A saga do esquenta-pescoço

A saga do esquenta-pescoço

Bruno Porto

Eu me considero um dos inventores do mullet. Acho que os responsáveis somos eu e o Patrick Swayze”, brincou certa vez Bono Vox. O vocalista do U2 e o ator de “Dirty dancing — Ritmo quente” foram, sem dúvida, dois dos responsáveis (ou seriam culpados, a palavra certa?) pela popularização do penteado, curto na frente e longo atrás, durante os estranhos anos 80. Apesar de ter vivido o seu boom naqueles dias, quando blazer com ombreiras e tecnopop baba imperavam, o mullet nasceu bem antes. Mais especificamente no Egito Antigo, segundo o divertidíssimo livro, de excelente design gráfico, “The mullet — Hairstyle of the gods” (Bloomsbury, US$ 15,95), recém-lançado nos Estados Unidos.

Dobradinha do americano Mark Larson, artista gráfico premiado (e antigo adepto do mullet), com o inglês Barney Hoskyns, autor de livros sobre música e cinema e jornalista da revista “Mojo”, “The mullet” afirma que os primeiros a adotar o penteado foram os egípcios, que usavam perucas feitas de lã ou linho entrelaçado, curtas na frente e longas atrás. O livro acompanha a história do mullet até os dias atuais e mostra, com fotos e ilustrações, que o corte também fez a cabeça de assírios, celtas, franceses da virada do século XVIII para o XIX (Napoleão teria sido um adepto) e índios americanos. O século XX ameaçava terminar sem vestígio de mullet quando David Bowie o ressuscitou no final da década de 60. Seria a primeira celebridade pop entre muitas a cometer o penteado.

Nos anos 80, o mullet atingiu o ápice de sua popularidade, com músicos, atores, atletas e lutadores de luta-livre americanos aderindo em massa ao corte. O livro traz uma impagável galeria com anônimos e muitas dessas celebridades. Gente como Lou Reed, Paul McCartney, Hulk Hogan, Barry White e Mel Gibson, cada um com um penteado mais, hum, peculiar que o outro.

Outra boa idéia dos autores foi traçar os diversos perfis dos usuários de mullets — que também são chamados pelos americanos de short-long (curto-longo) e neckwarmer (esquenta-pescoço) — apontando suas características. O Estrela de Cinema (o livro cita Mel Gibson, Kurt Russel e Jean-Claude van Damme), por exemplo, é ideal para “perseguições de carro, cenas de sexo e qualquer outro momento cinematográfico que exija um cabelo extra atrás”.

Tão engraçado quanto a galeria e os perfis é a história em quadrinhos “Mulletman”, sobre um super-herói cuja parte de trás do cabelo é tão longa quanto a capa do Super-Homem, e os anúncios de produtos fakes inspirados no penteado, como o xampu Sho-Lo, que vem em dois frascos separados, um para o cabelo longo e outro para o curto. Apesar de ter sido moda no mundo todo, geralmente o mullet é associado aos Estados Unidos. Num dos depoimentos do livro, The Captain, do grupo de hip-hop Beastie Boys, diz que o penteado é parte da cultura do Tio Sam. “O mullet é tão americano quanto picapes com porta-rifles, Wal-Marts e concursos de garotas com camisetas molhadas”. Os Beastie Boys, aliás, escreveram uma música chamada “Mullet head”.

Depois de examinar a galeria de fotos do livro, fica a pergunta: o que leva alguém a usar um mullet? Os autores arriscam uma explicação no prólogo. “Ele (o mullet) permite que qualquer pessoa se torne duas. Quem o usa parece uma pessoa normal vista de frente, mas de trás se torna uma mistura de guitar hero com viking”. Então fica combinado assim.

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