Cidade ao deus dará

Cidade ao deus dará

Gangues de Nova York estréia hoje em Fortaleza. É um filme para saudosos – seja de uma época em que não se viveu, seja de uma utopia que poderia dar certo, seja dos bons filmes de Martin Scorsese. Com Leonardo Di Caprio, Cameron Diaz e Daniel Day-Lewis no elenco, o filme levou os prêmios de Melhor Diretor e Música Original no Globo de Ouro, considerado uma prévia do Oscar

Ricardo de Castro

Especial para O POVO

[07 Fevereiro 01h16min]

Grupos rivais que disputam o domínio de uma das áreas mais pobres de uma cidade não é novidade para mais de um milhão de brasileiros. Mas Cidade de Deus é o escambau, o nome do filme agora é Gangues de Nova York.

A comparação inevitável faz com que o novo trabalho do diretor Martin Scorsese perca um pouco do impacto. Só um pouco. São gangues étnicas formadas por estadunidenses, africanos, chineses e europeus, principalmente irlandeses, que lutam para tirar todo o sangue alheio que tiverem oportunidade e assim comandarem uma área pobre das cercanias da cidade. Mas o grande trunfo não está nas cenas de luta e sim nos seus porquês e na apresentação de fatos obscuros da história oficial.

No meio do século XIX a cidade de Nova York quase foi destruída por conta de um levante popular contra a convocação dos imigrantes pobres para lutar na guerra civil americana. Mas isso é quase no fim do filme, antes é importante conhecer Amsterdam. Este é o nome do personagem de Leonardo di Caprio, narrador dessa saga, onde tudo é grandioso, até mesmo a pobreza.

Imigrante irlandês, o ainda pequeno Amsterdam vê seu pai morrer numa disputa de gangues pelo comando de uma periferia de Nova York. Os vencedores são estadunidenses xenófobos comandados pelo açougueiro Bill (Daniel Day-Lewis). O jovem estrangeiro é então mandado para um orfanato onde passa cerca de 15 anos alimentando a vontade de vingança até voltar e ser tomado como homem de confiança de Bill.

Acontece que o filme é maior do que a história de seus personagens, apesar da atuação magistral de Lewis, como vilão caolho e reverente a seu maior rival, e de colocar Cameron Diaz e Leonardo di Caprio como par – muito pouco – romântico, o que segura o épico Gangues… por mais de duas horas e meia são os acontecimentos por trás deles.

Descobrir uma Nova York em que a corrupção era a lei, as armas eram a língua oficial e os pobres eram encarados apenas como votos e corpos a serem sacrificados na guerra são imagens pouco recorrentes no grande cinema americano, que por alguns momentos conseguem atingir até um caráter transgressor. E Scorsese era bom nisso, todos sabem, só fazia tempo que não praticava.

Momentos como os que mostram os imigrantes chegando e já sendo obrigados a se alistar para uma guerra de que nem sequer tinham conhecimento, ainda com as malas nas mãos, e à medida que vão partindo em uma fila sem fim pode-se ver voltar o mesmo número de caixões, são só um exemplo da boa forma do diretor.

Infelizmente há instantes em que a canalhice típica do cinemão americano aflora, como nas piadinhas em horas de tensão e num didatismo gigante para a construção do personagem Amsterdam, que às vezes parece ser mais revoltado com essa situação que o roteiro lhe impôs do que com sua vida sobressaltada.

Agora, nada, mas nada mesmo, é tão empolgante e revelador quanto a seqüência do levante ou motim, citado no início, que o povo da periferia novaiorquina faz contra os ricos da cidade por conta da guerra em que evidentemente só os pobres vão lutar e morrer. São cenas que deixam em qualquer espectador que não seja um abastado latifundiário um sentimento genuíno de vingança, além de revelar traços de que o comunismo poderia ter nascido ali na mais capitalista das cidades. Fica impossível não se envolver e torcer por eles, mesmo já sabendo do fracasso no final.

É um filme para saudosos, seja de uma época em que não se viveu, seja de uma utopia que poderia dar certo, seja de bons filmes de Scorsese, seja da atuação de Day-Lewis, seja da presença de Di Caprio ou de uma música realmente emocionante do U2, no caso ”The Hands That Built America”, que vem junto aos créditos. Qualquer que seja a falta que se sinta, vai ser plenamente saciada.

Gangues… é o melhor trabalho de todos eles em muito tempo. Tudo é motivo para ver o filme, que é desde já o primeiro realmente imperdível deste ano. Junte a sua gangue e lute pelo ingresso.

Ricardo de Castro é jornalista

SERVIÇO:

Gangues de Nova York (Gangs of New York, EUA/ Itália, 2002) De Martin Scorsese. Com Leonardo DiCaprio, Daniel Day-Lewis, Cameron Diaz e Jim Broadbent. Estréia hoje no Art-Iguatemi II, às 14h, 17h10 e 20h20; Cine Del Paseo I, às 11h, 14h30, 17h30 e 20h30; e North Shopping 5, às 13h50, 17h10 e 20h30. 14 anos.

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