Sachs quer reanimar economias combalidas

Sachs quer reanimar economias combalidas

Economista deixa Harvard para ser conselheiro da ONU para questões de pobreza global

ADAM PIORE

Newsweek

NOVA YORK – Jeffrey Sachs, economista de Harvard, ganhou fama enfrentando sérios problemas econômicos ao redor do mundo. Nos anos 90, assessorou a Rússia sobre como avançar para um mercado livre. Ele ajudou a Mongólia a privatizar um rebanho de 24 milhões de iaques, e a Bolívia a dar uma guinada em sua economia. Em meses recentes, Sachs voltou-se para um desafio mais amplo: ressuscitar as economias moribundas de alguns dos países mais pobres do mundo. No início deste ano, o economista concordou em assumir um cargo como conselheiro do secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Kofi Annan, para questões de pobreza global, e deixará Harvard para chefiar o Earth Institute, de Colúmbia, onde espera levar cientistas a debates sobre desenvolvimento.

Newsweek – Paul O’Neill, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, e Bono, o cantor de rock, estão nas manchetes visitando projetos de desenvolvimento na África. O’Neill foi citado dizendo basicamente: “Isto é desperdício de dinheiro”. Bono observou os mesmos projetos e disse: “Isto é ótimo, precisamos de outros como esses”. O sr. levou Bono na viagem preparatória dele para encontrar projetos bem-sucedidos. Quem está com a razão?

Jeffrey Sachs – Claro que Bono está certo e Paul O’Neill vai aprender! Penso que o aspecto básico que Bono estava enfatizando é que vamos ter de aplicar algum esforço em alguns dos problemas agudos, como fome, epidemias, que ambos estiveram vendo esta semana. Esperávamos que isso pudesse ser feito basicamente de graça, que era só uma questão de governos africanos se governarem, concentrando-se em corrupção, reforma (…) Mas O’Neill e Bono foram a lugares como Gana e Uganda – lugares que estão governando bem, mas não podem enfrentar esses enormes problemas sozinhos. Foi o que o secretário do Tesouro viu com seus olhos, e sei que ele ficou muito chocado. Ele entrou num pavilhão de hospital e encontrou pessoas que estavam morrendo, não porque deviam estar morrendo, mas porque não podiam pagar remédios que custam cerca de um dólar por dia. Uma coisa que aprendemos nos últimos 20 anos é que receitas tradicionais para desenvolvimento – concentrar-se em reforma do mercado e em boa administração – estão longe de bastar. Nossa abordagem parece pedir a uma pessoa faminta que se erga e caminhe dez quilômetros por meio do deserto para obter alimento.

Newsweek – Mas qual sua resposta a críticos que dizem que o sr. pode pôr todo o dinheiro que quiser em alguns dos problemas na África, e eles não desaparecerão?

Sachs – Tenho estudado esses problemas em maiores detalhes do que qualquer pessoa neste planeta em anos recentes, e sei que os montantes de dinheiro que vão para combater aids, tuberculose, para enfrentar problemas de fome ou para o ensino primário são grandemente insuficientes em comparação com qualquer cálculo real das necessidades. Quando você pergunta a americanos sobre o que eles pensam estar fazendo, eles pensam que estão gastando (um bocado de dinheiro). Na verdade, estamos gastando um centavo de cada US$ 100. Você acha que isso basta para ter o serviço executado com a maior pandemia do mundo? A resposta é não.

Newsweek – Portanto o sr. não pensa que o dinheiro esteja sendo dilapidado por corrupção e incompetência?

Sachs – Os programas que têm sido financiados estão funcionando. O problema é que, quando você dá muito pouco – conforme temos feito nos últimos 20 anos -, a cobertura de imunização é muito lenta, ou as crianças não vão à escola, ou a fome se agrava. Se países ricos derem as costas, claro que você vai ter mortes em massa. E o secretário O’Neill olhou isso na cara.

Newsweek – Se o sr. pudesse ter uma varinha de condão e mudar duas coisas no modo como a ajuda para o desenvolvimento é fornecida, quais seriam elas?

Sachs – Somas de dinheiro proporcionais à dimensão do problema, e que os doadores juntassem seu dinheiro num pool em vez de dá-lo para projetos isolados, e em vez de países doarem isoladamente. Quando você tiver uma boa soma de recursos, seja para erradicar a poliomielite, oncocercose na África, ou colocar a hanseníase sob controle, você consegue resultados concretos. Mas se em vez disso você está fingindo – com cada país se mostrando e ninguém fornecendo recursos reais -, você tem muita gente morrendo e muita gente responsabilizando as vítimas.

Newsweek – Falemos sobre ciência. O sr. já disse que um dos motivos pelos quais está se transferindo para Colúmbia é ir tentar fazer com que cientistas participem do desenvolvimento. Nos últimos anos, alguns especialistas em desenvolvimento chegaram à conclusão de que existem vastos trechos do mundo, na África e Ásia Central, que estão simplesmente fora do alcance da ajuda, por causa de condições ambientais. O sr. parece estar dizendo que a ciência pode transformar esses ambientes e solucionar esses problemas.

Sachs – Penso que no mundo todo é agora possível ajudar crianças a nascerem sadias, ser criadas com boa saúde e receber educação que as ajude a ser membros produtivos da comunidade mundial – e isto pode aplicar-se desde a Ásia Central até a África Central. Mas os problemas que os países mais pobres enfrentam exigem grandes investimentos em ciência para a descoberta de soluções e a compreensão deles. Há bem pouca pesquisa em malária, em aridez tropical, em como lidar com mudança climática ou erosão do solo, que estão causando o colapso das economias.

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