O que há por trás da música ‘Zooropa’

O que há por trás da música ‘Zooropa’

Fala galera!

Incrível, quase 20 anos depois a gente ainda querer discutir esta música neste nível. Eu passei alguns anos da minha vida praticamente obcecado por essa música, daí os caras tocam ela duas vezes e ela volta pra minha cabeça com sua sonoridade inebriante, hipnotizante, nem vou falar de uma viagem lisérgica que eu tive ouvindo essa música por umas duas horas ou três sem parar…

É incrível como esta canção se mantém atualizada em sua sonoridade. Se fosse lançada hoje, com certeza abalaria os pilares da música pop.

Quanto à letra, nem é preciso dizer o quanto ela é atual. De fato, acho que, de tão atual ela está um pouco desatualizada, pois o consumismo denunciado por ela aumentou em escala geométrica nestes quase 20 anos. A Lucia já apontou algumas marcas, vou aproveitar até o texto dela para escrever em cima, complementando com alguns detalhes.

Vale lembrar que nenhum dos logos utilizados é institucional, todas as frases pertencem a marcas específicas. Será uma tentativa de reforçar a ideia de que o comércio europeu é uma selva e seus players são animais numa disputa feroz por território, alimento e, porque não, acasalamento? As empresas se juntam com outras como animais acasalando mesmo e sobrevivem no mercado global praticamente seguindo a seleção natural. A sobrevivência do mais apto. E mais apto às vezes quer dizer mais ágil, às vezes mais forte, a semelhança com o mundo animal é desconcertante!

No mundo animal (do qual, obviamente não fazemos parte, afinal somos a raça superior do planeta, certo?) tudo se resume ao que você precisa para sobreviver… Você PRECISA de comida. Você PRECISA de água. Você PRECISA de um parceiro para garantir a sobrevivência da sua espécie e PRECISA de um lugar seguro pra isso aconteça e também, dependendo da sua espécie, você precisa também de um grupo para perseguir juntos aquilo de que todos individualmente precisam. Mas a música abre a conversa perguntando o que você QUER

É preciso levar em consideração o contexto em que essa música foi escrita/lançada. A cortina de ferro havia caído três anos antes. De repente um mundo que antes era polarizado agora só tem um lado. Um
perigo. Se você puser 200 quilos de cada lado, a balança para até em cima de uma régua. Mas com todo o peso de um lado só, não há balança que fique em pé. E o lado que dominou a balança foi o lado do capitalismo. Agora a outra metade do mundo está lá esperando, uma gigantesca mata virgem esperando ser conquistada pelas feras do capitalismo, acabou a era das ideias. Agora é a vez das marcas!

Os comunistas passaram 50 anos tentando convencer as pessoas de que o Estado tem que ser dono de tudo e você recebe dele o que você precisa. Somente o que você precisa. Agora já era! Esqueçam os idiotas vermelhos que só te davam o que eles achavam que você precisa. Agora quem manda é você! A Europa agora é azul com estrelas amarelas!!!O QUE VOCÊ QUER?
(What do you want?)
(What do you want?)

A frase também é repetida em francês, que ainda pergunta “Do que você tem medo? (De quoi as-tu peur?)

Zooropa… vorsprung durch technikSLOGAN DA AUDIPROGRESSO ATRAVÉS DA TECNOLOGIA

Zooropa… be all that you can beSLOGAN DO EXÉRCITO AMERICANO PARA CHAMAR JOVENS PARA SE ALISTAR

Be a winner – É O QUE TODO MUNDO QUER <––– Este é o slogan da loteria do Reino Unido da época.

Eat to get slimmerPROMESSAS DE PRODUTOS PARA EMAGRECER <– Especificamente, este era o slogan da marca Slim Fast.

Zooropa… a bluer kind of white – O BRANCO MAIS BRANCODE SABÃO EM PÓ <— Neste caso, o sabão era Persil/Daz.

Zooropa… it could be yours tonightJARGÃO DE TELEVENDAS <— Não encontrei de maneira nenhuma estra frase como slogan, fico com a versão da Lucia
We’re mild and greenREFERÊNCIA À PROPAGANDA DE SABONETE And squeaky clean – IDEM

As duas frases acima pertencem ao sabão para lavar louças Fairy Liquid. É uma das marcas mais poderosas do Reino Unido. Vende praticamente 5 vezes mais que a segunda marca mais vendida. Squeaky pode ser uma referência ao “squeak” que o frasco faz quando está no final, e também “squeaky clean” é uma expressão de limpeza mais ou menos equivalente à nossa “estupidamente gelada” pra cerveja, refere-se àquele “chiado” que  o pano faz ao ser esfregado e uma superfície muito limpa.

http://www.facebook.com/pages/Mild-green-fairy-Liquid/359188636793

Zooropa… better by design  <— Na verdade o slogan da Toshiba.

Zooropa… fly the friendly skies  <— Slogan da United Airlines

Curiosidade:

Surgido em 1965, “frienldy skies” foi na verdade uma tagline para toda uma geração de slogans, foi utilizado até 1996. Seguem algumas versões:

Fly the Friendly Skies.” (1965)

The employee-owners of United invite you to come fly the friendly skies” (Não achei data)

The Friendly Skies of your land” (1972—1976)

That’s what friendly skies are all about” (1980)

You’re not just flying, you’re flying the Friendly Skies” (mid 1980s)
“From the ground up, rededicated to giving you the service you deserve. Come fly the friendly skies” (Late 1980s)

Come fly the airline that’s uniting the world. Come fly the Friendly Skies” (late 1980s)

Come fly our Friendly Skies” (The early ESOP years, seja lá o que isso signifique)

Come fly Chicago’s hometown airline. Come fly the friendly skies.”

Through appliance of scienceSLOGAN DEQUINA DE LAVAR ROUPA <— Slogan da Zanussi (o slogan continha um trocadilho interessante, ‘appliance’ quer dizer aplicação e também utilidade doméstica)

Curiosidade master: No início dos anos 70, a Zanussi vendeu pacas no Reino Unido, por um tempo sob o nome “Zoppas”, uma marca que tinha sido adquirida, tornando a Zanussi a primeira grande marca italiana de utilidades domésticas. Não acredito que Zoppas tenha influenciado em nada a criação do nome Zooropa, mas a semelhança é interessante.

http://www.zanussi.com

We’ve got that ring of confidenceSLOGAN ANTIGO DA COLGATETIPO O ESCUDO PROTETOR, USANDO COLGATE, VOCÊ FICA MAIS CONFIANTE.

Bono e Edge estavam na época lendo romances futuristas cyberpunks de um cara chamado William Gibson, que havia criado um lugar chamado The Sprawl. Essa palavra, quando associada a ocupação urbana, pode ser livremente traduzida como selva, daí a chegar ao conceito do local que Bono queria criar com música e esse local se chamar Zooropa, é um pulo.

Ler sobre os aspectos técnicos da produção da música tira um pouco da mágica, mas quando eu ouço aqueles ruídos de frequência de rádio misturado com aquelas vozes, sabendo esse fato das novelas futuristas do W. Gibson, somado a essa coisa das marcas, a imagem que eu crio na minha mente é como se fosse o Times Square Garden, ou o Piccadilly Circus, com toda aquela propaganda, e uma voz ou jingle ou um som de comercial qualquer tentando me vender algo no lugar de cada um dos letreiros luminosos desses lugares. Então começa a série de slogans. Imagino que esta seja uma tentativa de mostrar que aquilo que nos dizem as marcas já estão tão encravadas no nosso coração, já que a propaganda sempre procura se ligar a um “gatilho emocional” para se estabelecer em nosso subconsciente, que poderia até virar poesia. Como acabou provado na letra da música.

Tentando analisar as frases com algum sentido realmente poético, fico pensando se elas têm algum significado além de mostrar meros slogans juntos para formar uma letra de música:

Zooropa… A bluer kind of white.

Na virada dos anos 90 com a queda do comunismo e a expansão da União Europeia, a guerra civil estava estourando na Iugoslávia, uma limpeza étnica estava sendo levada a cabo na Bósnia e o fantasma do nazismo era uma ameaça a ser temida na Alemanha reunificada. Em todos esses fatos, a questão do racismo é sempre um elemento chave. Talvez este slogan não tenha sido escolhido simplesmente pela estética sonora para a letra, mas também para dizer que a Europa agora possuía uma “raça branca mais
azul”, uma raça formada por vários tipos de raças brancas, todas amalgamadas sob o azul da bandeira da Europa. Pode ser só minha trip de ácido, mas vai saber!

Through appliance of science
We’ve got that ring of confidence

Li em algum lugar que aqui seria denunciado a atitude do Homem moderno, de achar que pode realmente dominar a natureza com seus ínfimos aparatos tecnológicos. Realmente se encaixa no contexto já que com um telefone pra se comunicar com o mundo (hoje ainda mais pois com um aparelhinho
portátil você se comunica com milhões via Facebook/Twitter/MSN, com um receptor GPS você sempre sabe onde está e não importam as pressões do mundo, um comprimidinho do final do dia acaba com todos os seus problemas. Mas até onde este ser praticamente artificial consegue chegar com seus
brinquedinhos tecnológicos? Afinal a próxima coisa que o Eu lírico desta música faz após declarar esta confiança é confessar que não tem bússola nem mapa para voltar. O que pouco importa também, afinal, ele não tem nenhum motivo pra isso.

And I have no compass
And I have no map
And I have no reasons
No reasons to get back

Outro sentido que eu vejo neste verso (lembro de pensar exatamente isso quando a música foi lançada e eu estava no primeiro colegial, tão perdido quanto a personagem da canção) é sobre a incerteza sobre os
novos tempos. Ninguém sabia para onde o mundo estava caminhando, a ameaça da guerra fria estava acabada, mas dava lugar a novas guerras, novas ameaças terroristas e o mapa da Europa está sendo radicalmente alterado, ninguém tinha um mapa que mostrasse o que era a Europa naqueles anos. E se não havia certeza quanto ao futuro, muito menos o passado era um tempo a ser resgatado. Igualzinho a hoje :p

And I have no religion
And I don’t know what’s what
And I don’t know the limit
The limit of what we’ve got

São duas pessoas conversando a respeito dessa Europa surreal descrita na música. Não sei quais são, mas podem ser justamente as duas pessoas que no começo da música perguntam “What do you want?” e “Qu’est-ce que tu veux?”. Eu imagino que nenhuma dessas pessoas seja o próprio Bono, pois é difícil imaginar o Bono dizendo “Eu não tenho religião” quando sabemos que ele é muito religioso. Um dos seus alter-egos da turnê ZooTV tour seria pra mim mais factível.

Porém o sentido aqui pode ser meramente a infidelidade do consumidor moderno em relação às suas marcas. Existe os fã-boys, gente que se envolve até em briga por causa de marcas esportivas ou de computadores, o que confere um caráter religioso à coisa toda, mas o Europeu médio moderno não tem religião. Ele não é fiel a nenhuma marca ou produto, já que são todos iguais (And I don’t know what’s what). E ele também não sabe qual é o limite do que ele tem, a parte doentia do consumismo evidenciada nas duas últimas linhas do verso.

Don’t worry baby, it’ll be alright
You got the right shoes
To get you through the night
It’s cold outside, but brightly lit
Skip the subway
Let’s go to the overground
Get your head out of the mud baby
Put flowers in the mud baby
 Overground

O diálogo continua, “don´t worry baby”… Você tem os sapatos certos para atravessar a noite (mais uma evidência de que você pode resolver qualquer problema que tenha, bastando para isso comprar o produto certo). Agora sobre essa parte do subway, as palavras são do próprio Bono, no livro ‘The Stories Behind Every U2 Song’ do Nial Stokes: “Nós estávamos criando este mundo meio Bladerunner, que começa com uma luz neon piscando e esses dois personagens saem dele. Há esta imagem do ‘sobressolo’. Era um tempo em que todos estavam indie, cinza, entediado… o ‘underground’ (subsolo). O sobressolo era como sair às luzes brilhantes da cidade moderna. É um lugar maravilhoso para estar, andar por essas cidades modernas como Houston ou Tokyo. E a ideia estava indo nesta direção, abraçando-a”.

Tendo essa declaração do próprio B-Man em mente, as frases get your head out of the mud baby, put flowers in the mud baby ficam bem auto-explicativas.

No particular place names
No particular song
I’ve been hiding
What am I hiding from

Aqui começa uma certa reflexão a respeito do passado: “Estive me escondendo, do que?” e a personagem caminha agora para um estado de conformismo com as mudanças “Incertezas podem ser uma luz que guia”.

Don’t worry baby, it’s gonna be alright
Uncertainty can be a guiding light
I hear voices, ridiculous voices
Out in the slipstream
Let’s go, let’s go overground
Take your head out of the mud baby



Eu ouço vozes ridículas, vindas do “slipstream”. Slipstream é o vácuo que se forma atrás de um objeto em grande velocidade, como um carro ou um avião. Talvez todas essas mensagens de propagandas são nada mais que vozes que ecoam da mudança dos tempos na Europa, cuja velocidade nos deixa apenas “no vácuo”, correndo constantemente “no slipstream” do Zeitgeist.

Por razões óbvias, cinco anos depois eu ainda consegui ligar até mesmo a capa do álbum a todo esse conceito: A bandeira da Europa depictada como uma imagem pintada com as cores clássicas de um anúncio de neon, “ruidosa” por assim dizer, em cujos ruídos encontram-se sinais do futuro, ou seja, os fragmentos dos nomes de algumas canções do próximo álbum do U2.

She’s gonna dream up
The world she wants to live in
She’s gonna dream out loud
She’s gonna dream out loud
Dream out loud

Voltando agora ao fim comunismo, a música entra em sua conclusão, utilizando na coda a frase repetida inúmeras vezes ao longo da carreira do U2: Dream out loud. Ela não precisa mais viver no mundo montado pra ela. Ela vai imaginar o mundo em que ela quer viver e vai construí-lo. Os recursos estão aí pra isso. Você só precisa fazer isso em alto e bom som, pra que você mesmo possa se ouvir em meio a tanto barulho do mundo moderno…

 Weezer

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