, a conversa gira em torno do show. Eles tentam freneticamente se lembrar da introdução de Miss Sarajevo, uma música que eles raramente tocaram ao vivo.

O show é mais como uma montanha russa, muito mais do que eles poderiam imaginar. A voz do Bono se acaba mais ou menos lá pela quarta música, duas visitas aos bastidores do show para tomar injeções de cortisona ajudam um pouco, mas acabam de vez com o desejo original do vocalista de chegar e ofuscar a tudo e a todos completamente.

Assim que o tamanho da bronca se torna evidente durante New Year´s Day, Bono apela para o público, “Minha voz se foi mas suas vozes são fortes. Eu peço que vocês me apoiem como vocês se apoiaram uns aos outros naquelas semanas, meses e anos.” O rugido resultante é suficiente para fazer o estádio levitar.

Construído numa colina, o Estádio de Kosovo é cercado de cemitérios. Os mortos foram transferidos para cá de suas sepulturas dentro do estádio, no final da guerra. A estrutura do estádio era o único lugar onde famílias podiam enterrar seus entes queridos sem o risco de serem baleados durante o sepultamento.

Todavia, a profundidade da emoção que toma conta do lugar enquanto The Edge canta Sunday Bloody Sunday e o U2 se lança em Miss Sarajevo só pode ser parcialmente explicada pela localização e pelas circunstâncias.

Quando a voz de Pavarotti ecoa através do estádio e, nos telões, as modelos do documentário de Bill Carter, Miss Sarajevo, desceram uma faixa onde se lê “Por favor, não deixem que ele nos matem”, é impossível permanecer inerte.

Talvez seja o acúmulo de tantas estórias de horror que você ouviu dos cidadãos naquele dia, pessoas que você conheceu que se abrigavam das balas dos franco-atiradores debaixo dos carros estacionados. Pessoas como eu e você, que temem por sua sanidade porque elas são capazes de falar com conhecimento de causa sobre apanhar membros decepados de pessoas da área pavimentada de um mercado onde um morteiro acabou de aterrissar. Pessoas que, por três anos, acordavam todas as manhãs e só queriam se sentar no porão até que eles sentissem alguma adrenalina rolando que as fizessem sair e tentar levar uma vida o mais normal possível. Pessoas que até hoje não podem entender completamente porque a OTAN disse que a guerra era complicada demais para parar, ainda assim quando a OTAN finalmente se envolveu a guerra acabou quase que da noite para o dia.

Ao final desse show, enquanto o U2 está nos camarins, outra troca ainda mais significativa acontece, quando 10.000 soldados no estádio ficam de pé e aplaudem o povo de Sarajevo e a multidão retribui.

Independentemente do que você pense sobre o U2, o fato de que eles vieram e tocaram aqui significa mais do que qualquer show, não importa se grande ou pequeno, que eu já assisti. Para o povo de Sarajevo, o evento colocou a cidade deles de volta no mapa.

E para nós, e talvez para o U2, de certa forma serviu para amortecer a culpa por uma guerra que danificou a reputação da ONU, manchou o nome de virtualmente todo líder europeu e, com isso, de todos os habitantes dessas nações.

Mas se você estivesse aqui, você sentiria algo diferente no ar, algo triunfante, muito tempo depois que as palavras saíram da boca do Bono, ressoando pelas caixas acústicas, filtraram-se através da massa emocionante de lágrimas de alegria, da vida que gritava no Estádio de Kosovo e ecoava através de cada esquina dessa danificada mas destemida cidade – “Viva Sarajevo! Viva Sarajevo! Foda-se o passado. Vamos beijar o futuro.”

Por Mat Smith, para a NME
Tradução por Maria Teresa Menegassi da Rosa

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